sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Buck Rogers - Primeirão!


  Houve uma época em que nenhum herói se atrevia a voar alto demais, foi uma época em que as estrelas só serviam de orientação ou para descansar os olhos à noite, uma época em que todos os heróis esperavam os aliens chegarem à Terra para só então tentarem repelir a invasão. Foi a infância dos quadrinhos, que até então satirizavam quase sempre apenas pessoas ordinárias. Mas isso mudou!

Buck Rogers Flying by Cig Case

  Criado por Philip Francis Nowlan para duas novelas na revista Amazing Stories em 1928, Antony Rogers conseguiu sobreviver à obra e tornou-se herói em tiras de jornal, despertando os sonhos e as esperanças das crianças no futuro como BUCK ROGERS! O herói do futuro!

  Continuando a aparecer muitas vezes em tiras e revistas, quase como um free lance, nosso herói foi finalmente adoptado pela Whitman em 1933, conseguindo doze boas edições pelo selo da Western Publishing, e nele ganhando o formato que o tornou conhecido. De mão em mão ele sobreviveu e ainda hoje tem fãs ardentes pelo mundo, quem sabe até em outros!

  Em essência, Rogers é um militar que sofreu um incidente ao sair da atmosphera terrestre, entrando no que hoje seria chamado de buraco da minhoca, ficando inerte e preservado até acordar no planeta Terra do Século XXV, quando a astúcia e a malícia do Século XX praticamente já não existiam e se faziam
Buster Grabbe, o primeiro Buck Rogers.
extremamente necessárias, tonando assim o herói do século passado no herói também do futuro. Seu primeiro intérprete no cinema foi o campeão de natação Buster Grabbe, que encarnava como ninguém a estética masculina da época.

  Por suas aparições rápidas, Buck Rogers pode ser considerado um herói relâmpago, que vem, desde o pau no inimigo e volta para o limbo, deixando em uma legião de fãs o gosto de quero mais. A última edição relevante foi em 2009, com treze capítulos, por assim dizer, do Zero ao Doze.

  A última série televisiva de sucesso foi reprisada à exaustão no Brasil, durou de 1979 até 1981. foi estrelada por Gil Gerard como William Buck Rogers, que fazia par não declarado com a encantadora casca-grossa Coronel Wilma Deering, vivida por Eryn Gray. Embora as reprises e o carisma do personagem façam parecer mais, como o Manda-Chuva original, foram apenas 33 episódios; mas pareciam mais de cem, é sério.

  Em uma época em que filmes e séries de heróis podiam ser extremamente toscos, alguns extrapolando os limites da vergonha alheia (né, Marvel?) a série conseguiu evitar se levar muito à sério e os recursos de então foram muito bem aproveitados, mas algumas mudanças na segunda temporada desagradaram ao próprio Gerard, como a inclusão de um homem pássaro que era o último de sua espécie; Marvel demais para o público do herói. A segunda temporada durou só onze episódios. Só o que prestou desta temporada foi o Twiki, um robozinho tosco, claramente uma fantasia que todo mundo fazia de conta que era um robozinho fazendo "beeree-beeree-beeree".

Duck Dodgers original.

  Rogers tem a virtude de ser muito humano sem ser canalha, ele às vezes paga mico por sua origem tão antiga, mas sabe dosar a malandragem de nossos dias para aplicá-la onde, e tão somente onde, ela for necessária. Do mundo em que ele vive, posso dizer que praticamente tudo com o que lida se tornou realidade.

  É um dos heróis que há anos pede por uma trilogia em longa-metragem. E como tudo o que é bom, ganhou uma sátira. A Warner Bros escalou alguém que é exactamente o oposto dele para o papel. Patolino foi Duck Dodgers no Século 24¹/², ele ganhou recentemente uma nova série para a televisão, o original é que ainda está em banho-maria, e assim focará até essa onda de filmes de heróis passar e as pessoas "desenjoarem" do tema.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Bradley quer dominar o mundo

William Bradley Pitt
  Olhem bem para este garotinho. Guardem bem suas feições e tomem cuidado, ele não é o que parece. Não se iludam com a ternura de suas bochechas fofas e beliscáveis, ele não está rindo para nós, está rindo de nós. A doçura e os odores da primeira infância sempre foram excelentes ilusionistas para invadir, conquistar e tomar seu suado dinheirinho para vender todo tipo de quinquilharia. Mas o garotinho quer mais, muito mais. Ele quer você!

  Ao contrário dos outros megalomaníacos que assolaram a humanidade, o cidadão em questão não usa de violência de qualquer espécie, pelo contrário, posa de bom moço e declara publicamente seus temores pelos rumos que o mundo tomou. Todas as investigações já feitas não foram capazes de extrair provas materiais de seus planos. Muito pelo contrário, ele conta com um verdadeiro exército midiático que acredita piamente estar se metendo em sua vida, ganhando dinheiro com demonstrações naturais de bom mocismo e humildade.

  A verdade é outra, ela está lá dentro, no esconderijo secreto que ele tem em sua casa, no subsolo, em baixo da cozinha, a poucos passos da geladeira. Muito, mas muito conveniente. Tão discreto e prático quanto conveniente, ele aproveita os intervalos entre os monitoramentos de seus planos para fazer uma boquinha, e com isso consegue parecer ainda mais inofensivo. Quando as pessoas vão acordar? Quando?

  A primeira e essencial parte de seus planos já foi concluída. Ele é amado, admirado, desejado, invejado e respeitado até pelos despeitados. Não há nada capaz de desaboná-lo. Mesmo quando deixou o primeiro casamento para iniciar outro, isso foi visto como um acto de coragem e liberdade de quem corre atrás de seus sonhos mais caros. Mas não foi só isso.

  O cidadão em questão abandonou os estudos, que estavam para ser concluídos, e saiu como um doido pelo mundo, atrás de recursos para iniciar seus planos de dominação mundial. E começou de forma humilde, como um humilde garçom de um humilde restaurante, na nada humilde Los Angeles. E começou pagando micos homéricos para iniciar sua carreira, no que aproveitou para treinar a resistência à frustração, que é comum mesmo nos planos mais bem elaborados. E novamente ele foi bem sucedido, muito bem sucedido. Todos caíram feito patinhos no capilé daquele cara tão legal e solícito.

  Mesmo os profissionais mais experientes, mesmo os que de início torciam o nariz para ele, mesmo os mais neuróticos executivos acabaram se rendendo aos seus predicados. Ficou tão bem visto por todos, que já começou a mostrar suas garras afiadas e robustas, sem o mundo em geral se dar conta dos riscos iminentes que corre.

  Tudo começou com a adoção de crianças pobres de países miseráveis. O mundo inteiro se desmanchou de amores pelo casal, especialmente pelo grandalhão com cara de mau. Não que ele não as ame, absolutamente, mas o gênio estrategista por trás do rosto de deus grego concilia facilmente deveres e prazeres, de um modo que nenhum vilão na história da humanidade conseguiu.

  Antes era apenas um profissonal requisitado, especializado, vejam só, em papéis de heróis humanizados do período da guerra. Ele contou subliminarmente quem realmente é, mas ninguém se deu conta. Foi aplaudido pelo seu trabalho e por dar chances a outros profissionais, arregimentando uma admiração e uma gratidão preciosas para o próximo passo de seus planos, que é interferir abertamente nos assuntos nacionais do mundo inteiro, sendo ele o herói a mediar discussões acaloradas de políticos de corações duros e miolos moles.

  Mas tudo isso é apenas o ornamento do poderio que ele almeja. Ele não quer que as nações caiam aos seus pés, não quer devastar cidades para servirem de exemplo, não quer controlar os centros financeiros do mundo, não quer nem mesmo decidir os novos sabores de pizzas. Ele quer um poder extremamente difícil de ser burlado, ao qual é imensamente difícil resistir, um poder que é admirado a ponto de quem o tem ser chamado de herói.

  Ele quer ser seu pai. Não se iludam com os meros seis pequerruchos que o casal ainda tem, eles são apenas o que a imprensa mostra, apenas o que o grande público conhece, apenas o que mesmo os serviços secretos têm conhecimento. Os agentes mais neuróticos e psicóticos da CIA, M6, Mossad e até mesmo os espiões aposentados por demência do Império de Palpatine, sabem a verdade. Na realidade já são milhares, talvez milhões pelo mundo.

  Os planos dele são virtualmente perfeitos, a ponto de até mesmo suas imperfeições serem utilizados em proveito de sua execução. Afinal, quem acreditaria que aquele ídolo de milhões, aquele musculoso atiçador de bacurinhas seja, na verdade, o virtual imperador do mundo? Quando o planeta menos esperar, quando todos estiverem confortáveis em suas realidades falsas, ele descerá entre nuvens de mil megatons dizendo "MUNDO! EU SOU SEU PAI". E não haverá uma resistência liderada pela princesa Leia para combatê-lo. Então será tarde demais.

  Agora pegue seu documento mais próximo. Pode ir, eu espero... Pegou? Veja nele quem são seus pais... Viu? Tem certeza? Olha que não! Na verdade, na verdadeira verdade que não querem que saibamos agora, os seus pais também foram secretamente adoptados por ele. Seus pais, você, retroativamente seus avós, bisavós, trisavós, talvez até mesmo os hominídeos que separaram o ramo evolutivo da humanidade. Com essa autoridade paterna consolidada, não haverá absolutamente mais nada a ser feito.

  Seu nome é Bradley, popularmente conhecido como Brad. Um nome muito simpático, convenientemente simpático.

  Imaginem o cenário de um só homem decidir as leis, as punições, as mesadas, o comprimento da sua saia, os palavrões que a televisão pode falar, até os temperos que poderão ser colocados no fast food. Com autoridade patriarcal, ele poderá fazer tudo isso. Como pai reconhecido de cada ser humano, ele poderá e fará isso...

  - Muito bem, rapazinho, tempo esgotado!
  - Mas pai, eu ainda não terminei de escrever minha teoria conspiratória!
  - Sem "mas", garoto. Sua mãe e eu temos compromissos e temos que levar a família inteira. Sem conversa, vamos logo tomar banho, ela detesta se atrasar!
  - Só vou salvar e...
  - Chega! Pronto, publiquei do jeito que estava. Agora pro banho, vamos!

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Operação Tapa Buraco de Natal

- Garçom, tem uma rena na minha sopa.
- Decerto que sim, os coelhos só vêm na páscoa.
- Quer dizer que não tem ovos de chocolate hoje?
- Não. Aceita um chocotone?

- Garçom, tem uma mosca na minha sopa.
- Você pediu um CD do Paul Seixas, é por isso. Pule a faixa que ela vira uma metamorfose ambulante.

- Papai Noel, tem um garçom no meu presente.
- Ho! Ho! Ho! Não é garçom, é o anãozinho que me ajuda a entregar. Ele é devoto de Iemanjá.

- Rena, tem um floco de neve na minha sopa.
- Então meus parabéns! Papai Noel aceitou seu pedido de um fim de ano na Suécia!
- Jura? Que emoção!

- Árvore de Natal! Tem uma bola quebrada na minha sopa.
- Que #@*§!! Além de cobrar caro por uma trolha feita com mão de obra escrava, ainda vendem porcaria! Só um instante, já trago a bolinha nacional.

- Garçom, tem uma luzinha queimada na minha sopa.
- Só um instante, senhor... Ah, foi só mau contacto.
- Obrigado. Traga mais bolinhas de plástico, as minhas já acabaram.

- Mamãe Noel, tem uma mosca anão na minha sopa natalina.
- Coitadinha! Ela é uma órfã, estava passando fome! Não a julgue, meu filho, lembre-se de que até Nosso Senhor passou fome no deserto! Divida como puder o que tens com os seus próximos, permita que o espírito de natal banhe seu coração...
- Buáááááá...

- Presente, tem uma quinta-feira no meu natal!
- Foi mal, aí! É que este ano foi tosco mesmo, só deu fora!
- E agora, o que eu faço? Me entupo hoje e saio cedo amanhã?
- Rá, rá, rá! Até parece que seu chefe gordo e folgado não vai enforcar a sexta-feira!
- Pôxa, é mesmo! Valeu!

- Shopping Center, tem um black friday na minha sopa.
- Que horror! Mil perdões, já vou trazer suas ofertas de natal.
- Traz umas com brindes, já sou cliente antigo no restaurante.

- Garçom, tem um pronunciamento presidencial de fim de ano na minha sopa.
- NÂO! Mil, perdões, senhor! Lhe será providenciado um banquete por conta da casa. Se a Vigilância Sanitária souber, interdita o restaurante!

- Natal, falta um Joe Cocker no meu fim de ano.
- E faltará em todos os outros. Me desculpe.


sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Ninguém contava com sua astúcia





  Todo mundo vai embora algum dia. Não porque não nos ame mais, não porque tenha se magoado, não porque não se importe mais. As pessoas vão quando é hora de ir, e quando é hora elas precisam ir. Às vezes porque seus papéis em nossas vidas acabaram, às vezes porque nosso papel nas delas acabou, mas por algum motivo elas precisaram ir.


  O problema não é a despedida, é o apego. Parece que estamos chorando por quem se foi, quando na verdade choramos por nós mesmos. O apego traz consigo a acomodação, que o tempo se encarrega de alimentar, com isso começamos a não acreditar mais que a pessoa um dia vá embora. Não desejamos perdê-la, relutamos em aceitar a mais remota idéia da perda, mas nos esquecemos que aquela pessoa nunca nos pertenceu.

  Por não nos pertencer, a dor da perda na realidade é uma ilusão tanto maior quanto mais longa tiver sido a convivência. Não que não doa, ela dói, mas dói mais porque não perdoamos a pessoa que se foi, nos sentimos abandonados por ela, às vezes traídos. Mas nós é que nos traímos ao nutrir a mentira de que alguém nos pertence e não tem o direito de ir embora. Não que não choremos pelo sofrimento que o outro porventura tenha sentido, mas a maior parte do choro é pelo rompimento do cordão umbilical, que de mal acostumados estendemos até o outro.

  O sentimento de perda é proporcional ao valor que demos a quem partiu, e ganha força se a afeição for compartilhado por um grupo, tanto mais quanto maior ele for. Então o sentimento de perda ganha sobrevida, porque já não é uma pessoa a ser consolada, é um grupo de pessoas pedindo consolo umas das outras, dificilmente alguém dá o que pede. Não é maldade, é inconsciente, mas mesmo assim os danos se materializam cedo ou tarde, às vezes na somatização de doenças.

  Quando se pergunta a alguém o motivo de o outro não poder ter partido, quase sempre ouve-se a primeira pessoa comandando a maioria dos parágrafos da explanação, "eu queria tanto" e "seria muito legal se um dia eu" costumam ser âncoras da argumentação. Não é por maldade, é inconsciente, a pessoa raramente está preparada para reconhecer e tratar seu egoísmo e suas fragilidades emocionais, então projeta no luto aquilo que não quer assumir. Somos todos egoístas, em menor ou maior grau, inclusive eu.

  Digam, taleitores, por que Roberto Bolaños deveria continuar vivo? Ele queria estender sua sobrevida biológica? As mazelas em sua fragilizada saúde não o faziam sofrer o suficiente? Foi um sofrimento prolongado!

  É digno e legítimo lamentar a perda de um profissional do humor, que dificilmente terá substituto, certamente não pelos próximos cinqüenta anos. É compreensível e até saudável, até certo ponto, lamentar a ruptura de uma obra muito bonita, que nos ligava fácil e rapidamente a períodos em que a humanidade ainda tinha esperanças de um mundo melhor, que em que as atrocidades que nos aterrorizam hoje não eram vistas como "atitude" ou "militância legítima". Eu conheci as décadas finais desse período e reconheço que é verdade, mas só até aí.

  De resto, dignos seguidores do Corcel Azul Calcinha, vamos simplesmente chorar de uma vez o que temos a chorar e depois tocar nossas vidas. A obra que ele deixou está viva, registrada e preservada, pronta para apreciação e ataques de dores abdominais por excesso de risos. ainda que o luto prolongado revertesse algo, mas não reverte e ainda piora tudo. Absolutamente tudo.

  Aqui é Nanael Soubaim encerrando esta conversa, dizendo "TINHA QUE SER O CHAVES MESMO"!

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

A Princesa e o Plebeu


Este texto é um pedido da leitora Iza Pinheiro.

  Um dos maiores clássicos do cinema mundial, rodado em 1953, que fundamentou em definitivo a carreira de Audrey Hepburn. O tripé do filme tem Audrey como a Princesa Ann, Gregory Peck como o repórter Joe Bradley e Eddie Albert como seu leal escudeiro photográphico Irving Radovich.

  Uma das lições do filme é o que Stephanie Elizabeth Marie disse certa vez, que princesas de contos de fadas não existem. Pelo contrário, apesar de todo o luxo e conveniência, é uma posição opressora, que exige uma grande dose de abnegação e resignação. Princesas de verdade nem sempre conseguem ser pessoas, muitas vezes acabam engolidas pelos deveres e se tornam uma extensão do Estado. É esta situação asfixiante que dá o pontapé na trama. Aliás, o título original "Roman Holiday" é porque ela realmente faz dessa aventura um feriado de sua realeza.

  Acompanhando seu pai o rei em uma visita oficial à Itália, a princesa Ann surta e consegue fugir às escondidas do palácio. O facto é que ela esteve em Roma pela última vez quando criança, poucos a reconheceriam, e um desses poucos é o sem-vergonha do Bradley. Ele a reconhece mesmo após ela ter cortado sua longa cabeleira real pelas mãos de um cabeleireiro comum; Sim, aquela cena em que o prícipe Akim (Eddie Murph) corta seu rabicho real foi (mal) inspirada aqui.

  O facto de ser culta e bem educada, como convém às princesas de verdade, não assegura que conheça a vida, e ela cai direitinho na lábia do jornalista. Os dois tiram a barriga da miséria, no decorrer do filme, acumulam material para serem lançados à elite da imprensa mundial, mas Lady Murph nunca dorme em serviço e algo foge ao controle deles. Ann, ao contrário das celebridades vazias e das socialites fúteis com que já lidaram, é uma moça ingênua, de bom coração, autenticamente educada e interessada pelas pessoas.

  Não precisa muito para se apaixonar por uma mulher assim. Para a desgraça de Bradley, ele se apaixona por sua vítima. Eles namoram durante a aventura, que tem direito até à princesa pilotando pela primeira vez uma Vespa, tresloucadamente pelas ruas estreitas e movimentadas da antiga capital do mundo. Ver aquela carinha sapeca de Audrey animando a realesca personagem mostra algumas coisas que depois ficam claras, primeiro que o imenso sucesso da fidalga (Audrey era filha de uma baronesa) era inevitável, segundo que o Oscar era mesmo inevitável, terceiro que Elizabeth Taylor e Cary Grant fizeram um favor em recusar os papéis, que se encaixaram como luvas para Audrey e Gregory, quinto e último, mas não menos importante para quem conhece a diva, Ann era Audrey interpretando a si mesma.

  Na cena final, a estreante Audrey Hepburn, nervosa, só conseguiu chorar como mandava o roteiro porque o director William Wyler ficou bravo com ela e a fez chorar de verdade. O público não ficou sabendo, claro, ou o risco de morte prematura seria real, porque ela arregimentou fãs ardorosos desde muito cedo. O desempenho de Audrey foi tão bom, que Peck tinha certeza absoluta de que ela levaria o Oscar, então exigiu que o nome dela encabeçasse o elenco nos cartazes do filme.

  Agora vocês devem estar se perguntando como o filme termina? Bem, asseguro que o final é lindo, realmente lindo, mas não tem absolutamente nada de óbvio. chega a ser surpreendente, até há um início de suspense. É um filme para rir, chorar e meditar, às vezes tudo ao mesmo tempo. Foi rodado um remake muito bom em 1987 e um ruim mais tarde, mas meus amigos, ninguém ainda hoje fez a Princesa Ann como Audrey Hepburn.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

De dentro para fora e para a história

Divulgação

  Inside Out, em uma tradução literal, é isso mesmo: De dentro para fora. O tema é antigo, uma família americana que se muda para uma cidade distante e completamente diferente do que estava acostumada. Riley é a filha da família e protagonista da animação, ela se vê em um mundo novo e assustador ao sair de Minnesota para San Francisco.

  Para quem não sabe, há rusgas e trocas de farpas entre os Estados centrais e os litorâneos dos Estados Unidos, as crianças crescem dentro dessa animosidade doméstica. Algo como um gaúcho da serra se mudar para o Rio de Janeiro. A qualidade da obra tem uma certa garantia, Pete Docter é o autor e também está dirigindo.

  Continuando, boa parte da trama se passa na mente da menina, onde há uma disputa de influência entre cinco sentimentos diante da nova vida: Alegria, Repúdio, Ira, Tristeza e Medo. Todos vão florear o que lhes convém e acinzentar o resto, ajudando a formar a memória subjetiva da menina. A dificuldade de adaptação, os problemas para estabelecer e manter contacto com os nativos e as saudades dos amigos deixados em Minnesota, darão ao espectador uma pequena e lúdica aula de como se formam a memória e a impressão pessoal.

Divulgação

  Complica tudo Riley ter onze anos, ela está entrando na adolescência. é a fase em que as meninas começam a largar as bonecas e prestar mais atenção ao próprio corpo, porque ele passa a mudar muito rapidamente e os hormônios literalmente são derramados no sangue. É por isso que adolescentes são bipolares, às vezes insuportáveis, e é por isso que os sentimentos de Riley darão tanto trabalho, para ela e uns aos outros.

  A temática não é nova, filmes institucionais da disney já abordaram isso, mas de forma mais sucinta, afinal eram de curta metragem, mas Inside Out mostra isso de forma mais profunda e fundamentada. O cenário é perfeito! Uma pré adolescente de um Estado tido como mais conservador, que tem uma vidinha pacata e previsível, de repente desembarca em definitivo em uma cidade com péssima fama moral, onde o próprio fluxo de turistas impulsiona uma vida bem mais corrida. Provavelmente ela se sentirá uma monga nos primeiros dias.

Imagem de / Image from Time

  Nestas condições, a cabecinha da menina entra em parafuso mesmo. E nós veremos esse turbilhão de emoções não só se formando, mas tomando forma e se manifestando humanamente dentro da cabecinha confusa de nossa protagonista. Por falar nisso, é interessante notar que as figuras de Alegria e Repúdio são as mais humanizadas, sendo a Alegria a única com cor de gente.

  Se tenho esperanças? Infelizmente sempre caio nesta armadilha, quando vejo boas argumentações, e vocês se lembram que eu quebrei a cara com Manda-Chuva. Neste caso o histórico da Disney deve legar à Pixar uma excelência na temática psicológica, que sempre foi um ingrediente de sucesso da turma do Mickey e a Disney não se reergueu até retomá-lo em suas produções. Visualmente o filme seduz, porque até mesmo em seus momentos mais apagados Riley é uma menina bonita, e San Francisco dispensa comentários, é de uma beleza difícil de igualar.

  A precisão de lançamento é para 19 de Junho de 2015 nos Estados Unidos, chegando rapidamente por aqui, em 02 de Julho. Se for metade do que as credenciais prometem, teremos "pricesinha" nova no mundo da animação. O único risco é Alegria e Repúdio roubarem a cena e aparecerem mais do que Riley...

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Orbitas, um curta que merece um longa


  Imagine um planeta habitado por duas espécies dominantes, que vivem em guerra. O planeta está completamente devastado e seus habitantes vivem unicamente em função de exterminar a espécie inimiga. Sim, é mais ou menos como se os biotipos humanos decidissem se digladiar até a extinção de quase todos eles.

  É esta a argumentação básica de Órbitas, um curta metragem digital que foge muito à regra, conforme explicarei logo adiante. A trama principal é entre duas fêmeas em estações espaciais distintas, uma de cada espécie, que orbitam o planeta e se encontram duas vezes, muito rapidamente, em cada volta. Elas sempre aproveitam esses rápidos encontros para se verem, presas pelos cabos ancorados ás estações, chegando a ficar literalmente a poucos centímetros uma da outra, mas nunca conseguindo se tocar.

  Os mais maliciosos vão logo dizer "TÃO NAMORANDO! TÃO NAMORANDO! TÃO NAMORANDO!". Pois estão mesmo. Elas se apaixonam no decorrer desses breves encontros. Infelizmente são puxadas de volta às suas estações assim que elas se afastam, quando voltam à dura rotina de esperar ordens para bombardear o lado inimigo. Não é preciso muita perspicácia para deduzir que elas perdem gradativamente o interesse pelo que fazem. Enquanto os monitores mostram seus líderes em discursos inflamados, elas preparam presentes com o que dispõe, para o próximo encontro, presentes que são levemente impulsionados no espaço, já que não conseguem se tocar.

  Não há nomes para as personagens, nem diálogos na trama. Nem fazem falta. A ação e a expressividade delicada e intensa das duas dizem tudo. Aqui, aliás, cabe uma descrição que mostrará um pouco da revolta dos autores para com a humanidade, e que diz que é de nós que eles realmente falam.


  Uma delas é aparentemente humana, ou uma humanoide muito próxima à humanidade. Ela vive em uma estação escura, desgastada, fria e desenhada unicamente para abrigar sua operadora e as ogivas. as texturas rudes, os ângulos retos, parafusos expostos, os sons abruptos, enfim... E ironicamente parece ser a humana de cabelos verdes a mais delicada das duas.

  A outra tem compleição humanoide, e um corpo escultural, mas o crânio é bastante alongado para cima e não tem nariz. Ao contrário da amada, ela vive em uma estação de cores claras, bem iluminada, repleta de plantas e com todos os comandos executados com toques em hologramas digitais. Ainda tem uma planta, digamos, uma planta ambulante como "bicho de estimação", além de praticar meditação sempre que pode. Preciso dizer o que eles querem passar? Não, meus leitores sabem ler mais do que o simples phonema das palavras.

  Enquanto o mundo lá em baixo é iluminado por explosões e rastros de foguetes, elas permanecem em órbita, como se aquilo fosse apenas um vídeo game enfadonho e de péssimo gosto. Só o que lhes interessa é se manterem belas e assim se reencontrarem na próxima aproximação, mesmo que não possam se tocar.

  Certa, feita, porém, a "humana" dispara acidentalmente uma ogiva para a estação onde está sua amada. Se desespera, aciona a nave de emergência e intercepta a arma, que desintegra seu veículo. O desespero da fêmea vegetal é claro, ao ver a flor que lhe havia dado a flutuar sem o caule. O resto eu não conto!

  A animação, feita pela agência Primer Frame, primeiro quadro em tradução literal, consegue colocar altas doses de poesia e sensibilidade em um cenário absolutamente agressivo e apocalíptico, emprestando às personagens uma fragilidade comovente e uma feminilidade tão intensa, que o espectador pode acabar se apaixonando pelas duas.

  A única parte que mostra a guerra em si, é a primeira, mas dura poucos segundos e logo passa para a beleza que a distância e a solidão preservaram.


  Antes que perguntem, ondas de choque se propagam no espaço.


Orbitas | by PrimerFrame from PrimerFrame on Vimeo.