sábado, 10 de abril de 2010

A cidade não deveria dormir

Megalopoles como a Cidade-Estado de São Paulo é uma das felizes excessões no país, que mesmo assim não têm tudo o que poderiam ter.

Imaginem a inexistência de horários de pico, uma vez que o fluxo seria distribuído ao longo das vinte e quatro horas do dia. Para começar, não haveria mais estresse ao volante, o motorista encontraria poucos carros à sua frente e encontraria facilmente vagas para estacionar. Ao sair, o trânsito moderado permitiria ir embora sem as grandes demoras. As pessoas poderiam, assim, sair um pouco mais tarde de casa, devidamente alimentadas, e voltariam bem mais cedo. Só lembrando que Sampa tem linhas de ônibus que chegam a sessenta quilômetros de itinerário, pensem o sofrimento de quem mora no extremo sul e trabalha do extremo norte da cidade; mora no ônibus e vai dormir em casa.

Haveria muito menos poluição. O trânsito mais fluido evita o anda-e-pára dos carros, permitindo velocidades de cruzeiro mais altas e em marchas mais longas. As emissões não só ficariam distribuídas ao longo do dia, facilitando a dissipação, como seriam muito menores, ocasionando menos doenças aéreas e ópticas, poupando inclusive serviços de saúde pública. Esta, aliás, seria beneficiada também pelo número muito menor e menos grave de acidentes, também evitando faltas prolongadas ao trabalho; crucial para profissionais liberais.

São Paulo tem serviços ininterruptos, e muitos, mas deveriam ser todos. Triste de nós, que só fazemos o que precisamos em poucas horas de prazo.

Encontrar uma agência com guichês funcionando vinte e quatro horas por dia é um sonho, então imaginemos um expediente de dezesseis horas, as outras oito ficariam a cargo de serviços burocráticos internos. Com bancos funcionando das seis às vinte e duas horas para o público, não haveriam mais filas imensas, um cheque emitido no fim da tarde de sexta-feira não seria mais um problema para o comerciante. Com menos clientes para vigiar, a segurança bancária seria mais eficiente e o seguro um pouco mais barato. Sair do trabalho sabendo que há um caixa pronto para auxiliar no pagamento das contas, um gerente pronto para esclarecer dúvidas e ajudar com investimentos, testemunhas em bom número para reduzir as chances dos meliantes; psicólogos e psiquiatras poderiam se despreocupar com doenças crônicas e tratar da melhoria pessoal de seus pacientes.

Escolas públicas funcionando em quatro turnos atenderiam devidamente o cidadão. Porque há Secretários que pensam que todos acordam às oito horas e voltam de carro no fim da tarde. As salas ficariam menos cheias, professores gritariam menos para serem compreendidos, os alunos ficariam menos anônimos na multidão de colegas e todos se entenderiam melhor. Com as escolas sempre movimentadas, depredações e furtos seriam menores e menos freqüentes.

O transporte público ficaria desafogado. Se apenas um quinto dos usuários fosse para a madrugada, o aperto dos ônibus se tornaria perfeitamente suportável nos outros períodos, talvez até desaparecesse em certas épocas. Com menos gente para embarque e desembarque, se perderia menos tempo com o veículo parado, consumindo combustível e gerando ruído desnecessários, o fluxo seria mais ordeiro e mais uma vez os meliantes sairiam perdendo, pois se aproveitam justo de tumultos para fazerem o que não presta. Precisa falar que os motoristas sairiam do trabalho menos neuróticos? Daria até para apreciar a paisagem, cousa que hoje quase ninguém faz, mas areja muito a cabeça.

A televisão teria que rebolar, porque já não existiria mais o tal "horário nobre". Bons filmes e boas séries teriam que ser distribuídos ao longo do dia, facilitando a vida do trabalhador. Aliás, com boas produções disponíveis a qualquer momento, o senso crítico do espectador acordaria, não duvidem que a maioria dos programas sairia do ar em três tempos: surpresa, negação e demissão. uma mente descansada é menos susceptível a baixarias. E aqueles filminhos barra-pesada, heim... Se hoje a garotada burla a vigilância dos pais, imaginem neste cenário. A programação teria que ser aprimorada sem choro nem vela.

Já citado em trechos, o criminoso sofreria mais. Haveriam sempre muitas testemunhas, sempre alguém escondido o bastante para apertar o botão de pânico do celular, já há câmeras embutidas em canetas a preços razoáveis, sempre haveria alguém em um carro potente para photographar e cascar fora, facilitando a captura dos marginais. A polícia sempre encontraria alguém que acabou de ver para onde o filho de uma coitada (que de vida fácil não tem nada) foi. Depredadores e pixadores seriam rapidamente localizados, teriam menos onde se esconder e o risco de depararem com o lutador que os flagrou pixando seu muro seria muito maior. Menos vandalismo, menos prejuízos para o cidadão e para os cofres públicos.

Os apartamentos do centro valorizariam sensivelmente. Menos poluição, menos barulho, menos criminalidade, as janelas poderiam ficar sempre abertas, para o morador do edifício aproveitar a vista que sua residência oferece. Um horizonte sem fumaça, um fluxo ordenado de carros, quem sabe dons artísticos sufocados pela metropolopatia emergem.

O judiciário funcionando sem parar é o sonho de todo envonvido em alguma causa, principalmente advogados, que teriam mais tranqüilidade para analisar e se valer de pareceres. Não haveria mais a figura (até certo ponto discriminada) do plantonista, de um ocaso ao outro seria semrpe horário de serviço e todos teriam a companhia dos colegas, não só juízes, mas de todas as altarquias. Solidão forçada é triste.

Indo um pouco mais além, imagino um mundo em que as folgas semanais seriam individuais, ou no máximo divididas em grupos profissionais. Todos teriam seus dias de descanso, todos teriam suas folgas, todos teriam o lazer que merecem e de que até os iluminados necessitam, mas a cidade jamais pararia, as oscilações de movimento não comprometeriam a viabilidade econômica dos negócios, que poderiam ser melhor estruturados.

De cara, uma cidade que não dorme em ramo algum ficaria mais rica. Porque não é somente a quantidade de dinheiro que produz riqueza, mas a velocidade com que ele circula. O trabalho ininterrupto aceleraria de modo vertiginoso a circulação de capital, fazendo a mesma quantidade de papel-moeda comprar muito mais, reduzindo o custo unitário de productos e serviços, com ele o custo de vida. A geração de empregos seria natural, pois haveria demanda por serviços, talvez até a necessidade de importação de mão-de-obra.

Mais do que estudos de viabilidade técnica e econômica, seria preciso haver mudança de mentalidade para instalar este cenário, porque uma vez feito, as pessoas passariam a ter mais acesso à cultura e ao conhecimento, para desespero do grosso dos políticos. Mas se quiséssemos, o faríamos hoje, porque as pessoas precisam dormir, não as instituições.

6 comentários:

Adriane Schroeder disse...

Hum, algumas idéias ali estão muito bem colocadas. Meu medo é que eles achem que tudo tem que ser feito por meia dúzia de pessoas, sempre os mesmos sacrificados.
:-)

Nanael Soubaim disse...

Neste caso não dá, seria necessária a adesão dos serviços gerais até a gerência, no mínimo.

Meg disse...

Acho isso meio robótico. Eu gosto da ideia de uma pausa em meio ao caos.

Meg disse...

Queria morar na fazenda. Então não sou muito apta para falar sobre esses negodzi ai

Nanael Soubaim disse...

Bem, minha querida, eu também sou um pacato e caipira bicho-do-dia, mas todos os estudos que fiz (e pessoas que consultei) me conveneram de que a actividade contínua da cidade é benéfica para todos, inclusive para quem continuaria a dormir antes das 22h, como eu.

Nanael Soubaim disse...

Parece atração, esses blogs cheios de velharias maravilhosas grudam em mim por onde passo: http://www.bluevelvetvintage.com/vintage_style_files/