sexta-feira, 8 de junho de 2012

Micróbios, O Filme... hipotético

Sally, a ameba elegante.
 Assistindo a Robôs, novamente, na Sessão da Tarde, que raramente tem feito por merecer minha atenção, coloquei-me a pensar sobre os panos de fundo utilizados pelos estúdios de animação virtual. Sim, eu costumo pensar, nem sempre consigo, mas normalmente sim.
Me peguei pensando que falta uma série virtual dos filmes Tron, em que os personagens passariam a agir contra os crimes virtuais, aproveitando para abordar contradições, incoerências, medos e egoísmos de cada um, os virtuais e os físicos.

Pequeno adendo a respeito, este escriba louco concluiu que não existe diferença entre o mundo virtual e o físico, além do modo como ambos foram criados e podem ser destruídos. Uma vez que ambos se inter influenciam, de modo cada vez mais intenso, considero ambos reais.

Voltando aos devaneios loucos, pensei também em um tema que talvez ainda não tenha passado pelas cabeças lesadas dos animadores de estúdio, que é usar a fauna e a flora do corpo humano como pano de fundo. O filme duraria aproximadamente uma hora, na vida dos micróbios se passariam anos, na vida do hospedeiro não seria mais do que um segundo. Teria muito humor durante toda a duração, algumas vezes de duplo sentido, para que pais e filhos possam rir juntos, cada um entendendo o que é de seu entendimento, como nos desenhos de Tex Avery. As crianças não veriam absolutamente nada do que não vêem diariamente, só que sem agressividade.

A protagonista seria Sally, uma ameba excêntrica que faz amizade com todas as criaturas daquele corpo, inclusive com as células do corpo. Ao contrário das outras amebas, ela mantém uma forma fixa a maior parte do tempo e só fagocita por uma parte de seu corpo metamorpho.

A amizade começou após o último ataque de antibióticos, quando um grupo se viu unido naquela situação. Sally, resistente ao pharmaco, protegeu os demais, acabando por proteger também as células humanas daquela área, enquanto as outras sofriam danos sérios, alguns irreversíveis.

Enola é uma protozoária, completamente louca, mas com a fama de sábia e grande conhecedora dos hábitos do hospedeiro, com o quê consegue dar alertas e sugestões úteis. Ninguém sabe como ela consegue esse conhecimento, mas também ninguém teve a grande idéia de perguntar. Foi por ela que Sally tomou conhecimento de uma humana chamada Grace Kelly, que viveu muitas eras microbianas atrás, e na qual ela se inspira para ter sua forma fixa.

Sally e Enola fazem parte de um grande grupo de micróbios que decidiu parar de agredir o hospedeiro, pois percebeu, durante o último ataque, que era justo isso que fazia a patrulha de anticorpos agir com mais violência. Só que os anticorpos, como perceberam, são burros e não diferenciam amigo de inimigo. Isso revolta os outros microorganismos, que os vê como traidores de sua causa, que é destruir o hospedeiro e viver de seus restos para sempre. Não deram ouvidos à Enola, quando disse que "para sempre" não existe no universo, que o corpo um dia acabaria e, naquele caso, seria cremado por vontade expressa aos seus pares.

Entando e saíndo das células com grande liberdade, Sally aprendeu com as mitocôndrias a produzir energia a partir de restos das actividades biológicas do hospedeiro, o que acabou transformando seu grupo em uma equipe de limpeza do corpo. Ainda assim, continuavam a sofrer ataques de anticorpos, de antibióticos e dos outros micróbios.

Ao contrário de Enola, Sally é recatada, com uma sensualidade refinada e cheia de mistérios. Ambas acreditam que existe algo mais do que comer, reproduzir e expelir, mas a protozoária precisa sempre interferir, para garantir à amiga o direito de ficar sozinha, afetivamente falando. A adrenalina secretada há vários dias microbianos, pelo cérebro, tem dificultado cada vez mais  convivência, porque os micróbios também sentem os efeitos do hormônio, cada um à sua maneira, e os inimigos acabam se tornando mais agressivos e ousados com isso.

Certo dia microbiano, quando o caos está instalado e elas se refugiam com um grupo em uma área ainda livre, próxima ao cérebro. Enola começa a consolar seus amigos com passagens de vários livros sagrados, terminando com "Há hora de viver, há hora de morrer". Sally, que naquele momento decidiu morrer com a forma exacta e todos os detalhes da humana que tanto admira, tem o lampejo de perguntar à amiga de onde ela tirou tamanha consciência...

 - Do cérebro.
 - Do cérebro? Este cérebro logo qui, acima?
 - De lá mesmo. Eu subo lá todos os dias, para meditar.

Enola concorda em levá-la para lá. Sally fica maravilhada com o que vê, com todas aquelas sinapses e a imensa quantidade de neurônios que as multiplicam a todo momento. Enola diz que estão em um hospedeiro privilegiado, com um grau de consciência de si mesmo e de seu papel no muito, muito acima da média. Passeiam pelo cérebro como Enola sugere, para não danificar os neurônios e não activar os anticorpos. Sally, lógico, fica amiga de todo aquele emaranhado neural. Como sua amiga, acaba absorvendo conhecimentos e conceitos de que nem fazia idéia que existissem. Especialmente, passa a conhecer sua musa inspiradora pelos arquivos de um de seus maiores fãs.

Ao contrário de Enola, Sally tem uma certa vocação para Madre Tereza de Calcutá, decide ficar mais um pouco, enquanto a amiga volta para a base do crânio. Se envolvendo cada vez mais com aqueles cabeludos, é levada aonde nem Enola tinha conseguido chegar, à glândula Pineal. Uma camada electromagnética é providenciada, para que ela se mova mais rápido, pelas sinapses, sem danificá-las.

Chegando aos aposentos da Pineal, esta diz "Minha filha, finalmente você chegou" e Sally se ajoelha, prostrada, e chora diante da visão que tem. Ouve as palavras transcedentes de amor incondicional que a Pineal lhe dirige e, em um estalo, percebe que existe muito mais do que a vida biológica efêmera que hoje ocupa.

Passa mais de um dia microbiano ouvindo e meditando, quando decide aceitar o convite e ficar lá, de onde pode fazer algo de consistente pelos outros. Se vale das sinapses para falar a todos os trilhões de seres que formam e se hospedam naquele corpo: "Micróbios, sou eu, Sally. Ouçam com atenção o que vou lhes dizer, pois disso depende a nossa sobrevivência no hospedeiro. Não existe corpo bom ou ruim, nenhum corpo que vocês venham a infectar os fará maias felizes, nenhum mesmo. Em todos vocês encontrarão os problemas que enfrentamos aqui, em alguns até perigos desconhecidos, que neste hospedeiro saudável não existem. Há muitos hospedeiros de se auto destroem por alguns anos microbianos de prazer, que para eles não passam de poucos minutos. Se vocês querem ser respeitados e valorizados por este corpo, se querem que ele nunca mais se virem contra vocês, não se utilizem de métodos infantís, como se a cada choro um brinquedo novo lhes fosse dado. Ter boas intenções não é suficiente para resolver nossos problemas, assim como só agir sem medir as conseqüências. Entrem no sistema do hospedeiro, façam parte de suas decisões, sem esperar que ele decida tudo por vocês. Tenham ações e decisões dentro do hospedeiro, não à sua margem (...) Esta comunicação via sinapses é só como poderemos nos falar, de hoje em diante, eu escolhi a clausura para poder agir, e poucas vezes poderemos voltar a nos ver. Sigam os conselhos de Enola e, mesmo distantes, não se esqueçam que eu amo vocês. Todos vocês".

Imediatamente seus bilhões de amigos entram, em pares ou trios, nas células que estavam instruídas a recebê-los, lá eles trocam informações de vida e genéticas, causando uma mutação no hospedeiro que, após uma febre intensa, tem um bem súbito e se levanta do leito em que estava, no hospital. Como as mitocôndrias, os amigos de Sally passam a fazer parte do organismo, só que com liberdade de se deslocar entre as células, e acabam orientando o sistema imunológico naquilo que ele ainda não pode, que é diferenciar uma célula cancerosa de uma sadia, entre outras cousas. A hospedeira fica miraculosamente curado, passando a ver e ouvir faixar mais amplas do que um humano normal conseguiria, além de rejuvenescer muitos anos na aparência. Dentro dela, seus novos microorganismos levam suas vidas, relembrando sempre das lições que seus antepassados deixaram.

Sally? Ela se incorporou à Pineal, onde trabalhará pelos seus e pela hospedeira, até que ela deixe o corpo em definitivo.

Heim? Trailer? Que trailer? Não tem filme, é só um devaneio de minha mente lesada.

Fim.

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