terça-feira, 16 de outubro de 2018

Dead Train in the rain LX

    The Street Warriors. A estação 60 traz os ônus e os bônus da vida adulta; a infância acabou. Enxuguem suas lágrimas e embarquem, o trem cresceu e vai partir.


Na hora combinada estão os seis ao redor de Renata, que conta com detalhes a entrevista da noite anterior (...) com Tobby fazendo retrospectivas a cada dez minutos. Ele não se cansava de lembrar o espectador da menina linda de cabelos cacheados e pele acanelada, que foi apresentada ao mundo pelo seu programa. Ele os fez prometer que será padrinho de casamento...

- Ei, eu não sabia desse “pacto”! O seu pai ia quebrar a cara do meu noivo!

- Não, não ia. Seu noivo não seria idiota de furar no trato.

- Vai ao ar na sexta?

- Vai, Mascote. Ele prometeu, em troca de ser padrinho de casamento do Matt.

- A gente ainda é meio jovem, né, Enzo?

- Ainda, amada mia. Ainda. Temos tempo, vamos terminar a faculdade.

- Seremos os últimos, Ron.

- Mas nos casaremos, pode ter certeza de que nos casaremos.

- Foi pra isso que você levou a constituição brasileira para a discussão em sala, baby. Para eles refletirem sobre os absurdos da própria.

- Valeu, Rê... Bobby?

Ele aponta para (...) Mikomi chegando. Ele pede licença e se dirige à amada. De terno e gravata não parece ser mais jovem do que ela, pelo contrário. Se beijam, mas preferem ficar abraçados (...) Os outros suspiram e fazem pilhéria ao mesmo tempo, mas muita gente sente os cotovelos doerem com a cena, começam a se lembrar de Pearl Harbor e passam a olhar torto para o casal. Richard logo se mostra, foi ele quem a levou...

- Vocês dois podem namorar mais na van, longe de olhares invejosos. Todo mundo pra casa!

Ele viu tudo, estudou a reação dos outros universitários à cena, conclui que a inveja e os problemas aqui podem ser até maiores do que no colégio de Summerfields. Diz isso claramente aos oito, na van Corvair Greenbrier vermelha. Pai e filha gostaram dos Chevrolets com motor traseiro (...) Todos os sete têm alguma queixa de sua turma, especialmente a única mulher de um curso que só tinha homens...

- Deixe eu ver se entendi direito, minha filha... Eles estão reclamando de finalmente haver um baita mulherão entre eles, é isso? São gays?

- Não sei, sei que calei a boca de todo mundo, quando montei o kit. Eles queriam dilatar o cilindro em um forno de têmpera, com o risco de descarbonetação, talvez até empenassem a peça... Ah, desculpem! Me empolguei!

- A senhorita vai ter que explicar pra gente que bichos são esses!

- É engenharia mecânica, Rê!

- Tente explicar.

Ainda ficam confusos (...) mas já compreendem um pouco do que ela fez. Chegam à duplicada via de entrada de Sunshadow, por vontade da população a única até hoje, só que agora com um largo delta para os dois sentidos da estrada.

Chegando em casa, Patrícia recebe um recado do escritório. Liga assim que termina de comer, então chama os outros (...) Los Angeles hoje mesmo e resolver uma contenda entre colaboradores, que alegam que a participação da banda na promoção de um está prejudicando o outro. Nada demais, faz parte da vida de empreendedores. Quando vêem a solução é simples...

- Eu falarei por experiência própria. Sempre como um pedaço de chocolate depois de exercícios pesados. A taxa de açúcar cai drasticamente e precisa ser reposta, vocês são empresários do ramo, deveriam saber disso! Um chocolate não sabota a saúde de quem se exercita regularmente, pelo contrário, eu continuo cabendo nas minhas malhas...

Os dois até se sentem envergonhados, depois da conversa. Mas a culpa, neste caso, é dos departamentos de marketing, que morrem de medo do senso comum (...) Apagado o incêndio, aproveitam para ver Josephine e Gregory, depois voltam para Sunshadow; têm suas próprias rotinas pedindo por sua atenção. A diva suspira de felicidade, vendo que eles estão dando conta do próprio recado, o que não significa que baixará a guarda (...) Antes que cheguem ao aeroporto, são novamente solicitados, o office boy os ultrapassa em um Impala 1960 conversível e pede que parem...

- O que eu tenho a dizer é urgente! O cara apareceu no escritório há poucos minutos!

- Que cara, Tom? Do jeito que nos interceptou parece que foi o próprio demônio – diz Patrícia.

- E era! O cara que te mandou aquelas cartas! Ele apareceu...

- Ele ainda está lá?

- Não, ele só perguntou sobre você e saiu rápido.

- Vamos voltar!

Dão meia volta e seguem ao escritório central. A recepcionista dá detalhes, diz que ele estava de barba, mas (...) era ele mesmo. Richard chega na mesma tarde, encontrando Josephine e Grant com eles. Ela não deu qualquer informação (...) mas ele insistia em saber se ela apareceria por lá. Richard vai para fora, apura a visão e vasculha cada centímetro até se dar por satisfeito...

- Ele se foi ou se escondeu muito bem. Vocês continuem negando informações pessoais da banda, mas avisem a todo mundo que o sujeito voltou a procurar Patrícia. Jose, mantenha Greg por perto, tenho quase certeza de que esse cara vai querer tirá-lo do caminho.

Novamente Patrícia é notícia inesperada, os noticiários noturnos exibem um desenho do suspeito com e sem barba, relembram seu histórico e avisam que ele pode ser perigoso. Ela sabe que agora, fora de Sunshadow, voltará a ter que andar sempre acompanhada (...) No dia seguinte ela fica com os professores até ao menos um dos amigos parecer, chegam Robert e Ronald para acompanhá-la. Consentiu em ver com eles uma palestra sobre diplomacia na guerra, pois não tem mais actividades acadêmicas por hoje. A restrição de liberdade a deprime.

Voltam para casa assim que Richard vai buscá-los. Praticamente só o ronronar do motor quebra o silêncio da viagem. Ninguém na universidade comentou o caso, ao menos não com eles, mas a expressão severa da moça não passou despercebida. Ela (...) não faz a menor questão de esconder sua contrariedade. Ela é a ameaçada e está sob tutela, o sujeito é reincidente e está livre. A Greenbrier é avistada de longe pelos novos carteiros, que se apressam em avisar aos outros agentes que estão chegando...

- Sem alterações, base.

- Entendido, já vamos avisar Mamãe Urso.

Ligam para Nancy, que pára de ir a cada dez minutos à janela (...) Alguns minutos e eles chegam, após terem deixado os outros em suas casas...

- Mom...

Desanimada. Vai tomar um banho (...) o casal discute a respeito, mas enquanto o assediador não se mostrar, não têm muito mais o que fazer. Deborah chega e procura pela sobrinha, tem certeza de que está com a musculatura tensa (...) Estava tão retesada que segurava o choro.

Ronald liga, avisa a Richard que tem ajuda a caminho, Chuck ligou para ele...

- Estão vindo para cá, se dispuseram a escoltar a Patty e deixar sempre algum membro à disposição dela. Só pediram por um lugar para dormirem.

- Eu arranjo. Quando der retorno, agradeça em meu nome de todo coração.

Nesta noite eles chegam e são recepcionados pelos nobres, seu único vínculo com residência fixa. A polícia de Sunshadow, orientada por Richard, providencia acomodações. Os Street Warriors ficarão à disposição até o sujeito ser preso, não importa quanto tempo leve. Na manhã seguinte, Renata, Ronald com Rebeca, Robert com Mikomi e Enzo com Silvia chegam com o bando, eles pilotando motocicletas enormes. Patrícia olha incrédula para a cena...

- Que loucura.

- Loucura é com agente mesmo, irmã – berra Rebeca.

- Não tenha medo, broto, você vai estar segura com a gente!

- E quem está com medo? Vai ser a primeira vez que vou andar de moto, estou excitada!

De vestido leve ela se ajeita na garupa de Chuck, (...) vai rindo durante todo o caminho. Renata, Rebeca, Mikomi e Silvia vibram bem audivelmente. O vento no rosto, a ausência de paredes, o ronco dos motores bem próximos, tudo é motivo para alegria. Quando chegam a segurança da universidade já está avisada, mas causam tensão entre os alunos, que ficam pasmos ao verem seus colegas (...) entre aqueles caras mal encarados. Mikomi lhes fará companhia até as aulas de hoje terminarem. Os motoqueiros percebem o quanto o passeio fez bem à moça, ela não lembra em nada a mulher deprimida e taciturna de ontem. Eles vão leves e serelepes para suas respectivas turmas. No dia seguinte ela quer ir montada, arranja algo mais apropriado e queixos caem ao chão; Jaqueta do bando, normal, mas com camiseta colada, calças índigo jeans justas e botas de cano alto, acompanhadas de óculos escuros de desenho clássico e um batom escarlate...

- Jesus...

- Vestidinho de seda não combina com motocicleta, queridos. Vamos?

- Ritchie, fala pro Greg que ele é um safado que nasceu de bunda pra lua! Vai ter sorte assim no inferno, cara – exclama Chuck!

Eles saem para a universidade e Nancy comenta (...) sobre como ela conseguiu ficar sexy com aquela indumentária. Já na universidade as impressões variam, mas as reações são quase todas as mesmas, gente paralisada ao ver patrícia passar de camiseta básica, com o blusão para trás, seguro pelo indicador esquerdo, arregalando olhos, derrubando queixos e causando tremores. A imagem da garotinha linda e pueril foi definitivamente enterrada. Ao menos uma taquicardia é diagnosticada na enfermaria.

&

A imprensa não tarda, photographias tiradas em sigilo mostram a líder do Dead Train em sua roupa de motoqueira, de óculos escuros e cabelos soltos, desfilando até a faculdade de engenharia mecânica, de onde se teve notícias de displicência muito acima da média (...) Josephine fica maravilhada com as imagens, Zigfrida começa a cantar e dançar na sala de leitura, comemorando o que parece ser a ruptura definitiva com a dependência do passado...

- She’s not a bla-bla-bla, bla-bla-girl in the university!...

As manchetes variam muito, mas “Esqueçam a garotinha com altura acima da média, apresentamos a mulher Patrícia Petty” é a que resume tudo. Toda a força, determinação e liderança que se escondiam detrás da figura quase sempre casta, ficaram estampadas na imagem do dia. Claro que muita gente explora o envolvimento do sexteto com um bando de motoqueiros (...) mas a maioria faz questão de recortar, às vezes ampliar, alguns até de colorir e arquivar as photos. O escritório recebe centenas de ligações pedindo pôsteres dela com aqueles trajes, o pedido é repassado à moça assim que volta da faculdade...

- Meu D’us... Toda essa celeuma por causa de uma roupa de motoqueira?

- Celeuma nenhuma, meu amor – diz Nancy, já cercando e abraçando a filha – é fascinação pura. Você sempre se vestiu como uma princesa, toda delicada, as pessoas ainda viam a imagem da sua estréia em uma mulher feita! Quando você apareceu assim...

- E vou continuar aparecendo, porque vestidinho delicado não é roupa para motocicleta. Por mais divertido que seja o risco de cair é real, eu não quero me ralar toda no asfalto se isso acontecer... E princesas de contos de fada, mamãe, não existem; nem nos contos de fadas.

Usando aquelas botas de salto, ela quase alcança a altura do pai. Patrícia acaba chamando atenção para as amigas também; Rebeca sempre teve o corpinho bem formado, com o busto bem empinado; Renata é a glória da miscigenação brasileira, contrastando com o rostinho de moça comportada. Os rapazes nem de longe são os garotos do início da carreira (...). As balzaquianas ficaram felizes de seu amorzinho ter encontrado um curativo para seu coração ferido, mas Mikomi sabe que precisa tolerar o assédio (...) Quando vão se apresentar em um show em New York, os fãs e a imprensa constactam o que os jornais mostraram naquele dia, embora as moças usem os vestidos minimalistas de estampas geométricas coloridas que estão em voga. Antes de saírem para o intervalo, Patrícia conversa com o público...

- Meus queridos, eu gostaria de dizer algo antes de descer para o intervalo. Nós vamos providenciar os pôsteres que vocês tanto pediram, já estão até rodando...

A platéia vai ao delírio, ela precisa esperar alguns minutos até poder falar novamente, minutos que serão repostos...

- Mas eu quero falar da polêmica acerca dos trajes que tenho usado para ir à faculdade. Primeiro o caráter técnico: Aquelas roupas são as indicadas para se viajar de moto, roupas curtas ou finas não te protegem em uma queda, que é um risco constante, não é o tipo de veículo para exibicionismo babaca. Então não facilitem para o azar porque o para-choque de uma motocicleta é você. Agora o segundo caráter: Vocês sabem que tenho sido perseguida por um maníaco que se pudesse mataria Rainier III e seqüestraria a princesa Grace de Mônaco, mas não pode e pensa que me raptar será a mesma coisa, algo como se eu fosse um troféu de consolação. É por isso que eu ando com esse bando de motoqueiros que estão entre vocês, não fizeram e não farão nada de errado, pois é gente boa que simplesmente fez escolha por outro estilo de vida. Eu não envergonharia vocês, não andaria com gente com quem vocês não pudessem andar sem medo. Os Street Warriors são a melhor personificação da liberdade que este país nos promete. Terceiro e último caráter: Vocês estão acostumados a artistas que causam escândalos apenas para receber mídia gratuita, coisas que nós repudiamos, talvez por isso todos tenham formado uma imagem pueril do Dead Train. Mesmo a Rebby, com sua pouca idade, todos nós somos adultos jovens, os impulsos da adolescência estão ficando para trás, mas a vida de adulto que seus pais sempre dizem que poderão ter quando forem adultos, e que eu reitero, já bate à nossa porta. Não se escandalizem por causa de manchetes ou comentários de quem vive de nutrir polêmicas, pois o que muitos de vocês ainda não têm idade para tanto e seus pais já conhecem, já está acontecendo conosco. Assim que essa lei estúpida cair, só faltarão Rebby e Ron. Greg me pediu em casamento, depois que me viu naquelas photographias, ainda sem prazo firmado, mas eu aceitei. Tank you.

O público quase explode. Mais de cinqüenta mil fãs, os motoqueiros, mais jornalistas, paparazzi, vendedores de pipoca e cachorro quente, patrocinadores e público em geral, vibram com a notícia em primeira mão. Para seus pais ela sempre será seu favo de mel, mas eles sabem que esse favo pode originar uma colmeia a qualquer momento. Nos bastidores, Richard e Deborah abraçam a moça (...) por não ter medo de ser adulta; o que na prática vinha acontecendo desde os quinze anos, de forma perigosamente precoce, mas agora ela será adulta também nas cousas boas da fase. Só uma pessoa no mundo não gostou. Quem mais gostou até chora com a cabeça no ombro de Josephine (...) Pela primeira vez não sente mais falta de uma família, terá a sua com ela.

A repercussão na imprensa é a melhor possível, salvo pelos críticos de sempre, que a acusam de estar abandonando a imagem de inocência virginal, que a banda jamais teve. Quando Matthew é questionado, eles responde o que a própria Patrícia lhe disse, “Há hora de brincar, há hora de ser adulto”. A moça volta com sua banda para Michigan, por estrada, no ônibus, com Robert pai ao volante, que é acompanhado pelos amigos de motocicleta (...) eles percorreram aquele caminho quando iam para sua primeira e acidental apresentação, quando ainda podiam ser chamados de garotos. Deixam os músicos de apoio em Detroit e seguem para Sunshadow, cantando a bordo a música que se tornou o hino da cidade.

A primeira coisa que Patrícia faz (...) é pegar seu Corvair, baixar a capota e chamar todo mundo para um passeio pela estrada, que hoje o dia é de folga. Vão Nancy, Audrey e Melinda de carona, com os outros cinco pilotando ou de carona nas motocicletas. A liberdade que tantos adultos esquecem que têm, ao se permitirem amargar pelas agruras da vida, ela sente e compartilha agora. Tudo aquilo é resultado de seu trabalho, de ter conseguido dar tapas na face perversa do sistema, mas do jeito certo, o que traz resultados e ainda inspira respeito por parte dele. Protestar é simples, xingar é mais ainda, ela e seus amigos fazem as coisas acontecerem, atenuam a dor e a sensação de abandono de pessoas esquecidas (...) Nem pensam em entrar para a política, teriam que abrir mão de muito poder e prestígio para isso, mas principalmente, teriam que abrir mão de momentos como o que vivem agora (...) Em Sunshadow, tomado de uma ternura que não deixa transparecer, Richard fabrica mais componentes para os compressores personalizados, que serão montados por alguns dos motoqueiros, para eles terem remuneração e poderem se manter sem serem pesados para a cidade; quem quer ser livre dá a liberdade.

domingo, 14 de outubro de 2018

Dead Train in the rain LIX

   Mudanças, mas não muitas. A estação 59 traz a triste constactação de que a idade não traz maturidade, principalmente quando há dor de cotovelo no meio. Contem até dez e embarquem, o trem vai partir.


Patrícia chega de Los Angeles e vê a mãe com as duas pequerruchas à sua espera. O aeroporto é pequeno, mas atende bem às necessidades da cidade. Agora tem que dar três abraços a cada retorno (...) esperava dar um descanso ao Fusca da mãe, quando comprou seu Corvair Monza conversível, mas com uma cidade tão pequena e viajando tanto a trabalho, ele mal rodou duzentas milhas até hoje. Aproveitou para comprar os últimos detalhes que faltavam ao Cadillac...

- Hoje mesmo eu termino esse carro!

- Greg está melhor?

- Está, foi só um susto. Descobrimos a doença a tempo.

- Cardiopatia mesmo?

- Moderada, mesmo assim tomamos algumas providências, ele agora mora com Bart, para ter a Jose sempre por perto.

- Patty! Look...

- Patty! Rebby made, Patty!

As gêmeas pedem sua atenção. Não vão dizer muita coisa, só querem sua atenção mesmo. Ela as deixa chamar até encontrar um bom lugar para estacionar (...) apenas mostram os lacinhos que ganharam da “tia Rebby”. São apenas lacinhos simples, que Rebeca fez com fitas que embrulhavam um presente de São Valentin, acrescentando apenas grampos de cabelos. Elas não têm noção do quanto são ricas, e os adultos da casa preferem que continuem sem saber até terem juízo (...) Mikomi foi morar com Emily e Theodore, a convite do casal, que tem um quarto sobrando e um cômodo que ela agora usa como escritório.

Os outros cinco a esperam para terem notícias detalhadas de Gregory. São tranqüilizados, mas não muito. O rapaz terá que mudar bastante sua rotina diária (...) mas nada se comparou ao pedido encarecido da namorada. O clima fica meio triste no jardim, até Rebeca notar um brilho estranho...

- Rê! Isto é uma aliança?!

- Eu ia esquecendo... O Matt foi hoje cedo, lá em casa, com os pais dele. Agora estamos noivos.

Abrem o berreiro e carregam a amiga pelo jardim (...) então Richard vai cobrar uma dívida...

- Já ligou para o Tobby, Romeu?

- Ei, calma, eu estou ligando agora!

O sorrisão sem-vergonha estampa o rosto do grandalhão. Tobby conta imediatamente para todo mundo (...) avisa que vai hoje à noite para Sunshadow, para gravar a entrevista prometida. A imagem dos seis garotos de Sunshadow dá paulatinamente lugar à do sexteto adulto e experimentado, o anúncio do noivado vai consolidar de vez a fase adulta no show business. Rebeca é muito precoce e dona de si para ser chamada de “menina”.

O escritório (...) fica lotado de gente querendo informações detalhadas, inclusive apressados perguntando onde será o casamento. Mikomi manda a notícia para Tóquio, ainda que isso signifique acordar um colega exausto (...) Patrícia cumpre sua promessa, coloca os últimos emblemas no Cadillac e faz sua estréia com a banda a bordo, e saem fazendo barulho, chamando a atenção da cidade inteira para aquele aniquilador de gasolina. Renata (...) quer chegar ao local do casamento naquele carro.

À noite, na discrição do quarto que ocupa desde criança, Patrícia volta a ler um dos livros que estavam camuflados, um talmud comentado. Não é uma leitura de entretenimento, se cerca de alguns livros extras para consulta e conferência. Nancy bate à porta...

- Mikomi está na sala, quer falar com você.

- O que houve?

- Aquela garota estúpida, lembra-se?

- Eu não acredito que ela tenha voltado! É muito descaramento!

Descem e encontram a japonesa aflita, com um envelope amassado em mãos. Robert o jogou fora, não fez questão de ler, mas Mikomi leu...

- Nas primeira linhas parecia apenas um pedido de desculpas, mas no decorrer da leitura ela relembra os bons momentos e pede uma nova chance, me ofendendo.

- Deixe eu ver isto... Faz muitos anos que ela sumiu, mas lembro que tinha uma caligraphia entre sofrível e razoável, esta aqui é quase perfeita! Rebeca viu isto?

- Não, ela está na casa de Ron.

- Tanto melhor... Ron, é Patty, desculpe incomodar. Pode trazer a mascotinha, por gentileza? Sim, é relativamente urgente, diz respeito a Bobby.

Ela não espera Ronald terminar, se enfia no P50 dele e dispara, ele vai atrás, no Cadillac Fletwood 1965 do pai. Rebeca confirma a desconfiança da amiga, aquela letra caprichada não é daquela relapsa, é da mãe dela...

- Ela sempre foi imbecil, mas nunca teve esse nível de babaquice, nunca ofendeu ninguém de graça. Fica tranqüila, Miko, é a cobra da mãe dela tentando arranjar um genro rico e famoso.

- Como saber se ela não está de acordo com isso?

- É até provável que esteja, mas a chance dela é zero. Vai namorar, amanhã contamos pra ele.

Enquanto saem, Rebeca faz sinal para Patrícia, amanhã quer continuar o assunto (...) Ronald põe o P50 no porta-malas do Cadillac e conduz as duas. Patrícia se antecipa, conversa com o pai e ele conversa com os agentes carteiros, não demoram a descobrir algumas coisas interessantes. Na manhã seguinte, na universidade, os seis e Silvia se reúnem e Robert se aborrece com o conteúdo, mas fica atento ao que Patrícia diz sobre as brigas entre mãe e filha, que saiu de casa assim que fez dezoito anos. Como raramente, ele faz uma cara severa, explicitando sua indignação. Respira fundo, desfranze o cenho e dá seu recado...

- O nome do casal é Mikomi e Robert – diz com voz grave. O que está no passado, fica por lá. Agora vamos, nossas faculdades nos esperam, depois a Renata tem coisas a nos contar.

Silvia cutuca Enzo, que confessa jamais ter visto Robert fazer uma expressão desse tipo. Vão ambos para a faculdade de administração, Ronald e Robert vão para a de relações exteriores, Rebeca para a de direito, Renata para a de psicologia e Patrícia para a de engenharia mecânica. Como no colégio, eles são estranhados em seus cursos (...) e Rebeca responde no mesmo tom; rosnando. Novamente eles estudarão juntos no fim de semana, conciliando como puderem suas áreas tão distintas. Mas nenhuma turma estranha mais seus colegas famosos do que a de Patrícia (...) é uma mulher fazendo engenharia mecânica, não bastasse isso demonstra mais intimidade com as máquinas do que seus colegas, que raramente ou mesmo nunca sequer desmontaram um simples compressor de ar. As aulas teóricas quase nivelam, mas as práticas são totalmente dominadas por uma moça com mais de dez anos de prática...

- Você vai montar essa máquina ou vai fazer ensopado de metal?

Alguns começam a rir, quando ela despeja água quente no compressor que foi usinado com as medidas demasiadamente próximas, inviabilizando a montagem manual que a aula exige. Após lubrificar pistão e cilindro, ela despeja meio litro de água quente no segundo e enfia o outro lá dentro, calando as risadas, deixando queixos caídos e ganhando aplausos de alguns colegas (...) a solução simples poupou tempo e dinheiro da usinagem de outro kit...

- As leis da física também valem para as máquinas.

Diz e se retira altiva, ficando entalada em algumas gargantas orgulhosas, mas os outros a ovacionam...

- Patty, eu já era seu fã! Agora sou muito mais!

- Uma garota que entende de motores é um sonho!

- É verdade que você restaurou um Cadillac 1931?

- Sim, é verdade. Levei alguns anos, mas o Fletwood Sedan Imperial V16 já está trabalhando.

Ela detalha os serviços de usinagem, funilaria e electricidade que fez, arregimentando mais um punhado de seguidores, inclusive seu professor de metrologia.

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Em sala, Rebeca mostra aos colegas e professores um exemplar da constituição brasileira (...) em português, então ela mesma lê e mostra os absurdos que a deturpação da democracia pode produzir...

- Mas é horrível! Essa constituição tem mais brechas do que uma parede com infiltração!

- Quem redigiu esses textos, ou não conhece bem o próprio idioma, ou fez de propósito!

- Para o colega ver o risco que nós mesmos estamos correndo, com a população desinteressada por política e pouco atenta ao que os congressistas fazem no cotidiano. Sabiam que até 1962, uma mulher brasileira só poderia trabalhar se o marido deixasse? Mal faz quatro anos que essa lei caiu.

Legislação internacional não faz parte da licenciatura, mas a discussão que ela levantou acrescenta muito à aula (...) A mascote da turma fala ainda, sabido pela amiga, da farra dos cartórios no Brasil, que são um verdadeiro pesadelo para os advogados brasileiros, que têm que apelar para o chamado “jeitinho brasileiro”, muitas vezes com propinas e favores políticos.

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Renata, por sua vez, conquista a turma com sua simpatia e sua “tropical beauty”. Os professores também, mas (...) ela não é frágil como aparenta e os outros alunos acreditam. Em uma conversa reservada...

- Ra! Ra! Ra! Ra! Ra! Ra...

- Você, sua cobrinha em pele de colibri, é das nossas!

- Não fui eu quem alimentou estereótipos e começou a arrotar civilidade.

- Eu sei... Mas agora fiquei curioso, a que conclusões você chegou?

Ela analisou com cuidado e discrição todos os colegas (...) O egoísmo camuflado foi a tônica de suas observações. Já tinha alguma literatura, antes da faculdade, mas a convivência com a equipe da banda e a ajuda de Zigfrida são a base de seu desenvolvimento. A sueca sempre repete que toda a literatura do mundo não substitui o contacto com o paciente, ela simplesmente despreza psicólogos famosos que vivem de palestras, mas não têm a experiência prática de um estagiário...

- Muita gente tacaria pedras em mim, se ouvisse isso, mas eu concordo com sua amiga.

- Ah, esses intelectuais de ar condicionado! Por que eles não morrem?

A brasileira ri. Eles descobriram alguém de fora da docência com quem podem conversar coisas impublicáveis.

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Enzo e Silvia despertam um tipo a mais de antipatia, porque eles são o único casal da turma (...) podem namorar à vontade sem negligenciar os estudos. Enzo não só é um estudante bem sucedido, como trabalha duro e é bem sucedido, ele já é empresário, a banda é uma marca valiosa e ele estuda porque quer. A inveja corre solta na faculdade de administração de empresas. Professores invejosos lhe dão trabalhos que só seriam comuns nos últimos semestres do curso, mas como empresário de sucesso ele tem relações com executivos experientes e tira tudo de letra, levando a namorada de carona no aprendizado...

- Enzo Crepaldi... A+...

E os despeitados desabam em suas cadeiras. Não dá para dificultar ainda mais a vida do rapaz, está ficando muito na cara! Professores de outras áreas e disciplinas já comentam que há perseguição. Ele sai com sua namorada (...) para a biblioteca. Os outros vão (...) sozinhos, sem perspectivas de alguém para abraçar e repousar em seu ombro a cabeça cheia.

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Robert e Ronald agem como quando crianças, sincronicamente. Ver um negro no curso é um acinte para muitos naquela sala. Esse negro já ser bem sucedido é um tapa na cara. Já ter experiências diplomáticas na bagagem chega a ser humilhante. O pior, porém, é aquele terno com o brasão de família, que não os deixa esquecer que ele é um nobre, herdeiro de algo que nenhum deles jamais será. Mas também há os simpatizantes (...) que acabam recebendo da dupla um pouco da experiência em viagens laborais internacionais...

- Só imagine o seguinte – diz Robert – que um país pequeno já não precisa mais conquistar território para ser próspero. Ele não precisa sequer ter muitas fábricas, nem recursos naturais. A habilidade administrativa e a ação conjunta dos empreendedores desse país, podem facilmente fazer com que o fluxo do capital internacional passe por lá.

- Não que recursos naturais – diz o nobre – infraestrutura e um território não façam a diferença, fazem muita. Mas não são mais essenciais. Eu posso, por exemplo, sediar um negócio no México, aproveitando a mão de obra mais barata, usar os centros de pesquisa japoneses, uma engenharia saxônica para a estrutura física e um bom marketing americano. Os motivos para conflitos hoje, são outros, a diplomacia não pode mais se apegar aos argumentos de antes da guerra.

Citam bibliogaphias, sim, mas se apoiam mais em sua experiência, já são habitués em eventos internacionais, são amigos de monarcas e premières, conhecem bem os bastidores de muitos governos, como todos da banda, inclusive os músicos de apoio.

sábado, 13 de outubro de 2018

Dead Train in the rain LVIII

    Eles nunca mais serão os mesmos. A estação 58 finaliza a primeira fase da trama, preparando os apuros da próxima. Embarquem e relaxem, o trem da vida nunca para.


Vão para Nagoya. Uma reconciliação simbólica entre América e Japão se dá com intimidade, dentro do ônibus (...) ela divide as atenções entre a narração pelo caminho e o garoto americano. Ficarão em outro hotel, pois a arena (...) remontada em Nagoya. A recepção é mais festiva, influenciada pelas notícias do show anterior. Os opositores dos jogos, fartos da mesmice nas mídias, vêem no Dead Train a alternativa de entretenimento. Ainda mais quando sabem que há dois caratecas no meio. Os mais instruídos ligam rapidamente o nome da banda à lenda do trem fúnebre de George Washington, acrescentando uma aura de cultura e tradição à banda, em oposição ao apelo cada vez mais mercadológico dos jogos.

Conversam amenidades até a anfitriã terminar a conversa com a gerência, se alojam e vão conhecer o Castelo de Nagoya (...) réplica muito precisa do original, destruído pelos bombardeios. A construção é típica, com telhado curvo de quatro águas, mas revestido de outro 18K, mais águas furtadas a partir do segundo pavimento (...) enriquece mais o trabalho dos repórteres americanos. Poderão sugerir uma pauta extra com as photographias que já têm do Japão.

Até a noite do show, eles conseguem fazer seu papel informal de diplomatas, deixando nos japoneses a impressão de que existe vida inteligente fora do Japão; não muito diferente da mentalidade do americano médio. Outros artistas americanos acabam sendo beneficiados pela boa impressão que deixam. Voltam ao hotel em Tóquio para descansar e se prepararem para a viagem de volta. Mikomi vai sair do Japão pela primeira vez (...) Ela confere a documentação, pega alguns exemplares de vários números da revista, material sobre o Japão, sua pequena bagagem e vai para o hotel, já a esperam para irem ao aeroporto. Pagou o último aluguel e pediu ao senhorio que deixasse a mobília para um jovem em início de vida, para que não enfrente todas as mesmas dificuldades que sofreu em Tóquio. O sorriso da moça é escancarado, ela não consegue disfarçar nem forçando.

As longas horas de vôo não chegam a ser cansativas (...) Menos ainda para a passageira extra, que não está nem aí para a janelinha, com a cabeça no ombro de Bobby, sem conseguir parar de sorrir mesmo adormecendo. É um dos momentos em que (...) qualquer palavra desnecessária quebraria o encanto da ocasião. Ela suspira várias vezes, até a hiperventilação dopar o cérebro e adormecer de vez. Na fileira ao lado, Rebeca e Ronald torcem para que essa moça um pouco mais velha consiga sarar o coração do rapaz.

A aeromoça avisa e todos acordam, estão chegando a Los Angeles. Mikomi vê pela primeira vez uma cidade americana ao vivo. Fica encantada com as ruas largas e longas, e assustada com o tamanho dos carros (...) Tudo lhe parece ser gigantesco. O avião pousa e ela vê uma multidão, que há horas espera pela volta da banda. É hora de a dupla da revista iniciar a última fase de seu trabalho, desce logo atrás de Matthew (...) Richard sai olhando para todos os lados, se tranqüilizando quando vê Josephine e Grant à sua espera. Atrás dele vêm Patrícia, Enzo, Renata, Rebeca, Ronald e Robert de mãos dadas com a assustada Mikomi. A imprensa fica eufórica ao ver a cena, teleobjetivas fazem valer seu preço. Patrícia corre para o abraço de que a diva já sentia muita falta. Ela é simpática com Mikomi, que fica trêmula, mais do que quando ficou a poucos metros do imperador (...) Zigfrida faz sinal de positivo e vão para o ônibus. A japonesa fica ainda mais encantada com a paisagem, além de com o assédio de fãs e paparazzi, que a photographam insistentemente. Ao contrário dos outros, que estão animados com a volta para casa e a perspectiva de muitos dias de folga com dinheiro no bolso, ela está assustada. Se assusta ainda mais vendo um verdadeiro palácio imperial se avolumando, e o ônibus não se desviando dele. É tudo muito diferente da rotina prosaica e previsível que tinha em Tóquio. Patrícia corre para frente quando os portões se abrem e vê com nitidez quem a espera...

- Mommy? MOMMY!

Mal espera a porta se abrir e corre em seu terninho azul, serelepe para a mãe, que não pôde ir ao aeroporto por causa das gêmeas...

- Mommy... Mommy... My mommy...

- My baby...

Até soa estranho os termos saírem das estaturas inversas, mas a cena comove Mikomi. As duas se grudam, como que tentando se unificar para nunca mais se separarem. Elas choram de alegria, Nancy sente o coração leve como nunca sentiu em sua vida. Assim que se dão por satisfeitas Richard tem vez, ele beija e carrega a esposa nos braços para dentro do palacete, onde uma refeição farta vai quebrar a dieta rígida do front de batalha, enquanto Patrícia se dedica ao seu romeu, ele resistiu bravamente às tentativas de sabotagem à sua autoestima. A novata será observada durante a refeição, para isso alguns pratos japoneses e alguns hashis foram providenciados (...) os regressos se atiram à gula, agora podem comer à vontade até passarem mal. Não chegam a passar mal, os estômagos encolheram um pouco com os rigores alimentares, enchem rapidamente...

- Olha! Eu comi, e você não pôde me impedir!

- Bife grelhado, eu te amo!

- Minhas batatinhas queridas! Quanta falta senti de vocês!

Patrícia ri dos novatos. Ela (...) reconhece que às vezes pecou pelo excesso de zelo. Por agora, porém, está muito entretida com a mãe e as irmãs para pensar em outra cousa que não seja sua família. As pequenas estão grandes, fortes e travessas! Vão aproveitar um pouco de privacidade (...) para voltar a experimentar a sensação de serem indivíduos, em vez de membros de uma banda; depois vão conversar com sua tutora sobre os resultados acima do esperado, Josephine tem uma surpresa agradável para eles.

Antes, porém, quer falar reservadamente com Robert e Mikomi. Sem cerimônias leva-os abraçada a eles ao seu escritório, ficando entre os dois no sofá que dá para a janela do jardim. Ela fala com carinho (...) Dá suas tradicionais e cordiais alfinetadas, como “Antes de tudo, você é uma fã, estou certa de que esse relacionamento não vai causar problemas para a carreira do Bobby”, como uma advertência sutil para ambos “Fora de Sunshadow, eu sou a mãe deles” também entra na conversa...

- Diga, Mikomi, pretende vir morar nos Estados Unidos, se for o caso?

- Eu já abri mão de muitas coisas na vida, senhora De Lane, uma mudança de país não está fora de questão.

- Muito bom saber. Bobby, eu vou contar a ela sobre seu caso, então segure sua mão. Bem antes de formarem a banda, ele teve uma namoradinha com aproximadamente a mesma idade, no colégio onde ainda hoje estuda.

- Oito meses mais velha, Jose.

- Você tem mesmo queda por mulheres maduras! Mas maturidade não parece ser uma virtude daquela garota tola...

Ela conta resumidamente o que aconteceu e Mikomi aperta a mão do rapaz, com Josephine no meio, estudando os dois (...) Saem em meia hora com certos pontos claros, Josephine vai a Rebeca e diz que fez sua parte, mas parece que está tudo bem. A garota pula em seu pescoço e abraça forte...

- I love you, Jose. Tank you.

- Je t’aime, ma petit fleur.

Exprime em gratidão e sigilo o imenso amor que tem pelo irmão (...) Lá fora, Grant também espera pela oportunidade de falar com o casalzinho, mas deixará para depois de Josephine revelar a surpresa. Para tanto são todos levados a Hollywood, com a japonesa cada vez mais encantada, anotando tudo mentalmente. Descem diante de um prédio discreto de tijolos aparentes e três pavimentos muito envidraçados, que iria ser demolido, com uma pequena multidão em frente, mas que serve perfeitamente aos propósitos da francesa. Na fachada há o emblema da banda com “Central Office” na parte de baixo. As pessoas que esperam do lado de fora são os funcionários que os estúdios selecionaram...

- Mes amis, meus parabéns, agora vocês têm seu próprio escritório...

Ela entrega a chave a Patrícia, agora encarregada de inaugurar a sede dos negócios da banda. A rentabilidade e o volume de negócios justificaram a abertura do escritório. A moçoila sobe serelepe os três degraus, põe a chave e abre as portas. Os funcionários já sabem onde trabalham e o que fazem, foram bem treinados durante a turnê. A sala de espera é quase uma reprodução da sala de estar de Patrícia (...) Nas paredes, pôsteres individuais e em conjunto dos garotos, as luminárias imitam os velhos e ainda funcionais postes de Sunshadow, a recepção é inspirada em uma estação ferroviária do século XIX; é esta a ala de livre acesso. Atravessando a porta de vidro entra-se em uma sala ampla, com sofás, mais pôsteres, grandes janelas laterais, cafeteiras, chás, sucos, alguns biscoitos e bombons no aparador, revistas e almanaques da banda, uma secretária executiva e dois acessos a sanitários amplos. Uma porta leva à copa (...) A escada ao lado da secretária leva aos ambientes de trabalho (...) Uma sala de reuniões, uma de lazer com os discos de ouro na parede e uma biblioteca, no terceiro pavimento há suítes e uma sala de música. Um elevador foi adaptado, para o caso de alguém não poder subir os degraus (...) Nada de muito grande nem luxuoso, mas como eles ficam felizes com a surpresa! De todas as salas se vê um quintal onde a praça do trem morto foi reproduzida em escala, eles tratam de descer (...) Pulam juntos, felizes naquela pracinha ajardinada, com uma piscina bem ao lado do muro do estacionamento (...) Os rapazes da revista têm mais material do que imaginavam, Matthew não consegue apenas photographias excelentes e em primeira mão, vê a carinha de felicidade da namorada irradiando alegria. Eles trabalharam muito! Sofreram muito! Não houve um só momento em que pensassem em desistir, principalmente com sua líder empurrando todo mundo, mas às vezes o aclive parecia íngreme demais para seis adolescentes. Josephine sabe disso, por isso faz questão de dizer que aquele belo escritório é fruto do seu trabalho, e que seu pessoal já está trabalhando com contactos e contractos da banda...

- Nada disso é presente, meus queridos, embora vocês mereçam. Tudo isso é fruto do trabalho de vocês, essas vinte pessoas só estão aqui porque vocês precisam delas. E afinal, o que são bons empresários sem uma boa secretária?

É abraçada e beijada como gostaria de ser pelo filho que perdeu. É uma maternidade virtual e meio torta, mas é uma maternidade. Agora eles fazem questão de conhecer seus empregados, querem intimidade, olhar nos olhos e poder ligar para a copeira a qualquer momento. Os novatos também ficam encantados, pasmos com o escritório, especialmente após Grant dizer que eles também fazem parte da equipe, e que por isso também podem e devem usufruir da estrutura. Só depois da euforia é que descobrem que Nancy está por trás de tudo, foi em uma das conversas com Josephine que elas concluíram que os negócios dos garotos estavam maiores do que a sala de casa (...).

Matthew aproveita a estrutura e faz lá mesmo a reportagem sobre a sede, um garoto da equipe vai rapidamente levar o filme para revelação, no mesmo dia ele manda por encomenda urgente o material para o Coast to Coast News, que tem um acordo formal com o Sunshadow’s News, já alertando o editor por telephone; tudo isso sem precisar pedir algo emprestado, agora está usando a estrutura da banda da qual, aliás, é o “funcionário” mais antigo. Vai feliz da vida, todo pimpão, contar aos outros. Fãs, imprensa ordinária e populares não tardam a saber e coalhar a frente do sóbrio escritório. São todos convidados a conhecer o primeiro pavimento, aos poucos, pois não cabe todo mundo lá. As perguntas sobre a turnê estão liberadas, desde que sejam simples, porque estão todos exaustos.

Enquanto a muvuca se formava, Grant conversava com Mikomi e Robert (...) Sugeriu que ela se hospede na casa de Patrícia, que tinha pensado na mesma coisa. Voltam para Sunshadow de manhã bem cedo, os novatos seguirão em outro vôo, para Detroit (...) Patrícia repassa o que tem a fazer em Sunshadow, inclusive arranjar acomodações para quarenta e poucos agentes já não secretos, mais suas famílias.

&

Ah, o cheirinho do lar, a relva úmida do jardim, as folhas farfalhando e a tranqüilidade da rotina próxima do normal. Ah, a assustadora cena de quase mil e quinhentas libras de chocolate empilhado na sala...

- Oh, God... I forgot this...

- Aqueles chocolates todos que eles ganharam na Europa, Mikomi, mandaram tudo para cá.

- Passo a vida inteira comendo e não acabo com tudo. O que farão?

- I don’t know! Oh, yes, I know! Vou dar quase tudo para Mr. Brook! Escolham os seus.

- E aqueles carrinhos de crianças, que você mandou para cá?

- Os Peel P50! Quase me esqueci! Não são de criança, mãe, são carros de verdade.

- Você está brincando?

Não, ela vai ao quintal, escolhe um azul claro, entra com dificuldades e demonstra. O carrinho do tamanho de uma mochila profissional faz misérias na rua estreita (...) Nancy e Mikomi escolhem os seus e também brincam, só Richard fica olhando, porque simplesmente não cabe de jeito nenhum.

À tarde os outros aparecem, compartilham da idéia de doar os chocolates e escolhem os seus P50, com seu parco motorzinho de três polegadas cúbicas. Enzo escolhe um rosa intenso para Silvia, que ainda não viu desde que chegou...

- Enzo!

Ah, lá está ela (...) Já estava emagrecendo desde a decepção com a mãe, a ausência do amado lhe tolheu de vez o apetite. Ganha dez libras do melhor chocolate, para ajudar a se recuperar. Por hoje é a rotina que já lhes parece leve, mas amanhã começam a trabalhar duro de novo, embora nem de longe se compare à loucura das turnês.

Patrícia e Richard vão conversar com Daniel, falam de gente do governo que conseguiu inimigos demais, por se jogarem de peito aberto nos interesses do país. Ele sabe que a banda conseguiu relações próximas com gente poderosa, fica entusiasmado com as perspectivas e esperançoso de que Sunshadow retome seus dias de ouro...

- Então vou fazer uma ligação e darei o sinal verde, enquanto isso vocês vejam as casas disponíveis... Bom dia, mariposa, não é cedo para polinizar?

Daniel conhece o amigo desde criança, acredita que está novamente sendo gentil com uma dama, mas só passou uma mensagem cifrada para um rapaz que o transfere para o Capitão Krumb. O oficial fica feliz por terem conseguido arranjar tudo tão rápido, mandará imediatamente uma mensagem para a CIA e o Pentágono, avisando que os agentes já podem se mudar para seu novo lar...

- Muito obrigado, Brain!

- Cuidarei de sua irmã como se fosse minha irmã, Fly.

Após anos de aflição, finalmente Krumb poderá visitar a irmã quando quiser, sem o risco de ter uma péssima notícia do alto comando. Não deixarão de ser agentes do governo, mas (...) proverão a demanda reprimida de serviços públicos da cidade. Uma boa verba é imediatamente liberada para construir escolas, um novo hospital, biblioteca, mais praças, uma inédita estação de ônibus e instalações secretas compactas, que ficarão alguns metros abaixo dos alicerces.

Eles chegam com suas famílias aos poucos (...) quase duzentos habitantes a mais, todos com funções já definidas, todos recomendados pela cidadã mais bem quista. Os novatos se entrosam rápido. Dois carteiros são especialmente festejados, porque o actual não se aposentou por falta de quem assumisse as funções. Com os novos degredados, como dizem os sunshadowers, vem também uma maciça renovação urbanística (...) e as crianças da cidade não precisam mais ir a Summerfields para estudar. Com esses prédios novos, a iniciativa privada investe e mais prédios novos abrigam novos negócios, com arquitetura bem contemporânea. Em dois anos a Sunshadow original é cercada por uma nova, com várias e enormes praças arborizadas separando-as em um anel viário. Agora a população passa de cinqüenta mil habitantes, todos devidamente integrados à philosophia que permitiu a sobrevivência da cidade. Todo cidadão que se preze tem em casa um espesso exemplar da Life que cobriu a turnê do Dead Train.

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Dead Train in the rain LVII

    Ohayô, Japão. A estação 57 traz a cura de uma ferida precoce, porque mesmo o pior mal é passageiro, que não tem bilhete e será jogado para fora do trem.


Desta vez se hospedam em um transatlântico ancorado (...) por insistência da agência dona do navio, que queria muito essa publicidade. A cidade tem jeito de interior bem desenvolvido, mas é a capital do Líbano. Vão à arena do show, fazer o reconhecimento e ensaiar um pouco. Há um pequeno buffet no local (...) o capitão do navio alardeia que o Dead Train está hospedado na nave, e seguirá com eles à Paris. Repleto de turistas americanos, a embarcação vira uma muvuca. Quando eles voltam do ensaio, o assédio começa. É quase como estar em solo americano, pelo menos os novatos ficam mais à vontade.

Um aviso na porta do camarote informa “Não perturbe, estamos estudando”. Custa (...) acreditar que alguém a bordo não seja tripulante e esteja trabalhando. Os adultos se revezam em duplas, inclusive os novatos, para garantir que não serão mesmo perturbados. As horas de estudos finalmente terminam e eles podem descansar as mentes. Patrícia encontra o pai na ponte (...) que photographe o que quiser para ter boas recordações, porque tudo aquilo está no meio da guerra fria, e entidades religiosas radicais se aproveitarão disso para gerar o caos e forçar as pessoas a se converterem. É como a maldição de Cassandra, as pessoas comuns não vão acreditar mesmo que conte com detalhes; uma frustração comum entre agentes.

Pois o show é feito como um presente de despedida (...) Tudo feito com carinho, com direito a candores descendo do palco e indo cantar no meio do público. Estendem o espetáculo por meia hora para só então voltarem ao navio, que parte amanhã cedo para Paris. De agora até o desembarque poderão usufruir de um descanso, embora tenham concordado em cantar para os passageiros, quando estiverem refeitos. Passam para mar aberto, mas não muito longe da costa do Mediterrâneo. Por alguns dias, os garotos voltam a ser garotos (...) Patrícia tem o estranho hábito de visitar a casa das máquinas, para entender o funcionamento da embarcação, coisas de mecânica com vocação para o ofício. A imprensa que a acompanha não deixa de registrar esse bônus para a matéria. Daqui até Tóquio, nenhuma responsabilidade além dos estudos.

&

Em princípio pareceu loucura fazer dois shows em época de olimpíadas (...) mas há muitos japoneses insatisfeito com os gastos que elas demandaram, principalmente após as desapropriações que causaram, muita gente está disposta a gastar os tubos com souvenires da banda só para mostrar que não colocou um iene do próprio bolso naquela “ofensa ao japonês honesto”. Os ingressos se esgotaram rapidamente em Tóquio e Nagoya. O governo, para não dar o braço a torcer, prefere não dar a atenção diplomática que todos os outros países ofereceram. A imprensa prefere seguir a mesma linha, ficando a poucas publicações a tarefa de cobrir os cinco dias em que a banda ficará no Japão, inclusive a que trabalhou para eles virem...

- Já terminou?

- Sim, terminei. Não demora muito para mandarem resposta.

- O senhor Suzuki está arriscando muito, como um salmão subindo a correnteza.

- Eu sei, senhorita Watanabe, mas não teríamos chance alguma entre aquelas empresas grandes, cobrindo as olimpíadas. Se vocês quiserem sair, ainda há tempo, eu compreenderei.

- Não, eu fico.

- Eu também. Vamos fazer o melhor que pudermos, né!

- Obrigado! É uma honra ter empregados como vocês. Agora vamos trabalhar.

Watanabe. Watanabe Mikomi. Miko para os amigos. Expulsa de casa por ter flertado com um italiano (...) sua família é das que ainda hoje alimentam a xenophobia, especialmente contra ocidentais. A jovem passou fome, até ir para Tóquio e arranjar um emprego de faxineira na redação da revista. Dormia lá mesmo (...) até ser promovida e poder alugar seu apartamento, onde mal cabe sua moradora. Foi uma das primeiras japonesas a cair nos encantos do Dead Train, e ficar caidinha por Robert, foi ouvindo seu disco que Suzuki Soishiro enxergou a tábua de salvação (...) o nome de família vem antes do pessoal, no Japão. Mikomi é a encarregada de ciceronear a banda, é a única que fala inglês entre eles.

Embora focada nos jogos, a televisão não pode ignorar a multidão que se forma para recepcionar a banda no aeroporto. Por conta da diferença gritante de dicção, só Enzo é chamado pelo nome, os outros o são pelos apelidos, assim, após Matthew e Richard, descem Patty, Rê, Rebby, Bobby, Ron e Enzo. Histeria aqui não existe, ainda, os fãs balançam faixas, pôsteres, discos e cantam como podem algumas obras.  Mikomi está lá, de coração na mão, com Soishiro e mais dois colegas. A timidez faz parte da cultura, então (...) Deixam os nativos à vontade, permitem abraços, photos, dão uma canja e vão para o ônibus.

Reconhecem os ocidentais de cara, são os paparazzi (...) Alguns japoneses até apontam, pois viram sua chegada pela televisão, mas a maioria está muito entusiasmada com as olimpíadas. Não foi fácil para a organização dos shows encontrar um hotel disponível, mas os fãs ajudaram na empreitada, alguns até ofereceram suas casas, caso não conseguissem. O hotel foi todo decorado com as cores da banda, com um pôster enorme tomando uma parede do hall. Todo mundo muito simpático, mas sabem que japonês (...) aplaude até mariposa levantando vôo. Mikomi reitera ao gerente as recomendações, inclusive sobre os horários de estudo dos garotos...

- Então eles estudam e trabalham? Isso é muito bom!

- Sim, muito bom e um bom exemplo para os jovens! Por isso sou fã deles. Patrícia e o senhor Gardner são praticantes de caratê. Poderá vê-los treinando de manhã cedo, durante os exercícios matinais.

- Oh! Arigatô! Gostarei de ver esse treino!

Se traduzido literalmente o japonês faz pouco, até nenhum sentido nos idiomas ocidentais (...) A banda por sua vez, aguarda sua cicerone para se comunicar a contendo com os empregados do hotel, tão tímidos quanto encantados com as “moças altas e de olhos vivos” do ocidente. Ela chega e dá as instruções, então vai ter com eles. Richard se antecipa...

- Muito obrigado pelo convite e pela recepção, senhorita Watanabe.

- A honra é toda minha, senhor Gardner. Temos muitos fãs que ficariam tristes se vocês não tivessem aceitado nosso convite. Eu estou à disposição de vocês.

- Poderia começar nos dizendo quem é essa moça tão simpática.

- Qual moça, Patty?

- Você.

Matthew registra tudo. A edição de fim de ano vai ficar melhor do que esperavam. A japonesa encabulada fala um pouco de si (...) mas ela sozinha moveu toda a máquina gigantesca que possibilitou a vinda da banda ao Japão, o que acabou sendo a diferença entre o sucesso e a falência da revista em que trabalha.

Meia hora depois, lá está a plaqueta em japonês: Não perturbe, estamos estudando (...) os adultos têm uma conversa informal com a anfitriã, após saberem de sua história triste. Ela alerta para não tentarem entrar em qualquer lugar, pois alguns não aceitam quem não for japonês, a presença de negros, então, causaria horror aos mais tradicionalistas...

- Mas não se preocupem, eu estarei com vocês e direi onde serão bem recebidos, há muitos lugares que recebem bem os estrangeiros.

Na suíte (...) entregam o que resolveram para ser copiado e enviado a Sunshadow. Descem ao deck da piscina para encontrarem os adultos, a moçoila chega por detrás do pai e se aconchega abraçada a ele, carinho retribuído prontamente. Mikomi lamenta avisar que esse comportamento (...) não é bem aceito em qualquer lugar.

A arena montada para o show impressiona. É provisória, mas não parece. Tudo muito bem encaixado, acabamento esmerado, materiais de boa qualidade, não dá para acreditar que contêineres marítimos velhos foram usados para montar tudo (...) Há espaços para lojinhas, lanchonetes, um ambulatório e o camarim. Richard pede que os operários subam ao palco (...) eles sobem sem medo e então são encabulados, a equipe da banda os aplaude e ovaciona vigorosamente, com tradução de Mikomi, afirmando que nunca viram um serviço tão bem feito e rápido em suas vidas. Fazem questão de apertar a mão de cada um, antes de iniciarem o primeiro ensaio.

O esmero do trabalho da banda também rende elogios, especialmente da fã ardorosa que vê um ensaio pela primeira vez...

- Um pouco... Mais um pouquinho só... Está bom. Vamos tentar de novo. Enzo, manda ver!

O ensaio termina já quase anoitecendo, quando os operários vão embora, encantados, e espalham a boa impressão que tiveram (...) não cansam de dizer que foram aplaudidos pelos astros do show por causa do bom trabalho que estão fazendo, para um japonês é uma honra enorme. Isso vai para ambas as revistas.

O hotel pára para ver. Patrícia e Richard descem para os exercícios matinais diários, se aquecem, se alongam, malham pesado e se concentram. Mal começam e os japoneses passam a ter pena de quem se puser no caminho do mecânico. Não fazem idéia de em que lugar do ocidente ele possa ter aprendido um caratê tão bom (...) A combinação do caratê de alto nível com uma força bruta muito acima da média chega a assustar, mas fascina os espectadores. Só Rebeca não se assusta, fica ansiosa por aprender aquilo, já prestando atenção aos movimentos. Assim que terminam a baixinha vai a eles e ataca Patrícia, que se defende, ela ataca novamente várias vezes e em todas há boas defesas, até se dar por satisfeita...

- Por que isso?

- Adiantando meu aprendizado. Já saquei alguns macetes.

- Ah, não! Você me enganou!

- Eu?! Eu avisei que ia prestar o máximo de atenção! Você sabe que eu aprendo rápido.

- Mesmo? Mostre o que sabe.

Ela mostra (...) Patrícia instintivamente corrige a postura, os movimentos e centra o corpo da encrenqueira. O resultado melhora muito, mas ainda falta-lhe disciplina. Por hoje chega (...) têm trabalho a fazer. Não há coletiva, mas darão uma entrevista à revista de Mikomi, cujo nome faz Renata soltar risinhos sempre que ouve. Matthew vai ter com ela...

- O quê?!

- “Mikomi” em português soa como “me come”, que é “eat-me”, que tem conotação sexual. Quando a gente se casar, você me come, entendeu?

- Agora eu estou entendendo! Essa mulher não pode nem pensar em ir pro Brasil!

- Quem?

Pronto, Rebeca trata de espalhar a piada (...) A piada só dura até eles serem a piada, quando vão aprender a comer com hashi. Ossos da diplomacia. Usar como palito não vale, tem que ser como pinça, com os dois pauzinhos juntos. Quando pegam o jeito, sentem-se idiotas por não terem conseguido antes.

&

O passeio por Tóquio fascina, construíram rapidamente uma cidade futurista onde havia escombros de guerra (...) foco na eficiência e na necessidade de errar o mínimo possível (...) A fauna automotiva é endêmica, volante à direita, carros de tamanho europeu, mas alguns modelos inspirados claramente nos americanos; Honda, Kawasaki, Mazda, Mitsubishi, Nissan, Subaru, Suzuki, Toyota... A quantidade de marcas fortes atesta a recuperação econômica do país. Mikomi se prontifica a identificar todos, prometendo arranjar periódicos especializados para Patrícia, de vez em quando perguntando a Robert se ele gostou de algum, e ele dizendo que o preferido dela seria também o seu. Sim, tem pilherias a bordo por isso.

A entrevista é íntima. Fora a equipe da revista, só a que acompanha a turnê está lá. Algumas perguntas beiram a ingenuidade, mas eles ajudam (...) O que eles esperam do show? Que valha cada centavo e cada minuto que o público tiver empregado. Às vezes um deles se senta bem ao lado do nativo que fez a pergunta, então as questões ficam mais interessantes, tomam coragem e falam dos namoros dos integrantes, do sucesso de Bobby com as mulheres maduras, do deslumbre dos novatos, a onipresente figura de Richard, quando vêem têm muito mais material do que pretendiam, de texto e photographias. Agora vão ao hotel, rever alguns planos e se preparar para a noite do show.

O sucesso dos shows dirá se a revista terá os patrocínios que pleiteia para sua matéria, e se tira corda do pescoço. Se depender dos fãs, eles podem começar a montar o próximo número, porque há um início de congestionamento na via de acesso à arena. A televisão vai ver do que se trata e dá involuntariamente publicidade para a banda, de quebra à revista (...) Os fãs que ainda chegam fazem barulho, ajudados por soldados americanos que conseguiram ingressos. Quando o ônibus aparece, os astros descem e trocam figurinhas com seu público, então entram. O cinegrafista e o repórter da televisão ficam espantados com a intimidade, é algo que vale à pena mandar para a edição do telejornal de hoje.

A manhã seguinte é de festa na redação da revista (...) O jornal matutino repete a matéria e Mikomi traduz (...) Os cabelos curtinhos e volumosos a fazem lembrar um pouco Rebeca, só que bastante recatada; as duas até se dão bem, têm quase a mesma estatura, são ambas as mais voluntariosas de seus grupos, já tiveram conversas sérias com seus pais por causa de relacionamentos apressados, embora Rebeca tenha se dado bem, enfim, até dividem um dos assuntos preferidos...

- Ô, Miko, me fala uma coisa, você tá de olho no meu irmão?

- “De olho”?

- A fim dele, gostando dele pra namorar, se é que me entende.

- Eu sou uma fã e... Você é mais esperta do que parece, Rebby. Mas certamente há milhares de outras que também...

- Só não magoa ele, tá? Só isso. Bobby, vem aqui. Até parece que eu sou a irmã mais velha... A Miko quer ter uma palavrinha contigo.

Deixa-os a sós, vai ligar para Sunshadow (...) Ninguém atende, então liga para o hotel onde sempre se hospedam, quando vão para Los Angeles. Fala com Josephine a respeito, avisa que a moça também tem seu histórico de desilusão amorosa, que pagou caro por isso, que é bonita e tem vinte anos...

- Você está muito esperta, para a sua idade!

- Foi mal, defeito de fábrica. Então, acha que a gente pode esmiuçar a vida dela?

- Como você sabe que é uma paixão e não uma... Ok, você sabe diferenciar... Eu estou ouvindo suas risadinhas. Rebeca, se tudo der certo para isso, eles ainda terão um grande problema.

- Eu sei, um oceano gigante separando os dois, mas vamos por partes... Um instante... Uhuuuu! Eles estão se beijando! A Frida vai ter mais trabalho!

- Mon dieu... Tragam essa moça. Na pior das hipóteses ela terá uma boa matéria para sua revista, mas eu quero conhecê-la assim que vocês descerem em Los Angeles.

- Falou, Mamãe Urso II. Acho que ela vai infartar quando souber que vai te conhecer, mas vou tentar ser sutil. Te mando respostas.

Mas ela não espera, liga para o hotel e manda chamarem Richard, usando um cognome é claro. Ele confirma, diz que gostou da moça, que é o tipo de gente que se daria bem em Sunshadow e garante que ficará de olho nela. Desliga quando ouve um corpo caindo no chão, depois vendo Robert carregar Mikomi desmaiada, nos braços. Saber que Jose De Lane quer conhecê-la foi demais para ela.