quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Orbitas, um curta que merece um longa


  Imagine um planeta habitado por duas espécies dominantes, que vivem em guerra. O planeta está completamente devastado e seus habitantes vivem unicamente em função de exterminar a espécie inimiga. Sim, é mais ou menos como se os biotipos humanos decidissem se digladiar até a extinção de quase todos eles.

  É esta a argumentação básica de Órbitas, um curta metragem digital que foge muito à regra, conforme explicarei logo adiante. A trama principal é entre duas fêmeas em estações espaciais distintas, uma de cada espécie, que orbitam o planeta e se encontram duas vezes, muito rapidamente, em cada volta. Elas sempre aproveitam esses rápidos encontros para se verem, presas pelos cabos ancorados ás estações, chegando a ficar literalmente a poucos centímetros uma da outra, mas nunca conseguindo se tocar.

  Os mais maliciosos vão logo dizer "TÃO NAMORANDO! TÃO NAMORANDO! TÃO NAMORANDO!". Pois estão mesmo. Elas se apaixonam no decorrer desses breves encontros. Infelizmente são puxadas de volta às suas estações assim que elas se afastam, quando voltam à dura rotina de esperar ordens para bombardear o lado inimigo. Não é preciso muita perspicácia para deduzir que elas perdem gradativamente o interesse pelo que fazem. Enquanto os monitores mostram seus líderes em discursos inflamados, elas preparam presentes com o que dispõe, para o próximo encontro, presentes que são levemente impulsionados no espaço, já que não conseguem se tocar.

  Não há nomes para as personagens, nem diálogos na trama. Nem fazem falta. A ação e a expressividade delicada e intensa das duas dizem tudo. Aqui, aliás, cabe uma descrição que mostrará um pouco da revolta dos autores para com a humanidade, e que diz que é de nós que eles realmente falam.


  Uma delas é aparentemente humana, ou uma humanoide muito próxima à humanidade. Ela vive em uma estação escura, desgastada, fria e desenhada unicamente para abrigar sua operadora e as ogivas. as texturas rudes, os ângulos retos, parafusos expostos, os sons abruptos, enfim... E ironicamente parece ser a humana de cabelos verdes a mais delicada das duas.

  A outra tem compleição humanoide, e um corpo escultural, mas o crânio é bastante alongado para cima e não tem nariz. Ao contrário da amada, ela vive em uma estação de cores claras, bem iluminada, repleta de plantas e com todos os comandos executados com toques em hologramas digitais. Ainda tem uma planta, digamos, uma planta ambulante como "bicho de estimação", além de praticar meditação sempre que pode. Preciso dizer o que eles querem passar? Não, meus leitores sabem ler mais do que o simples phonema das palavras.

  Enquanto o mundo lá em baixo é iluminado por explosões e rastros de foguetes, elas permanecem em órbita, como se aquilo fosse apenas um vídeo game enfadonho e de péssimo gosto. Só o que lhes interessa é se manterem belas e assim se reencontrarem na próxima aproximação, mesmo que não possam se tocar.

  Certa, feita, porém, a "humana" dispara acidentalmente uma ogiva para a estação onde está sua amada. Se desespera, aciona a nave de emergência e intercepta a arma, que desintegra seu veículo. O desespero da fêmea vegetal é claro, ao ver a flor que lhe havia dado a flutuar sem o caule. O resto eu não conto!

  A animação, feita pela agência Primer Frame, primeiro quadro em tradução literal, consegue colocar altas doses de poesia e sensibilidade em um cenário absolutamente agressivo e apocalíptico, emprestando às personagens uma fragilidade comovente e uma feminilidade tão intensa, que o espectador pode acabar se apaixonando pelas duas.

  A única parte que mostra a guerra em si, é a primeira, mas dura poucos segundos e logo passa para a beleza que a distância e a solidão preservaram.


  Antes que perguntem, ondas de choque se propagam no espaço.


Orbitas | by PrimerFrame from PrimerFrame on Vimeo.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Luv; pouca roupa e muito carisma



  É uma fórmula com data de validade. Não adianta tentar estender muito, porque ela só dura enquanto tudo estiver durinho e o shortinho tiver o que realçar. Mesmo assim há grupos que aproveitam tão bem sua fase, que voltam de vez em quando, claro que não nas mesmas roupas.

  É o caso do LUV. Formado em 1977 por Marga Scheide, José Hoebee e Patty Brard que faziam
dancinhas insinuantes, naquele jogo de esconde e mostra, com carinhas de inocentes, como se não estivessem fazendo absolutamente nada demais, além de deixar os marmanjos mais sensíveis e carentes em situação constrangedora em público. Alguém aí vai dizer "Naquele tempo era só dancinha, ninguém esfregava a buzanfa na cara do espectador. Sim, é verdade, inclusive as coreografias não se resumiam a cantar de costas para público, mas meu amigo, eram doses cavalares de sensualidade! Não eram coisas que as mamães quisessem ver suas filhas pequenas imitando, muito menos em público, pior ainda em rede de televisão, nem me fale se existisse youtube na época!

  Ainda tiveram quatro integrantes temporárias, para os períodos em que José e Patty se afastaram: Rita Tielsch, Diana Van Berlo, Michelle Gold e Carina Lemoine. Sim, taleitores, o trio enfrentou turbulências, inclusive com troca de empresários. Só a loura Marga Schneide se manteve nele ininterruptamente. O que gerou as turbulências? Tudo o que vocês imaginarem e muito mais. Eram garotas bonitas, mas sem ter aquela beleza acima da média, por isso precisavam vendê-la bem, era o cartão de visitas para os fãs. Vocês podem imaginar que acusações de exibicionismos poderiam ter permeado e estremecido as relações pessoal e profissional das três. Todo mundo pensou que o fim estava próximo, exceto Marga. A posição central em quase todas as apresentações, se talvez tivessem gerado ciúmes, mostrava quem era a líder ali.

  O período de actividade foi de 1977 a 1981, de 1989 a 1995 e de 2005 a 2012. Elas chegaram a ter uma carreira internacional, de 78 a 81, não tanto pela relevância musical, mas muito pelo sex appeal que era muito bem vendido e comedido; não muito, mas elas conseguiram se manter livres de excessos. O que esperar de um grupo assim, se grupos femininos até hoje não são levados à sério? Pois elas lograram êxito, talvez muito mais do que pretendessem. Chegaram a vender 750.000 cópias, mesmo o público sabendo que não as enxergaria dançando com o disco girando... A imaginação criava asas. O facto é que como os Monkees, o Luv nunca acabou oficialmente. Decerto que elas não usariam aquelas peças ínfimas em shows, hoje são senhoras maduras, mas não há impeditivos para uma nova reunião.


  Por que elas voltaram na primeira vez? Por causa do ABBA. O quarteto sueco voltou a fazer muito sucesso em meados dos anos oitenta, atraindo atenções para mais gente e elas pegaram carona. Funcionou muito bem, tanto que um segundo retorno aconteceu para comemorar os vinte e cinco anos de fundação do trio, com as integrantes originais. Não só elas, muita gente deve aos quatro o retorno ao sucesso, e quem o agarrou está até hoje colhendo os louros.

  Um novo retorno? Difícil. Muito difícil! Mas como eu já disse, são carismáticas, espertas a ponto de terem aproveitado um revival em que nem todos acreditavam, têm um séquito de fãs que perpetua sua fama, como acontece com muita gente que sumiu dos grandes circuitos. Não sei se caberia, mas não seria nem um pouco parecido com a estréia, não mesmo!


  As canções? Tem alguma coisa mais sofisticada para ouvir? Quer só passar o tempo e relaxar? Então compensa. É como ouvir a maioria dos grupos de pop rock brasileiros dos anos oitenta, só entretenimento mesmo. Ah, claro, os mais velhos vão gostar de ver três moças não masculinizadas e bonitas por inteiro, não só onde foi colocado um litro de silicone. O que os vídeos mostram, era de verdade.

  Sim, estão todas vivas e as pausas fizeram bem à amizade. Como em namoros sérios, dar um tempo às vezes é necessário. Cá entre nós, sinceramente? Para quem se acostumou às musiquinhas bobas e quase monossilábicas que invadiram a era da discoteque, até que as letras eram bem cuidadas. Só não se pode elogiar demais...

Para mais informações clique em All About LUV, um blog dedicado a elas. Wikipédia. Algumas músicas aqui,

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Pier Angeli e seu amor proibido



Vejam que interessante, só hoje (11/07/2014) percebi, é o meu 300º texto no Talicoisa!

  Anna Maria Pierangeli teve como única falta grave, nos deixar cedo demais. A italiana de Cagliari veio em 19 de Junho de 1932, se foi em 10 de Setembro de 1971 em Beverly Hills. Era baixinha para os padrões hollywoodianos, 1,52m. O que lhe faltava em estatura sobrava no carisma. Gêmea de Marisa Pavan, ela teve uma história um pouco mais triste e trágica do que a irmã.



  Teve dois maridos em sua vidinha conturbada, Vic Damoni e Armando Trovaioli. Deixou dois filhos, Perry Damoni e Andrew Trovaioli. E como ela amava esses meninos! Foram casamentos problemáticos, especialmente o primeiro, que agradou à sua repressora mãe; ela parecia estar mais preocupada com seus padrões do que com a felicidade da filha.



  Seu primeiro trabalho foi no italiano “The Million Dollas Nickel”. O estranho é que ela está lá, nas cenas, mas seu nome não aparece nos registros. Ela não ficou muito tempo restrita à península, após "Domani è troppo tardi" de 1950, Hollywood a nacionalizou rapidamente.



  Conseguiu coisas que pouca gente no ramo consegue, ser amiga de verdade da maioria dos colegas, como Debby Reynolds, com quem veio ao Brasil em excursão em 1953, e o galã meteórico James Dean. Já perceberam que seus parceiros de cinema eram estrelas de primeira grandeza, como Paul Newman, Cid Charisse, Kirk Douglas... Enfim, a moça não foi para brincar, ela aterrissou na Califórnia para ser uma estrela de primeira linha. Dona de uma risada gostosa e de uma voz aconchegante, ela tinha uma facilidade imensa para cativar as pessoas.



  A carinha de anjo não escondia sua índole namoradeira. Não pérfida, mas namoradeira, o que gerava muitos ciúmes e cotovelos doloridos. mas trazia princípios morais da família dos quais não conseguia se desvencilhar. Namorou sério o rebelde James Dean, com quem teve um amor impossível, a mãe de Pier impediu o casamento por ele não ser católico. Sim, meus amigos, a namoradeira Anna Maria era uma moça à moda antiga, obedecia à mamãe mesmo depois de adulta e dona de seu nariz, mas desta vez a obediência foi daninha e custou caro. E dizem que ela também foi a única mulher que ele amou de verdade.



  Faleceu em casa, por choque anafilático. Nunca superou a morte de seu único e verdadeiro amor, James Dean, o que motivou suspeitas de suicídio. Quem a conhecia e sabia do amor quase obsessivo pelos filhos, descartou e rechaçou a hipótese. Como Romy Schneider, morreu mesmo foi de coração partido.

  Se tivessem se casado, talvez ela ainda estivesse viva, porque Marisa ainda está, talvez até Dean estivesse vivo. Mas nos fim das contas, mesmo contra a vontade da megera, eles estão juntos.




Wedsite dedicado à diva: Pier Angeli 

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Operação Tapa Buraco - piadas recicladas


- Mestre Yoda, tem uma mosca na minha sopa.
- Uma mosca na sua sopa não há, pimenta do reino voadora é.
- Pimenta do reino voadora...
- Enquanto quente está coma.
- Pimenta do rein... Casp...

- C3P-O, tem um R2D2 na minha sopa!
- Oh, mil perdões, mestre cliente! O que você está fazendo aí, idiota?
- Peeew pew tzir Twm!
- Então moste logo esse holograma e saia da sopa!
- Ptw teeew: Por favor, socorro! Tem uma mosca na minha sopa! mandem um garçom, rápido!

- Chewbacca, tem uma mosca na minha sopa!
- Woaaan!
- É eu sei, mas de repente apareceu uma, deve ter entrado pela janela da nave!
- Woaaan!
- Sua argumentação é boa, mas eu estou com fome, sabe?
- Woaaan!
- Ah, sim, eu espero, obrigado.

- Palpatine, tem uma rebelião na minha sopa!
- Os levarei para a estrela da morte, só um instante.

- Hanz Sollo, tem uma Leia na minha sopa!
- E você tá reclamando do quê? Não gosta da coisa? Então deixa que eu como! Jabba, traz uma sopa de clone nova pra ele!

- Obi-Wan Kenobi, tem um jedi na minha sopa!
- Ele a está guardando direito?
- Sim, nenhuma mosca se aproximou até agora!
- Fico feliz por isso. Que o apetite esteja com você.

- Darth Vader, tem uma Disney na minha sopa!
- Faz parte da franquia. Agora coma.
- Sim, mestre!
- Você vai achar deliciosa e pagar por todas as bugigangas do Mickey.
- Eis meu cartão e senha, mestre...

- Luck... This is your soup!
- Nooooooooooooo!

sábado, 31 de maio de 2014

Mädchen in Uniform

   Há muitos filmes que mereceriam uma releitura de Hollywood, a maioria deles eu gostaria muito de ver em uma, mas há um que merece e eu espero que jamais ganhe. Explicarei, é só um minutinho e já lhes digo.

  Mädchen in Uniform, que em português literal seria "senhoritas no uniforme", é um drama alemão escrito por Christa Winsloe (aqui) e filmado pela primeira vez em 1931, baseado na bem sucedida peça "Gestern und heute", ou "ontem e hoje" em tradução literal. Sua característica mais marcante é ter o elenco todo feminino, não se vê um homem durante todo o filme. Essa primeira versão utilizou grande parte do elenco do teatro e filmado no orfanato militar de Postdam.

  A trama se passa no fim da bélle époque, conta a história da adolescente órfã Manuela von Meinhards, que perdera a família recentemente e é encaminhada ao orfanato, onde conhece a professora conhecida na trama por Governer Fräulein von Bernburg. Era um orfanato militar do início do século passado, as formalidades eram sim realmente necessárias à época. Quem quiser voltar no tempo e mostra-lhes métodos melhores, sinta-se à vontade. O primeiro elenco tem Hertha Thiele (aqui) como Manuela e Dorothea Wieck (aqui) como Fräulein Elisabeth von Bernburg.

  O enredo foge muito aos dramas esperados de um filme sobre orfanatos. O que temos aqui não é uma garota rebelde que quer se livrar das amarras formalistas de uma época repressora, bla-bla, bla-bla e bla-bla. Manuela é uma garota muito bem ajustada, obrigado, seu único sofrimento até então é mesmo a perda da família. O enredo trata de lesbianismo. Muito diferente do que alguns de vocês estão pensando e pelo que já começam a suar, não é nem de longe um filme erótico, não há sequer uma cena de intimidade sexual. Há carinho, algumas carícias leves, abraços longos, mas não o que muita gente esperaria de uma trama assim. A certa altura Manuela beija Fräulein, mas para os onanistas é a coisa mais sem graça do mundo.

  Devido ao trauma súbito e recente, a professora passa a dar atenções especiais à nova interna. O que normalmente a transformaria em uma mãe substituta para a aluna, acaba despertando a paixão dela. Trata-se de uma professora experiente, mas relativamente jovem e muito bonita, que certamente desperta a atenção masculina quando sai à cidade. Bem, o homossexualismo não era novidade na Europa da época, só era velado, mas nesta condição chegou a ser bastante tolerado pela maioria; embora um casamento nos moldes tradicionais continuasse nos planos sociais, enfim. Com o tempo e a resistência da professora, a moça tímida e aplicada passa a ter os arroubos costumeiros da adolescência. Em uma peça teatral dentro do orfanato, vestida de garoto do fim da idade média, Manuela se vale do papel, fura o roteiro e se declara publicamente à professora, sendo repreendida com dureza compreensível para a época, pela duquesa que comanda o orfanato. Claro que Hitler não gostou e esta foi uma das obras proscritas pelo nazismo.

  Manuela chega a tentar se matar, se atirando da escadaria. O orfanato é um prédio bem alto para a época. Isso fez a directora rever seus métodos, mas causou a renúncia da professora e... Não contarei o filme, ele está disponível para baixar e até algumas locadoras têm as duas versões mais famosas. A segunda versão foi filmada em 1958. Manuela é interpretada pela maravilhosa Romy Schneider (uma boa biographia aqui e uma aqui), Lilli Palmer (aqui) fez Elisabeth. Com o cinema falado, a expressividade vocal e a modulação da própria voz passaram a fazer parte do filme, e Romy emprestou uma doçura rebelde muito grande à Manuela. Ela foi mais melancólica do que Hertha, mas por isso mesmo até um pouco mais agressiva na demonstração de uma paixão proibida naquele ambiente de disciplina severa.

  O filme mostra a realidade nua, mas sem qualquer apelação. Tudo é contado de forma muito gentil, às vezes tempestuosa, mas muito gentil. Mesmo na versão de 1958, quando já era normal fazer alusão clara a relações sexuais, quando não insinuadas abertamente, o filme se preserva de excitações que distrairiam a atenção do público de sua mensagem central. Não há mais rebeldias do que as necessárias, não há mais intimidades do que as necessárias à trama, não há sequer um discurso explícito e politizado para colocar tudo a perder. Tudo, exceto a beleza da obra, está dentro do absolutamente necessário. E a segunda versão tem mais beleza por quadro do que as últimas bombas do cinema têm todas juntas em sua íntegra.

  Por que não quero que façam um remake? Porque os productoers de hoje dificilmente saberiam respeitar a obra. Hoje sequer se cogita a sutileza com que as duas versões trataram a paixão arrebatadora entre aluna e professora. Hoje se quer simplesmente chocar, como se as aves fossem a solução para os problemas mundiais. Bem, vou contar-lhes uma história triste e bela, a melhor forma de fazer um cabeça-dura ter certeza de que tem razão, é bater de frente com ele, ou chocá-lo pura e simplesmente. Eu sou um cabeça-dura assumido, sei do que estou falando.

  Dificilmente um director vai aceitar que tudo fique em um beijo roubado, que as carícias não adentrem nos vestidos e que não haja um homem sorrateiro que não existe no livro. Vai querer transformar o filme ou em uma tragédia desnecessária, ou em um lesbo-pornô desnecessário. Por isso, até que os factos e os parâmetros provem o contrário, prefiro que não haja refilmagens.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Sabe de nada, inocente!

Semana passada (depois de muito tempo) eu conversei um pouquinho com a Debs (saudades) e um dos assuntos (não tinha como passar batido) foi a nova onda de sucesso do Cumpádi Uó: agradecerei eternamente ao bomnegócio.com por dar uma oportunidade de renascimento para o muso!
A ideia de fazer um texto sobre isso foi da Debs, espero que ela leia a minha homenagem ao sucesso do divo. 
É muito bom passar na Av. Bonocô e ver um outdoor estampado com a cara do ordináááááário: de um lado temos o mítico metrô de Salvador e do outro temos aquele rosto de tamanha beleza e siacabância! E ainda tem que ache aquela avenida feia: sabe de nada, inocente! Cumpádi Uó dignifica qualquer lugar!

Brilhe eternamente, ordináááário!

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Uma cobrinha salvando nossa honra


Fonte: TV Conectados

  A capacidade que os teledramaturgos têm para fazerem dos vilões personagens muito mais interessantes do que os mocinhos, a ponto de o público torcer por eles, já é antiga. Desde fins dos anos oitenta que eles fazem o público desejar uma morte lenta e dolorosa para os mocinhos.

  Não é para menos, eles recebem as piores falas, as cenas mais idiotas, aquelas caras de vítimas inocentes que quase pedem um tapa na cara, e parecem ser o depósito de lixo dos defeitos mais íntimos de seus autores. Só são os mocinhos porque a trama diz que são, porque muitas vezes são absolutamente dispensáveis.

  A última novela do horário nobre, como se tornou tradição, é uma coleção de motivos para odiar o mocinho, ou no caso, a Helena da vez. Para quem nunca veio para Goiânia, aviso que o que aquela novela imbecil mostra só existe na cabeça oca do autor. Goianos patetas como aqueles seriam automaticamente os bestas de qualquer roda de conversa nesta metrópole, que já engoliu algumas cidades do entorno e tem todos os problemas de qualquer outra, inclusive o facto de que não existe um goianiense que todo mundo conheça.

  Goiano tem algumas coisas a ver com o texano, para o bem e para o mal. Além da mania de querer tudo grande e em grande quantidade. Goiano é romântico, sim, mas não é meloso. Goiano tem um "R" gutural e arrastado, não fala chiando, isso é coisa de carioca. Goiano parece tranqüilo, a primeira vista, mas tem pavio curto com gente fresca. Está com frescura para ir ter com aquela pessoa que te interessou? Vire as costas e o goiano te dá um chute na bunda, para deixares de fazer doce e ir logo ao que interessa.

  São apenas os erros mais elementares que gente que nunca saiu do litoral comete, ao tentar falar do interior do país. Acha que ter um milhão de habitantes a menos do que as suas cidades já torna qualquer lugar um rincão tranqüilo e alheio ao resto do mundo. Como parece ser a regra, gente que tem um fascínio incontido por um mau-caráter.

  Em meio a tantos personagens tão verossímeis e quase tão divertidos quanto acertar o joelho na própria nuca, uma geminiana paulista faz a única goiana verossímil e interessante. Inicialmente parecia ser uma personagem fútil e perversa, mas está fazendo um bem imenso a uma novela idiota, fazendo os personagens de água e sal que seriam os protagonistas ficarem ainda mais bobos. Se recebesse um pouco de atenção, se tornaria uma filial brasileira da Paola Bracho.
Vai fundo, minha aprendiz de desprezo!

  Não, eu não sou do fã clube de Viviane Pasmanter, sou um apreciador do que é bom. Após tantos anos tendo seu aspecto jovial explorado para fazer lolitas malvadas, mesmo já adulta, a mulher agora faz uma mãe de adolescentes, que cuida (mesmo que de modo belicoso) do pai senil a quem parece ter puxado sua personalidade escorpiana e debochada, e tem uma cobra como bicho de estimação. Aliás, ela educa seus rebentos muito melhor do que as outras mães da novela, aquelas bananas. O que ela faz para viver eu não sei, esses autores não parecem gostar do trabalho diário e deixam isso claro no pouco espaço que dão ao ambiente laboral.

  Não bastasse ser bonita, Viviane emprega muito bem sua carinha de desconfiada profissional à personagem, destacando-a ainda mais de gente que parece olhar para o nada o tempo todo. Uma personagem que deveria ser antipática e totalmente nociva na trama, passou a ser a única com os pés no chão, com emoções minimamente maduras e coerentes. Como foi criada para ser má, a personagem acaba recebendo uma atenção bem mais carinhosa da direção, não só do autor. Mas como os personagens sempre se desvirtuam no decorrer da trama, ela deixou de ser essencialmente uma vilã, agora tem seus momentos de maldade, mas é uma maldade absolutamente necessária para puxar os outros para a realidade.

  Ela tem expressividade, não faz a mesma cara do início ao fim do capítulo, como se fosse um manequim de vitrine, o que até faz bem para a actriz, porque mostra que aquela carinha bonita não se segura às custas de toxina botulínica. Sabem aquelas pessoas que há muito já trocaram o pancake pela argamassa, para disfarçar rugas e flacidez? É esse tipo que vira personagem de novela, mas Viviane tem conseguido fugir dessa armadilha. Não é só arreganhar boca e estufar os olhos, é dar vida à expressão, e dar vida à expressão inevitavelmente faz as marcas e rugas aparecerem, mesmo que elas sumam depois. Gente de verdade tem marcas de expressão, ainda que elas só apareçam quando a expressão está em uso. Até a Barbie da animação digital já exibe algumas, quando exagera na expressão!

  Até agora a menina malvada tem sido a única goiana do elenco que me faz reconhecê-la como tal. Ainda não a vi preparando arroz com pequi, frango e guariroba, ela é rica, tem quem faça isso por si, mas a brejeirice espontânea dela não faz apenas parecer uma goiana autêntica, faz os outros parecerem ainda mais falsos. Não conheço a actriz, mas deve ter uma personalidade muito forte, para não ter sido contaminada com as neuras do autor, que até agora tem demonstrado um desconhecimento de causa muito grande; como praticamente TODOS os seus colegas. Desperdiçar o talento da Julia Lemmertz já deve ter sido o suficiente para ele.