quinta-feira, 7 de novembro de 2013

O triste ocaso de Austin Beebach

Imagem de The Everyday Goth

Austin era um garoto doce, afável, com uma voz suave e bem afinada. Ele ganhava seus trocados cantando na rua, tocando seu velho violão, único bem material que tinha. Tudo o que cantava, saía do coração, ele cantava o que não conseguia falar, por isso encantava tanto os passantes.

Um dia, em uma de suas sessões ao ar livre, um figurão do show business o ouviu, se aproximou e colocou-se a ouvir. Jogava uma moeda a mais por cada música, até que se deu por satisfeito e conversou com ele. Ainda criança, precisou dos pais para assinar um bom contracto.

Como uma criança, Austin era totalmente moldável ao bel prazer de seus tutores, só tinha os pais para colocar limites na ganância dos empresários, que viam imitadores de marginais ganhando milhões em pouco tempo. A imagem de Austin, pelo contrário, era a do garotinho tímido e bom partido para casamento, algo que os pubianos dias vigentes pouco ou nada valorizam.

Línguas maldosas começaram a atacá-lo, variando entre gay e retardado os adjetivos que lhe dirigiam. O empresário, vendo o quanto ele se irritava com o assédio moral, deixou correr solto, esperando para colher uma imitação de bandidão barra pesada, quando ele pudesse se livrar dos pais. Foram alguns anos, com ele sofrendo de depressão e a raiva crescendo. Como fizeram com Elvis, o empresário queria que ele se matasse para lhe dar o retorno desejado.

E Austin fez dezoito anos. E Austin fez tudo o que seu empresário previra. Estava perfeito, o garoto tímido estava revoltado, uma presa fácil para sua manipulação egoísta. A imagem de bom homem para casamento, que muitas mães tinham nutrido, se desmanchava rapidamente.

Austin começou a esnobar os fãs. De início era só isso. O market que o envolvia se tornava paulatinamente maior do que ele, e todas aquelas garotas começavam a achar natural que um ídolo fosse esnobe mesmo. Mais ou menos como no caso do sapo cozido, que fora colocado em água fria e não percebeu o aumento lento da temperatura, até ser tarde.

Com o tempo, Austin passou a maltratar deliberadamente os fãs, cuspindo neles e os xingando publicamente. Passou a ser visto em baladas perigosas, cultivou a fama de machão promíscuo, tornando-se mais um bad boy boboca que só é valente quando cercado de jagunços.

Aos poucos, os fãs cozidos acharam natural que ele se tornasse vândalo, alegando que era autenticidade, que não precisava ser o bonzinho que todos esperavam e tudo mais. Afinal, a mídia idolatra bandido, os quadrinhos até os tornaram mais fortes do que os heróis. Embora nenhum deles queira estar diante de um de verdade.

Ser expulso de hotéis que ainda mantêm uma dignidade mínima, tornou-se comum, assim como a peregrinação dos fãs cozidos para onde quer que ele se hospedasse, deixando de estudar, de trabalhar, de tomar banho e até fazendo tratos com marginais de verdade, para garantir um lugar nos shows.

Aliás, foi-se o tempo em que os shows eram de musiquinhas açucaradas e imaturas. Atrasos e péssimo comportamento passaram a predominar. Muitas vezes ele só mexia a boca, pois estava rouco com a vida desregrada, deixando a cargo de uma gravação o trabalho que ele deveria fazer.

ídolo marginal não atrai público comportado. Tornou-se comum também os fãs atirarem coisas ao palco. No começa eram só lingeries, que o deixavam assustado, depois começaram a atirar garrafas d'água, sapatos, discos e até celulares, na esperança de que ele devolvesse pessoalmente; a infantilidade era inaparente, mas ainda sobrevivia, em ambas as partes.

O único adulto na história era o empresário, que estava sugando toda a juventude de Austin, espremendo tudo a qualquer custo não só para obter mais lucro,  mas mais para se sentir poderoso e dono da vida de alguém. No caso, ele era o amo e senhor do artista, que pensava sê-lo.

Um dia o esperado aconteceu. Austin foi encontrado morto em um quarto de hotel. O empresário ligou rapidamente para a agência e mandou quadruplicarem a produção de tudo o que fosse relacionado a ele. A comoção pela morte durou meses, detratores e defensores, ambos histéricos, alimentavam com polêmicas fúteis a venda alucinada de quinquilharias feitas por mão de obra semi-escrava.

Ironicamente, em seu tumultuado sepultamento, ele foi lembrado justo pela imagem que tinha abandonado. Por horas tocaram o hit açucarado "Oh, baby darling, oh!" no cemitério. Houve suicídios de fãs que insistiam em segui-lo para onde quer que fosse, a qualquer custo.

A causa mortis nunca foi conhecida com exatidão. Descobriram tantas coisas, que qualquer uma delas poderia tê-lo morto. DST, drogas, AVC, cirrose, cânceres resultantes da "vida louca"... Ninguém sabia ao certo. O certo, como ocorreu com Elvis, é que a única doença de verdade de Austin, era o empresário.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Mais quinhentos, Charlie Brown!


Caros fãs de Charles Schulz, é hora da bipolaridade. é hora de vocês oscilarem freneticamente entre a euforia e o desespero.

Com a morte física do criador de Peanuts em 2000, ver aqui, milhões de fãs ficaram órfãos de um dos desenhos mais inteligentes E divertidos de todos os tempos, que ensinava, entre outros, psicologia, sociologia e política, de uma forma que fazia as pessoas gostarem dos temas.

A boa notícia é que estão planejando mais quinhentos episódios da trupe do Snoopy. A má é que está planejando mais quinhentos episódios da trupe do Snoopy. Explicarei.

A nova fornada incluirá um longa metragem digital, feito pela mesma equipe de Rio e Era do Gelo. Os curtas serão em animação tradicional, com episódios de noventa segundos, que nos Estados Unidos serão exibidos nos intervalos comerciais. Aliviados? Eu também, mas não muito. Apesar da excelente reputação da Blue Sky, e da colaboração do legendário 20th Century Fox, lembremos que teve gente que conseguiu arruinar até desenhos simples e sem pretensões, como Hong Kong Foey.

Peanuts não tem absolutamente nada de despretensioso. É uma trama que ganhou fama, fãs e respeito com tramas de narrativa simples, mas altamente complexas, que prendem a atenção das crianças, mas também de adultos altamente intelectualizados. A criação de Schulz está para a animação como Star Wars está para a ficção científica. É extremamente fácil alguém querer "actualizar" os personagens, e fazer com que uma onda de protestos exija o ressuscidio do pai de Charlie Brown.

Lembremos que eu anunciei com meses de antecedência, o longa metragem do Manda Chuva, e fui um dos primeiros a revelar a bomba que ele é; tanto que caiu no esquecimento rapidamente.

Tomara que com Peanuts seja diferente, me surpreenda positivamente e me faça ver a mente de Schulz em cada cena e traço, como os novos Thundercats me surpreenderam. Mas sou gato escaldado e evitarei essa água, até ter segurança de sua temperatura.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Casal 20 - O mundo de Sheldon

Fonte: Zeebox

De 1979 a 1984, com cerca de 110 episódios, o mundo viveu uma das mais adoráveis e fajutas histórias de amor da televisão. Um casal de milionários que viaja pelo mundo ajudando, involuntariamente, a desvendar tramas e crimes para a polícia... Não que não haja ricos bem intencionados, da mesma forma como não se pode dizer que pobre é sujo e ignorante. Angelina Jolie é a prova disso. Mas arriscar seus pescoços milionários, já tendo em vista seu histórico para atrair encrencas, em vez de montar uma entidade de investigação com profissionais qualificados para isso, é tão fantasioso quanto imprudente.

Hart to Hart, produzido pela ABC, estrelado por Stephanie Powers (como Jennifer Hart)e Robert Wagner (como Jonathan Hart), com os carismáticos coadjuvantes Leonel Stander (mordomo Max) e seu cãozinho Freeway, foi criado pelo escritor Sidney Sheldon. Aham, sim, agora vocês entenderam de onde saiu a argumentação. O roteiro também não era nenhum primor, mas eram episódios absolutamente adoráveis!
Fonte: Daily Mail

Imaginem, nos dias de hoje, um milionário sair da segurança de seu Mercedes-Benz e correr atrás de bandidos internacionais! Isso inclui assassinatos e espionagem internacional, em plena vigência da guerra fria! E mais, mesmo em uma época em que a internet era só um meio quase secreto de comunicação das forças armadas americanas, Max conseguia ajudá-los com conselhos e pesquisas POR TELEPHONE!!!!!

Não, ninguém engolia a argumentação. Nem mesmo eu, que sou troncho! Mas tudo era maravilhoso, desde o altruísmo quase irreal, até a plástica da série, que dava lições belíssimas de bom gosto e elegância. Apesar de tudo, Sheldon é um homem fino e bem formado, ele sabe diferenciar uma coisa cara de uma coisa elegante, e que as duas qualidades nem sempre coincidem. Tanto que Jennifer não hesitava em usar jóias falsas, se elas fossem bonitas e de bom gosto.

Alguns episódios isolados e saudosistas foram produzidos, anos após a série acabar. Sempre com os mesmos protagonistas, e sempre mostrando que a idade estava chegando e eles não poderiam fazer aquelas estripulias para sempre. Ainda mais na amarga e pessimista década de noventa.

Stephanie ficou viúva quase ao mesmo tempo que Robert. Ela perdeu o marido Willian Holden após ele bater com a cabeça e, em vez de procurar ajuda médica, ignorou a dor por ter se sentido bem depois. Ele perdeu a diva Natalie Wood para o afogamento. Até hoje a família de Natalie o acusa de tê-la agredido e jogado ao mar. Até hoje as sucessivas investigações o inocentam.

Algo interessante da série, útil para quem não viveu a época ou tem dúvidas a respeito, é ela ter mostrado com nitidez a transição dos anos setenta para os oitenta,
Fonte: Veja
com as mudanças de figurino, decoração do cenário, penteados e indumentária. Assistir a série com intervalos de vinte episódios, daria uma noção muito clara disso.

Houve um reencontro público dos protagonistas, em 2010, que pode ser visto aqui e aqui. Mas estrelar de novo a série, nem pensar!

Apesar de todas as críticas, merecidas, Sheldon tem uma philosophia que me agrada: A vida real é ruim o bastante, não precisamos de mais perversidade. Se for para fantasiar, que se fantasie coisas boas, oras!

Merece um filme? Sim, merece. O mundo não ficou mais doce, dos anos noventa para cá, precisamos de heróis de bom caráter, por isso mesmo eu escalaria heróis de verdade e de bom caráter para os papéis principais: Angelina Jolie e Brad Pitt, talvez com Jack Nicholson como Max.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

A meiga Doreen Green - uma breve análise



Poucos heróis são tão carismáticos e têm uma imagem tão reconfortante quanto Doreen Green, a Garota Esquilo. Se muitos dos criados dos anos setenta para cá, são praticamente desconhecidos do grande público, por falta de divulgação decente, imaginem uma que é tida como segundo escalão da Marvel.

Se o nome de guerra já soa estranho, apesar do belo nome de baptismo, seus feitos são ainda mais! E merecem uma reflexão que vai muito além das acaloradas discussões de adolescentes barbados, em fóruns de internet.


Vamos antes à nossa doce mutante. É muito jovem, tem cerca de dezoito anos, 1,6m de altura e 45kg... Esbelta! Nasceu em Los Angeles, ou seja, conhece a vida barra pesada de uma cidade que tem glamour de sobra, para quem puder pagar. Todas as versões de sua figura, da mais recatada à mas sexy, mostram o frescor juvenil. E são muitas versões, algumas altamente pervertidas! Estas eu NÃO MOSTRAREI, tirem o esquilinho da chuva!

Não vive de ser heroína, ela se vira para se sustentar e custear os estudos. Seu emprego mais recente é de babá da filhota de Luke Cage e Jessica Jones, dos novos Vingadores... Se a menina começar a escalar paredes e saltitar entre os galhos das árvores, eles não reclamem, pois conhecem a baby sitter que contractaram.

Ah, sim, apesar de muito responsável, ela é meio maluquinha. Fecha o tempo e escancara um sorriso com a mesma facilidade. Sua primeira aparição, em 1992, foi meio tosca, ela parecia uma fugitiva do manicômio usando um uniforme sujo de um enfermeiro, com apliques de pelúcia e um monte de pochetes. Depois da versão tosca de estréia é que o uniforme foi transformado em um maiô de peles, com a parte de baixo variando entre nada e uma malha completa.

Suas habilidades são controversas. Sua calda de esquilo não faz parte do uniforme, nasceu nela... Imaginem o buliyng que a coitada sofreu, na escola! Ela consegue controlar os esquilos como o Aquaman controla as criaturas marinhas, consegue sua cooperação completa e irrestrita. Tem super força, que varia entre levantar de 200kg a 25 toneladas, ou seja, entre um triciclo grade e um caminhão pesado. Sua agilidade, vocês já podem deduzir, é extraordinária, bem como seus sentidos são aguçados. Faz qualquer mestre de artes marciais parecer uma lesma com letargia.

Com essas credenciais, ela entrou em combate e venceu serelepe, muitos vilões, atiçando a ira dos fãs dos bandidos de quadrinhos, inclusive Doutor Doom e Thanos... Bem, isso tem explicação. E não está na variação de seus poderes. Antes de continuar, eu esclareço que não gosto de bandido, seja real, seja de ficção. Chatice se cura com terapia, perversidade é bem mais difícil.

Eu já falei aqui do péssimo hábito de humanizar os heróis da pior forma possível: maculando o caráter, deturpando a personalidade, colocando herói contra herói,
enfraquecendo-o, subtraindo sua bravura quando até policiais comuns se põe na linha de tiro sem hesitar, transformando heróis perfeitos em garotões mimados, corrompendo, et cétera. Um grupo inteiro de heróis apanhando de um vilão que sai ileso e pronto para a festa, ao fim do combate, sendo derrotado por um golpe de sorte, no final.

Vamos à boa e velha psicologia. Essa gente tem problemas com a autoridade, geralmente tem dificuldades em manter um relacionamento sadio, e não raro se rende a prazeres destrutivos; o oposto do que o herói clássico é.  Vamos ser francos, não prestar está na moda, o alívio hormonal que isso causa é quase imediato e as pessoas querem isso. O resultado não poderia ser outro, como índios sendo queimados e indigentes enterrados vivos na praia, além de garotas sendo agredidas e mortas por recusarem uma cantada. Um mundo assim é muito hostil às pessoas que tentam ser boas, imaginem um Kal-El da vida, que é a abnegação e bondade personificada! Se bem que ele é da DC...

Sabem qual é uma das principais características de gente assim? É não suportar a felicidade. Nem mesmo a própria. Eles acham que o mundo não presta, que ninguém presta, que eles mesmos não prestam e, muitas vezes inconscientemente, sabotam sua própria felicidade, quando não a de todos ao seu redor. Por isso têm dificuldades em manter um relacionamento saudável, sem recorrer a hábitos destrutivos e egoístas. Eles se odeiam. Para se punirem, destroem as figuras por quem começam a nutrir alguma admiração, seja uma pessoa, um casamento ou um herói.


Claro que, na hora do aperto, com uma pistola apontada para a cabeça, eles vão torcer de todo coração que a bondade, a justiça e a solidariedade prevaleçam. Ou seja, deixam de amar o bandido e passam a choramingar pela polícia; o herói da trama real, no caso.



A Garota Esquilo, que deveria ser apenas uma heroína classe "B", acabou se tornando um factor de correção de aberrações. É por isso que ela consegue vencer praticamente qualquer vilão, mesmo os que dão pau nos deuses da Marvel. Ela impede, por assim dizer, que a Marvel se destrua dando glamour aos bandidos e azedando os heróis. Como se alguns roteiristas dissessem a si mesmos "Ufa, ainda bem que eu não tenho poderes para fazer essa m&$#*@ na vida real!", ainda que depois façam longos e enfadonhos discursos contra uma "garota estúpida que vence o poderoso Thanos", a quem fica feliz de jamais encontrar na vida real.


O facto de ela ser baby sitter, ou seja, cuidar de crianças pequenas, lhes causa ainda mais repulsa. Psicologicamente falando, uma criança pequena representa uma esperança de alguém vir a fazer menos besteiras no mundo, ou pelo menos cometer erros novos, não os mesmos que têm sido cometido ao longo dos milênios. Comandar esquilos? Quer maior símbolo de fofura e simpatia do que um esquilo peludo e bem cuidado? Tudo isso é muito saudável, muito constructivo, precisa ser taxado de alienação, viadagem, infantilismo e o que mais se conseguir inventar para detratar.

O problema, no final das contas, não são os heróis, somos nós, que não conseguimos ver a felicidade alheia como uma extensão da nossa, e a nossa própria como algo desejável. A humanidade inteira está contaminada por uma síndrome de auto destruição, a ponto de rejeitar sumariamente qualquer medida que possa recolocar sua cabeça em ordem. Ela quer que um tirano invencível apareça e force todos a fazerem o que todos sabem que podem e devem fazer, ma se recusa a fazer isso por conta própria. A história já nos mostrou muitas vezes no que isso dá.


Por isso nossa jovem e meiga amiga, que poderia ser minha filha, ganhou tamanha importância, e um séquito de fãs indemovíveis. Ela é um absurdo, sim, mas um absurdo meigo, escultural e de rostinho lindo, que vive para corrigir absurdos muito piores. E sejamos francos, é uma moça exemplar, adorável, uma filha que qualquer um gostaria de ter.

Mais detalhes sobre Doreen Green, clicar aqui.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Querido senhoro professoro

Não faz muito tempo, descobri algo que me deixou chocada e ao mesmo tempo me fez rir muito de mim mesma. Sabe aquelas coisas que a gente descobre que está errada, mas que sempre achou certa e quando alguém explica o porquê de estar errada você se pergunta: "mas COMO foi que não notei o erro?".
Então. Nossa mente é traiçoeira e grava as coisas mais esdrúxulas; muitas vezes repetimos coisas sem nos dar conta, como quando cantamos errado uma letra de música mas achávamos que estávamos catando direito (saudade do Virunduns!!!).
Dei essa volta enorme para justificar o injustificável, mas vamos lá. Entre os aspectos traiçoeiros da mente, existe algo chamado "hipercorreção", que pode ser definido como a tendência que temos de complicar as coisas, e aqui, especificamente a linguagem falada. Mas essa característica é tão intensa que chega  até mesmo às técnicas usadas para facilitar ou simplificar a escrita, como é o caso das abreviaturas.
Se dermos uma pequena pesquisada, encontraremos muitas vezes a abreviatura "Profº" usada para "professor", mesmo em carimbos e documentos oficiais de escolas. Inclusive, na escola onde leciono até pouco tempo ela era utilizada; quando eu a vi pela primeira vez, perguntei  o porquê daquilo; disseram-me que era para designar o gênero; assim, em "Profª" o "a" era porque era para o gênero feminino, então obviamente se fosse masculino, deveria haver um "o" indicando isto. Na época me pareceu óbvio e correto; passei a usar a abreviatura.
Até que... um colega meu da Univille, onde também leciono, publicou um pequeno e divertido artigo em que explicava que as abreviaturas não tem absolutamente nada a ver com o gênero de quem exerce a profissão, mas com a palavra abreviada; assim, não é nem NUNCA FOI "Profº" simplesmente porque a palavra é "professor", terminada em "r"  e não em "o". O colega ainda brincou que, se fosse assim, a palavra seria "professoro", e não "professor". Bem, devo dizer que minha cara caiu no chão e se esmigalhou diante da explicação. Sobre o assunto, indico: http://www.recantodasletras.com.br/gramatica/3178610.
Como pude achar correta a explicação absurda que me foi dada? Por que não fui verificar, se estava em dúvida? Primeiro, porque a explicação me pareceu adequada, igual àquelas falsas explicações para ditados populares - algumas são muito engraçadas, outras parecem ser absolutamente corretas... mas são só empulhação. Segundo, os documentos e carimbos da escola estavam com a sigla "Prof°", alguém teria percebido se estivesse errado. Mas não, não foi o que aconteceu. Assim como eu, todos achavam que outros já haviam verificado ou acharam a explicação convincente. A lição que fica é que não é porque muitos acreditam que algo está certo podemos simplesmente aceitar em vez de averiguar em caso de dúvidas.
Quando apareci com a explicação, houve MUITA resistência, lógico. Ninguém gosta de admitir ter caído no conto da explicação equivocada, nem eu. Hoje já usamos "Prof.", mas ainda vejo muitos colegas abreviando "profº"... Só no "gúgou, encontre cerca de 1.360.000 resultados para abusca de "Profº", inclusive blogues de escolas e de professores do nível superior!  E já vi também "Doutoros" (Dr.º) espalhados por aí.

Só espero não ter que esbarrar em "Senhoros", também....

A contaminação do "Profº" se estende não apenas ao Ensino Superior, mas invade as inclusive licenciaturas em instituições prestigiadas (as tiras em preto são para preservar o nome e a localidade da qual escreve o colega).

!


sábado, 10 de agosto de 2013

A Ilha da Fantasia - psicologia aplicada ao extremo




Parece título de filme pornô, mas não é. Trata-se de uma série que fez muito sucesso de 1978 a 1984, e foi muito reprisada nos anos seguintes. Uma versão de 1998 durou meia temporada... E ainda dizem que os oitenta é que foram a década perdida! A série verdadeira teve seis temporadas com 157 episódios de uma hora cada, produzidos pela ABC. e todo mundo ficava grudado no sofá, para ver uma hora de entretenimento com inteligência bem acima da média, na época; hoje seria considerado altamente intelectual.

Funciona assim: O cidadão se inscreve para viver suas fantasias por um dia, ou seja lá quanto tempo, nunca ficou claro. A organização investiga sua vida e trata de, caso seja selecionado, fazer com que a vivência desta fantasia lhe sirva de ajuda psicológica. Parece divertido? Não para o hóspede da ilha.

Os participantes eram recepcionados pelo anfitrião Senhor Roarke (Ricardo Montalbán) e por seu assistente, o anão Tattoo(Hervé Villechaise). Tudo no clima de ilha havaiana, porque afinal é uma ilha. Após todos se acomodarem, são encaminhados aos cenários com actores e animais, se for o caso, devidamente treinados para a missão. Não é interessante alguém adorável como Roarke dividie o mesmo intérprete com Khan, um dos maiores e mais cruéis vilões de Jornada nas Estrelas?

Ainda na recepção, Roarke comentava com Tattoo, e com o telespectador, os problemas e virtudes de cada um, assim que desciam do hidroavião, único meio de se chegar à ilha. Quando ele apopntava no horizonte, Tattoo gritava "Chefe! O avião! O avião". Muito carismático, mas nem um pouco inocente, esse xavecador miniatura.

Ele também, às vezes, fazia o papel de mediador, de forma mais descontraída do que seu chefe. Ele incorporava o cenário, se vestia a caráter e, quando o hóspede menos esperava, se apresentava com os conselhos certos na hora certa, depois voltava aos bastidores da fantasia funcional em que o coitado tinha se metido. Se soubesse...

Tudo é de um realismo ferino. A palavra "fantasia" pode conotar algo prazeroso, mas não era bem assim que funcionava. Embora todos saíssem vivos da história, não era o final que realmente contava, mas o desenrolar dos dramas de cada um. Senhor Roarke às vezes aparecia a cada um, de acordo com as necessidades e urgências dos participantes, para falar a respeito e mostrar o nó da meada. Sim, ele era como um Mestre dos Magos, que só aparecia para orientar e mostrar o que o sujeito ainda não tinha percebido com clareza, porque o trabalho era do participante.

Aos que perceberam, parabéns! Sim, a Ilha da Fantasia funcionava como uma clínica psicológica com o método da dramatização levado ao extremo. Embora não seja a intenção matar o participante, ferimentos podem acontecer. Mais ou menos como as salas de realidade virtual da Enterprise, só que com um mediador a orientar o paciente.

Um exemplo. Uma moça que queira realizar o sonho da avó, que na juventude queria ser cantora na Broadway dos anos pré-guerra. Tudo bem, as ferramentas serão fornecidas, mas o trabalho é dela! Ela terá que conseguir ser selecionada, ela terá que ensaiar e cantar, ela terá que enfrentar as sabotagens de invejosos, ela terá que lidar com o assédio da máfia, ela terá que lidar com ofertas para transar em troca de ajuda profissional, ela terá que administrar eventuais baixas de popularidade, ela terá que lidar com boicotes, ela terá que ser a cantora dos anos que sucederam a quarta-feira negra, quando a bolsa de Nova Iorque quebrou e levou o mundo inteiro consigo, gerando uma época de depressão e pessimismo sem par na história contemporânea.

Que foi? Pensaste que seria fácil? Não mesmo! A pessoa entrava lá para enfrentar seus demônios, não para fugir deles... Aliás, estamos precisando de muitas clínicas de psicoterapia assim, não acham?

Ao fim de cada episódio, os hóspedes voltavam para casa com seus medos e traumas devidamente enfrentados, portanto muito mais felizes e prontos para descer o pau na sociedade imbecil que alimentou suas neuroses, ou seja, prontos para serem adultos bem resolvidos.

Não me consta de alguma vez o anfitrião ter falado em valores, nem mesmo tocado no fator dinheiro,
mas é de se esperar que a estrutura cinematográphica da ilha custasse uma fortuna por dia, então quem anda de Mercedes-Benz com motorista e cobrador, dificilmente teria condições de pagar pelos serviços, principalmente porque eram poucos pacientes atendidos por vez.

Mas, como todo paraíso tem sua serpente, ela deu as caras sem demora. Em 1980 Hervé Villechaise saiu e tiveram que arranjar outro assistente, escolheram Wendy Schaal, uma linda loura de sorriso meigo e jeito de boa moça na pele de Julie, até 1982. O último asssistente foi Christopher Hewett.

A segunda série pecou pela falta de carisma. A tecnologia e a estrutura com vários assistentes, não a salvou do fracasso. Tiveram o bom senso de cancelar antes que manchasse a boa reputação da original, mesmo com as intrigas e brigas internas que teve.


Clicar aqui, para ver a sátira dos Trapalhões. A incorporação estava indisponível.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Supertramp - Vencendo em terreno acidentado

Fonte: Radio Max Music

Era só para ser um negócio, nada mais, mas virou um ícone da música pop mundial. Como não poderia ser diferente, veio da Inglaterra. Foi, na acepção da palavra, uma banda feita sob encomenda do milionário holandês Stanley August Miesegaes. A formação ficou a cargo de Rick Daves.

Vejam só as pérolas que formaram a banda: Roger Hogdson, Douguie Tomson, Mark Hart, Tom Walsh, Kevin Currie, Richard Palmer-James, Bob Miliar, Keith Baker, Dave Winthrop e Frank Farrell. A formação actual é o trio Rick Davies, Jhon Helliwell e Bob Siebenberg, todos estão no grupo pela terceira vez.

Para quem ainda não atinou, estou falando da Supertramp, que no começo se chamada Daddy. foi um curioso caso de grupo que teve grande sucesso de crítica, mas fracassou em vender seu primeiro álbum, em 1970. As primeira baixas, em decorrência do fiasco de público, foram Richard Palmer e Robert Milliar. cantar para agradar críticos, não fazia e ainda não faz o eu feitio.

É a vantagem de se ter um chefe por trás da organização, o projecto não corre o risco de desandar na primeira curva, ainda que sofra danos. afinal, ele está lá para corrigir falhas e apresentar resultados. é o que um empresário de verdade faz; um dia os teremos no Brasil.

Mas o segundo fracasso comercial foi demais. Mesmo com o primor musical, marca registrada da banda, o álbum Indelibly Stamped naufragou, e eles perderam o patrocínio. Hoje o LP em perfeitas condições, é ítem valioso de colecionador. A banda parecia estar morta e enterrada, mas era só catalepsia.

Crime Of The Century finalmente emplacou. Os sucessos Dreamer, School e Bloody Well Right deram início à rotina de altos e baixos, tirando a Supertramp do caixão antes que ele fosse fechado. Ainda que de vez em quando volte ao leito do hospital musical.

Hodgson saiu em 1982, com várias versões motivacionais, nenhuma delas convincente. Ele saiu do Supertramp, mas o Supertramp não saiu dele, que até hoje mantém o estilo da banda.

Já macaco velho e com experiência, Davies contou com a participação de David Glimour, do Pink Floyd, para o álbum Brother Were You Bound. O catatau musical, com a participação de Glimour, e canção-título, tem eternos dezesseis minutos... O equivalente a quatro ou cinco músicas normais longas, só que sem os intervalos.

A formação em vigor é de 2010. Mesmo com quarenta e três anos oficialmente no mercado, tem apenas onze álbuns, justo por conta das quase mortes e das debandadas. Uma desvantagem? Nem tanto. Sabe-se lá se a banda manteria o padrão, se todo mundo estivesse confinado, preso por uma cláusula contractual desde o começo? Há quem diga que Miesegaes foi útil para dar o pontapé, mas que sua saída garantiu a sobrevivência digna da banda.

Como toda banda comercial que se preze, ainda que não se renda ao mercantilismo da moda, a exemplo de Bee Gees, eles exploram bem os sucessos do passado, se valendo justamente dos poucos álbuns e da história repleta de lendas e polêmicas. É um exemplo de como o capitalismo, devidamente DOMADO, pode produzir coisas boas.

Eu recomendo muito a banda, mas deixo claro que é uma banda pro-fis-si-o-nal. Eles estão lá para garantir o pão de cada dia, a rigor não fazem caridade em turnês. Para quem não tem preconceito contra quem quer receber pelo seu trabalho, embora nada os impeça de fazer caridade em suas carreiras solo, o som da Supertramp é ágil sem ser apressado. É como uma locomotiva, que mesmo em boa velocidade, te permite apreciar a paisagem e meditar, com um mínimo de solavancos.

Posso assegurar que, apesar de ser um trabalho, eles o fazem com gosto. Amam o que fazem. provavelmente a velha guerra de egos está entre os principais, se não o principal, motivos para a grande rotatividade de membros, fora os músicos d apoio, que dão uma pequena multidão.

O website da banda é este aqui, devidamente equipado com sua lojinha, cheia de coisas legais, a preços não tão legais.

Um monte de vídeos em uma mesma página do Youtube, clicar aqui.