segunda-feira, 29 de julho de 2013

Supertramp - Vencendo em terreno acidentado

Fonte: Radio Max Music

Era só para ser um negócio, nada mais, mas virou um ícone da música pop mundial. Como não poderia ser diferente, veio da Inglaterra. Foi, na acepção da palavra, uma banda feita sob encomenda do milionário holandês Stanley August Miesegaes. A formação ficou a cargo de Rick Daves.

Vejam só as pérolas que formaram a banda: Roger Hogdson, Douguie Tomson, Mark Hart, Tom Walsh, Kevin Currie, Richard Palmer-James, Bob Miliar, Keith Baker, Dave Winthrop e Frank Farrell. A formação actual é o trio Rick Davies, Jhon Helliwell e Bob Siebenberg, todos estão no grupo pela terceira vez.

Para quem ainda não atinou, estou falando da Supertramp, que no começo se chamada Daddy. foi um curioso caso de grupo que teve grande sucesso de crítica, mas fracassou em vender seu primeiro álbum, em 1970. As primeira baixas, em decorrência do fiasco de público, foram Richard Palmer e Robert Milliar. cantar para agradar críticos, não fazia e ainda não faz o eu feitio.

É a vantagem de se ter um chefe por trás da organização, o projecto não corre o risco de desandar na primeira curva, ainda que sofra danos. afinal, ele está lá para corrigir falhas e apresentar resultados. é o que um empresário de verdade faz; um dia os teremos no Brasil.

Mas o segundo fracasso comercial foi demais. Mesmo com o primor musical, marca registrada da banda, o álbum Indelibly Stamped naufragou, e eles perderam o patrocínio. Hoje o LP em perfeitas condições, é ítem valioso de colecionador. A banda parecia estar morta e enterrada, mas era só catalepsia.

Crime Of The Century finalmente emplacou. Os sucessos Dreamer, School e Bloody Well Right deram início à rotina de altos e baixos, tirando a Supertramp do caixão antes que ele fosse fechado. Ainda que de vez em quando volte ao leito do hospital musical.

Hodgson saiu em 1982, com várias versões motivacionais, nenhuma delas convincente. Ele saiu do Supertramp, mas o Supertramp não saiu dele, que até hoje mantém o estilo da banda.

Já macaco velho e com experiência, Davies contou com a participação de David Glimour, do Pink Floyd, para o álbum Brother Were You Bound. O catatau musical, com a participação de Glimour, e canção-título, tem eternos dezesseis minutos... O equivalente a quatro ou cinco músicas normais longas, só que sem os intervalos.

A formação em vigor é de 2010. Mesmo com quarenta e três anos oficialmente no mercado, tem apenas onze álbuns, justo por conta das quase mortes e das debandadas. Uma desvantagem? Nem tanto. Sabe-se lá se a banda manteria o padrão, se todo mundo estivesse confinado, preso por uma cláusula contractual desde o começo? Há quem diga que Miesegaes foi útil para dar o pontapé, mas que sua saída garantiu a sobrevivência digna da banda.

Como toda banda comercial que se preze, ainda que não se renda ao mercantilismo da moda, a exemplo de Bee Gees, eles exploram bem os sucessos do passado, se valendo justamente dos poucos álbuns e da história repleta de lendas e polêmicas. É um exemplo de como o capitalismo, devidamente DOMADO, pode produzir coisas boas.

Eu recomendo muito a banda, mas deixo claro que é uma banda pro-fis-si-o-nal. Eles estão lá para garantir o pão de cada dia, a rigor não fazem caridade em turnês. Para quem não tem preconceito contra quem quer receber pelo seu trabalho, embora nada os impeça de fazer caridade em suas carreiras solo, o som da Supertramp é ágil sem ser apressado. É como uma locomotiva, que mesmo em boa velocidade, te permite apreciar a paisagem e meditar, com um mínimo de solavancos.

Posso assegurar que, apesar de ser um trabalho, eles o fazem com gosto. Amam o que fazem. provavelmente a velha guerra de egos está entre os principais, se não o principal, motivos para a grande rotatividade de membros, fora os músicos d apoio, que dão uma pequena multidão.

O website da banda é este aqui, devidamente equipado com sua lojinha, cheia de coisas legais, a preços não tão legais.

Um monte de vídeos em uma mesma página do Youtube, clicar aqui.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Merece um filme decente- Os Monstros

Artiste: Dennis Budd


The Munsters, ou Os Monstros no Brasil, foi uma série do tipo pipoca, gêmea da Família Adams. Por que uma sobreviveu e a outra não? Veremos a seguir...

Lançada em 24 de Setembro de 1964 pela CBS, a série tratava de uma família de imigrantes da Transilvânia. Até aí, nada de extraordinário, os americanos dizem que não, mas são chegados em carne de fora. O estranho é a composição da família:
  • Herman, vivido por Fred Gwinne, era o chefe da família. Grandalhão, forte e bobão, ele trouxe a família do velho continente para trabalhar em uma funerária. Mas quando eu digo "forte", não é de um cara que levanta duzentos quilos com dificuldade, é de um que levanta um carro americano da época, com suas duas típicas toneladas, com uma só mão, como convém a um Frankenstein... Isso mesmo, queridos leitores, a Família Monstro é uma família de monstros!... Foi tão difícil deduzir isso?
  • Lily, a adorável esposa, vivida pela sex simbol Yvonne De Carlo. Ela é uma dona de casa (meu Deus, feministas se aproximam  com tochas!) exemplar, que prepara deliciosos ensopados para sua amável família, com ingredientes fáceis de se encontrar como mãos de gárgula, olhos de dragão, língua de demônio, algo típico(?????) da Transilvânia. Ah, sim, Lily também é uma adorável monstra, uma vampira... Leitor, que pescoço bonito o seu...
  • Al Lewis viveu o pai de Lily, o Vovô. Nome? P'ra quê? Ele é o estorv... digo, a reserva de sapiência da família. É um vampiro com tantos séculos, que já não conta mais sua idade em anos, e tem todos eles para se arrepender de não ter ficado rico como o Drácula. Tem duas frustrações nesses anos de morto-vivo, ter saído de sua terra natal, que na verdade era um horror para quem não era rico, e a boa educação que dão ao neto, em contraste com o modo como estragavam as crianças antigamente...
  • Eddie, o garotinho da casa... Uma mansão gótica e fantasmagórica. Vivido por Butch Patrick, ele sofre tudo o que um estrangeiro sofre para se adaptar ao novo país, com o agravante de ser uma criança em idade escolar; sim, o bulliyng corria solto. Por mais que a mãe tentasse, o pai acaba precisando lembrar ao filho o que ele realmente era, um Monstro, um autêntico lobisomem da fam... Pera... Frankenstein mais vampira igual a lobisomem???
  • Marilyn... A, a pobre e estranha Marilyn... E pões estranha nessa parada, meu irmão! Até o episódio treze (meu Deus...) era vivida por Bevertey Owen, do quatorze até o setenta, por Pat Priest. Não, não é esta a característica ais estranha dela, e dizem as más línguas que foi pela sobrinha que o casal decidiu se mudar para a América. Marilyn, coitada, a linda Marilyn... É HUMANA!!!!
Elenco original
As tramas eram simples, fáceis de digerir, até ajudavam a colocar na cabeça neurótica do americano, que o diferente não era necessariamente ruim, pelo contrário, às vezes os nativos é que causavam problemas aos imigrantes... Lindo, né? Mas durou pouco.

Infelizmente, por comodismo e economia, a série foi toda feita em preto e branco, quando o cidadão médio já estava se encantando com o technicolor. E quem matou The Munsters? Não, não foram os Adams, seria anti ético. Foi o pastelão full color protagonizado por Adam West: Batman... Tá rindo do quê? De tosqueira por tosqueira, o povo preferiu uma tosqueira colorida! Ainda mais com uma Mulher Gato de cinta e macacão preto colante, desfilando e provocando o Tubby Batman. Ou vocês pensam que The Big Bang Theory sobrevive, se uma série similar for lançada em 3D e ela não acompanhar? Pensem bem, antes de me responderem.

Para tentar reverter a decadência, foi lançado o filme "Monstros à Solta", em 1966, totalmente colorido, mas já era tarde. Mas asseguro que foi um final apoteótico, vale muito um remake DECENTE E QUE RESPEITE A OBRA ORIGINAL, que respeitou totalmente a série de que derivou. Cinco filmes, no total, remeteram à série:
  • Munster, go home, de 1966, quando o carro Drácula é apresentado;
  • The MIni Munsters, um desenho de curta metragem de 1973;
  • A Vingança dos Monstros, da década mais tosca da história, feito em 1981;
  • Come The Munsters, rodado em 1995;
  • The Munsters' Scary Little Christmas, de 1996... Com Vovô raptado por Papai Noel... É mole?

A série original foi reprisada nos anos oitenta, se não me engano, pela Bandeirantes, mas houve uma segunda temporada, com argumentação tão inverossímil, que casa direitinho com o espírito da série original, e explica as filmagens recentes... de sucesso decepcionante. Foram setenta e dois episódios de 1988 a 1991, quando os Monstros acordaram após vinte e dois anos, por causa de uma das experiências malucas co Vovô, que colocou todo mundo para hibernar.

Curiosos? procurem pela internet, meus caros, vocês encontrarão material farto, fácil e muita coisa em português.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

To Bee Gees


A vida é uma festa, mas só quem arruma a bagunça e paga a conta, é que sabe dos dissabores que toda aquela alegria esconde. A festa começou em 1946, com o mundo começando a acordar para os prejuízos da insanidade do Eixo.

Isto pode ser considerado uma síntese da vida dos três irmãos. Não que não tenham sido felizes, eles sabem fazer boas limonadas, e ganhar dinheiro com elas.

Barry e os gêmeos Robin e Maurice, apesar de terem crescido em Brisbane, Queensland, na Austrália, são ingleses da Ilha de Man. Passaram tão pouco tempo por lá, que se identificam mais com os estereótipos australianos do que com os ingleses.

Colecionadores de recordes, prêmios e hóspedes habituais dos primeiros lugares das paradas de sucesso, iniciaram oficialmente sua carreira em 1966, um ano que particularmente me encanta, não só por causa deles. Mas iniciar no mundo da música, eles iniciaram em 1957, outro ano mítico, que tem o Chevrolet Bel Air como seu mascote.

Mas não comecemos do meio.

 

Eles tocaram de tudo, tudo mesmo... Quer dizer, só não tocaram música ruim. Também não se viram livres do deslumbramento, nos anos setenta, quando estavam decolando, começaram a brigar e quase foram à bancarrota, até que tomaram vergonha e se deram conta de uma coisa, eles eram irmãos. Se se separassem, continuariam sendo irmãos e seus pais continuariam amargurados com a briga.

Sabe aquela chantagenzinha básica? Funciona. Eles se reuniram, ainda se olhando meio torto, mas fizeram o dever de casa. Trocaram a psicodelia por ritmos dançantes, baladas românticas, uma identidade mais irreverente que é a cara deles, e retomaram a trilha do sucesso. Não doeu tanto, né?

Além do mais, os pais eram músicos, Hugh Gibb e Barbara Pass não negaram amparo aos filhos, os cinco, assim como não negaram puxões de orelhas, quando brigavam. Eles não demoraram a perceber o talento que tinham em casa. Já em 1956, ainda morando na Inglaterra, Barry ganhou sua primeira guitarra, Maurice e Robin começaram a acompanhar no vocal e pronto, a encrenca estava formada. Em 1958, Bárbara teve mais um e disse "CHEGA"!!! Estava formada a turminha em casa: Lesley, Barry, Maurice, Robin e Andrew. Este seguiu carreira solo, também na música.

Eles estudaram, não tiveram vida mansa. Se mudaram para Surfers Paradise, no litoral, onde começaram se apresentando em casas noturnas, uma experiência que recomendo a todos os músicos iniciantes. Em 1962 veio a chance, que não desperdiçaram, pela empresa de Kevin Jacobsen. Foi também o primeiro contracto profissional dos irmãos. Spicks and Specks foi o primeiro sucesso.

Voltaram à Inglaterra entusiasmados com o sucesso dos Beatles, em 1967, de navio, pagando a passagem com música. Ou seja, foram ensaiando, comendo e dormindo de graça. Lá, Hugh não deixou por menos, mandou o materioal dos filhos para a mesma editora dos Beatles, a NEWS. Não fosse o australiano Robert Stigwood ter notado um conteúdo australiano naquela pilha gigantesca de material, talvez tivessem que voltar com o rabinho entre as pernas para a Austrália.


 
A banda, como uma estrutura profissional e empresarial, não só com os três garotos de Douglas, logo se tornou necessária. Chamaram gente de sua confiança, é claro. Também tiveram a malandragem de lançar o primeiro álbum New York Mining Disaster 1941", com crédito de artista para "Be... es", um golpe que fisgou os fãs dos Beatles e acertou em cheio. Bee Gees já se estabelecera como uma banda reconhecida. Mas foi Massachusetts que os lançou ao estrelato. Chegaram em álbum ao Brasil em 1968.

Como a cultura vintage ainda não estava estabelecida, o jeito de rock sessentista de suas músicas começou a cansar. Main Course, de 1975, recebeu o padrão de qualidade pelo qual os irmãos ficaram conhecidos. Fica fácil para vocês perceberem que, se não tivessem se reconciliado, não teriam conseguido se reerguer e o Bee Gees teria mesmo caído no esquecimento? São ingleses, mas são bons carcamanos musicais.

 

O sentimento à flor da pele, mesmo nas canções dançantes, sempre os acompanhou, como "I Wish You Here", "My World" e "I Started Joke". A dor de um amor perdido e a morte são recorrentes, em suas obras. O marco de "Os Embalos de Sábado à Noite" os associou perenemente à febre da discoteca, da qual se tornaram sinônimo. E claro que veio uma enxurrada de imitadores, a maioria absoluta hoje, desfruta de um merecido e abençoado esquecimento.

Como todo e qualquer artista, eles tiveram altos e baixos. Mas bastava uma pausa, um disco a menos vendido, um dia a menos nos jornais, e a crítica os atacava com malévolo fervor, taxando-os de cantores e compositores medíocres... Oh, Pai, perdoai-vos, porque eu não o consigo!

Os anos oitenta foram um hiato. projectos próprios, actividades solo, entre outros. Os artistas passaram a também agenciar gente nova, diversificar seus negócios para não ficarem reféns das oscilações e incertezas do sucesso artístico. Funcionou muito bem, embora tenha parecido que o grupo havia terminado. Na realidade, estavam cuidando de si e da família, coisa que a vida insana de shows intermináveis e aparições contractuais não permite. Sabem o que é isso? Ter vida própria? Pois muitos artistas não sabem.

Voltaram com força em 1991, para a alegria dos fãs que sempre os amaram, e dos novatos que quando os conheceram, também sempre os amaram. A cultura vintage começara a florescer e sucessos antigos voltaram, a vender bem, alguns mais do que os novos. Com a lição da quase falência aprendida, eles sempre renovaram seu repertório, e desta vez não foi diferente, só que em vez de seguir, eles ditavam a moda, para quem gosta de música, é claro. Keppel Road é o documentário sobre a banda e os irmãos, lançado em 1997.

 

O grupo era tão coeso e feliz, que só a morte poderia acabar com ele... E ela o fez. No dia do aniversário de Leslie, em 12 de Janeiro de 2003, Maurice morre, em decorrência de complicações de uma cirurgia cardíaca. Ele era o mediador ente os gêmeos, que desnorteados, anunciaram o fim do Bee Gees, ao menos como um grupo oficial, por assim dizer. Acabou em um de seus muitos auges.

Barry e Robin trabalharam em carreiras solo, até 2006. Antes disso, em 2004, receberam o título de Doutor Honoris Causa da Universidade de Manchester, e a Comenda de Cavaleiros do Império Britânico. Preciso dizer que a crítica ranheta e mal amada mastigou os próprios dentes, de raiva? Não, né? Olha só, eu sou doutor, cavaleiro, milionário, ídolo, bem amado, profissional respeitado e tenho uma família feliz. Você é quem mesmo?

Em 2009 os irmãos voltavam ao palco, sem conseguir disfarçar o vácuo que Maurice deixou. mas não deixaram a peteca cair e continuaram trabalhando. Em 2012, infelizmente, o vocal de "Started a Joke" se tornou personagem da música, Robin faleceu, em decorrência de uma pneumonia que corroborou com o câncer de cólon que enfrentava há muitos anos. Após finalmente a crítica ter dado o braço a torcer.

 

Hoje a banda é mantida e regida por Barry, solitário, tocando os corações em sua alegria triste e usando o trabalho como contrapeso ao seu luto. O Bee Gees continua na activa, com compromissos e um legado para dar conta, só não dá para fingir que é a mesma coisa sem eles. Porque no fundo, a cada vez que sobe ao palco, tudo o que Barry queria é que eles estivessem aqui.



Website oficial do Bee Gees, clicar aqui.
O perfil deles no Facebook, clicar aqui.
Querem mais? Então cliquem aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

domingo, 7 de julho de 2013

Betty Boop anos 80


Mais uma vez a mão sutil da sincronicidade me traz (ou me leva a) uma pérola quase esquecida. Vendo cartuns da época da guerra, o site me ofereceu também uma pancada de desenhos da Betty Boop, alguns deles banidos, uns poucos com toda razão, a maioria por pura perseguição mesmo. Eis que me deparo com uma obra feita quando pensávamos que todos já a tinham esquecido. O próprio filme "Uma Cilada para Roger Rabbit" fez crer que aquela era a primeira aparição da personagem em décadas.

Vamos ao filme. The Romance of Betty Boop foi feito na segunda fase dos anos oitenta, em 1985, quando as tosqueiras proliferaram feito ervas daninhas em horta abandonada. A economia com a animação é evidente. Aliás, até fins dos anos noventa, foi um sofrimento só. O que diferencia o trabalho dos animadores, é o uso de colagens em preto e branco, muitas feitas em copiadoras com alto contraste.

A técnica não é absolutamente genial, genial é utilizá-la para concentrar esforços onde interessa, e aqui foi feito. As cores se concentram em Betty, seus amigos e seus ambientes, todo o resto sofre corte orçamentário de tinta. Inclusive pessoas em tons de cinza, em cenários coloridos.

A trama se passa em Nova Iorque, em 1939. Betty, como sempre, é pau para toda obra, e vive em um apartamento que poderia facilmente ser trocado por uma Kombi... Com a vantagem de não precisar aturar vizinhos malas.

Ela é apaixonada por um actor, uma das poucas profissões que davam dinheiro entre a grande depressão e a segunda guerra mundial. Sonhando com esse cidadão, ela acaba desprezando o amor de um amigo, Freddie, que é vendedor de gelo, e fica no subsolo da depressão quando é rejeitado por ela.

Hmm... Estou vendo carinhas de estranheza. Farei um adendo: A geladeira só se popularizou depois da guerra, meus queridos. Antes, as pessoas tinham caixas espessas, na quais colocavam gelo, para poderem preservar os alimentos. Geladeira mesmo, só os ricos e as empresas, como as fábricas de gelo, tinham.

Voltando. A trama tem uma reviravolta quando um mafioso, que vai cobrar uma dívida do dono da boate onde ela trabalha, se interessa por ela. Para piorar, o tal galã está na plateia, e Betty não poupa esforços para seduzi-lo, em seu clássico e indefectível vestidinho vermelho. Daí para frente a confusão realmente começa e vocês terão que ver o filme, para saber.

Tem de tudo um pouco, e tosco, como convém à década perdida, como a chamávamos antes de ela terminar. O modo como as colagens são colocadas, não tem como não ser proposital, porque se vê que são colagens em preto e branco, não desenhos que não receberam cores. Um experimentalismo que fez pensar, no começo, se tratar de um filme dos anos sessenta, porque os personagens secundários são típicos de então, mas o apartamento de Betty e a aparição de Freddie, me fizeram ler a descrição do filme antes de ele terminar.

Aliás, o clássico e vintagesco vestido vermelho passa a ser, quase sempre, roupa de baixo. Sobre ele, ela coloca mini vestidinhos que, francamente, parecem cobrir menos do que ele... Parece impossível? Mas foi a impressão que me deu.

Betty está linda, valente e versátil, como é de seu feitio. O gênio arredio, combativo e o coração de ouro estão intactos, apesar do trauma da perseguição sofrida décadas antes. A sutil adaptação de seus traços para os anos oitenta não tiraram um milímetro de seu chame e beleza, pelo contrário, fizeram por ela o que as técnicas dos anos trinta não permitiam, não sem custar uma fortuna.

O filme poderia ser bem melhor, é verdade, mas fica claro que não se trata de uma super produção. Talvez hoje fizessem algo refinado e repleto de referências às animações clássicas, afinal, releituras de diversas origens e estilos proliferam. Público, ela ainda tem. No fim, ela acaba bancando a idiota, mas tem uma decepção, chuta o pau da barraca e se redime, antes de a fila andar.

Outras animações foram feitas, no decorrer da década, como Hollywood Mistery, ver aqui. com estilo e roupagem mais clássicos, inclusive com os personagens das animações originais e animação melhor cuidada. No mais, aproveitem a animação.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Novelas que valeram à pena; Amor com Amor se Paga

No final, ele dançou... e gostou.

Do tempo em que a televisão valia eu amassar o derriére por meia hora, com algumas saídas necessárias durante os comerciais, me lembro das novelas. Como eram boas! Não estou sendo meramente saudoso, falo de obras primas que mostravam as coisas como elas são, mas sem azedume. Cafetão Pasthéo não tinha vez entre os personagens.

Uma das melhores, de todos os tempos, foi Amor com Amor se Paga, de Ivan Ribeiro, exibida às 18h. Não vou discorrer sobre detalhes, isso vocês encontram com muita confiabilidade na internet, inclusive na Wikipédia, aqui.

A novela mostrou de forma magistral, o que vocês, crianças, pensam que só se discute depois da invenção do iPad. Puxada pelo emblemático e avarento Nonô Correia, nome pelo qual até hoje o mestre Ary Fontoura é chamado nas ruas, a novela colocou em panos limpos uma série de questões vitais, de forma leve e fácil de se compreender.

A própria avareza do personagem central foi explicada no decorrer da trama. Apesar de rico, ele chegava a inventar dietas malucas, para economizar comida, como a dieta líquida uma vez por semana. Apesar de muito carismático, ele conseguia ser perverso, conseguindo tratamento médico com chantagens e tratando a filha Elisa como uma propriedade... que podia viver de vento.

O sossego do muquirana acaba quando o clarividente Tio Romão, animado por Fernando Torres, chega à cidade e de cara lhe joga na cara que sabe de seu tesouro, conseguido às custas de cobrança implacável de dívidas. Ele é a contraparte e o tempero da novela.

Como nenhuma outra, ela mostrou os riscos da auto medicação, que ainda hoje faz vítimas e a televisão parece ter esquecido... ou sido paga para esquecer. A primeira dama vai a óbito por isso, e tem seu túmulo feito de palanque eleitoral por seu marido corrupto e populista. Aliás, o corrupto carismático foi escancarado pra o tele espectador.

Unindo vários temas em poucas histórias menores, o embate conservadorismo versus modernismo foi casado com o do patriotismo versus estrangeirismo. As duas faces das duas moedas eram colocadas de forma clara, divertida, para o público aprender enquanto ria.

Também a questão dos órfãos foi levantada. O drama em particular, acabou unindo mais dois temas em sua órbita, tudo de modo simples, sem disfarces, sem poupar quem preferiu se manter na ignorância. Afinal, ser aculturado não é desculpa para agredir e despejar no outro as suas frustrações, principalmente quando o outro é uma criança órfã.

Os conflitos se intercruzaram inúmeras vezes ao longo da novela, com um elenco muito grande, que mesmo assim não viu personagens desaparecerem sem explicação... Né? Segredos revelados no decorrer da novela, não desmentiram cenas anteriores, e foram muitos! Alguns totalmente inesperados, mas perfeitamente encaixados no antes, durante e depois.

Nos capítulos finais, as emoções vêm à flor da pele, mas sem agressividades desnecessárias, que certos autores de hoje chamam de "atitude" ou "a vida como ela é". Vida de quem? Todo mundo vive no inferno? A minha vida pode ser uma lástima, mas não é esse circo de horrores que apresentam nos dias correntes.

A reta final mostra Tio Romão orquestrando, sem parecer que o faz, as reconciliações, os perdões, mas nada gratuito. Em nenhum momento a novela fez o jogo do contente. O final feliz se deu em decorrência do burilamento lento e contínuo das relações entre os personagens, fruto de suas próprias escolhas.

E aqui temos uma lição que as novelas modernas(?) tratam como alienação, no mínimo. A de que as pessoas mais duras e arraigadas em seus hábitos, podem sim se retratar e até serem melhores do que os que os atacavam, se dizendo vítimas. Mas na pessoa do prefeito, mostra que isso só pode acontecer se a pessoa quiser mesmo... e ele não quis. É, nem tudo acaba bem para todos, mas cada um colhe o que plantou durante a novela.

E mais, o cuidado estético é um colírio para nossos olhos cansados de louvores à pobreza, como se isso melhorasse a vida dos pobres, ou lhes garantisse a simpatia dos ricos.

Se encontrarem os vinís das trilhas sonoras, comprem, eu asseguro a satisfação completa, ou seu azedume de volta em dobro.

Os cento e cinqüenta capítulos, exibidos de 19 de Março a 14 de Setembro de 1984, e reprisados de 26 de Outubro de 1987 a 1° de Abril de 1988, foi exportada para pelo menos dezenove países. de vários idiomas e culturas.

Para quem quiser ter lições de vida de forma séria, mas leve e divertida, eu recomendo baixar a novela inteira e assistir no seu ritmo, porque valerá cada segundo e cada riso investidos.

sábado, 15 de junho de 2013

Perdeu, Playboy!


Os rumores são fortes e muitos jornais sérios (existe isso?) dão como certo o cancelamento de várias revistas pela Abril, inclusive as mais icônicas. Mesmo já tendo sido líder no ramo por décadas, a decadência lenta e agonizante não perdoôu. A revista Playboy está em vias de encerrar suas actividades no Brasil, se um improvável milagre não acontecer.

O leitor típico da revista, ao contrário do que pode parecer, ficou órfão desde que os ensaios se tornaram pífios, e as capas passaram a configurar propaganda enganosa. Não é de hoje que eles abusam da edição de imagens. Houve época em que as playmates eram facilmente reconhecidas pelas ruas, apesar da produção toda envolvida, que visava acentuar ao máximo seus dotes. Hoje este é remoto, pois o que se vê nas páginas da revista, muitas vezes nada tem a ver com quem posou para as photographias.

Transferir a cabeça de uma actriz veterana para o corpo de uma modelo jovem, foi o golpe de misericórdia na pouca confiabilidade que ainda tinha. De falso por falso, o leitor passou a preferir as hentais suaves, e a volta às pin-ups clássicas, pelo menos há a mão de um artista de verdade para valorizar uma obra claramente fictícia. Nesta esteira, os ensaios com pin-ups retrôs de verdade ganharam espaço.

Já o público exclusivamente onanista migrou há anos para revistas mais apelativas, ou de conteúdo e linguagem mais agressivos, ou ambos. Sim, porque o ex-leitor da Playboy tinha mais entretenimentos. As charges e tiras de humor eram realmente engraçadas, com arte bem feita e linguagem condizente, tanto com o ramo da revista quanto com o nível que ela propunha.


Por muitos anos ela actualizava os leitores com novidades tecnológicas, não simplesmente pelo apelo tecnológico, mas pela utilidade que o artefato pudesse ter. Foi, por exemplo, uma das primeiras revistas no país a abrir os olhos do empresariado para a importância de se aderir rapidamente à informática, dizendo "Só há uma coisa que o computador não pode fazer por você... ainda".

Lembro também de séries de artigos de utilidade pública, como o que fazer, em caso de se sobreviver a um acidente aéreo. O artigo em questão avisava para não contar com a ajuda da tripulação, que poderia estar morta, embora histórias de heroísmo dignas de cinema recheiem o mundo da aviação, bem como para que se deixasse a bagagem para trás, porque ela provavelmente só atrapalharia, especialmente se o acidente fosse em alto mar.

As entrevistas então, eram apoteóticas. Quase tudo o que os políticos negam na cara dura, eles confessavam à Playboy, ficava tudo bem claro para o bom entendedor. Da mesma forma, crônicas do mundo dos negócios mostravam claramente que o corporativismo ainda tinha, e provavelmente ainda tem, muito apelo familiar, entre os acionistas majoritários. Ou seja, muita coisa ainda anda ou trava por picuinhas domésticas.

As indicações de novidades, quase todas importadas, até hoje, eram sucintas, mas completas. Indicar um carro esporte, por exemplo, usava mais adjetivos do que apelos adolescentes, com mais do que onomatopeias para convencer o leitor de que aquele carango valia à pena.

Ah, claro, também havia resumos e resenhas de livros que o editorial recomendava, e geralmente ele acertava. Haver uma estória, ou história interessante era o mínimo necessário à recomendação. A seção de cinema, então, era implacável, não tinha mesmo pena de absolutamente ninguém, não importando o nome por trás da obra; recomendava a framboesa de ouro sem dó.

E, claro, aquelas mulheres bonitas eram realmente bonitas, mesmo sem luz e maquiagem, podiam ser facilmente reconhecidas ao vivo, com seu glamour natural e o frescor de sua feminilidade sem truques. Hoje, que lástima, não passa de uma vitrine de canastronas de reality show do mais baixo nível, que podem ser verdadeiras ogras, mas têm ensaio garantido em suas páginas; tanto quanto é garantido que ninguém vai reconhecê-las nas ruas. Mais do que erotismo, era uma ode à beleza.

A tecnologia facilitou muita coisa, mas em muitos casos foi a perdição de marcas consagradas, que se renderam ao apelo fácil e traíram seu séquito fiél de leitores, que lhes custara anos para cativar. Nem falo em actualizar linguagens e estilos, isso é indispensável, falo de se renderem aos apelos baixos mesmo. No caso, de trocar uma mulher de fino trato por uma baranga que dá fácil e o whisky ajuda a maquiar. No desespero, em vez de criatividade, se afundaram na facilidade.

Claro, alguns vão dizer que a Globo teve parte da culpa nisso, impondo suas tuteladas. Não tenho tanta certeza, mas também não duvido. O certo é que agora, voltaremos ao tempo de importar revistas do gênero, se quisermos algo que valha à pena guardar.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Nas margens do dia

By Alberto Benett


Não é de hoje, mas tem se acentuado com a crescente imbecilização da televisão, salvo este ou aquele programa.

Os programas que passam em horários que podemos ver, são aqueles que fazem meu cérebro ameaçar cometer apoptose. Superficiais, falsamente úteis e umbilicalmente ligados à audiência, a ponto de os apresentadores delongarem uma besteira qualquer que esteja pesando na balança do ibope.

A Bandeirantes constitui uma feliz exceção, colocando Futurama e Os Simpsons no horário da tarde. Infelizmente é só isso mesmo, e infelizmente, pelo que conheço da emissora, é mais para tapar um buraco do que propriamente para ser uma atração.

Programas como o telecurso, são exibidos quando o cidadão em geral está a caminho do trabalho, sonolento, pensando unicamente nas obrigações, quando não no trânsito. Quando ele chega a algum lugar que tem televisão, os jornais matinais já terminaram de exibir o que faz diferença e se esmeram em falar de futebol... Bem, não propriamente de futebol, mas de fofocas futibolísticas.

Terminada a sessão celebridade da bola, vem um programa matinal, uma revista televisiva que deveria passar de forma leve e mastigada, o que o jornal mostrou de modo denso e objectivo. Infelizmente os apresentadores são priorizados, em detrimento das matérias. Depois disso, o cidadão já está a pleno vapor e não pode prestar atenção a mais nada.

Na volta para casa, no fim do dia, programas que acham que mostrar um assassinato brutal em vários ângulos diferentes, repetidas vezes, dividem o horário com novelinhas bobas e superficiais, cada um em seu canal, tirando o direito de escolha de quem não tem canais pagos em casa. Ou corre o risco de ter pesadelos, ou o risco de ter uma anestesia mental.

Depois que o cidadão se deita, para voltar a trabalhar bem cedo, é que as coisas interessantes voltam a ser exibidas, mas geralmente em doses de tarja preta. Documentários sobre ciências naturais, personalidades que fizeram diferença de modo que voltem a fazer diferença, filmes clássicos que dão um espetáculo de talentos de artistas e profissionais de apoio, programas de entrevistas que demonstram algum grau de inteligência, humoristas realmente engraçados, enfim... Tudo em horários inacessíveis a quem tem o que fazer durante o dia.

Fim de semana? Esqueça. Quem precisa dormir e acordar cedo, mas geralmente não consegue dormir cedo como deveria, está caindo aos pandarecos e usa o sábado para repor o sono. Quando acorda, só tem besteira na televisão.

Mas geralmente, quem trabalha ou estuda duro durante a semana, usa os dias de folga para ver se ainda conhece os próprios filhos, em um passeio ou qualquer evento de família. Ou ainda para provar aos entes que não está morto, só porque não teve tempo de responder a e-mails, ou mesmo a caixa de diálogos do facebook.

Aliás, quem usa a internet para trabalhar, é geralmente quem menos tempo tem para bobagens de televisão. As pessoas pensam que por trabalhar em casa, o cidadão está à toa, à toa no atol de Mururoa... e dana a mandar mensagens, servicinhos "só para olhar como fica", faz ligações a todo momento, e ainda tem a campainha, o síndico, o vizinho chato, MEU DEUS EU TENHO QUE TRABALHAAAAAAARRRRR!!!!!

Só vê filmes alugados ou pelo youtube, ou seja, não tem tempo para televisão, até porque mesmo os noticiários são em tempo real, pela rede. Quando o infeliz consegue terminar alguma coisa, toma um banho, come qualquer tranqueira e desaba na cama. Vida social? Não me façam rir, pois não tem graça.

Tudo o que o trabalhador e o estudante, quando não é ambos, consegue ver, é o que a televisão de onde e quando estiver lhe mostra. O que lhe daria diversão e conteúdo, fica bem nas margens do dia, separadas por um rio de idiotices que fica mais largo a cada dia; margens cada vez mais estreitas, diga-se de passagem.

Há canais públicos novos que tentam fazer algo diferente, mas enfrentam as dificuldades de praxe. Têm pouca verba, produção quase sempre pouco atraente, quase nenhum patrocinador, além de seus canais terem bem pouca abrangência. Precisa de dinheiro para se varrer um bom pedaço deste país gigantesco. Há gente, e muita gente que assiste ao que sua marca preferida patrocina. Não é devaneio, há uma pequena inversão de fluxo se instalando, já há alguns anos, mas isso tem explicação; os programas estão ficando tão absolutamente idiotas, que empresas tradicionais estão lhes emprestando seu prestígio, quando o normal era acontecer o inverso.

Infelizmente o círculo vicioso se instalou e é cada vez mais largo. Patrocinadores só patrocinam o que facilita suas vendas, claro e até certo ponto justo, enquanto o consumidor que poderia mudar isso não tem tempo para fazê-lo. Geralmente, diga-se de passagem, quem tem o controle das televisões nos ambientes de trabalho, é justo um viciado em bobagens neuro adiposas, que até hoje não sabe que estivemos na iminência de um conflito nuclear, mas sabe de cor e salteado cada penteado maluco daquele jogador da moda... E está deprimido por causa de mais um divórcio de mais uma celebridade, que não ajuda a pagar suas contas.

Eu faço parte do contingente que, de vez em quando e por acidente, descobre coisas muito legais na televisão, passando em horários que quase sempre me excluem de seu quadro fixo de telespectadores. E vou lhes dizer, é dose p'ra leão! Porque quando pego a internet, depois do expediente, quase tudo o que faço é trabalho.