terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Dead Train in the rain CXVII

    Aflições no paraíso! A estação 117 mostra que mesmo as coisas boas, se fogem ao controle, podem causar transtornos. Embarquem com serenidade, o trem vai partir.


Patricia e os Richards terminam de instalar as novíssimas baterias alcalinas no ônibus da banda (...) São baterias caríssimas de íons de lítio, pouco conhecidas do público, mas agora ele tem o triplo da autonomia e modernos motores integrados às rodas dianteiras. O velho Coach tem sido um laboratório maravilhoso...

- Sim, ainda são extremamente caras, Bobby. Mas somos bilionários, podemos arcar com este capricho, é para isso que serve o dinheiro. Galera, vou tomar um banho e a gente dá um passeio nele.

O passeio é um desbunde, vão à Lansing, voltam e vão à Summerfields, então voltam para Sunshadow, média de 50MPH, sempre usando as baterias. Os seis disparam para seus blogs...

- Nosso ônibus recebeu um up grade, baterias de última geração agora ajudam o velho motor marítimo...

- Não sei direito o que a Patty fez, mas o nosso ônibus ficou uma delícia com essas baterias...

- Cantar pneus com motor eléctrico é demais! A gente tem novidades no ônibus da banda...

- Sabem aqueles ônibus de brinquedo que imitam o nosso? Agora o nosso imita eles...

- Me acostumei a comprar pilha para os brinquedos da Karen, agora trocamos também as do ônibus, ficou chocante...

- Gastamos uma nota preta para modernizar nosso ônibus, com baterias que nem estão no mercado ainda, mas um rico que não fomenta o progresso geral, não serve para nada...

Patricia, Renata, Rebeca, Ronald, Enzo e Robert escrevem quase ao mesmo tempo. O comentário sobre os ricos gera polêmica, muitos se revoltam e Robert afirma que indenizará com prazer quem provar que feriu a constituição (...) Dead Train não incomoda porque quer, incomoda porque é incômodo.

A população não se esquece do atentado (...) Judith só fica sabendo hoje, novamente por um jornal que vai para a reciclagem. Se lembra muito bem da colega de nariz empinado, de sua pose natural de poderosa, dos garotos que esnobou na escola, sempre hesitou em bater de frente com ela, agora então é que não levanta nem os olhos para ela. Tem medo de ser explodida por agentes escondidos. Volta à sua rotina, despacha o carregamento e entrega o cheque para a coordenadora. Ela nota um tom de medo no rosto da moça...

- Bem, eu só conversei com ela uma vez e percebi uma autoridade muito forte.

- Você não faz idéia do que é ver a Patty furiosa! Ela muda completamente, vira um general!

- Já ouvi falar de algo assim, mas do jeito que fala parece ser exagero.

- Mas não é. Desculpem interromper a conversa, mas precisei vir a Milwaukee e decidi ver como nossa amiga está se saindo. Olá, Judith.

Pavor (...) Na época da escola a diferença de estaturas era nítida, agora ela só consegue ver a menininha mandona pressionando a nuca no dorso. O que não mudou é ela estar absolutamente maravilhosa, uma mulher ao lado de quem nenhuma outra fica bonita. As parceiras de banda já se acostumaram a isso. Patricia se encarrega de debelar o clima de pavor, ela diz que está feliz com os progressos, confessa que não esperava que fosse uma surpresa tão boa (...) Não fica muito mais (...) só o suficiente para deixar claro que está de olho, mas está satisfeita com a mudança de atitude. Entrega a chave do ônibus novo ao albergue e se vai. Deixa para trás alguém que parece ter visto um alien. Aliás, muita gente agora tem certeza de que ela é.

Os fomentos que ela promove ao progresso caem nas graças dos ufólogos, mas justo a intensidade e a constância com que o faz, lhes dá certeza de que ela tem algum canal mental directo com a base estrelar (...) Acumularam um material muito extenso, acreditam que já é hora de divulgar de forma mais eficiente, um deles conhece um cientista também ufólogo, que é bastante carismático e consegue não ser chato. Pensam em um programa semanal de televisão (...) Só que entre eles agora há vários ghost drivers da legião comandada por Julia...

- Um programa de televisão? Isso é bom! Isso é muito bom! Valeu, gente, vou falar com o Tobby sobre o meu primeiro programa.

Ele fica feliz. Desconfiado, mas feliz. Tirará uma semana de férias (...) por isso mesmo dá total liberdade à sua sucessora. Ela começa a planejar um programa variado, mas com ênfase para os ufólogos a quem convida no mesmo dia...

- A gente vai aparecer no Boa Noite Mundo!

É uma festa. Os espiões de Bird lhe transmitem as reações e ela as repassa para Princess...

- Meu Deus... Eu não acredito! Encrenquinha, você vai debutar no comando do programa! A gente tem que comemorar isso!

Chama os outros e improvisa uma festa. Julia tem (...) muita pauta engatilhada, praticamente pronta, os ufólogos é que estão em pânico, sem saber o que falar nos quinze minutos que terão. Apelam para aquele cientista carismático que há muito tempo espera por uma chance.

&

Rebeca fica satisfeita com o relato da amiga (...) Descem à sala e começam a fazer as tramas para o resto do ano. As crianças estão todas no ambiente, para aprenderem desde cedo que mesmo as profissões mais legais têm suas partes chatas, e que devem se acostumar a elas. Uma canastrona em busca de fama fácil está processando Renata por plágio, por causa da competente escolha de sua indumentária, seus modos femininos e sua bela cabeleira ondulada; tudo o que todos ali conhecem desde de que Patricia a apresentou à cidade. Prudence acha este mundo cada vez mais estranho e cruel. Concluem a primeira parte e vão cuidar de suas crias, para espairecer.

Bem perto dali, Nancy começa a ensinar seu ofício a Stephanie (...) começa com “Se quer ajudar, não tenha pena, tenha respeito”. Apresenta-lhe e deixa à inteira disposição, exemplares de todos os livros em que estudou para o magistério (...) Fica feliz por ter a quem passar seu bastão, estava já conformada em ver a tradição da família descontinuada. Avisa de cara que doravante terá que carregar pedras morro acima todos os dias, para estar pronta para enfrentar sua primeira sala de aula...

- Então, escolha um livro e vamos devorá-lo.

- Pode ser o de música?

- Tanto faz, o que você preferir. É o seu destino, é você quem o escolhe.

Começa a treinar sua sucessora com teoria e prática aplicadas quase simultaneamente. A pequena recebe em uma hora mais conteúdo do que está acostumada a receber em uma semana de aulas normais. Volta para casa com a cabeça cheia, meditando (...) Encontra a mãe no meio do caminho e a acompanha à chocolateria...

- Mommy, eu estava com a vovó... Conversei umas coisas com ela.

- Você e mamãe estão virando dois grudes. Que assunto interminável é esse de vocês?

- É que eu decidi o que quero da vida e ela tá me ajudando.

- Tão cedo? Tem certeza de que já sabe o que quer da vida? Na sua idade eu só queria aprontar com a Mel.

- Mas a vovó me mostrou um caminho e ele coube direitinho nos meus pés.

- Que poeminha lindo! Que caminho inspirador é esse... Ah, peraí! Você começou a carregar pedras morro acima?

- É. Eu quero ser professora e ela me imbuiu de certas responsabilidades...

- Eu não acredito! Você vai seguir os passos da mommy!

Pega a filha nos braços e corre dançando com ela, até chegarem à chocolateria, de onde liga para todo mundo a avisar que sua filhota (...) começou a tomar jeito na vida. À noite fazem uma festa, como um rito de passagem precoce para a vida adulta, que durará alguns anos, mas a decisão firme de Stephanie a coloca em vantagem (...) que, sabe bem sua família, a fará ter vida de bailaria, terá que andar altiva e com graça, mesmo sentindo dor e suportando uma carga enorme, que a acompanharão pelo resto da vida...

- Arthur, é impressão minha ou essas crianças estão crescendo rápido demais? Não é só a Phee, são todas elas!

- Well, honey... Estão sim!

- ... Eu quero minhas filhas... Betty! Proo! Come to mom!

As duas aparecem com livros de língua inglesa (...) Patricia as pega, balança e as leva para o coreto, onde as deixa relaxar e se darem conta de que ainda são crianças. Marcia enfrenta dificuldades muito maiores com Phoebe.

&

Zigfrida reúne sua equipe para a última fase das pesquisas, isso inclui Renata, Eddie e Marcia (...) Começam lendo um resumo que a sueca fez destes anos todos. As conclusões não dão muita margem para interpretações, mas ela sabe que inventarão alguma assim mesmo. Em absolutamente nenhuma família as crianças demonstravam qualquer sinal de castração, pelo contrário, há casos como o de Stephanie (...) que assumem publicamente o desejo de uma vida que não lhes dará glória, reconhecimento e provavelmente também não lhes deixará ricos (...) Terminam a leitura e começam a planejar o próximo passo...

- Agora vamos elaborar o livro. Quero lançar até o fim do ano, antes de a neve cair, pra isso a gente terá que se encontrar muitas vezes, entre um show e outro da Rê...

Não pretendem lançar um best seller, será um espesso compêndio elaborado com metodologia científica, para ser esfregado nas caras dos intelectuais de ar condicionado (...) Para a organização ela dá notícias excelentes (...) Sunshadow, como está hoje, poderia ser toda uma sede da inteligência independente.

Star fica muito feliz com o relatório, é uma das melhores primaveras que a organização já teve. Autoriza o início da operações para lançamento do livro “Open Sunshadow”, encarregará Doom de fazer a campanha publicitária (...) Por agora quer ver como Bird o substitui, inclusive com a entrevista ao tal ufólogo com amplo embasamento científico. Ligam o televisor a tempo de pegarem a abertura...

- Boa noite, mundo! Eu sou Julia Foster e estou substituindo o Tobby McGinnes, enquanto ele viaja de férias. Vejam, minha própria caneca... O programa de hoje traz gente que não é exatacmente nova, mas começou a dar lucro com polêmicas, como os steampunks, os wiccanos, os veganos e os ufólogos...

Começa com o programa em seu indefectível terninho Chanel ocre. A festiva entrevista com os steampunks rende alguns presentes de seu estilo, com os wiccanos rende algmas bênçãos celtas para o programa (de um ateu) e a própria Julia, com os veganos a coisa pesa, eles começam perguntando se aquele café é orgânico e citam na roupa dela os crimes cometidos contra os animais (...) Antes do intervalo, solta bem ao estilo Tobby “Não adianta você ter as melhores intenções, se ser chato e apontar o dedo é o seu método de abordagem, as pessoas vão rejeitar a sua causa”. Após os comerciais, com seis preciosos minutos a mais, pela abreviação da entrevista anterior, é a vez do ufólogo...

- Boa noite, estou ansiosa para saber, afinal, como você entrou nessa de ufologia?

- Boa noite, Julia. Muito obrigado pelo espaço. Eu comecei ainda na adolescência, quando tinha mais perguntas do que respostas, e quando as respostas oficiais não eram mais suficientes para mim.

- Oh, a adolescência! Por que tanta gente a desperdiça?

- Eu também sou fã do Dead Train, ouvindo as canções da banda me fiz essa mesma pergunta, vendo amigos se conformando com a visão estreita que os noticiários oficiais nos impõe.

- Comecei a gostar de você. Continue.

Ele não consegue convertê-la às suas idéias, mas consegue seu respeito (...) Como Patricia é um dos alvos das investigações do grupo, toda Sunshadow está vendo a entrevista. Algumas das coisas que ele diz parecem maluquices, mas (...) as queixas contra os órgãos governamentais procedem, Julia sabe que procedem. Ela coça o alto da testa com o indicador direito e o desliza até o nariz, olhando de lado para o entrevistado. É a senha para os comparsas, aquele homem pode ser útil (...) Star concorda (...) Doom está vendo, também concorda e está orgulhoso de sua monstrinha, ela já está pronta para substituí-lo, quando ele morrer.

Patricia vai para a cama com uma noção mais precisa de que tipo de malucos são eles, só precisará mantê-los monitorados e não se preocupar. Mais ghost drivers se interessaram pelo assunto e aproveitarão para se infiltrarem no grupo deles (...) para, como eles dizem, proteger sua rainha de neuras desnecessárias.

&

- Chega, mocinha! Não quero ouvir um piu! Enquanto não aprender a se comportar, não vai ter colo, nem doces, nem coisa nenhuma!

Ele se afasta, de coração partido, mas sabe que precisa manter a cara de durão (...) As funcinárias do orfanato agradecem pela intervenção, apesar de às vezes se assustarem com o rigor de Elias. Ele lacrimeja, antes de voltar para casa, mas sabe que amanhã aquela menina atrevida estará melhor consigo mesma (...) Renata trata de compartilhar a ligação com Patricia, quando sabe disso...

- Cara, ele é mais parecido com você do que comigo, que sou parente próxima!

- Woooow! Elias, é Patricia!

Ele treme um pouco. Já tinha se acostumado à prima (...) mas ele nunca esperava uma conversa com a líder da banda, da cidade e sabe-se lá do quê mais. Os três se falam por não mais do que dez minutos (...) mas Patricia sai com algumas boas impressões do afilhado, e algumas preocupações também. Vai à casa da comadre falar do tom de voz dele, olha para trás e vê dois pares de perninhas a segui-la...

- Eu não vou fazer uma visita recreativa, o tema será bem chato.

Elas querem ir assim mesmo. São colocadas no banco de balanço da varanda, enquanto as adultas tratam do tom de voz do rapaz, que era de uma melancolia de dar dó. Não lhes parecia ser só pelo episódio (...) não havia embargo...

- A depressão dele é muito parecida com a sua, a cara de mártir que ele faz é quase tão assustadora quanto a sua. Veja estas photos, que minha mãe tirou sem ele perceber.

- Ele tá sofrendo, Rê.

- Tá. Tem coisa que não dá pra consertar, tem coisa que dá, vamos focar esta.

Lá fora as duas fingem conversar sobre a revista de moda (...) Sabem que o primo distante está com problemas, só não discerniram o quê. Patricia as chama...

- Venham aqui, xeretas... Antes que comecem a fantasiar o que não devem, vou contar o que aconteceu. Eu conversei com seu primo, ele está numa fase muito difícil...

- ENTÃO ELE EXISTE!

Finalmente algo para arrancar risos (...) Prudence aliviou, mas elas (...) não têm maturidade para digerir algumas coisas, limitação que Phoebe já não tem...

- Quando vovó tá deprimida, eu chego, sento no colo dela, abraço ela e fico quieta, aí ela melhora.

- Certo, é assim que se faz... Mas você já discernir tão bem algo tão delicado, me assusta. Com esta cara de adolescente e a mesma voz desde os nove anos, não sei se você vai me levar à sério.

Conversa com seu toquinho de gente no colo (...) Richard chega da frutaria e vê a cena cada vez mais comum...

- Amada, preocupada de novo com isso?

- Não tem como não, amado. Esta menina está mais madura do que a Betty... Eu não quero que ela vá embora cedo demais!

- Mas eu não vou! Pra onde eu iria? Eu moro aqui!

- Você está pior do que mamãe, está sofrendo muito antes da hora. Ouça a baixinha, ela sabe que é uma criança, ainda vai nos dar trabalho por muitos anos. Desta vez vou chamar a sua mãe...

Vão pois as duas avós com as duas bisbilhoteiras. Elas às vezes também se sentem meio crianças perto da sobrinha (...) É preciso Renata fazer algumas cócegas na menina, para a aflita ver que ela ainda é e se comporta como uma criança (...) a mediunidade da filha está atrapalhando bastante, porque ela vê o quanto aquele bebê é evoluído. Fosse só a precocidade, saberia lidar, mas a autoridade moral de Phoebe intimida Marcia. Patricia a pega no colo e canta a música que fez para Richard, quando ele começou a ficar muito mais alto do que os outros garotos de sua idade...

- Don’t grow up too fast, my baby. Don’t walk on before I can give other hug...

Ele se lembra. A mãe insistia em lhe abraçar e colocar sua cabeça no ombro (...) Agora, mesmo com as irmãs nos braços, vai acolher a cabeça da mãe, como há muitos anos tem sido. Phoebe ainda tem o tamanho de uma criança na primeira infância, mas depois dos seis ou sete anos... Melhor não sofrer antes da hora, basta a esposa.

No dia seguinte, uma quinta-feira com a frente da casa cheia de folhas secas e uma borboleta morta, Renata vai com os outros para mais uma viagem lúgubre (...) Elizabeth Montgomery é sepultada sob o olhar de mártir de Patricia, que se lembra do último conselho, quase uma ordem de Audrey Hepburn. Leva todos os dezessete para um check-up, mesmo Madeleine protestando, por já ter sido furada e invadida em exames médicos há pouco tempo.

Dead Train in the rain CXVI

    Princess! Agent Princess! A estação 116 desenha mais uma vez os bastidores da geopolítica, com um toque de emoção. Aprendam e embarquem, o trem vai partir.


Com Chopp, Doom, Bird, Brain e Nelson, Star conversa reservadamente com um figurão da CIA (...) Sunshadow tornou a organização mais poderosa do que muitos serviços secretos, a lealdade dos agentes fora de campo que foram para lá é preocupante...

- Compreendo, monsieur. Sua preocupação procede, Grandpa passou por isso, quando os antigos dirigentes da agência descobriram suas actividades.

- Uma organização que poucos conhecem e tem simpatizantes no alto escalão de muitos governos pelo mundo... Agora essa polêmica, mais uma polêmica cercando Princess...

- Ela é tão valiosa quando delicada, entre nós, mas por quê a preocupação com ela?

- Além de sete líderes mundiais estarem apaixonados e prontos para cair de quatro, se ela quiser? Nós sabemos que existe uma legião à parte, ainda desconhecemos o comando, que se reporta directamente a ela. Um exército! O Pentágono ficou de cabelo em pé, quando descobriu.

Bird mantém discrição. Brain alisa o queixo, apontando para baixo, pedindo-lhe calma. Doom (...) afirma que passa de cinco mil, quando na verdade passou de doze mil há algum tempo, mas mesmo que soubessem quem o comanda, não poderiam dizer...

- Princess já tem uma carga muito grande de responsabilidades, já é muito visada pela inteligência internacional, fora os ônus de ser uma super estrela mundial. Há algo que queira nos contar?

- Dois altos oficiais cogitaram matá-la, visando extinguir a organização a longo prazo, mas foram contidos. O presidente pediu que eu viesse avisar, porque confia mais em vocês do que na própria agência... e, sinceramente, eu também.

- Agradecemos pelo aviso, monsieur. Você ficará aqui por mais duas horas, depois sairá com Chopp, Doom e Bird, no carro dele, porque alguém certamente o seguiu.

O Thunderbird preto sai duas horas depois, com o agente abaixado no banco traseiro, ao lado da perigosa Bird, que está furiosa pela nova ameaça à sua rainha, mas não mais do que o pai dela...

- Deixe que eu cuido deles, Ritchie, sei quem são e como lidar com eles.

- Pois preste atenção, Nelson, e dê este recado...

Pega uma robusta esphera de aço escovado, que serve de castiçal, e a esmaga com uma mão. O recado será dado (...) Ele volta para Sunshadow e chama os seus. Genius faz a mesma cara do avô, Barbarian seleciona mentalmente seis armas e Beyond, ainda com o gesso, acolhe a esposa...

- Eles pegaram a senha? Tem mais gente na fila, alguns com prioridade. E esse medo de nós sabermos muito mais coisas do que eles imaginam... Francamente! Já deveriam ter se acostumado! Como Bird reagiu?

- Do jeito dela.

- Meu Deus... Ela está fervendo por dentro. Falarei com ela. Enquanto isso, quero que não dêem um passo neste assunto sem me consultarem, esperem Nelson agir, então decidiremos se e o que fazer. Se tivessem se empenhado tanto em conter aqueles insurgentes, como se empenham em me vigiar...

&

Ela fixa tudo, testa para ter certeza, então põe a máscara e começa a soldar, ou começaria (...) tira a máscara, irritada, vai ver o que houve com a máquina de solda e volta a colocar a máscara...

- Explique isso, mocinha.

- Mommy...

- Tire a máscara... Agora explique isso!

- Eu queria fazer um carro...

- Um carro... Este quadro de perfil quadrado não dá nem a bitola traseira do Fusca de sua avó!

- Era pra fazer um carro bolha... pra Proo. Ela não tem ninguém, mommy, eu queria dar um presente pra ela.

- Então é isso. Depois do castigo a gente vai conversar a respeito. Já para o seu quarto.

Noutro dia, a poucas semanas do inverno, uma reunião de baixa privacidade da organização acontece novamente na Máquina de Costura. Elizabeth (...) se esconde detrás de uma cadeira e espera. O silêncio súbito lhe causa estranheza. Ela estica o pescoço e vê os oito lhe observarem...

- Vai ter que acordar mais cedo, Elizabeth.

- Eh... Vocês não vão salvar o mundo?

- Estamos pensando no caso, talvez usando você como isca, bisbilhoteira. Acha que não vimos você entrar?

- Mas eu não fiz barulho!

- Nem precisaria, xereta! Você estava tão preocupada em vigiar seus passos, que não olhou para cima, encaramos você o tempo todo. O que esperava ouvir aqui?

- Eh... Que querem dominar o mundo, que Sunshadow está sob ameaça declarada, que pensam que somos alienígenas e querem nos prender, que tem um monte de segredos que ninguém pode saber, que tem exércitos secretos agindo nos Estados Unidos... Hm?

- Você imaginou tudo isso, mas é tudo verdade. Você sabe demais, mocinha, não podemos te deixar ir assim, sem precauções devidamente tomadas.

Os outros não se agüentam e a biblioteca é tomada pelos risos. Richard se levanta e vai acolher a irmã atônita. A pequena é carregada para o jardim privativo, onde algumas regras são explicadas (...) ela pede algo aos pais...

- A Proo... Ela é tão parecida comigo, que poderia ser minha gêmea bivitelina... Ela pode ser minha irmã? Please...

Os outros esperam. Vão os três à fundação (...) Patrícia se agacha, alisa o rosto da menina com o dorso da mão esquerda. A encara de forma doce até as duas respirações se sincronizarem. Assim a menina que a conheceu com uma lambida se torna irmã de Elizabeth. Está confusa (...) não sabe o que a aguarda. Chega à Máquina de Costura e vê uma multidão à sua espera. A professora de música e agora avó se apressa em tê-la nos braços, com os cuidados de quem conhece como ninguém a fragilidade de sua pele delicadíssima (...) A avó paterna chega no dia seguinte, já conhece a garotinha curiosa e sem noção...

- Vem cá... Como está magrinha, Arthur!

- Ela é magrinha, mamãe. Faz parte da compleição, já te explicamos isso.

- Mas ela não era minha neta, até ontem! Está com fome, Proo?

Nancy aparece dançando, mostrando os punhos e fazendo um sorriso de deboche, alguém concordou consigo e ela vai esfregar isso na cara de todo mundo. As duas acompanham o mais proximamente possível a adaptação da novata (...) O inverno chega e as luzes de natal cuidam de acalmar sua ansiedade pela vida. Quando chega o natal, antes de irem à festinha de Phoebe, Prudence ganha seu próprio P50 amarelo com bolinhas pretas, mas este é eléctrico, 1kWh, muito mais simples e seguro de ser construído; e ainda alimentou o gosto pela graxa da irmã. Ter imposto um castigo por mexer sem permissão em ferramentas muito perigosas (...) não significa que Patrícia não tenha concordado com as intenções da filha.

&

Golden Feather leva Happy Moon para ajudá-la por um dia, com a plena aprovação do pai (...) É o contrário de mãe e avô, é calada e com alguns excessos de bom comportamento, chega a ficar irritadiça se insistem para algum passeio, isso torna seu nome um tanto irônico. Com quem respeita sua solidão periódica, ela se dá bem, mas não tem a distribuição farta de sorrisos que se espera de uma criança. Eddie já avisou, após análise, que esse é o temperamento dela, não há absolutamente nada de errado com a pequena. Como diz Crazy Horse, deve ser um espírito ancião repleto de sabedoria, que veio em missão e não vai perder tempo com distrações...

- Ela é feliz, Feather. Não confunda euforia com felicidade, são coisas completamente diferentes.

- Já falei com outros médicos, eles sempre prescrevem medicamentos!

- Eu não ganho um centavo com medicina e psiquiatria, eu não tenho pressa em me livrar do paciente e não tento ser conveniente para ele. Às vezes uma doença controlada é menos danosa do que a cura.

- Quantos colegas seus concordam com você?

- Só os que vêem o paciente antes de sua carteira.

Consegue tranqüilizar a apache (...) Reporta o caso às outras três; Marcia, Renata e Zigfrida. Concluem que o caso se parece um pouco com o de Patrícia, embora o problema seja outro. Olham para a pequena tagarela Phoebe e imaginam o que ela terá que enfrentar. A menina já lê e escreve alguns garranchos, em vários idiomas. Aubrey segue uma rotina mais mansa (...) seu desenvolvimento é mais fácil de ocultar. O tempo faz seu trabalho, a bisneta dos Gardner entra para a escola sabendo muita coisa e torna-se o bebê da classe. Ao fim da aula, Nancy entrega o pequeno prodígio às tias. Elizabeth e Prudence se juntam à gangue e seguem até começarem a se dispersar. A primeira é Stephanie levando Aubrey consigo, depois Kurt com Happy Moon, deixam Giovanni, Nina, Lola, Alice, Belice e Celice com Enzo; Glenda fica com Renata e por último se despedem de Evelyn, já à porta de casa, aproveitanto que Rebeca foi ajudar a salvar o mundo. Patricia de vestido verde escuro rodado, olha para as três, abre um sorriso enorme e as carrega de uma só vez...

- Os amores da mamãe estão ficando mocinhas e responsáveis.

De repente começa a sair gente detrás de carros, caixas de correios, árvores, latas de lixo e até do bueiro. Os paparazzi photographaram a viagem da escola até aqui. O destaque, já nos tabloides vespertinos, é para Elizabeth (...) “GOD! What a georgeous little girl!”. Os pais da menina recebem alguns exemplares...

- “Meu Deus, que menina linda” é tudo o que eles têm a dizer?

- Claro que minha filha é linda, e daí? O que há, o público deles está com preguiça de ler?

- Basicamente sim, honey. Qualquer texto com mais de dez linhas é logo descartado pela maioria dos leitores, pergunte pro Matt.

- Dez linhas mal dão uma introdução, qualé! Que pesadelo é esse? Além de alienada, a população vai ficar analphabeta? Galera, quero todo mundo aqui, agora.

Não vão cinco minutos e estão todos diante da menininha mandona. Ela explica o drama, Rebeca solta alguns palavrões e eles começam a trabalhar. Acostumados ao padrão de Sunshadow, lhes parece que a educação americana está despencando para o terceiro mundo. Ronald, conhecedor do francês mais arcaico, afirma com autoridade que conhecer palavras e as combinações de seus sons, não é saber ler. Decidem que o almanaque vai insistir na importância da leitura (...). Renata chama o marido e as instruções são dadas. Vão à casa de Fester e (...) vêem três adolescentes sendo mimadas e aprendendo as tarefas da casa, uma das resgatadas, uma negra baixinha e uma cadeirante de cabelos curtinhos. Patricia fica de boca aberta, muda, mas logo solta um grito e o casal é carregado pela casa. Após a festa, o recado é dado.

Começam os trabalhos midiáticos do ano um mês antes do previsto. Renata teve a idéia de colocar uma página com três colunas tratando do mesmo assunto. Uma com tipos enormes e superficial, outra com tipos grandes e mais profunda, a terceira com tipos normais e a história completa em todos os seus detalhes. Na página seguinte a mensagem “Viram o quanto perde quem tem preguiça de ler?” (...) vão buscar Nancy para sua primeira colaboração em uma mídia periódica. Impossível não se lembrarem de George Gran Ville, mas a matriarca assinará o próprio nome.

Quando o almanaque sai, gera mais polêmica. Muitos defensores de que só vale a idéia principal, atacam a publicação (...) Do outro lado, 99% da população gostam muito da idéia, principalmente como um recurso para atender a três tipos de leitores em uma só matéria, do mais apressado ao que está de folga e pernas para o ar. Matthew manda fazer imediatamente um teste com os cabeçalhos “resumo”, “geral” e “notícia completa”. Enquanto a polêmica corre e só aumenta a popularidade da banda, os dezoito trabalham em canções que demonstram a importância de saber ler e saber o que foi lido (...) Sai o novo álbum completo em uma tarde, só falta acertarem detalhes e gravar.

&

Patricia pensa nos filhos e na neta. De repente se lembra da mãe e precisa segurar o choro. Desta vez terá uma morte nas costas ou será ela a morta do episódio. Apesar das ordens (...) alguém achou que valeria à pena deflagrar uma guerra e devastar um país inteiro para conseguir um momento de regozijo pela vingança, porque a população logo o destroçaria assim que disparasse. Princess olha fixamente para o homem com a pistola automática, saca o mais depressa que pode, mas antes de aperte o gatilho ouve três disparos; um no ombro que segura a arma, no coração e entre os olhos. O sangue começa a escorrer em profusão e acabou, um agente a menos no mundo. Patricia olha para trás e vê justo aquela por quem quase estava chorando...

- Mommy!

- My baby!

Nancy corre para a filha (...) Ela avisou que ninguém se meteria com sua família sem lhe prestar satisfações, prometeu que ninguém lhe faria mal enquanto estiver viva. Não houve tempo para ele apertar o gatilho, e ninguém conseguiu acompanhar os movimentos da mulher ao sacar a pistola, mirar e atirar. Nancy está furiosa, olha com raiva o cadáver ensangüentado no chão...

- Você só vai pro inferno porque não existe lugar pior, desgraçado.

Os paparazzi disseminam a notícia como mágica, o planeta sabe em minutos que Patrícia Petty sofreu um atentado a bala e foi salva pela mãe (...) Sunshadow recebe mais de cinqüenta mil pessoas, entre fãs desesperados, imprensa e agentes que foram tentar salvar o pouco que ainda resta do segredo (...) Pela segunda vez um presidente põe os pés na cidade. A esta altura, todos têm certeza de que ela é uma agente do governo, sem imaginar a imensa crise diplomática que se formou nos bastidores, deflagrada por aquele polonês stalinista. O presidente chega à casa de solteira, de onde Nancy não permitirá que a filha saia até ter certeza de que o perigo passou, constrangido pela falha na segurança, pede licença...

- Com licença... Boa tarde... Senhora Gardner, em primeiro lugar eu quero me desculpar pela nossa falha e agradecer por ter salvo Patrícia. Muita gente, inclusive eu, deve a vida a ela...

Muitos segredos não há mais como manter. A organização e as agências oficiais entram em pane para salvar o que resta, e soltar versões verossímeis que o cidadão possa digerir sem ele entrar em pânico (...) percebem que quem manda no país e no mundo, naquele momento, é Nancy Petty Gardner. Ela não sabe o que a filha fez (...) sabe que ela só sai de seus braços quando estiver em segurança. Foi aquela moça que devolveu ao casal a vontade de viver, e evitou que Richard morresse de depressão. Nancy simplesmente não consegue enxergar vida sem sua primogênita.

Na Europa os bastidores quase desmoronam. A mulher de confiança de doze chefes de Estado sofreu um atentado justo por quem foi ignorado por suas agências de inteligência, por o considerarem inofensivo. Reuniões são marcadas com o pretexto de discutir os rumos da economia (...) para tomarem providências sem que o cidadão perceba. Os jornais começam a rodar manchetes com "Nossa espiã favorita” como chamada, e Matthew precisa de três ou quatro clones para dar conta do recado, Mikomi, Fester e Mary Ann sozinhos não estão bastando. O escritório central busca em casa dezoito candidatos que têm currículos na corporação, é uma emergência. A noite desce e o presidente vai embora, tendo dado à Nancy a certeza de que aquilo não vai se repetir. Mas os trinta mil fãs ficam na cidade até terem eles a certeza disso.

Já em casa, ela acolhe as filhas chorosas e o marido assustado. Deveria estar apavorada, tensa, no mínimo muito assustada, mas nunca se sentiu tão filha de sua mãe como hoje (...) No dia seguinte há uma romaria em frente à Máquina de Costura, dezenas de milhares de pessoas precisando ser tranqüilizadas (...) Sem escolha, a mulher de blusa salmão e saia média preta vai novamente à rádio, porque falar à toda aquela gente sem aparelhagem, e ao ar livre, simplesmente não dá. Os paparazzi não deixam de notar a excelente forma física de quem se aproxima rápido do cinqüentenário.

Encontra na rádio dois amigos de infância, que namoraram por doze anos, até a maioridade, hoje têm trigêmeos e três adoptados. Ela espera “Forgotten” terminar e toma a programação...

- Sunshadow, é Patrícia quem fala. Eu gostaria de não precisar fazer este comunicado, mas é imperioso que eu o faça. Não vou tentar desmentir o que aconteceu na manhã de ontem, aquele homem realmente veio com o intuito de me liquidar. Eu realmente sei muita coisa, infelizmente não posso contar um décimo e mesmo que pudesse, esse décimo tem tanta coisa que eu não saberia por onde começar. O que posso contar tem correlação com o atentado. Aquele homem era membro de uma ditadura, louvada por muitos intelectuais ingênuos que nunca sofreram censura em seus próprios países. A ditadura caiu e eu tive uma pequena influência nisso, por isso ele veio para se vingar. O facto é que essa ditadura e muitas outras pelo mundo, agem de modo desumano e absolutamente egoístico, fazem nossos corporativistas mais idiotas parecerem boa gente. Uma das práticas dessas ditaduras é se aproveitarem da ganância de nossos corporativistas para promoverem a escravidão em países miseráveis, tanto a laborativa quanto a sexual, para assegurarem recursos às suas fábricas e aos seus propósitos, e um deles é se manterem no poder a qualquer custo. Por isso existem miséria e tensões nesses países, não só pelo conceito pueril de que miséria dá lucro, a questão é política e ideológica, e em breve se tornará também religiosa. Meus queridos, esta era de paz e tranqüilidade de que desfrutamos agora, é ilusória. Nestes países explorados existem tensões absurdas em crescimento silencioso, que cedo ou tarde vão gerar rupturas e espalhar estilhaços para todos os lados, inclusive para o nosso. Nenhum país no mundo é páreo para os Estados Unidos da América, nenhum deles é capaz de nos enfrentar por mais de um mês, antes de cair e ver seu território devastado, mas esta regra não se aplica a terroristas, eles não têm nacionalidade, agem como acne, brotam de onde menos se espera e não dá para dizer que pedaço de doce a produziu. Eles têm rancor, sede de vingança e estão dispostos a matar e morrer para se vingarem do que nossos antepassados fizeram, e de muita coisa que nos acusam de termos feito; não acreditem em tudo o que falam contra nós, muito menos de gente exaltada e cheia de discursos ideológicos. O ponto é que essas tensões não tardam a emergir e se alastrar pelo mundo, os atingidos vão procurar um culpado, e nós somos alvos preferenciais de muitos grupos. Por isso eu peço que se preparem para o pior, toquem suas vidas até lá, mas se preparem para agressões inclusive domésticas, porque o americano primou em se alienar e muitos vão acreditar que temos culpa até na condenação de Joana D’Arc. Cerquem-se de bons momentos, de dias proveitosos, vivam o máximo com suas famílias, porque o medo que chegou mais cedo à Sunshadow, vai bater na porta de cada americano. Por agora, compreendam, isso é tudo o que eu posso falar. Obrigada.

Quase cento e vinte mil pessoas na cidade e toda a região ouviram (...) Ela sai altiva e ovacionada da rádio, após medir e comedir as palavras como nunca. Sabe que ainda nesta tarde os jornais vão inundar o país com suas declarações e teorias conspiratórias correlatas. Reconhece alguns ghost drivers, estende a mão e eles vão. Tem consciência de porque estão lá e quer que tenham certeza de suas boas condições, para poderem retomar suas vidas. Alguns passos e lá estão seus pais, eles a acompanham até sua casa de casada.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Dead Train in the rain CXV

    Trauma e recomeço! A estação 115 traz uma só lição em todas essas linhas, vocês precisam estar bem e vivos, o resto é supérfluo. Embarquem, o trem vai seguir viagem.


Nancy acredita que concluiu sua participação (...) Aquelas moças podem conviver em sociedade, sem perigos, mas aquelas mulheres precisarão da tutela pública pelo resto de suas vidas. Lamenta muito que tenham precisado de sua ajuda, mas já podem se virar em ambiente doméstico (...) As mais jovens voam com ela para Sunshadow, onde são recebidas pela população com o carinho que a professora severa lhes dispensou, durante o árduo aprendizado. Uma conseqüência do método escolhido, é que elas costumam falar cantando (...) Ninguém fica indiferente às quarenta moças branquelas que olham tudo como novidade, principalmente os visitantes. Logo (...) novas teorias conspiratórias nascem, reforçando as vigentes, inclusive a de que a cidade é um reduto conservador.

A idéia de um prédio para elas morarem sozinhas foi abandonada de imediato, querem que se sociabilizem o mais rápido possível, então foram acolhidas por sunshadowers em suas casas. Patricia liga para Josephine e informa da tranqüilidade com que tudo transcorreu...

- Muitos turistas, muita gente de fora que trabalha aqui, enfim... Os jornais logo noticiam, inclusive os nossos, mas é o tipo de coisa que não dá para manter em segredo. Engraçado ouvir elas falarem cantando, mommy fez um trabalho excelente, elas são muito afinadas.

- Então temos um problema resolvido. E Elizabeth?

- Agimos rápido, mas ela ainda evita olhar para um casal se beijando com mais entusiasmo. Isso vai passar, eu espero... Ah, os ufólogos... Sumiram, mas terão que voltar, eles ainda não me decifraram.

- Conversei com Jeremy a respeito. Talvez posamos tirar partido... Já pensou em ser super heroína?

- No, thanks. Voar por aí de maiô cavado não faz o meu tipo.

Conversam enquanto Renata conversa com Elias (...) está feliz no emprego, finalmente pode planejar o futuro. Gostou do tom da voz dele, mas estranhou a profusão de monossilábicos que ele solta. Vai comunicar suas impressões à tutora escolhida.

Nancy leva as moças para conhecerem a fundação e elas reconhecem as meninas, embora nunca tenham conversado (...) A curiosidade mútua é imensa, conclui que as crianças podem ajudá-las em sua nova fase de vida. A cantoria toma conta do lugar e pega todo mundo de surpresa. Vai comunicar à primogênita a boa notícia e encontra Renata transmitindo seu recado...

- Duas boas novas em um só dia! Não vou elogiar, mas estou contente. Só lembrando que faltam dez anos ou menos para eu ir ter directamente com ele, segundo o seu avô.

- O que vai fazer? Vai pra lá ou...

- O que for necessário, Rê. O que for necessário.

- Ele ainda está estudando?

- Então... Houve um problema e ele pensa em desistir, mas estou tentando dissuadí-lo... Ele fez uns testes e viu que estudando ou não, os resultados nas provas são os mesmos.

- AH, MAS NÂO VAI MESMO! Já passei um sabão no Brad por isso, ele não vai fazer o mesmo!

- Na próxima vez que for falar com ele, me passe o telephone, vou tirar essa idéia derrotista.

- Eita! Ei, não exagerem, eu disse que ele pensa em sair, eu estou cuidando para não acontecer.

- Eu sei que não vai. O problema maior é que ele ficou muito desiludido com a vida, não sabe mais o que quer dela. Teremos que cutucar até ele voltar a alimentar algum sonho.

Para alguém que se acha muito velho para muitas das coisas que queria fazer, será uma tarefa árdua. Ele termina de limpar o radiador do freezer (...) Desde que começou a fazer isso, o consumo dos aparelhos caiu consideravelmente. Aos poucos o velho patrão começa a ver nele um homem de confiança.

&

Fischer ganhou a aposta. Demorou muito, mas Weasley Brook faleceu (...) ele morreu feliz, viu sua humilde chocolateria se tornar, em vinte anos, uma rede internacional de franquias. Viu o neto caçula unir sua família à de Patricia, viu Sunshadow deixar de ser desprezada (...) viu gente arrogante que o desprezou lhe pedir emprego; se foi de alma lavada. Só fica em Gerald a idéia de que ele pode ser o próximo. Na volta para casa, se senta na cadeira de balanço da varanda, olha ao redor e começa a ter os mesmos sentimentos do amigo. Era só uma fazenda decadente, ele vivia de lembranças e dos rendimentos que sua previdência proporcionava (...) Casou-se com Deborah, linda de morrer até hoje, o filho caçula tomou a frente do serviço, se reconciliou com a filha fujona, todos os dias encontram algo escondido na propriedade, poderia morrer hoje, morreria feliz. Mas terá que esperar algum tempo.

Deborah volta de mais uma busca com uma caixinha cheia de moedas do século XIX. Não são muitas, mas têm valor histórico (...) Estão apenas empoeiradas (...) uma passada na água e estarão prontas para o acervo. Amilton sai com Glenda à sede nova da empresa, para a menina se acostumar a saber de onde vêm seus confortos, e também se preparar para quando tiver que tomar sua parte do comando. Ela ainda não entendeu direito a sinestesia da mãe, para piorar, adora letreiros berrantes e extravagantes (...) Ela vê pela primeira vez o início do planejamento de uma turnê. Richard e Marcia fizeram um esboço, antes de começarem a planejar...

- Aqui – diz a moça – temos uma região delicada, muita gente com desafetos muito acima da média, deixá-los juntos seria uma carnificina...

Os melindres de quem precisa lidar com gente (...) Audrey é que tem trabalho duplo, porque é da casa e o neto do falecido está inconsolável, apesar de ele ter chegado à idade em que a qualquer momento não faria mais aniversários. Há muitos assim na cidade, apesar de a expectativa de vida ter ultrapassado oitenta anos (...) Perto dali, Elizabeth recebe Prudence. A visitante se deslumbra com a Máquina de Costura como se deslumbrou com a cidade. As meninas vão para o coreto, onde uma mesinha de acepipes as espera. Faz questão de dizer que ajudou a fazer tudo. Foi a primeira vez que as meninas resgatadas saíram sozinhas (...) A anfitriã, como a mãe, as tias e o irmão, começou a crescer rápido. A certa altura, Prudence pergunta quem é Elias...

- Aproveita que temos a tarde livre e senta, que lá vem história.

Ela conta o que sabe para uma menina que não sabe o que é ter família (...) Elias, enquanto sua prima distante fala a seu respeito, é ofendido em casa, pelos parentes. Chamam-no de fresco e gay, dizem que precisa apanhar e transar com uma puta de beira de estrada, quase o agridem (...) alguém mexeu nos exames que trouxe do psiquiatra, que o diagnosticou com depressão severa, com viés para extrema. Paradoxalmente (...) é o que o ajuda a manter sua sanidade em ordem, por isso o médico preferiu não curar, temendo que isso o induzisse a uma tragédia. Isso chega aos ouvidos da prima psicóloga...

- Não... Isso explica muita coisa.

- E ele acabou de me ligar, tomaram o exame da mão dele e leram em voz alta...

- A família do pai não estava lá, estava?

Tudo o que poderia dar errado, deu errado, inclusive ele não ter conseguido esboçar reação e ter retido tudo o que sentiu na hora (...) descobre que ele é tão sociável quanto um carcaju. Chama os outros para uma reunião de turma, para ajudar a conter os ânimos de Patricia, que bufa de raiva. Aquele metro e noventa nunca foi tão intimidador...

- Vou instalar um pabx remoto para você me passar a próxima ligação, aproveitarei e farei isso nas casas dos senhores também... Ricky, é mamãe. Quero um favor seu, agora.

Ele instala as conecções privativas de compartilhamento, que acabam se tornando também uma intranet e mais gente passa a ter seus pontos; a família de um, é a famíla dos seis (...) Membros e familiares da banda passam a conversar com vários interlocutores ao mesmo tempo, por computador ou telephone, o que será muito útil no auge do inverno.

&

Zigfrida ainda tem uns anos de pesquisas pela frente, mas apresenta um relatório preliminar para Josephine (...) os resultados têm sido muito melhores do que imaginaram, o jeito Naomi de educar está mostrando resultados excepcionais. Mas uma criança, ainda muito jovem para ser influenciada por ele, chamou a atenção, Phoebe causou mais um alvoroço quando começou a dizer os nomes das cores, de muitas letras e dos números (...) Ela prestava atenção aos nomes que davam às palavras, às formas, cores, sons, planilhas, enfim, a tudo...

- Se descobrirem essa menina, então sim vão pensar que Sunshadow é reduto de aliens.

- Na verdade ela parece ser um pequeno gênio que tem todas as condições favoráveis para se desenvolver. Os limites que ela tem são os mesmos que todas as crianças da cidade têm, só que também a genética ajudou um bocado. Mesmo assim é uma bochechudinha fofa que dá vontade de beliscar!

- Eu estou devendo umas visitas. Irei com você, na próxima vez.

- Tá devendo é uns filmes, oh, diva reclusa! Qualé, Jose, o que você quer? Que estúdios inteiros rastejem pra você aceitar um papel? Sua sina é brilhar, mulher! Você não pode esconder isso do mundo!

- Rastejar... Não seria ruim... Bart...

- Você aceitou? Diga que sim, Jose! Diga que sim!

- A Frida falou em alguém rastejar, é isso mesmo?

Meia hora depois, lá estão executivos, diretores, produtores, actores, figurinistas e fofoqueiros literalmente aos pés da diva, inclusive Bart (...) ela não precisa mais do cinema, mas o cinema precisa desesperadamente dela, até mesmo os estúdios concorrentes ganhariam com seu retorno às telas...

- Posso ver o roteiro, monsieur?

A volumosa cópia é analisada rapidamente. Para algumas páginas ela faz caretas, mas a maioria até acha interessante. Engraçado como ainda tem no mundo artístico o efeito da Hollywood de outrora (...) as armadilhas sempre existiram (...) mas entregava fartamente o glamour que prometia. Termina de ler por cima, faz um biquinho para a direita, pega o telephone e fala com Nancy...

- Chérie, avise a quem deve que eu aceitei aquele papel de malvada.

Não é uma vilã em essência, é uma malvada. Todos aqueles homens começam a ladainha de onde pararam, beijam seus pés, mãos, juram lealdade e oferecem vassalagem, enquanto Nancy usa a rede social que o neto construiu, espalha a notícia por Sunshadow. O cinema mundial comemora.

&

Conseguem indiciar todos os envolvidos no cárcere das mulheres, incluindo pessoas ultra ricas, que ficariam impunes se não fosse pelo trabalho da organização (...) Não sabem o que deu errado, sabem que deu muito errado. Foram pegos em crimes de colarinho branco, a que estão acostumados, mas as agências oficiais cumpriram com suas promessas (...) impedindo que contactos fossem feitos em tempo hábil. Star teve a notícia em primeira mão, o presidente foi o segundo, depois voltou a estudar o roteiro e suas primeiras falas. Pensa em fazer um laboratório, mas precisa de voluntários. Talvez os garotos.

Eles estão arrumando os detalhes para receber outra banda em Sunshadow, vão usar a cidade ao natural para fazer os clipes. Para Zigfrida é uma boa chance de obter um bônus para seus estudos, porque a cidade fica particularmente agitada e as crianças mais defensivas (...) O Airtrain desce com o quarteto à bordo, e eles encontram um Volvo FH12 com o semi reboque todo aparelhado, nele os dezoito esperando para fazer o acompanhamento e não tem jeito, eles têm que cantar “My Oh My” lá mesmo, na hora, ao vivo, para o delírio do público.

São alguns dias de festa. É como a resposta que eles receberam, decidem na hora o que e como farão (...) Vão à Máquina de Costura, no fim da tarde, para uma confraternização, com uma penca de paparazzi atrás, onde encontram Marcia e Richard com Phoebe. Os ingleses se aproximam do bebê, Holder não disfarça a perplexidade...

- Ainda não acredito que vocês duas são avós! Olha o tamanho desses dois, eu já os carreguei nos braços!

- Eu me lembro, você pulou comigo na piscina. Mommy, é hora de retribuir aquela gentileza! Dele eu cuido sozinho.

- Hora de carregar, galera!

Os quatro são carregados pela sala e depois jogados na piscina, onde todos pulam em seguida (...) um pouco mais longe um grupo de pedagogos tenta colher informações sobre as crianças da cidade, por meio de pesquisa por amostragem. O cidadão estranha as perguntas, chegam a questionar se aquilo é sério (...) Se recusam a dizer o que suas crianças fazem nas horas vagas, não confiam em gente de fora. Laura toma conhecimento e vai ver do que se trata (...) é logo reconhecida pelo grupo frustrado...

- Sunshadow não confia na imprensa externa, menos ainda em pesquisadores que tentam vasculhar a privacidade do cidadão, especialmente das crianças.

- Mas nós só queremos traçar um panorama da infância e da adolescência, a senhora deve ter conhecimento dos debates que se formaram sobre sua cidade.

- Sim, eu estou ciente de todas aquelas bobagens. Achar que uma criança não é espontânea só porque não é malcriada, só poderia ter saído de quem nunca teve filhos mesmo. Eu fui mãe solteira, criei a Silvia com muita dificuldade. Se esta cidade fosse uma fração do que disseram, ela não teria me acolhido e eu hoje não seria primeira dama. O sunshadower sabe quem são vocês e se lembram bem das ofensas que lhes dirigiram em rede nacional de televisão.

- Mas e a repressão doméstica? A senhora nega?

- Dê uma olhada nos adolescentes e vejam se eles sofreram alguma repressão, na infância. Aliás, olhem bem para os adultos e tirem suas conclusões. Se você acredita que limites são o mesmo que repressão, então você não é deste planeta e não fala das crianças deste planeta.

Ela não delonga (...) Laura é impiedosa na medida do necessário, conclui a conversa e volta às suas funções administrativas, que incluem a educação pública da cidade. Não vai facilitar um milímetro só para tornar a escola atraente aos alunos, eles precisam aprender desde bem cedo que a vida não é feita de confortos (...) Eles notaram que a população é bastante fechada, quando o assunto é sua prole. Mudarão a tática, mas não reconhecem que podem ter cometido gafes graves.

&

Os clipes ficam prontos e são logo veiculados, com o humor cítrico e digestivo costumeiro (...) as canções inéditas logo caem no gosto do público e a era de paz aparente ganha mais alguns hits. Aparente, porque a organização sabe que há um vulcão ainda activo debaixo desse solo aparentemente firme. Apesar de a diplomacia americana ter conseguido bons resultados nas negociações entre Israel e Palestina, muita gente de ambos os lados quer que o outro desapareça do mapa.

Enquanto isso, Sunshadow inteira segue o que mandou Josephine, continua vivendo, porque deixar de viver não vai reverter os danos (...) Elisa volta para a casa onde nasceu, chorosa, beirando o desespero. Tentou suicídio, por sincronicidade Arthur estava por perto e quebrou o braço esquerdo, mas conseguiu tirá-la da linha do trem em cima da hora. O ex a trocou por uma garota de dezoito anos e a filha mimada agora chama essa garota de “mommy”. Ela sabe que é corresponsável por esse mimo, por isso mesmo lhe doeu tanto a rejeição (...) Gerald vai agradecer ao herói, o encontra nos braços da esposa...

- Oh, meu Greg... Encosta no meu ombro, meu amor, vou cuidar de você.

- Com licença... Bom dia a vocês... Arthur, eu não sou capaz de expressar minha gratidão, não haveria dentes suficientes no mundo para um sorriso adequado. Só quero que saiba que de hoje em diante, no tempo que ainda tenho, vou tratar você como meu filho.

O sorriso tímido e discreto da época de Gregory volta a estampar o rosto do homem, cujo acto de heroísmo quase matou sua mãe do coração (...) Carolina assumiu as tarefas da casa até o filho se reestabelecer. Para Elizabeth, ter duas avós por perto é uma farra, mas chorou quando viu o pai chegar em casa com o braço engessado (...) Elisa está tão deprimida que foi proibida de entrar na cozinha. Combinam de mandar Ana Clara assim que ela voltar da lan house, se há alguém que sabe superar uma traição, é ela.

No fim da tarde, em um longo vestidão de algodão cru com apliques de distantes miçangas coloridas, ela está na sede. A goiana pega a cabeça da deprimida, coloca no ombro esquerdo e pede que solte todos os bichos que tem entalados (...) Enquanto xinga, Elisa amolece e se abraça mais à moça de ouvidos doloridos. Abraça, agradece, beija-lhe a mão, depois o rosto, Ana clara avisa que não é de ferro e pede moderação, mas ela se empolga, começa a gostar do que faz...

- Elisa, tira essa mão daí, senão ah... Ah... Foda-se!

Amilton vai ver que barulho de rangido é aquele, se põe diante da porta, arregala os olhos, puxa a porta, dá meia-volta e retorna à sala de estar...

- People... Seguinte... A boa notícia é que Elisa está reagindo bem à intervenção, só que Claire está reagindo com ela... É isso esse ranger de cama no quarto dela...

Lá dentro, pelo programa de rádio “Hora da Saudade” ouvem Flying por Chris de Burgh...

- Esquece esses babacas, fica comigo.

Elisa, mais velha e muito mais alta, se rende a uma mulher muito mais bem resolvida e preparada para a vida. Está chocada consigo (...) Vão à sala avisar que o problema foi resolvido, e que voltam antes das vinte e duas horas, agora entram na longa Caprice Wagon tree seats e vão à Máquina de Costura (...) Ana Clara não tem pressa (...) vai construir a relação aos poucos. Começa dividindo com ela os cuidados dispensados à sobrinha, que está relendo uma poesia que pretende digitar e depois encadernar, assim que tiver o suficiente. A menina não sabe o quanto ganha com direitos autorais, e os pais preferem que não saiba até ter idade para isso, mas o extrato da poupança é animador.