sábado, 31 de janeiro de 2009

Cidade vazia

Ninguém por perto, nem a vista, nem a prazo ou em suaves prestações. Poderia baixar a calcinha e fazer as necessidades no meio da praça que não haveriam testemunhas. Ou Haveriam?

Um homem à sombra do poste. Seus olhares se cruzaram. Ele tira a mão esquerda do bolso, ela põe um pé atrás. Ele levanta a mão lentamente e ela fica gelada de medo, dá um passo para trás. Ele põe um pé à frente e ela começa a se afastar. Ele se aproxima e ela anda com decisão, logo está em fuga.


A cidade vazia, se lhe dava aquela liberdade, ora cobra o preço de não ter a quem recorrer. Nem se atreve a gritar, seria em vão e poderia causar uma reação rude do perseguidor.


Vê uma igreja. Sabe que está fechada, mas a lua cheia gera sombras intensas na planta recortada daquela nave. Se esconde no grosso portal de uma entrada lateral. O homem não consegue vê-la, mas sabe que o brilho da blusa dourada a denunciará, se mover um músculo. Ele põe as mãos na cintura, coça sob o chapéu e se vai. Ela solta a respiração e sai à luz da lua, pois também não enxerga cousa alguma àquela sombra.


Mas tinha que acontecer algo. Ela pisa no rabo de um gato vadio, que não só chama a atenção do homem, como lhe arranha o sapato novinho. Não é à toa que detesta gatos, é até alérgica a eles. Volta a correr dentro do que os saltos médios lhe permitem, o que compensa em parte com as pernas longas e bem torneadas, propositalmente expostas pela saia levantada, para esta não lhe atrapalhar a fuga. O homem se interessa mais por ela.


Uma árvore. Por Deus, como vai subir em uma árvore daquela tamanho? Olha em volta e vê uma lixeira. Engole o nojo e se esconde lá. Está vazia, menos mal. Ele passa, mas de novo o maldito gato aparece e faz escândalo quando a vê no seu lugar de refeição. Jura que se escapar fará uma petição pela castração dos gatos da cidade.


É atrasada ao ficar presa à grade de um jardim, a qual tentou pular, rasga a saia e corre, agora sem ter que levantá-la, mas a lingerie perolada aparece sutilmente por trás.


É acuada à entrada de uma escola. Ele chega ofegante, mas inteiro. Dá um sorriso que não parece ser de malícia, pergunta se ela se machucou...


- Por que correu de mim?


- Bem... Por que você correu atrás de mim?


- Eu vi você assustada, pensei que estivesse com problemas. Eu sou médico. Você se machucou?


Ela começa a rir desatadamente. Mas agora vê que realmente não consegue dar um passo sequer. É carregada até o Chevrolet 1952, já meio surrado, mas suficiente para um homem austero que não tem família para sustentar. Facto que é resolvido naquela mesma noite, desembocando nas núpcias em poucas semanas.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Amar é nunca ter que rever um filme ruim


Era uma vez um casal apaixonado. Ele era milionário, ela era pobre. Os dois se conhecem na biblioteca da faculdade. Discutem. Eles começam a sair. Depois, o compromisso fica mais sério. Vira namoro.

O rapaz insiste em apresentar a namorada aos pais. Eles, é claro, não aprovam o relacionamento. Os dois se casam, mesmo sem ter terminado a faculdade. A moça tem a estranha mania de desprezar o rapaz, de ironizar tudo o que ele faz, o que ele diz, o que ele é. O rapaz tem a estranha mania de achar isso natural.

Depois de formado, o rapaz consegue um bom emprego. A moça vira dona-de-casa. Os dois querem ter filhos. Tentam, tentam, e nada. Numa consulta médica, eles descobrem que ela está doente. Doente não: morrendo. Ele nem pergunta de quê.

Em seguida, ela morre. Ele não chora. O pai dela não chora. Ele vai se sentar numa arquibancada. Tudo está coberto de neve. O filme acaba.

Sabe aqueles filmes que a gente vê quando era criança, acha bom e depois de adulto resolve assistir novamente? Foi assim que caí na asneira de assistir a Love Story. Eu queria ver um filme que me emocionasse, mas não foi dessa vez. Tudo é estranho nesse filme.

A moça-que-morre, enquanto está viva, não consegue criar empatia nenhuma com o espectador. Ela passa tanto tempo reclamando, enchendo o saco, fazendo ironias sem graça que, quando ela fica doente, a gente nem sente pena.

O rapaz-que-perde-a-esposa também não fica atrás. Custava ter perguntado do que a criatura estava morrendo? Custava chorar desesperadamente, quando ela morreu? Você perde o amor da sua vida e vai se sentar numa arquibancada? Não tenta se atirar na frente de um ônibus?

Meu sangue latino estava querendo ver cenas comoventes, exageradas, impactantes. Mas o filme é tão frio quanto a neve, onde os dois pombinhos rolavam, no começo do relacionamento...

Como tudo o que é ruim sempre pode piorar, Love Story também tem uma das frases mais estúpidas que já ouvi num filme: “Amar é nunca ter que pedir perdão”. Quem não tem coragem de dar o braço a torcer, de perdoar, não sabe o que é amor. Amor e perdão, na minha humilde opinião, andam juntos.

Agora, fiquei encafifada: o filme é ruim mesmo ou eu é que sou insensível?

sábado, 24 de janeiro de 2009

Otakus, esses incompreendidos

Aproveitando o gancho do texto que fiz anteriormente, falo hoje dos otakus, cosplayers e seus cosplays.

O termo "cosplay" foi criado pelos fãs de Jornada nas Estrelas, que pegaram gosto em passar por ridículo em público, indo aos eventos em homenagem à série vestidos como seus personagens preferidos, numa época em que isso ainda era motivo para internação psiquiátrica. Logo depois foram os malucos que gostam de Guerra nas Estrelas, tornando esses eventos menos incomuns, e o comportamento menos socialmente inaceitável.

Se os dois clássicos americanos da ficção científica abriram as portas, foram os japoneses que souberam aproveitar como ninguém a oportunidade, enxergando não só o entretenimento, como um meio de vida.

Sim, caros amigos do Talicoisa, existe gente vivendo de cosplay. Seja fazendo fantasias, seja fazendo cover dos personagens, seja dando/vendendo entrevistas para revistas nerds, ou mesmo fazendo comerciais. Decerto que no Brasil, como em muitas outras áreas, está ainda em estágio latente, mas é só algum parlamentar querer agradar ao filho otaku, a pretexto de estimular a cultura com "fantasias" de personagens nacionais, que a grande imprensa passa a dar o destaque que o potencial turístico desses eventos merece. Se bem que seria estranho ver um sujeito fantasiado de Cascão ou Praga (do xoudaxuxa), andando pelas ruas. Pois existem competições lá fora, e muitas Sailor Moon deixam essas misses de hoje no chinelo, seja em beleza, carisma, simpatia ou tudo junto. E se há beleza feminina, sabemos, há audiência e lucro.

Uma função útil do cosplay, é deixar a pessoa que brinca extravasar seu eu interior; aquela faceta mais íntima que quase nunca pode ser trazida à luz do dia. Isso evita o consumo de drogas industrializadas contra depressão, que exigiriam o consumo de outras contra gastrite, que exigiriam o consumo de outras contra sonolência e por ai vai. Muito melhor do que o carnaval, por inúmeros motivos, os eventos de cosplay fazem os otakus arejarem as mentes, o que os mantém como cidadãos úteis e produtivos, e ainda por cima felizes. Há gente que inventa personagens, roda seus mangazinhos em pequenas tiragens e vai vender nesses eventos, vestidos como tal. Ganhando e se realizando ao mesmo tempo, olha que cousa boa!

Mas, é claro, se há aquelas caracterizações que deixam qualquer um de queixo caído, há as que eu me recusei a publicar aqui, pois ninguém é obrigado a ver e o blog é de família. Imagine uma garota de anime com aquele shortinho que termina onde começa, o top que mal chega às bases dos seios e aqueles saltos que mais parecem pernas de pau. Agora imagine um marmanjo barbudo, peludo, gordo e suarento usando essa roupa, com uma peruca azul. O shortinho torando tudo, no melhor estilo "touro virou boi". Foi por isso que não postei as imagens.

Há também os cospobres, que de tão mal feitos são uma atração à parte. Usar tampa de pizza como escudo, tampinhas de pasta de dente como controles, óculos de camelô como viseira, tnt colado com cola escolar para o traje e o que mais a falta de dinheiro te obrigar a fazer. A maioria fica parecendo mais personagens de Mad Max, mas eles ficam aliviados do mesmo jeito, sem apelar para drogas e prostitutas.

É esse o maior argumento dos eventos de cosplay e, conseqüentemente, em prol dos otakus: externar a fantasia. Algo que o carnaval já transformou um mero negócio de prostituição camuflada e obrigação em se embebedar e fingir alegria diante de uma câmera. Eventos de cosplay, embora tenham caracterizações também de hentais, são ambientes familiares, onde o bebê pode ir fantasiado de Pikachu no colo da mamãe Sailor Marte. Eu não me presto a esse papel, sou o que sou o tempo inteiro e isto já incomoda mais do que um elefante. Mas eu gostaria de ver essas pessoas vestidas como gostariam o tempo inteiro, dentro do que as obrigações diárias permitirem. E sejamos sinceros, se vocês buscarem os termos no Google, verão muitas, mas realmente muitas personagens que podem sim ser usadas no dia a dia, como roupas comuns. Algumas muito curtinhas, mas o bom gosto da maioria das roupas torna mesmo as mais curtas utilizáveis, para quem sabe se portar, como a da mocinha lá em cima. Aos empresários que por ventura lerem este texto, deixo o conselho de que patrocinem esses eventos, todos ganham.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

E agora...

Era hora de fazer alguma coisa. Ele não havia ganhado tanto dinheiro porque aceitava facilmente qualquer situação. Tinha que fazer alguma coisa. E não aguentava os gritos.

Começou a tatear à sua volta. Só havia uma fraca luz de uma única vela. E a sala parecia grande.



Começou a bater nas paredes, procurando um som distinto que lhe mostrasse onde era a saída. Bateu, bateu, bateu... Até que um som se diferenciou dos demais, e um guarda começou a gritar do lado de fora, mandando que ele ficasse quieto.

Realmente, ele era um profissional. Profissionais tem seus macetes.

De uma parte escondida do casaco, tirou uma pequena serra. E do bolso, um isqueiro. Conseguiu enxergar a tranca da porta, e começou a serrar, aproveitando quando os gritos ficavam mais altos. Cada grito doía em sua alma. Mas ele tinha que continuar.

Quando finalmente conseguiu, tomou todo o cuidado necessário. Aproveitou uma pausa nos gritos dela (deveriam ter dado tempo para que ela descansasse antes de reiniciar... Métodos de tortura...) e se afastou da porta, pelo lado. Começou a gritar, como se estivesse com dores. O guarda correu para a porta, e sem saber de nada trombou com ela achando que ela o escoraria. Mas a porta se abriu, e o guarda caiu no chão. Quando olhou para cima, só viu um vulto.


Um passo já estava dado. Tirou a arma do guarda, pegou uma pequena lanterna que estava numa mesa ao canto. Notou as escadas, e começou a subir. E os gritos ficavam mais altos.



Ao chegar no andar superior, encontrou o motorista... Aquele mesmo que o havia enganado. Estava de costas, olhando para uma pequena televisão. E bebendo algo que parecia whisky. Escondido em seu sapato, havia um canivete. Pegou-o, e se aproximou do motorista. Serviço silencioso. Ele gostava assim.

Chegou bem perto. Ia aproveitar a distração do motorista com a televisão. Encostou a lâmina no pescoço da vítima. Mas o motorista disse: "Você não vai fazer isso."



Em outro caso, ele teria ido com tudo. Teria rasgado a garganta da vítima antes de pensar. Mas o pequeno homem moreno desatou a falar.

"Você não vai fazer isso. É a busca por sua alma, por tudo aquilo que você sentiu falta durante toda sua vida. É a busca por paz, dentro de você."

Ele apenas fitava o motorista. As palavras faziam sentido. E o motorista sabia.

"Ela roubou dinheiro da minha patroa. E foi bastante" disse. "Usou o dinheiro em apostas. Sabe como é esse negócio. Minha patroa só quer deixar as coisas no lugar certo, pra mostrar quem é que manda... Você sabe como é isso..."

Sim, ele sabia. Não se deve ficar devendo pra qualquer criminoso. Ou ele tem o dinheiro de volta, ou quebra sua pernas. Ou seu pescoço. Ele mesmo tinha executado vários devedores, de vários chefes, em várias cidades.

"Mas isso é pra mim, e pra minha patroa. Pra você, é diferente. Ela te tocou, não foi?"

Sim... De um jeito estranho, mas ela era a realização dos sonhos dele. Era uma possibilidade de ser comum, normal, uma vez. E a sensação era ótima. Ele só queria fugir com ela. E esquecer de tudo, e de todos os fantasmas.

"Aí é que está, meu filho. Essa é a escolha que vai salvar sua alma. Ou não. Eu vou embora. Não vou interferir. Mas eu devo lealdade à minha patroa. Passar bem. Ah, elas estão no andar de cima."

Ele viu o pequeno homem ir embora. Ainda não sabia o que fazer ou pensar. Sabia que uma decisão precisava ser tomada. E teria que ser logo.

Subiu o novo lance de escadas. Havia 3 quartos, e apenas de um vinha luz. Ele arrombou a porta, esperando encontrar sua cliente, o torturador e ela.

Sim, exatamente eles.

Um único tiro para o torturador, que caiu de cara no chão e assim ficou.



A arma agora apontava para sua cliente. Mas ela era uma raposa velha. Já estava com ela, de escudo. Segurava os cabelos dela e lhe apontava uma arma.

Ele tinha que tomar uma decisão.

Pensou em todas as possibilidades.

Fechou os olhos por um momento.



E já sabia o que fazer.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Talicoisa também é cultura- parte 2*

No texto anterior, tratou-se de cultura e identidade, dois pontos que podem ser usados tanto para a opressão como para o enriquecimento do humano; infelizmente, este último aspecto tem sido renegado por nossa espécie. Estamos vivendo num momento em que a globalização aparentemente irá pasteurizar a cultura, a identidade dos povos e a própria história. Tudo terá o mesmo gosto, a mesma aparência, num imenso franchising ? Por outro lado, as manifestações de desrespeito cultural, que alguns chama de intolerância e eu chamo de preconceito mesmo, chegam a níveis absurdos.


Contudo, aqui será abordada a parte positiva da diferenciação, do que se pode aprender com ela. É preciso ponderar que o excesso de igualdades, de semelhanças, é estranho às sociedades. A diferenciação faz parte da própria natureza, em que se inclui a humanidade, apesar de todo esforço que fazemos no sentido contrário.
Diferenciar-se, de certa forma, é sobreviver, mas como se diferenciar neste contexto de globalização?


No campo do marketing, por exemplo, é vital fazer-se diferente, destacar-se, mostrar de si o que é específico e o que o torna (o produto, a pessoa, o local) mais saboroso, mais interessante que os outros. Neste sentido, vários locais estão dando passo acertado e muito produtivo, em diversos sentidos; começou a olhar para si mesmos, para sua própria história, sua geografia, sua memória, suas cores, seu povo, enfim: sua cultura, sua identidade. Neste ponto, cabe uma pergunta: a que distância está a história de nós?


Por muito tempo, ensinou-se que a história pertencia unicamente ao passado, e era feita pelos grandes homens. Estudava-se ou aprendia-se história apenas por curiosidade, ou por obrigação curricular, sendo também vista como totalmente estanque com relação à vida dos que a liam e com relação às demais disciplinas. A tendência atual é aproximar a história das pessoas, do dia a dia de cada um de nós, de nossa identidade.


A utilização da história e da cultura no chamado turismo cultural insere-se nesta tendência, que coincide também na busca dos países pela sua identidade, a qual vem se acelerando, impulsionada pelo processo conhecido como “globalização”. Como diferenciar-se neste contexto?


Como resposta, os países e mesmo empresas elegeram as questões culturais, de definição de identidade e origem nacionais, de valorização da história e dos costumes, que estão cada vez mais presentes na mídia. Cabe-nos não fechar os olhos a esta tendência, mas sim saber como a utilizar de forma positiva.
Praias há por toda parte, assim como centros de compra e cinemas. Mas cultura, cada povo tem a sua. Por que iríamos nós esquecer a nossa? Investir em turismo cultural é, a um só tempo, valorizar a terra e o povo nativo e atrair o turista de uma forma inteligente e com sabor de aprendizado do que é o humano em suas múltiplas variantes.


Profundamente ligadas à história e à vida das pessoas, a cultura e a identidade, dela derivada, são as fontes mais ricas, de onde precisamos beber. Permear com ela as relações diplomáticas, comerciais, financeiras, educacionais e pessoais é preservar, com sabedoria, um aroma muito próprio, que nos distinguirá em meio à multidão.


Como dizem os franceses, “Viva a diferença!”.


* Adriane ainda está na praia, enquanto os outros Talicoisers suam de sol à sol pra manter o blog em dia. Ela vai pagar por isso.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Can I help you?

Você pesquisou essas bizarrices na Internet. Sabe-se lá por que cargas d’água, acabou entrando no Talicoisa. Como eu não tenho nada melhor para fazer, resolvi ajudar alguns dos nossos queridos “passantes”. Espero que minhas palavras sirvam para alguma coisa.

Frases de Branca Letícia de Barros Motta: Essa senhora, interpretada por Suzana Vieira, é a melhor personagem que Manoel Carlos já foi capaz de inventar. Uma Branca vale por dez Helenas. Escrevi algumas linhas sobre ela em algum texto, mas curiosamente, não lembro de nenhuma de suas falas. Só sei que ela bebia muito martini e sempre queria que o marido da chata da Helena preparasse seus drinks. Joga no Youtube.

Sem calcinha, Carnatal: Carnatal eu sei o que é: o carnaval fora de época de Natal. Sem calcinha, eu também sei o que é: falta de vergonha na cara. Somos um blog de família e não compactuamos com esse tipo de coisa. Aliás, nunca entendi esse negócio de carnaval fora de época... Já não basta termos de aturar um?

Que bom, mais um terço dos homens em nossa igreja: Que bom, meeeeesmo, amiga! Fico muito feliz que a sua igreja tenha essa abundância de homens! Na próxima vez que você passar por aqui, deixa o endereço desse templo. Estamos precisando!

Todo mundo remando na piroca: É simplesmente lindo saber que o Tchan, em toda a sua glória e sabedoria, não foi esquecido. Melhor ainda é saber que não somos os únicos a compreender a filosofia de Cumpádi Uóxinton. Vamos fazer um fã-clube? Ok, menos!

Quero fazer macumba pro meu namorado voltar: Faz isso não, amiga! Figurinha repetida não completa álbum. Além do mais, pense: você gostaria de ser enfeitiçada? Imagine se um cara parecido com o Keith Richards faz uma macumba pra te amarrar. Péssimo, né? Aquilo que não queremos para nós, não devemos fazer aos outros. Amor tem que ser espontâneo.

Tayrone Cigano para ouvir: Você tem mesmo certeza de que quer ouvir Tayrone Cigano?

Mulheres que adoram fazer estrip theese: As mulheres deste blog não fazem esse tipo de coisa. Não é por moralismo, não. É que simplesmente não existe estrip theese. Faz assim: ensina pra gente comofas/, da próxima vez que você aparecer aqui. Oferecendo mais de cinco reau, a gente até pensa no seu caso.

Quero ver plantação de uvas: Apareça na serra gaúcha. Se suas condições financeiras não permitirem, assista ao vídeo do Lasier Martins. Ele vai te ensinar quais uvas são “mais de mesa” e como se comportar em caso de choque elétrico. Altamente instrutivo. Joga no Youtube!

Raspei todo cabelo minha filhinha: Não entendi nada. Você raspou todo o cabelo da sua filha? Ou está simplesmente contando esse fato, assim: “Raspei todo o cabelo, minha filhinha!”. Você é a Britney Spears? A Sinnead O’Connor? A Camila daquela novela do Maneco? Seja quem for, tenho uma sugestão: procure perucas no Google.

Titanic: Afundou, beijos!

Ok, eu sei que existem textos assim em todos os blogs! Mas você queria o quê, numa segunda-feira de chuva?

sábado, 17 de janeiro de 2009

Manga animeada

Não faz muito tempo que comecei a ter contacto com os animes modernos. Os que eu conhecia eram Pinóquio, Honey-Honey e outros do gênero, mas sem saber que tinham esse nome específico. Confesso que gostava mais daqueles do que desse monte de robôs e monstros que dançam a macarena, antes de dar o golpe.

Mas isto não vem ao caso. Vem ao caso saber os motivos de esses desenhos de olhudos com reações esquisitas fazerem tamanho sucesso, a ponto de fazer as produtoras ocidentais a imitarem o estilo (ou a falta dele) em muitos casos. Dêem uma boa olhada na ilustração ao lado e verão.


Enquanto os anos 1980 fizeram os estúdios ocidentais derramarem uma enxurrada de desenhos toscos, mal desenhados, mal pintados, mal animados e completamente sem graça, os japoneses mantinham os traços bem regulares, cores vivas, sombras, boa perspectiva e um enredo (ainda que limitado, mas ao menos tinham) para a estória.


Não demorou para as pessoas notarem isto, e para eles perceberem o mercado que se formava. Enquanto os heróis ocidentais eram corrompidos, abrutalhados e até apelavam para os criminosos, os japoneses mantinham o caráter e as características básicas, embora ainda dançassem a macarena para dar um golpe ou fazer uma transformação. As heroínas ocidentais faziam jus ao nome, ficando uma droga; estavam se transformando em travecos agressivos, enquanto as japoneses mantinham a feminilidade, os traços meigos e os contornos delicados, mesmo com uma arma de raios anti-matéria em uma mão e a cabeça do inimigo pendurada na outra. Endurecem sem perder a ternura.


Digite "anime" ou "mangá" no google (se há outra ferramenta de busca similar, perdoem, não conheço) e verá uma galeria de belezas com sensualidade natural e a mais absoluta certeza de que são mulheres, ainda que que os cabelos estejam curtos e só se mostre do pescoço para cima, mesmo as mais musculosas. E a qualidade da arte? Aliás, é este mesmo o nome: Arte. Praticamente todo e qualquer quadro ou cena de um anime/mangá, merece ser pendurado na sala de estar.


E não adianta colocar a culpa dos ocidentais na quantidade crescente de heróis, nos anos 1950/60 houve uma explosão deles e a qualidade crescia junto. Os heróis japoneses, embora parecidos e a maioria descartável, são uma nação inteira. A questão aqui não é a quantidade, é preguiça aliada à ganância. O japonês dá tudo de si para fazer qualquer cousa, o americano faz o que foi pago para fazer e olhe lá, sem pensar no risco de demissão por queda no faturamento.


Isto se refletiu no ramo de automóveis. Até uns vinte anos, era fácil diferenciar um Chevrolet de um Ford e de um Jaguar. Pois em nome de racionalizar as linhas de montagem, fizeram foi engessá-las. A ponto de alguns carros, como a Kombi, não saírem nem sob encomenda, pague-se o quanto se pagar, em uma cor que não seja a branca. Mas a Kombi anda tem o seu desenho inconfundível, e quem quiser se arriscar a perder a garantia, pode customizá-la que o preço compensa. Já os outros carros... Maria Cristina, minha melhor amiga, é capaz de diferenciar um Opala de um Monza, mas não lhe peçam para separar um Focus de um Astra. Eu sei, estou dentro da área, mas para quem é de fora fica a idéia de que não vale à pena trocar de carro, pois são todos iguais. Foi o que aconteceu.


Vá ao Japão e verá o quanto eles brincam sem pudores com as formas dos carros, alguns chegam a parecer de brinquedo. Algo que as montadoras ocidentais decretaram que o público não quer e nem faz marketing para tentar vender. Eu gosto de uma dianteira meiga, sem dúvidas não sou o único.


Os japoneses são muito melhor resolvidos do que nós, em termos de sexo e sexualidade. Não tiveram uma igreja fundada por políticos para deturpar tudo. Isto se vê nas capas mais banais de mangás, nas cenas mais comuns de animes, nos bonequinhos de pvc mais encontrados e largamente produzidos. Tudo bem desenhado, bem pintado, bem proporcionado.


Muita gente não sabe, mas o autor de uma obra, se pega uma grande editora, não é mais dono dela. Os burocratas viciados em estatísticas e que morrem de medo de um mosquito pousar em Wall Street, fazem o que querem e o que seus medos mandam com a obra. No Japão, o autor de um mangá é dono da obra, a editora só presta o serviço e empresta seu prestígio. Se algum especulador borra-calças estressadinho tentar masculinizar/erotizar demais a garotinha de dezesseis anos, que foi concebida para ser a veia cômica da trama, ele simplesmente toma tudo e vai desenhar noutras paragens.


E eles ainda hoje se perguntam porque os japoneses tomaram conta do ramo editorial. Enquanto não voltarem a contractar gente de talento para trabalhar sem pressões desnecessárias, sem as algemas hipócritas do politicamente correcto e sem querer agradar a todo mundo, será assim. Ou seja, enquanto não voltarem a desenhar como os mestres desenhavam, ainda que noutro estilo, vão continuar a imitar tudo o que os japoneses lançarem um ano antes. Agora vejam cá em baixo a diferença do que se fazia com prazer, para o que hoje se faz na marra. Obra de Gil Elgren.