segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Avada Kedavra Pride



Essa é a Hermione Granger, ops, Emma Watson. Como podemos ver, ela está curtindo um sol com o namorado (focalizem que boquinha sexy). Não dá, não dá...Que barriga é essa? Ewww. Verminose define!
Eu tenho total consciência de que a Hermione não é nem de longe uma personagem descrita como bonitona e talicoisa, mas ewww...ecaaww. Isso meio que acaba com a magia, não acham?
É um choque de realidade ver a Hermione "Nerd" Granger na praia parecendo um dementador com esquistossomose.


Eu passo, viu? Prefiro as fotos da Emma na Vogue:


Bom mesmo era no tempo da Audrey e das outras divas: nenhuma artista colocava os pés na rua sem estar com a aparência minimamente digna. Pode até parecer radical, afinal com certeza eu já apareci meio tosca em algum lugar - todos nós. Mas nada me tira da cabeça de que é obrigação desse povo aparecer bem, não faz parte da profissão? Essa realidade de barrigas de lombriga e de calcinhas pra fora acaba com o glamour. Sem mais.

sábado, 28 de novembro de 2009

Coitadinhos Culturais

É uma época triste esta em que vivemos. Aparentemente tudo está mais barato, fácil e rápido, talvez por isto mesmo seja triste.
Enquanto criticam contradições e preconceitos de décadas anteriores, as pessoas criam novos sob as vestes de "resgate histórico". Não falarei dos sistemas de cotas, que têm o prodígio de legalizar o que a ciência e os magos negam: a existência de raças humanas; e ainda transformar em assistido quem teria condições de lutar por si mesmo, se os métodos fossem mesmo o da justiça. Também não falarei das inúmeras bolsas oficiais, cujo uso meramente político está transformando membros de um povo tradicionalmente trabalhador em indigentes, que se recusam categoricamente a aprender uma profissão para se tornarem independentes da ajuda. Também deixarei para outra ocasião a contradição que permite a uma criança sob plena pressão hormonal votar em pleitos federais, mas a impede de aprender uma profissão e arcar com suas faltas, ainda que na medida de sua compreensão. Da desastrosa maneira como a educação está sendo desmontada já falei e voltarei a falar em momentos oportunos, no plural mesmo.
Trato hoje da cultura nacional de massas. O Brasil já foi celeiro de valor inestimável no campo musical, hoje é uma tragédia continental de artistas inexpressivos que precisam de apelações baixas para alçarem vôo. Não falo da apologia à promiscuidade e ao banditismo que ditos estilos de cunho pretensamente popular imprimem, isto é tão notório quanto tolerado pelos pais e divulgado pela televisão. A tragédia vem justo de nossa moribunda MPB, que já rivalizou com a liberdade da POP Music em plena ditadura. Eram tempos muito difíceis, quando o próprio governo estimulava o gosto pelo estrangeirismo. Os brasileiros contavam tostões enquanto Bee Gees emplacavam sucessos seguidos com o apoio do cinema. Mesmo assim faziam sucesso, criavam músicas históricas. Roberto Carlos homenageou Caetano Veloso, então exilado, em plena vigência do AI-5, com uma música que se tornou uma jóia cultural, não só pelo valor histórico.


Me pergunto se não foi justo a grande dificuldade o fertilizante de obras-primas que os incompetentes de hoje são incapazes de reproduzir, mesmo com softwares de correção vocal, inexistentes à época. As imensas dificuldades obrigavam o artista a perseverar, conquistar não só o púbico jovem, mas também quem pagava suas contas. Os pais podiam até não gostar, mas tinham que dar o braço a torcer para o nível das canções. E mesmo os generais davam o braço mesmo a torcer. Era necessário colocar a mão na massa, panfletar, conseguir um público local, convencer uma rádio a tocar a fita cassete. Na época não havia como gravar algo no computador e divulgar o demonstrativo pela internet. Não havia internet e computadores ainda eram cousas de Estados e grandes corporações. Era necessário convencer a gravadora a fazer a matriz para imprimir, a quente, as músicas em um disco de vinil maior que algumas rodas de automóvel. Era extremamente difícil, não bastava ter dinheiro.


Haviam as aberrações de apelo pubiano que conseguiam mais rápido, mas não mais fácil. Hoje se pode gravar em casa e vender os álbuns no show, na época, se alguém dissesse isto, viraria piada no "Viva o Gordo".


Eu não saberia dizer o nome de um só grupo em evidência, mas sei o quão ruim ele é. Eu ouço, aliás, na marra, pois a mesma facilidade para se gravar se estende aos quilowatts de som que se coloca em um automóvel com poucos quilowatts de potência mecânica. Sei o que se faz hoje e que não há papel higiênico suficiente para limpar tudo.


Músicos com tendências regionalistas reclamam da falta de apoio estatal, que seus antecessores nunca tiveram; da concorrência de mídias estrangeiras, que seus antecessores enfrentavam sem choramingar; do desinteresse do público, que seus antecessores venceram com bravura. A maioria dos músicos ditos intelectuais toca como se a platéia fosse formada por centenas de seus clones, de modo que só eles mesmos possam compreender. Estão apelando à memória como se o público fosse um computador.


Algo que os antigos músicos aprenderam (e alguns deles se esqueceram) é que o público é fisgado pelo coração. A intelectualidade funciona até certo ponto, mesmo nos povos mais frios, se a obra não despertar alguma emoção ela desaparece como surgiu.


A proliferação de rótulos cretinos, como "sertanejo universitário", (só para citar uma praga da minha região) não melhorou a qualidade. São artistas inexpressivos que ganham evidência por algum tempo, são facilmente confundidos com outros productos do supermercado phonográphico e geralmente voltam a tocar para pequenas platéias. Isto quando tratamos de gente que começou a cantar de baixo, os que já começam como arrasa-quarteirões simplesmente desaparecem, graças à Deus.

Mas nenhuma categoria se compara aos que se dizem representantes de "guetos", de parcelas excluídas da população, et cétera. Já nem leio o que se fala a respeito deles, já me cansei dos discursos pseudomarxistas, das posturas pseudomarxistas e dos protestos pseudomarxistas.



Quando se metem a resgatar culturas ancestrais (indígenas e caboclas, no meu caso) agem como se o público tivesse obrigação de compreender e aceitar o que cantam. Em Goiás já é rotina gente aproveitar recursos públicos para fazer troça de músicas folclóricas e antigas cantigas de roda, fazer o lançamento em eventos cheio de "personalidades da sociedade" (contradição elitista) e contar com espaços quase que de cotas nos jornais. No dia seguinte reclamam que não foram indicados para o Emmy Latino. Vocês, de outros Estados, com certeza não os conhecem. Vão à igreja mais próxima e acendam uma vela em agradecimento por isto.


Asseguro que no começo eu apoiava, acreditando ingenuamente na legitimidade e utilidade cultural do "movimento". Mas foi ingenuidade mesmo, quase tudo o que saiu é muito ruim, em nada devendo às bandinhas aborrescentes dos Estados unidos.


Relendo o texto, notei um certo humor cinico que eu não pretendia passar, mas ficará assim mesmo. A questão é séria porque a falta de boas obras faz o público aceitar qualquer lixo que aparecer. Estou elaborando uma idéia de um texto sobre música francesa, cuja nova safra ofusca facilmente o bando de estrelas preguiçosas que temos no Brasil de hoje. Publicarei assim que estiver pronto, com links e ilustrações condizentes. provavelmente terei que dividir em dois textos, mas valerà à pena.


Podem me chamar de "pelego", de "nazista", dizer que eu não tenho diploma e por isto não poderia tratar de assuntos assim, será inócuo. Sei o que o Brasil tem de bom, e música não se inclui neste rolo, com raras excessões. Porque música é feita por músicos, não por partidos políticos. Entendam esta passagem como quiserem.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Moda, subcelebridades e outras coisas inúteis

Estava eu devaneando sobre qual assunto eu iria escrever quando relembrei dum post do agora-em-coma Tenho Dito, sobre moda e afins.


Ali comentei, entre outras coisas, que a moda é uma das formas pelas quais procuramos nos diferenciar e que são inventadas tendências e estilos para criar nichos de mercado (oi, você achava que era livre expressão?), com a elite-da-vez querendo se diferenciar da pobralha-de-sempre e esta querendo imitar aquela. Aliás, a dona Zelite, essa culpada por todo mal que há na terra, sempre que tenta ser subúrbio, ser autêntica, ser periferia, coloca uns looshos e faz um pobre-de-butique, sabe como?

Assim, quer brincar de pobrinha, mas no conforto e na segurança de seu círculo. Atoram uma periferia, mas desde que esta continue firme no seu lugar.


Neste mundo midiático de celebridades instantâneas (que frase feita mais sem-vergonha...), a moda, o vestuário tem que necessariamente fazer parte da exposição. Algumas dessas não são nada sem seu vestuário e (eu odeio essa palavra) atitude. E é aí que entram as esquisitices e as posturas pré-fabricadas. Sim, porque dá pra reconhecer um "estilo próprio" artificial criado pela gravadora/empresário/stúdio com certa facilidade. Pode-se definir algumas celebridades conforme sua idumentária. Quem você encaixaria nas categorias da listinha abaixo?


1. Melancia no pescoço. Quanto mais estranho, melhor ou "sem minhas roupas sou só um/a cantor/ator/uadéver de quinta categoria". Bolhas de sabão, plumas, paetês, chapéus, roupa-ousada-de-fendas que parece mais uma fantasia de múmia, daquelas de deixar o Mum-Rá (linque abaixo) morrendo de inveja, tachas, perucas e outras coisas assim fazem parte do dress code desse povo.


2. Sou uma vagaba. Quanto menor, mais apertado, com mais fendas, melhor. Do tipo que faz o vestido da Geyyysyyyy parecer uma burca fundamentalista. Não só mulheres-fruta usam este tipo de... digamos assim... vestimenta. Tem as "celebs" das estranja também.


3. Sou alternativo/a. Ah, a esquisitice hippie, cabeça, intelectual e zzzzzzzzzzzzzzzzzzzz...


4. Rebelde-metaleiro. Muita revolta mercadológica. Dá vontade de colocar uma banda de hévi-métau de cor-de-rosa e/ou saiote só pra chocar a platéia.


5. Adolecente de meia idade. Tem aos montes, uns chegam a ser até divertidos.



"Antigos Espíritos do mal... transformem esta forma decadente para Mum-Rá, o ser eternoooooooo"


Crie você mesmo sua catiguria!

Agora, se você quer cantar a moda e o que vestir, essa é óbvia, mas MUITO boa. Acho que todo mundo conhece o samba " Com que roupa?", do Noel Rosa. Quem não conhece,lincaêsuasgostosa [/TDUD?], que tem um video do próprio cantando-a.

A profissão ideal para mim e para a Luna

Encontrei uma reportagem que finalmente deu explicações sobre o porquê do esmaltes levarem esses nomes (gosto de alguns, detesto outros, principalmente os do tipo "vermelho paixão", "vermelho fogo", "vermelho ardente", criatividade passou longe).


Quem dá nome aos esmaltes? O blog LP conta

Algodão Doce, Allure, Amante, Canoa, Carícia, Cigana, Deixa Beijar, Dengo, Epopéia, Fofo, Gabriela, Gaia, Gatinha, Gilda, Hera, Ilusão, Jackie, Leme, Luar, Magia, Obsessão, Odara, Paz, Polar, Preguicinha, Renda, Sonho, Tanga, Tufão, Vendada, Via Láctea: assim como você, os esmaltes tem um nome. E são nomes às vezes até óbvios, mas na sua maioria chamam a atenção.

Para Mel Girão, que batiza os esmaltes da Risqué (e a diretora da unidade de beleza e higiene da Hypermarcas), faz muito sentido: "Na loja as consumidoras podem se guiar pela cor que desejam, mas na manicure elas normalmente pedem o esmalte que querem passar pelo nome". E o lugar de onde saem esses nomes tem a ver com a cor - ou não. No caso da linha que a marca lançou no último desfile de Ricardo Lourenço, por exemplo, eles faziam referência ao tema da coleção de primavera-verão 2009/2010 do estilista, o café. Vai daí que, de repente, você quis sair por aí com as unhas pintadas de Expresso ou de Menta!

Fofo? Ilusão? Na Impala, um homem que atende por Victor Munhoz é o responsável por dar nomes pras cores. Coordenador de produto, ele diz que na última vez que fez o processo de batismo, precisou de um mapa da região litorânea brasileira. A ideia foi pensar em balneários pouco conhecidos: razão pro laranja vibrante virar Aleixo e o coral discreto virar Xaréu. Essa não foi a única linha com nomes temáticos: Cida e Luzia são parte de uma homenagem a algumas das manicures célebres do país; Elis e Gal, de esmaltes com uma cobertura especial de brilho proporcional ao das cantoras de MPB; e Valentina e Barbarella vêm de grandes ícones do cinema. "Por isso que a nossa Penélope não é rosa, é a Cruz, mesmo", explica. Um problema? Nomes estrangeiros. "O esmalte é um tipo de produto que atende da classe A até a E, então evitamos nomes em inglês como o Pin-Up''. Os mais difíceis de pronunciar acabam vendendo menos!

Na Colorama, a equipe de marketing faz com que você ligue os nomes de esmalte com o seu estado de espírito - ou com o estado de espírito que você quer passar para a semana, até a nova visita ao salão de beleza. "O esmalte entra nesse universo para tornar tudo mais lúdico e interessante", explicam. Os exemplos são Batom Vermelho, que representa a busca pelo vermelho sedutor; e Atrevida, uma cor mais animada e arrojada. "Imagine se no mundo colorido e divertido dos esmaltes os nomes se limitassem a Vermelho 1, Vermelho 2, Vermelho 3...". Nem em pensamento!

Mas esqueça tudo que você leu até agora para entender como são criados os nomes da Big Universo. Clarissa Ezaki, gerente comercial da Orion Cosméticos, explica que Gilmar Leite Siqueira dono (e químico responsável) da marca, é chegado em astronomia. Por isso é que dá para encontrar no catálogo deles frasquinhos chamados Cosmos, Sideral, e Fenix. É por isso também que dá para encontrar no mercado o esmalte Hadron que, na verdade, é o mesmo nome de um acelerador de partículas. Mas há casos e casos: o cobiçado Jade, verdinho que apareceu na passarela de outono-inverno 2009/10 da Chanel, ganhou um similar da marca com o nome...Jade. "Não dá para evitar, as pessoas chamam as cores de esmaltes pelo nome", justificou Clarissa. Viu só? Como você batizaria um esmalte que você criou?

http://msn.lilianpacce.com.br/home/nomes-de-esmaltes/

Observações:

1) O Aleixo sempre fez com que a gente se lembrasse do Franj.
2) Dá pra ter noção do vício quando sabemos exatamente quais são os esmaltes que foram citados no texto. Eu tenho vários desses, a Luna deve ter praticamente todos!

sábado, 21 de novembro de 2009

Aos bons amigos

Aos bons amigos informo que não estou morto. Afirmo que respiro, me movo e locomovo. Que não vertam prantos por um óbito meramente conceitual, de foro íntimo e circunscrito à minha pessoa, nada mais. Deve-se perecer em algum aspecto para que algo melhor nasça, ou, pelo menos, para que o restante sobreviva.

Minhas lamúrias, bons amigos, não se resumem aos devaneios abatidos pelas balas do tempo, posto que não tiveram o alimento imprescindível dos resultados mínimos, assim tendo o vôo limitado às altitudes mais próximas. Alvos fáceis da rudeza cotidiana e sua mira perfeita. O vôo sem destino nem pouso é letal mesmo para os albatrozes, que dirá um beija-flor mínimo e adoecido.

Afirmo bons amigos, que se me abate o desânimo do peso a vergar a coluna e ferir os ombros, continuo a caminhar em passos largos. Não me convém ceder à dor e ao cansaço; não tenho tempo para eles. O tempo, aliás, nunca foi um companheiro amistoso. Lépido e jocoso quando um bom momento se anuncia, mas de uma indolência letárgica quando da despedida. Esta a se delongar até o horizonte nu.

Afirmo bons amigos, que a vida ainda não mostrou a que veio, ou à que vim. Os anos precoces que me feriram a face se precaveram; Pollyanna jaz natimorta. Nem seu suspiro me foi dado ouvir. Mas caminho ainda assim, parar não é escolha, mas desta abdicar. As traças temporais e os cupins da enfermidade espreitam os exauridos para se apoderarem de seus meios, tão logo parem para repousar. Só se repousa em vera acepção no desenlace, se houver méritos.

Afirmo bons amigos, que a angústia de ainda viver não me tolhe o sorriso, mas me custa cada vez mais ofertá-lo. Os músculos do rosto doem, eles encontram na sisudez seu estado de repouso. É no cenho contraído que este rosto oleoso preserva suas energias. Não me cobrem, pois, peço-vos, demonstrar a alegria de que não sou munido, aquela que eu demonstro é um mero e embaçado reflexo da que vocês me emprestam.

A melancolia que me toma agora não é intrusa, ela é parte de mim, de minha natureza, de minha visão de mundo, das impressões que tenho da vida. Não será ela que me levará aos umbrais mais escuros, pelo contrário, a prefiro à euforia cega que é a única alternativa. Se ambas dilapidam minha saúde, a primeira me permite refletir e evitar perdas maiores. Se melancólico, uma faca na mão é apenas uma faca, não uma arma.

Não, bons amigos, não é uma carta
de despedida. Tampouco darei cabo de uma vida que me apresentaram à força. É a expressão de alguém que tem a firme convicção de terem sido bons tempos os que se distanciam. Não que sejam realmente bons tempos, talvez o sejam e eu não tenha percebido. São tempos em que eu ainda tinha esperanças de que fossem bons, e que o porvir seria melhor. Decerto que por imensa teimosia de minha parte, não vi que o caminho contrário é o que sigo. Não por meu arbítrio, mas por ser o único que me coube receber, o outro não serve em meus pés.

O arbítrio, bons amigos, não é uma opinião que se emite sem maiores conseqüências. Nem sempre me é permitido fazê-lo, e ao fazê-lo as podas ágeis que me tolhem a liberdade agem. Eu poderia, decerto, reagir e quebrar as tenazes que me prendem e dificultam a respiração, mas para tanto teria que abrir mão do caráter que tanto esmero me custou. O perderia sem ter o que lhe valha, nem mesmo metade.

A tempestade, bons amigos, é mais segura do que a calmaria falsa que me ofertam de tempos em tempos, que permite aos aduladores saltarem sobre suas vítimas. Os ventos fortes que castigam minha nau os mantêm em suas respectivas embarcações, e estas a uma distância segura. Já me acostumei à tempestade e talvez não me adapte à bonança. Já tenho cristalizada a condição de alerta, minha condição natural é a de sentido. Admito, todavia, que não é uma condição confortável, desaconselho aos aventureiros. A vida que levo não perdoa indisciplinas e não mede punições, aplicadas com vontade.

Não é por prazer, bons amigos, é por compromisso que vivo. Vivo por obrigação. O prazer me atiçou a curiosidade na juventude, mas hoje o vejo com desdém, um artigo supérfulo que não almejo e não faz parte da minha vida.
Se lhes parece árida a paisagem que descrevo, é nela, com ou sem pesares, que posso crescer e em nenhuma outra. Os jardins irrigados me encheriam de fungos e apodreceriam minhas raízes. Já não me acostumo à amenidade e não a tolero por tempo prolongado.

Mas não é, bons amigos, ruim a vida por compromisso, tampouco muito boa. É a que tenho, a de que disponho e da qual não posso abdicar senão quando findar sua missão. Admiro as cores que este mundo já não tem, os sons que já não emite e os aromas que minhas narinas ainda hoje saberiam identificar, se também não tivessem cedido lugar à fútil fantasia dos que exibem agressividade como status. Mas de tudo isto também só tenho lembranças brumosas, pois o usufruto foi uma vontade não concedida. Os molhos, o queijo e a pimenta não acompanham meu fusilli escuro.

Embora dividamos o mesmo planeta, meu mundo é outro. As paisagens glaciais de vez em quando apresentam alguma tundra. Desperdiçar recursos tem um preço elevado, pois a reposição é penosa. Não há vidros em minhas janelas, de modo que só posso visualizar o horizonte abrindo-as ou saindo de meu abrigo, mas só enquanto o vento gélido não me compromete a sobrevida. O sol jamais se levanta mais que um quarto de céu, neste meu mundo; isto no alto verão. No inverno o lábaro de ébano me propicia o espetáculo da aurora boreal, quando as temperaturas me permitem abrir as janelas e pôr os olhos ao céu.

Afirmo bons amigos, que a cíclica depressão que me acua já não assusta, a exposição excessiva e continuada a tornou impotente à minha presença, embora ela continue existindo e trabalhando. Estou acostumado a conviver com ela e sua família, trabalhando sob seus efeitos. Estou acostumado a trabalhar muito para pouquíssimo (por vezes nenhum) resultado, foi como aprendi a perseverar. A abundância também não está em meu portfólio. Na aridez de sentimentos e emoções sempre densos, aprendi a viver com o mínimo. Indisponho-me sempre que excedo esta cota.

Afirmo bons amigos, que a solidão resultante desta equação mórbida não é de toda ruim. É uma forja que me aquece até quase a liquefação, para então me golpear sem piedade e mergulhar minha lâmina em salmoura fria. O resultado é o que se espera de um bom aço, para o bem e para o mal. Reconheço que feri e firo seres amados no intuito ingênuo de resguardá-los. Mas asseguro que actos e palavras que emanam de mim, antes a mim ferem e a mim por último cicatrizam. Nisto me refugio em minha solidão inaparente e inacessível à maioria, onde as penitências e a piedade divina me curam o espírito.

Afirmo bons amigos, que não se trata de uma vida dura. É uma vida de privações, algumas voluntárias. É uma vida. Só serve para mim e para ninguém mais, e só ela me serve. Não se tira perenemente de um quartel o oficial que nele habitou a vida inteira, ele não se adapta à frouxidão de regras que apraz os civis. Salvo saídas esporádicas para breves incursões, a loucura de uma nostalgia patológica o acometeria rapidamente. Do mesmo modo que um profissional liberal convicto não se adapta à rigidez de regras e horários.


Afirmo bons amigos, por fim, que a nostalgia germinada de minha melancólica personalidade não me corrói. É um ácido concentrado para o qual me adaptei imediatamente, e sem o qual adoeceria em poucos dias. É deste ácido, não da água ou do ar, que tiro o oxigênio que sustenta minha permanência neste orbe. Não foi desta (talvez na próxima) vez que redundei em um terrestre pleno e bem resolvido. Talvez a terrestria não seja, ainda, a minha identidade, mas terá que ser a partir de algum momento. Aquilo, pois, que lhes envenenaria e lhes parece ser tão triste, bons amigos, é só o que eu tenho para me manter vivo.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

The World Needs a Hero III

E voltamos a falar de heróis...

Não consigo prosseguir sem citar uma frase inesquecível de Homer Simpson: "Se você está realmente aí, em algum lugar, eu realmente preciso da sua ajuda, Superman!"

Finda a pequena digressão para fins terapêuticos, voltemos ao texto.

Quando se estuda Mitos, sejam eles de que origem for, acaba-se chegando a certas conclusões. Uma delas, que eu vou evidenciar mais neste texto, é a conclusão tirada por Carl Gustav Jung.

Em todas (ou quase todas) as culturas existem mitos, contos, folclores que se repetem. Estórias que mudam de nome, de lugar, de personagens. Mas trazem a mesma mensagem. Sempre o mesmo momento de decisão, sempre o mesmo símbolo.

Pra citar um exemplo básico (e um pouco tosco), tomemos Ogum, Deus do Ferro e da Guerra na nação africana Nagô. Na Mitologia Grega, temos Ares (ou Marte, para os romanos) no mesmo papel. E ainda Thor, na mitologia nórdica.

Claro que nesses 3 casos, os mitos de cada uma dessas divindades são diferentes. Mas em todas, eles são Heróis. E Jung falava exatamente desses pontos em comum. Do mesmo jeito que existem os heróis, existem os vilões. Existe a vítima. Existe o Sacerdote. Existe aquele que se sacrifica, etc, etc, etc...

A essas repetições, Jung chamou de Arquétipos.

Pra facilitar a compreensão e diminuir consideravelmente o texto, vamos dizer que essas estórias se repetem em todas as culturas, demonstrando que o comportamento trazido pelos personagens das estórias repete-se em todas as culturas dominantes. Dominantes, porque se mantiveram.

Os Heróis nem sempre são bons, nem sempre seguem o mesmo padrão cultural, nem sempre seguem as mesmas atitudes.

Por exemplo, Jesus Cristo foi um Herói que deu a vida para a redenção da Humanidade. (E só pra constar, pessoalmente, Jesus não é apenas um herói arquetípico. Apenas estou falando sobre isso no texto.)

Já seu equivalente africano, Oxalá (ou Orixalá), num dado momento da lenda, se embriaga e quase estraga a construção do mundo, que ficou nas mãos de Exu. Exu que é (para muitos) equivalente ao Hermes grego.

As equivalências e concordâncias são tantas que escapam ao controle do mero acaso.

Mas no fim das contas, porque realmente precisamos de heróis?

Porque eles nos mostram o que fazer, nos mostram que não devemos desistir.

São eles que constroem a atitude moral de um povo, de uma civilização. E se chegamos até aqui, é porque vários deles construíram, um após o outro, condições e regras morais que nos mantiveram vivos e seguindo em frente.

Digam o que quiserem, mas Moisés fundamentou todo um mundo que seguimos até hoje.

Jesus Cristo complementou ensinando que apesar das regras, o Amor deve estar acima de tudo.

Sim, temos o Oriente. E Buda, Krishna e Maomé fazendo o mesmo papel. Sim, Maomé não é exatamente do Oriente, mas o Islamismo é muito forte por lá.

Sem contar as culturas tribais que ainda se mantem, mesmo no nosso mundo "globalizado", como as tribos africanas, aborígenes, e indígenas, em toda a extensão das Américas. Que ainda que tenham sido cristianizadas, ainda mantem sua cultura, misturada a cultura européia. Mas ainda restam algumas coisas.

Num mundo globalizado, onde tudo tende a se misturar, as pessoas estão sem saber que Heróis seguir. Não sabem se se mantem presas aos antigos heróis, ou se apegam aos novos que estão sendo distribuídos.

Se perdem moralmente.

Por isso, nós precisamos de um herói. Com urgência.

Carl Gustav Jung: "Sim, Fio. Concordo com você."

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Muito obrigado, Barney!

O melhor cachorro do mundo morreu hoje. Foram 5 anos incríveis. Vai vendo.

Quando a bolinha de pelos pretos chegou aqui, ninguém tinha idéia do que dar pra ele comer. Nem de um espaço pra deixar ele dormir. Nem de um nome pra dar. Nomes, ele teve vários. Toda semana inventávamos um novo. Tinha crise de identidade no primeiro mês, o Barney.

Foi fácil perceber a hiperatividade do bicho. Ele curtia roer os calçados das visitas desavisadas. Corria, se escondia, pulava super alto e latia pra caralho. Ao longo dos anos ele se especializou em roubar meias dos sapatos guardados, pra chamar atenção. E se parou de roer calçados alheios, nunca aprendeu a fazer as necessidades no lugar certo. (Isso pq os donos, claro, nunca souberam definir o tal ‘lugar certo’).

O Barney tinha uma série de desvios de caráter. Ele aprontava como um garoto danado. Ele desenvolveu várias técnicas super elaboradas pra tirar a gente do sério. Mas era cheio de personalidade e sabia direitinho como se safar das que aprontava. Era só acionar a famosa ‘cara de cachorro pidão’ – o Barney era pós-graduado nessa aí. E era isso que fazia com que a gente esquecesse das travessuras no ato e só conseguisse pensar no quanto ele era companheiro, no quanto ele era grudado na gente.

Pra ele ficar triste, era só deixá-lo sozinho em casa. Chorava desconsoladamente. E era um choro de dar dó. No começo, quando a gente voltava pra casa, ele mantinha certa distância como se quisesse dizer “I ain’t no Pastor Alemão, porra!”. Mas depois ele sacou que não dava pra ter companhia sempre. O raciocínio, agora entendemos, era óbvio: se ele oferecia companhia em tempo integral, queria o mesmo em troca. Justo.

Ainda que reconhecêssemos a inteligência do Barney, acho que a subestimamos. Afinal, foram de autoria dele algumas das lições mais importantes que recebi em 23 anos.

O fato é que era impossível ficar indiferente perto do Barney.

E é ainda mais difícil ficar indiferente agora, longe dele. Se foi novinho, sem deixar filhotes e sem conhecer o mar. Mas deu várias provas de que foi o melhor cachorro do mundo, mesmo que o senso de fidelidade dele não tenha sido suficiente pra evitar que eu sinta a tristeza que sinto agora.

Valeu, amigão! Vou te amar pra sempre. (L)