sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Dead Train in the rain L

    Glamour e espionagem. A estação 50 dá uma amostra do teor de crueldade que se ocultava sob as cortinas da guerra fria. Não perguntem demais e embarquem, o trem vai partir.


A visita é muito concorrida. Não se trata apenas de registrar o encontro da banda com a família regente do principado, mas também de vender muitas revistas (...) as semelhanças entre Patrícia e a Princesa Grace Patrícia. São levados em uma VW Bus alvirrubra, com o teto de lona totalmente aberto. Robert, Rebeca e Ronald atrás, Patrícia com Enzo e Renata na fileira do meio. Na frente, só Richard e Matthew, que clica tanto os seis quanto a reação do público ao ver Patrícia, inclusive das sacadas, de onde a vêem pelo enorme teto solar. Atrás (...) um Citröen DS11, um Dauphine, um Mercedes-Benz 220, um BMW Isetta, três Vespas e uma Lambretta, todos com paparazzi. Rebeca olha para trás e berra “Cara, existe carro menor do que um Crosley!” O encontro será reservado e só Matthew tem permissão para registrá-lo.

Não é um encontro formal e dispensa muitos protocolos, ainda assim Ronald tratou de assessorar todo mundo (...) respeitando a personalidade de cada um. Ternos e tailleurs de cores sóbrias, mas nenhum de cinza ou preto. O palácio se avoluma rapidamente e os portões se abrem. A van entra e eles são fechados. A flange para troca rápida de filmes faz valer o investimento (...) Lá estão os dois com seus pequenos herdeiros. Richard e Matthew descem primeiro, ele a tempo de flagrar Patrícia se esticando e se mostrando pelo teto solar, arreganhando um sorriso e tendo correspondência (...) Matthew é rápido, clica uma de cada vez, corre e ainda consegue uma tomada das duas na posição.

Os seis descem encantados com o cenário, esquecendo um pouco que são eles os astros. Pai e filha com as cabeças nitidamente acima do teto. Os pequenos príncipes (...) chegam a perguntar se é uma tia. O príncipe se antecipa e dispensa protocolos, ainda mais que uma cara amiga da família os recomendou, vão os quatro a eles e os tratam com o carinho que Josephine aconselhou. Ela disse que são crianças de boa índole, bem educadas e carinhosas, e que “Fora de Sunshadow, eles são meus filhos”. E como filhos da diva eles são tratados, especialmente Patrícia...

- Posso ter um ataque de fã?

- Só se eu puder também.

E os paparazzi não ouviram isso! Matthew tem o bom senso de respeitar os instantes de privacidade, em que a princesa assume a maternidade dos seis, enquanto estiverem no continente (...) a boa educação dos garotos impressiona tanto quanto o talento musical. O grau de erudição e o refinamento que conseguiram, fazem Rainier III duvidar que sejam americanos. Então Patrícia conta como foram criados (...) e o casal até ri, como quem descobre que estava certo o tempo todo e tem ali a prova.

Lá fora (...) a imprensa e seu arremedo esperam mais de uma hora. Chegam a desistir de ver a banda com o casal regente, quando eles dão a colher de chá e se apresentam à saída do palácio. Ah, aquela photographia tão esperada! Eles não poupam poses e disparam, enquanto seus alvos se despedem e a banda segue para o carro. Mas nada de declarações (...) O que se conversou lá dentro, só será conhecido, parcialmente, na edição de fim de ano da revista. O que deduzem é que a banda deixou uma boa impressão, o que não sabem é que deixaram assuntos para muitas conversas futuras.

Josephine recebe uma ligação da princesa e lamenta, ela não pode ficar com Patrícia. Há uma mãe deprimida com crise de abstinência, que se mataria na menor hipótese de ela não voltar. E é para ela que a garota dá a novidade em primeira mão, mandará cópias das photographias assim que forem reveladas. Se despede, pois agora precisa tirar a sesta (...) Rebeca espera ela desligar, para se anunciar...

- Mamãe Urso está melhor?

- Está, mas não acredito que esteja tão melhor quanto diz.

- Pior que nem dá pra mandar ela pra casa da Jose!

- Não com os compromissos do colégio. Você pode falar com seus pais para visitarem ela?

- Claro, faço isso agora.

Patrícia inclui “I’m no more child” logo na abertura do show. Precisa desabafar a preocupação com a mãe e fará isso cantando. E a canção arranca lágrimas. A Europa começou a viver uma onda de romantismo que tomou todo mundo de assalto, especialmente na Itália, para onde vão amanhã bem cedo. Bobby assume e canta seu “Blues Number One”, fazendo casais na plateia se aproximarem mais (...) A brisa mediterrânea faz uma diferença enorme no desempenho dos seis.

&

Buongiorno, Roma! Um passeio de reconhecimento faz parte dos compromissos (...) A turba de fãs os segue até o hotel, recomendado por Audrey e Clark Gable. A vista é fantástica e a comida é excelente, este o item decisivo. Aqui sim, encontram carros realmente pequenos, como o minúsculo Fiat Cinquecento que vêem em frente ao hotel...

- Eu não caibo aqui, não com o teto solar fechado! É movido a corda ou a pilha?

- Signhore, me dispiace! Possiamo vere la tua macchina?

O homem nem acredita que estão interessados no seu Tota. Até entrega a chave para Enzo (...) Patrícia só fica ereta com o teto aberto, ela ri vendo tudo por cima do teto. Os paparazzi adoram, Matthew registra com mais esmero e os repórteres da revista detalham o evento. Ela está acostumada com o Volkswagen da mãe e com carros com mais de cinco metros de comprimento (...) O romano avisa que na Inglaterra viu carros inda menores, um deles leva só uma pessoa...

- Um carro portátil?

- É chamado Peel P50 e acho que cabe no porta-malas de um carro americano.

A mecânica se interessa (...) um carro que pode ser usado como mochila seria muito prático. Entram, após terem dado mais material do que aqueles photógraphos jamais sonhariam ter em uma única cena (...) Falar com as mãos faz parte da cultura local, à qual Enzo está mais do que ambientado. Gostariam de poder experimentar tudo o que já comeram na casa do amigo, mas a alimentação balanceada faz parte do trabalho. Sobem sem mais delongas.

Uma sessão photográphica na Piazza di Spagna. Os dezoito músicos participam. A sessão é para uma grife que patrocinou a ida da banda à Itália. Não é uma grife popular, mas está longe de ser a mais cara e tem a franquia Dead Train. De minissaia a ternos completos, eles são clicados com tudo (...) Os então músicos desempregados de Detroit jamais, em toda a sua vida, imaginaram que ganhariam dinheiro posando para um catálogo de moda (...) Um pequeno intervalo e eles se encostam na fonte, onde recebem não só cuidados de maquiagem, como também suco de fruta fresquinho...

- Fala a verdade, vocês pensaram que ficariam só olhando?

- Cara, a gente há até uns meses era um bando de músicos avulsos, que praticamente trabalhava por comida!

- Sua escova está precisando de outra. Não faça.

- Por quê?

- Vai por mim, você ficará melhor com cabelos crespos curtinhos.

Ela olha a líder com cara de quem viu um alienígena, mas o olhar firme, lá de cima a convence (...) se a chefe diz para deixar, não vai perder o emprego depois; isso já lhe aconteceu (...) por isso o medo. Hora de voltar ao ensaio. As peças usadas durante a sessão ficarão com os modelos (...) foi surpreendente encontrar prêt-à-porter com o manequim de Patrícia! Ela liga para Zigfrida, avisando que convenceu Rita a deixar o cabelo encrespar.

Observam o Vaticano do lado de fora, em princípio acreditando que uma banda pop com um tutor ateu não seria bem recebida, mas eis que um bispo, indo para a Piazza San Pietro, pergunta por que não entram...

- O Santo Padre sabe quem são vocês, parem de pensar besteira e entrem, serão bem-vindos.

Começam a rir de si mesmos e entram, tomando o devido cuidado para não chamar mais atenção do que o lugar. Mesmo assim a tietagem acontece. Richard não se sente exactamente à vontade, para ele é como entrar em uma igreja gigante. Entretém-se (...) documentando a paisagem e sendo documentado pelos turistas; não é todo dia que um cara daquele tamanho está ao vivo e à disposição para apreciação. Uma jovem mulher de tailleur preto e cabelos negros em coque, se aproxima, tímida. Ele percebe e faz uma feição amistosa, pois ela parece constrangida...

- Bom dia, Brain – diz em voz baixa.

- Bom dia, agente.

- 5-4-7-b primeiro selo. Estou desesperada!

- Fique perto de mim. Quem é?

- Os dois de blusões de couro marrom.

- Ficará tudo bem, filha, venha se misturar.

Richard propõe à filha uma visita à embaixada americana (...) Vão todos ao ônibus, estranhando a moça que se junta...

- Dad, you’re saving the world again?

- Again, honey. Keep calm and trust in your father.

Seguem para a embaixada. Richard entra primeiro, para anunciar e ao embaixador anuncia o código de agente feminina na iminência de assassinato (...) A agente quase chora de alívio, viu um colega ser esquartejado vivo, nem sabe direito como conseguiu fugir (...) enquanto os outros se vangloriavam aos superiores de seu feito pelo “bem amado partido comunista”, deu um gancho de esquerda em uma deles, tomou suas roupas e se mandou. Só lamenta não ter conseguido trazer os arquivos que foram buscar...

- Agente Nely, esta roupa era de uma deles?

- Sim, Brain.

- Então você trouxe os arquivos. Esse zíper no forro, abra-o.

Ela abre e ele revela um pequeno saco plástico lacrado, seu conteúdo é uma série de micro filmes e cartões magnéticos de acesso...

- Missão cumprida, agente.

Agora sim, ela chora de verdade, na privacidade dos aposentos do embaixador. Richard liga para a organização do show e manda trazerem uma equipe de estética, depois para Washington e dá as instruções para o resgate (...) A morena de trajes sóbrios e cabelos longos, ficará ruiva de chanel curto com andrajos de turista americana, um vestido longo e amplo, florido, chapéu cáqui largo e sapatos vermelhos abertos. Ele olha pela janela e vê os espiões inimigos (...) Espera o carro com a equipe estética chegar, deixa a agente aos cuidados dos garotos e vai a campo. Chama dois seguranças, pula o muro e trata de pegá-los por trás. Espera o trânsito começar a pesar e empurra os dois, dizendo “vamos logo”. Ele consegue se esquivar fácil, apesar do porte, os dois são atropelados por um caminhão Iso e levados pelo próprio Richard e seguranças para serem “socorridos” na embaixada. Pronto, se sobreviverem terão prisioneiros para barganhar. Vaso ruim não quebra fácil, ainda mais feito de matéria plástica, que pode ser remendada facilmente...

- Foi algum deles, agente?

- Não, foi um homem gordo, calvo e alto, de bigode stalinista.

- Certo. Daqui a pouco os mariners chegam. Você vai para Sunshadow, com a família, lhe providenciaremos uma identidade nova e passará a trabalhar apenas na burocracia da agência. Sua cota pela paz mundial está cumprida.

Os fuzileiros chegam acompanhados de ninguém menos do que o General Nelson...

- Por que eu não estou surpreso de te encontrar por aqui, Ritchie?

- Eu iria dizer a mesma coisa, Jeremy. Como está a Zundapp?

- Um foguete!

- Esta é a nossa garota. Jeremy Nelson, Cacilda Becker. Ela decidiu morar com a gente.

- Decisão inteligente. Temos alguns amigos que também precisam da paz e quietude de Sunshadow. Tem lugar para mais gente?

- Casa vazia é o que não falta por lá, ainda mais para gente que ninguém mais quer. Patty, já terminamos de salvar o mundo, pode entrar. Conheça nossa nova vizinha. Cacilda, agora você vai morar perto do Dead Train!

- “Cacilda”? Ok, sem perguntas, já entendi. Vou avisar mamãe para acolher vocês, enquanto escolhem a casa, tem um monte, inclusive uma em frente à praça do trem morto. Gente, olha quem vai morar em Sunshadow!

Os dois se olham, a garota está ficando muito mais esperta do que imaginavam (...) deixarão a seu encargo o encaminhamento dos espiões que precisarem encerrar a carreira de campo.

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Dead Train XLIX

    Eles ganham o mundo. A estação 49 traz inimigos de verdade, com os quais nossa protagonista terá que lidar cedo ou tarde. Recline a poltrona e durma bem, o trem vai partir.


Ok, agora a coisa ficou séria. Vão para Quebec, Ottawa e Cidade do México, de onde embarcam para Mônaco (...) seiscentas páginas de actividades e exercícios escolares para se divertirem, enquanto os músicos de apoio se entediam com os cassinos, a marina, a bela paisagem, as paqueras... Coitados!

Voam para Los Angeles (...) Josephine lamenta informar os motivos de não irem à Cape Town. Patrícia deu um “NÃO” redondo e sonoro, quando pediram para os negros da banda cantarem nos bastidores, sendo substituídos por brancos bem treinados no palco. Ela não contou antes para não antecipar sentimentos que não acrescentam, e que são visíveis no olhar da mascote...

- Em resumo, sem Ron e Rita, não passamos nem no espaço aéreo da África do Sul (...) nossas letras nos deixaram de fora de toda a União Soviética. Portugal também alegou “Belas melodias, mas letras potencialmente subversivas” para voltar no convite. Fora uma pancada de países pequenos, que proibiram seus cidadãos de irem aos nossos shows, para não serem influenciados por nossa “cultura estranha”.

- Pra não voltarem cantando “Forgotten”, você quer dizer.

- Sim, Bobby, é isso. Meus avós, ao que parece, morreram em vão. Mas vamos desfranzir estes cenhos, temos dezoito países que querem muito a nossa presença, inclusive Alemanha, Itália e Japão, onde temos Shows em Tóquio e Nagoya. Eu sei o que vocês estão pensando e a resposta é sim, nós estamos indirectamente a serviço dos Estados Unidos da América, ainda no esforço de reconciliação pós-guerra.

- “Indirectamente”, fräulein?

Viram-se para trás e vêem a inspiração para a Branca de Neve da Disney se aproximando...

- Desculpem pelo atraso, tive problemas em casa. Patrícia, ninguém que presta favores ao governo americano está desamparado. Por terem aceitado convites que muitos artistas recusaram, por puro preconceito, vocês agora são embaixadores.

- Eu já desconfiava que você e meu pai serelepe tinham alguma ligação.

- Não fale muito, ela é capaz de deduzir até o seu código genético.

- Seu pai é um herói. Agora já podemos contar algumas coisas, Richard. Ele evitou um holocausto nuclear e fez a CIA de idiota para isso. Algumas das viagens de vocês, ele usa para executar missões.

- As dúvidas que pipocam em suas cabeças serão sanadas agora, mes amis. A verdade é que todo o mundo artístico americano está empenhado nisso. Vocês são testemunhas das idiotices que temos cometido nos últimos anos, por isso é de suma importância que plantemos simpatias por este país pelo mundo, porque nós vamos precisar. O que vocês vão ouvir agora é exclusivo para artistas de elite, que têm mais compromissos com a arte do que só ganhar dinheiro com seu trabalho. O mundo está mergulhando em uma era de ditaduras, e Washington infelizmente tem culpa, sob a alegação de conter o avanço da influência soviética. Como já disse Richard, é melhor viver em um país sacana onde se pode reclamar e chutar traseiros, do que em um pior onde só se tem permissão para falar bem do governo (...) é necessário que pessoas como vocês se empenhem em dar a melhor impressão possível, para que o resto do mundo não acredite que a América é habitada por monstros. Porque já há muita gente empenhada em disseminar essa imagem de vocês, alardeando que em países inimigos existe o paraíso instalado na Terra, algo de que qualquer ser pensante é capaz de desconfiar. Vocês (...) vão defender a imagem de seu país pelos próximos cinqüenta anos, com o trabalho que fizerem pelos próximos quinze. Eu espero e acredito sinceramente que (...) não estarei aqui para ver vocês se separando, se isso acontecer. Alerto que vocês vão amargar a antipatia e oposição ferrenha de muita gente aqui dentro, como já notaram, mas será um revés necessário. É um remédio amargo para uma doença grave, que eu acredito de coração que vocês estão aptos a ministrar.

- Jose, olhe para eles. Se isso foi para nos assustar, não deu certo. Já estamos acostumados com a agressividade gratuita de imbecis. Já sofremos até um atentado armado. Agora que sabemos que existe uma causa razoável, mande sair da frente quem não quiser ser atropelado, porque o Dead Train vai passar por cima. Galera, vamos fazer o Velho Mundo amar a América!

Richard explode de orgulho. Abraça e levanta a filha (...) Digam o que quiserem desses caras (...) mas o patriotismo deles poderia fazê-los dominar o mundo da forma mais tradicional. Não o fazem porque não querem. A austríaca vê na wunderbares-mädchen, como a chama, um foco consistente de esperança para a espécie. Conclui que a preparação da banda teve rigores acidentais acima do necessário (...) mas isso já é trabalho para Zigfrida.

Vão todos de trem para New York. O choque que tiveram em Los Angeles fez os novatos perderem o medo (...) vão encontrar políticos grandes, chanceleres, príncipes, reis e tudo o que não existe em seu país, mas vão como quem vai para o front de batalha; de quem está do outro lado não interessa o nome ou origem, é melhor para ele que seja amigo ou se renda.

&

O fã clube do México está lá, para a despedida. Sabe que ficarão quase três meses fora do continente, pedem então que entreguem algumas photographias ao fã clube de Frankfurt...

- Como???

- A gente aprendeu um pouco de alemão e troca correspondências com eles.

- Fã clube na Alemanha??? Gente, temos que correr atrás do sucesso de novo, ele escapou – avisa Patrícia.

- Vocês vão para Londres também, certo?

- Sim, temos um show agendado.

- Então se importaria em levar um presente para um membro do fã clube de lá?

Os dezoito (...) se viram para os fãs e aceitam levar um pacotinho de pouco menos de uma libra para esse fã. Matthew se dirige aos fãs e pergunta quantos seriam os fã clubes de que têm conhecimento (...) a poucos minutos de chamarem para o vôo, entregam os nomes e endereços dos dezesseis presidentes, mais a de Tóquio, que ainda está em formação. Tiram algumas photographias com os fãs e logo são chamados para o embarque. O avião, desta vez, é só para a banda e sua imprensa, tem gente suficiente para justificar a exclusividade.

Voam conversando sobre o que os fãs disseram. Talvez nem Josephine ainda saiba dessa proliferação de fã-clubes (...) Lembremos que esta turnê vai para a edição especial de fim de ano da revista. Aos poucos o tempo e o fuso horário fazem seu trabalho, o avião entra em território francês já de noite. Richard observa a filha, que está meditativa desde que os outros se calaram e cochilaram...

- Você não dormiu. A diferença de fuso horário vai lhe cobrar caro.

- Não consegui.

- Está fazendo aquela cara de novo, o que foi? A conversa em Los Angeles?

- Não. É a conversa no aeroporto. Isso pode ser útil para nossos propósitos coletivos, mas para a banda é uma carga a mais.

- “Para a banda”?

- Para mim, em especial. Eu expus minha cara à tapa, ao negar os caprichos daqueles governos ridículos! Você deve fazer idéia da gravidade, porque nossos desafetos já não são apenas artistas bobocas que correm atrás de manchetes estúpidas. E eu fiz isso em nome da banda, que agora são dezoito pessoas!

- Sua preocupação procede, mas não deve ser motivo para tirar seu sono. A gente raciocina melhor depois que o cérebro descansa e organiza a memória, sabia?

- Um pouco tarde. Terei que deixar o descanso para quando chegarmos a Monte Carlo.

O comandante anuncia os procedimentos para aterrissagem (...) A aeronave pousa em Lyon, de onde vão para Mônaco. Matthew e os repórteres da revista descem apressadamente (...) são surpreendidos pela massa de fãs que foi recepcionar a banda. Eles vão ao delírio quando Patrícia aparece na porta do avião em seu tailleur rosa. Enorme, altiva, linda, elegante e com o rosto assustadoramente parecido com o da princesa Grace. A imprensa local explora isso (...) É seguida de Rebeca, Renata, Ronald, Robert e Enzo. A imprensa faz questão de dizer que Ronald é herdeiro do título de Conde de Marselha.

O representante do hotel os encaminha para o ônibus (...) A viagem é rápida, logo enxergam o pontilhado das luzes dos edifícios de Mônaco. O país inteiro é do tamanho do bairro onde Renata morava em Goiânia. Entram no principado e rapidamente estão às portas do hotel. Richard não se impressiona com o luxo rebuscado (...) Apenas confirma os registros, assina papéis e são todos levados aos seus aposentos. Alguns empregados quase tratam Patrícia por “alteza”, ao verem-na passando. Os outros percebem que não é só a beleza estonteante da amiga que a faz ser o foco das atenções, mas deixarão para dizer isso quando estiverem instalados, com alguma privacidade.

Na suíte de Richard, a equipe inteira se reúne para algumas orientações. Ele sabe que de todos eles, só Renata tem experiência em viajar para um país distante e totalmente diferente do seu (...) Mônaco não é um bicho de sete cabeças, mas tem alguns temperos combinados de Itália e França que eles precisam saber, por exemplo, não tentar falar francês se não forem fluentes, é muito fácil xingar alguém acreditando que se está sendo gentil. São orientados a falar os idiomas que dominam, de preferência o inglês. A parte italiana Enzo conhece de cor e salteado, poderá socorrer alguém quando necessário. Renata (...) fala das reações que a figura de Patrícia causou, da entrada até chegarem ao elevador...

- Por isso nós teremos que aceitar sermos ignorados por alguns minutos, porque o assédio vai se focar nela. Eu notei várias pessoas com um “alteza” preso entre os dentes, se ela fosse quinze centímetros mais baixa a confusão teria sido completa.

- E é claro que a imprensa européia vai usar isso como gancho para qualquer coisa, e está torcendo para vê-las juntas – completa Matthew.

- Receio que não vamos decepcioná-los. Jose disse que ela quer me conhecer e já temos uma visita agendada. E eu nem treinei para ser parecida com ela!

- Acertou de primeira – brinca Rebeca.

Chegam mensageiros com presentes, a maioria para Patrícia. Bombons, flores, bilhetes carinhosos, bilhetes atrevidos, convites e miudezas mais. Richard analisa cuidadosamente os doces, por questão de segurança, liberando todos para amanhã, hoje a garota precisa dormir. Não antes, claro, de todos ligarem para casa, e ele para Los Angeles. Patrícia pede (...) para ajudá-la na ginástica à beira da piscina.

Pai e filha descem de camiseta branca e moletom azul, tudo muito básico (...) Os empregados do hotel, que passam ante o local, lamentam não terem câmeras espiãs. Ver Richard treinar caratê é quase como ver um ensaio para o massacre. Como seu ofício, ele também o ensina à filha (...) será útil se todas as barreiras contra o obcecado falharem. Malham pesado, como sempre, e voltam para o banho, mas ele recomenda com autoridade paterna que tire uma sesta, após os compromissos desta manhã.

Alguns hóspedes já acordados se deparam com as duas figuras imponentes avançando à escadaria. Eles demoram a entender a estatura da moça até lembrar que há uma banda americana hospedada no hotel (...) Eles sobem cumprimentando as pessoas, desfazendo parte da impressão de intocáveis. Uma mulher de meia idade toma coragem e interpela os dois...

- Bonjour, pardon moi, a senhorita seria a vocalista do Dead Train?

- Bonjour. Patrícia Petty Gardner às suas ordens, senhora. Meu pai, Richard Gardner.

- É um prazer, senhora.

Sua tendência à classe e ao refinamento aflora. A socialite sai da breve conversa absolutamente encantada. Teve algumas más impressões de turistas do continente americano, mas os segundos (...) com a americana, apagaram tudo. Enquanto isso, em Sunshadow, Nancy se prepara para ir ao colégio, deixando as gêmeas com Maria. Lhe dói deixar as filhas com outra pessoa, dói mais ainda deixa-las e não ter a outra para acompanhar. Entra em seu Volkswagen e segue para Summerfields. Prevenida, deixou para se maquiar quando chegar lá, porque vai em lágrimas.

Patrícia olha para o relógio e faz uma ligação, antes de ir para a coletiva...

- Hello?

- Mommy? I love you.

Agora sim, ela desata a chorar. Confessa que está triste com a distância, que (...) deixou as crianças com Maria e sentiu aquele Volkswagen ter o tamanho de um Bugatti Royale...

- Mommy, don’t cry! Estou trabalhando pra gente. Ontem tinha câmeras de tevê em Lyon, quem sabe a tevê mostra pra vocês!

- Ontem? Tem certeza?

- Eram várias! E hoje eu terei um encontro com o Príncipe Rainier III e a Princesa Grace, com toda certeza vão mostrar também. Nesta noite eu te ligo de novo, mas eu (...) não vou conseguir trabalhar direito sabendo que você está chorando.

- Nancy está chorando?!

Ela entrega o phone ao pai antes que ele derrube o hotel. Ele repete mais ou menos o que a filha disse e também promete ligar diariamente. Ele (...) liga para Josephine, pedindo que não deixe a esposa se sentir só...

- Mamãe Urso não ficará só, Brain, fique tranqüilo. Patrícia está pronta para o encontro?

- Está. Ela só está incomodada com a polarização das atenções, mas isso era previsível.

- Ninguém vai chama-la de “alteza”, eles não cometeriam essa gafe. Ligarei para Nancy assim que der a hora de ela estar em casa.

Vão para o palco do show, com uma turba de paparazzi no encalço. Admiram a paisagem, enquanto caminham, com a marina lá em baixo (...) Todos com roupas confortáveis, frescas e soltas no corpo, para aproveitar a brisa e ajudar contra o calor. A fauna automotiva lhes é estranha, a maioria dela parece ter sido cortada ao meio. Ranault, Opel, Mini, Vauxhal, Audi, Citröen, Triumphy; mas também há os de tamanho normal, como BMW, Mercedes-Benz, Rolls Royce, Volvo e Jaguar. O palco é maior do que imaginavam, com vista para Mônaco Ville (...) Afinam os instrumentos, acertam o som, testam as luzes, calibram as vozes e ensaiam um pouco. Notaram a acústica inédita decorrente da topographia do principado...

- Tem um eco aqui. Rebeca, faça um solo para eu analisar isso.

Nada que um anteparo perfurado ou plantas ornamentais não consigam resolver. Um Mercedes-Benz passa, o vidro desce e os ocupantes observam (...) as semelhanças que a imprensa mostrou são confirmadas ao vivo. Seguem caminho para o palácio. A parte pesada do ensaio já terminou, agora cuidam de detalhes do camarim e depois voltam ao hotel. Só exigem que a água esteja em temperatura ambiente e proíbem expressamente qualquer quantidade de bebida alcóolica de qualquer tipo. Agora vão, que Patrícia precisa descansar o que não descansou durante o vôo, até para não pensar demais na tristeza da mãe.

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Dead Train in the rain XLVIII

   A fúria de Rebeca. A estação 48 está repleta de nuances que a vida mostra, mas a maioria das pessoas não observa; e se dá mal. Tenham juízo e embarquem, o trem vai partir.


Como já se tornou comum, os garotos entregam os calhamaços aos professores, na frente de todos os colegas (...) o desempenho no período em que estão presentes é um bom atestado. Para o que estão acostumados, aquilo são férias; até porque as de verão eles passarão na Europa, trabalhando. Vão os sete para a sala de aula, já discutindo planos para a faculdade. Patrícia e Renata já têm definido o que querem, os outros ainda estão decidindo, mas dúvida realmente só Rebeca tem (...) ela se vê dividida entre várias carreiras que a agradaram muito, além da de música, é claro.

O intervalo é mais uma reunião íntima dos sete, desta vez com Rebeca e Ronald no centro da discussão. A pouca idade da garota não tem sido empecilho para assumir as responsabilidades da banda, então levam á sério o que ela diz...

- Sei lá, Enzo! No começo era só paquera, a gente tinha afinidades, sabe? Mas agora eu quero casar com o Ron!

- Vão ter que esperar, bambina. Ainda teremos anos de resistência até essa lei cretina cair.

- Agora não, porque não sou louca o bastante, mas eu quero casar com o Ron e ter três chocolatinhos com ele.

- Vocês sabem que há a remota possibilidade de ao menos uma criança nascer branca, não sabem?

- Sério???

- Sério??? Então arrisca o Ron levar a fama de corno?

- Segundo o maior gênio vivo da humanidade, meu pai, os genes dele ainda guardam muita informação dos antepassados brancos, e me consta que vocês nunca tiveram parentes de cor, então...

- Esse risco não existe! Eles nunca vão se casar!

Os sete se viram para o desaforado e o próprio continua...

- A sagrada estrutura da família cristã americana está resguardada por leis divinas, e qualquer coisa que nasça desses dois, será um bastardo pagão que nunca...

Ele não termina de falar e Rebeca se levanta furiosa. Ele começa a se afastar e ela estende a mão até um esfregão encostado na parede, ele começa a correr desesperado e ela lança o esfregão com toda força (...) o esfregão se enrosca em suas pernas e ele cai. A cena é aterradora. O rapaz caído no chão, com o nariz sangrando, enquanto Rebeca se aproxima a passos largos, com Patrícia atrás, tentando alcançá-la. O pátio inteiro se retrai e o tempo sofre um lapso. Não há som, nem cheiro, nem vento que impressione o tato, só há movimento. A garota pega o rapaz pelo colarinho, faz uma alavanca dobrando um dos joelhos e o levanta com as mãos, pressionando-o contra a parede. Alguns alunos viram seus rostos para não verem a cena de violência extrema que esperam, mas Rebeca surpreende...

- Vá se foder, babaca! Você não passa de um otário alienado que não faz a menor idéia de como o mundo funciona. Você acha que é cristão, mas ignora que os apóstolos viajaram por todo o mundo conhecido da época, eles não ficaram cozinhando cérebros de ostras em banho-maria na Galileia, como você e a sua turma de perdedores fazem! Eles não ficavam escolhendo quem mereceria ou não, porque isso não cabia a eles. Ao contrário de você, imbecil, que aponta o dedo para os outros, para esconder seu caráter mesquinho e sua personalidade medíocre! Eu vou me casar com o Ron e serei a Condessa de Marselha, enquanto você vai ser empurrado pra primeira putinha com cara de santa que seus pais otários encontrarem, vai mofar em um casamento infeliz, tendo de esticar um sorriso falso para todo mundo na rua, e fingir que não sabe que os filhos que vai sustentar não serão seus, e ainda manter as aparências quando encontrar a piranha moralista transando com outro na sua cama, porque o que o seu deusinho, seja qual for, mas não é o de Jesus, não tolera que se saia de um inferno celebrado por um sacerdote tão babaca e infeliz quanto seus seguidores. Lembre-se sempre e guarde minhas palavras, vagabundo; Eu sou e continuarei sendo feliz com o Ronald; Você é e continuará sendo infeliz pelo resto de sua vidazinha medíocre de fungo. Agora cai fora, antes que eu esqueça o respeito que tenho pela Patty.

- Por que diabos vocês continuam provocando ela? Vocês agem como se tivessem cinco anos, enfiando a mão no liquidificador para ver se realmente corta! Eu não posso estar sempre por perto e ela não estará sempre de bom humor! Se dão algum valor a essas carcaças que lhes revestem, vão brincar de valentões com outros idiotas como vocês, ela é perigosa de verdade!

Volta aos outros amparando a amiga, como que dizendo que a perdoa antes de ela pedir desculpas por ter perdido o controle (...) Na directoria, a adolescente encara Lawson como se o desafiasse a dizer um só desaforo. A mesa está cheia de coisas que poderia usar; um grampeador, um pesado perfurador de ferro fundido, canetas-tinteiro, extrator de grampos, abridor de envelopes, régua de aço, lápis bem apontados e o tradicional telephone, com seu fio longo e resistente. Ela tenta tirar da cabeça suas idéias belicistas, enquanto ele não soltar uma asneira...

- Eu soube do que meu sobrinho disse, então, embora sua reação tenha sido exagerada, não posso censurá-la totalmente.

- Aquele porra é seu sobrinho? Ele não tem nada a ver com você! Ele é adoptado?

- Não, ele foi estragado pelo meu cunhado, que é meio bronco...

- Meu pai é bronco, nem por isso ele se dá o direito de soltar mer... digo, soltar ofensas pra quem está quieto no seu canto!

- Rebeca, você tem muitos fãs neste colégio, como também é muito estimada por uma parcela muito grande da nossa comunidade. Por isso eu devo pedir que se controle, deixe que eu cuide dos encrenqueiros, é a minha função.

- Legal saber. Topa dar um passeio pelo pátio, de vez em quando? Prevenir ajuda muito.

A baixinha atrevida pode ser entendida como um misto de experiências precoces, muita actividade mental e quase nenhuma inibição. Não admira que encare até policiais(...) Ele reconhece, porém, que um idiota xingar os filhos (...) faz qualquer mulher soltar fogo pelas ventas. Ela (...) Não ficou feliz e eufórica pelo que fez, mas não se arrepende de tê-lo feito. É recebida por seus pares com carinho, especialmente pelo irmão, que desde cedo aprendeu a reconhecer a delicadeza que há debaixo daquela armadura medieval.

Zigfrida toma conhecimento e aproveita sua ida a Sunshadow para tratar do assunto. Ela conversa com os seis sobre as longas análises que fez das lâminas que escolheram. Antes de tudo, alisa o rostinho ainda arredondado da ferinha e dá um resumo sintético e simplificado de suas conclusões a seu respeito...

- Você é linda! Não interessa o que o outros pensem, você é linda.

- Obrigada.

Ela sorri largamente, até com os olhos, deixando os dois incisivos bem aparentes, dando-lhe um ar de menina boazinha que enganaria facilmente quem não a conhece. A sueca então começa de facto, se virando para Patrícia...

- Vossa Majestade, me impressionou a admiração de vossos súditos por vossa real pessoa, tanto quanto sua taciturna avaliação própria. Por isso mesmo fico feliz em ver a diferença entre o pré-Greg e o pós-Greg. Você deixou de ser uma saudosista inveterada para ser, digamos, vintage. Dá para notar que você usaria as roupas da juventude da sua mãe.

- Usaria mesmo, acho lindas, se eu coubesse nelas é claro.

Ela se levanta e (...) traz algumas roupas que estavam no baú em que estão as da avó. São sete vestidos dos anos quarenta e cinqüenta, fora camisas, blusas, uma bermuda, dois pares de calças e um conjunto de praia. Renata pega algumas, testa e sobe com um vestido verde ao quarto da anfitriã, desce (...) com só o penteado destoando do conjunto...

- Olha só, as roupas da sua mãe me servem!

- Fora quadril e derriére avantajados, é claro.

Olham para a porta, é Nancy com as gêmeas. Ela nunca pensou que veria alguém usando aquelas roupas novamente. Barra até os tornozelos, gola fechada com botões até a cintura e mangas curtas meio bufantes. Ela confessa que queria passar essas roupas para a filha, mas Patrícia cresceu demais (...) Todos os seis, exceto Rebeca, são dos anos quarenta. Todos têm ao menos uma tênue lembrança do que se via na época. Rebeca, com quase o mesmo tamanho, procura alguma coisa no monte, sobe com algo que não sabe o que é e volta com uma bermuda curta e um top de manguinhas bufantes, brancos com estampa de flores estilizadas. Para sua surpresa, é a roupa de praia da juventude da mamãe urso...

- Jura? Se eu colocar um pedaço de pano na barriga, dá pra usar tranqüilo na rua.

- Yep! Se vocês gostarem de alguma coisa, podem levar!

Enzo entra no meio e separa algo para Silvia também. Após as compras, todos voltam à psicóloga. Zigfrida mostra a Nancy um resumo de suas conclusões, confirmando o que já dissera de Patrícia, mas estendendo um pouco para Renata, que sente nos ombros o peso de uma mediunidade muito avançada. A melhoria de Patrícia tem nome e sobrenome: Gregory Winston, que trouxe para os anos sessenta a sua vida afetiva; pelo menos a maior parte dela.

A maturidade dos seis é comprovada (...) O maior sonhador do grupo é Robert. É ele quem vê as coisas de modo mais optimista, o mais romântico e infelizmente é também o mais fácil de ser enganado. Rebeca segura sua mão imediatamente, dando o recado que a sueca já esperava ver. Os pés mais firmes no chão são os de Patrícia, mas Ronald a segue de perto. Enzo tem um problema com a autocrítica, ela é excessiva e parece ter piorado com o problema da namorada, por isso quer incluir Silvia em algumas dinâmicas.

A noite desce rápido e (...) Enzo vai ver como está Silvia (...) Ele apresenta o conjunto de bermuda de sarja verde e blusa branca com apliques na gola, que lhe coube do espólio. Explica a origem e a garota se apressa em vesti-lo. Longe de ficar folgado, lhe serve, principalmente porque Nancy é mais alta do que Laura, que vê a filha voltar feliz de seu quarto...

- Acreditei mesmo que fosse gostar, Silvia.

- Dá uma volta.

Ela dá um giro e encanta. É mais ou menos o que a mãe vestia no verão, antes de engravidar. Laura, na realidade, é bem jovem, seria no máximo uma irmã bem mais velha de Enzo (...) Apesar da besteira que acredita ter feito, conseguiu uma filha muito dedicada e muito estudiosa, o que a manteve longe dos riscos pelos quais pagou. A enfiou cedo na escola e cedo lhe confiou as tarefas domésticas, receita que deu certo e teria sido perfeita, não tivesse acompanhado uma mentira; bem intencionada, mas uma mentira que quase lhe custou mais caro do que a expulsão de casa...

- Eu achei lindo! Nunca tinha visto igual.

- Você só tem seis meses mais do que a Rebeca, não lembraria mesmo desse estilo. Que tal ajeitar pra gente fazer um passeio, antes de voltarmos para a turnê?

Combinam o passeio. Na tarde de sexta-feira ele a leva à bordo de um DeSoto S11C Custon Club preto 1948, com interior marrom e branco, em um passeio em baixa velocidade por Sunshadow, de capota baixa e uma brisa suave nos rostos. O carro custou uma ninharia, estava em excelentes condições e caiu no gosto do rapazote, foi salvo de virar sucata e serve Maria a maior parte do tempo. Enquanto eles passeiam, os paparazzi clicam.

terça-feira, 2 de outubro de 2018

Dead Train in the rain XLVII

    Eles vão conquistar o mundo. A estação 47 traz o avesso como o lado certo de muitas vidas. Não temam as mudanças e embarquem, o trem mudará de estação.

Voam para Los Angeles, com todos os músicos de apoio, que então passam a integrar a turnê. Eles querem ver do outro lado a recepção eufórica dos fãs (...) vêem e se assustam, têm a impressão de que um tsunami humano vai invadir a área de desembarque e carregar o avião (...) alguns panfletos (...) fazem campanha contra a banda, avisando que são satanistas, que dão maus exemplos para os jovens...
- “Maus exemplo para os jovens”?
- Esses garotos estudam durante as turnês e eles acusam de dar maus exemplos??
Os músicos se indignam, mas Rebeca logo avisa para relevarem, que seus detratores nunca primaram pela coerência. Sabem mais sobre passagens dimensionais e teoria da relatividade, do que sobre eles.
Desta vez o ônibus é maior, o caminhão também. Vão todos para o Jose’s Hotel, onde artistas amigos querem rever o sexteto. Ah, sim, os músicos de apoio não sabem que vão para lá também, os seis decidiram fazer uma surpresa. Eles ficam tão animados (...) que nem notam a plaquinha “Beverly Hills” se aproximando e depois ficando para trás. Só se dão conta de que algo está estranho quando vêem Renata acenando para Audrey Hepburn e combinando uma visita para mais tarde. Mais adiante um dos Beach Boys lhes dá as boas vindas. Se vêem cercados de mansões e carros caríssimos...
- Mr. Gardner, para onde estamos indo?
- Jose’s Hotel, Patrick. Vocês vão gostar de lá.
- Turma, a gente está indo para... o...
Ele se volta para Richard, com os olhos esbugalhados, arrancando gargalhadas, quando chegam aos portões do palacete, com uma turba de repórteres e paparazzi disparando para tudo o que se mexer naquele ônibus. De vestido branco, longo, esvoaçante, com mangas levemente bufantes e um fino laço na gola, lá está ela com seus longos cabelos ao vento. A diva de milhões, a musa de gerações, sua majestade artística...
- Jose De Lane!
Ele arranca mais uma carga de risadas (...) Ele foi o mais engraçado, mas todos os outros onze compartilham do espanto, estão tímidos, com medo de serem calcinados pela luz estrelar da musa. Matthew e os repórteres (...) vão publicar isso. A porta do ônibus se abre e Patrícia corre para o abraço, causando mais espanto aos músicos...
- Mon Dieu, como você está linda! Nem parece que passou por tantas tristezas! Apresente-me seus amigos!
- Eles não sabiam que viriam pra cá, estão tremendo como vara verde!
- Então é porque são verdes no estrelato. Bom jour, mes amis. Bienvenue a mon Maison.
Assim que ela se aproxima, uma vocalista desmaia. É levada para dentro nos braços por Richard, com a imprensa se deliciando com cada passo, acordando uns quinze minutos depois, sob os cuidados de enfermagem da diva...
- Mademoiselle Rita? Você está bem?
A negra olha para os lados, pergunta pela mãe, depois pergunta se está morta (...) Diz que teve um sonho lindo, onde conhecia...
- Jose De Lane!
- Em carne e osso, como você. Venha, estamos te esperando para o lanche.
Josephine a pega pela mão esquerda e a leva ao seu lugar à mesa (...) E àquela mesa enorme a cantora ainda vê meia dúzia de representantes da elite mundial do cinema. Ela olha para os outros, eles também estão meio abobalhados, (...) a turma de Sunshadow está à vontade, até namorando à mesa, com Gregory colocando pudim de queijo na boca da amada...
- Aceita um biscoito de mel, fraulein? Eu mesma fiz.
- Não recuse a oferta da Hedy, Rita, pegue um biscoito.
Ela pega, agradece e come ainda incrédula. Até a semana passada era uma soprano desempregada, que ganhava a vida cantando em bares e festas (...) Mal acreditou quando foi aceita para o teste no show do Dead Train, menos ainda quando, ao fim do show, Matthew a confirmou na turnê e mandou que arrumasse as malas (...) Agora é servida por nada menos do que uma das maiores actrizes e mais lindas mulheres da história.
Fora os doze, estão todos muito à vontade à mesa (...) evitando temas pesados que não sejam absolutamente necessários ao momento. Ainda hoje Renata é solicitada para falar do Brasil, embora jamais tenha saído de Goiás, seus parentes são viajantes vorazes e lhe contavam muitas histórias de rincões esquecidos...
- Infelizmente há lugares no Brasil que ainda hoje estão na idade média, com senhores feudais decidindo a vida e a morte em seus territórios. E as convulsões dos últimos meses não vão ajudar a melhorar o quadro. Em contraste, temos Rio de Janeiro e São Paulo que vocês já conhecem bem.
- E a sua cidade?
- Uma capital pequena, Audrey. Foi fundada em 1933 e ainda hoje carece de muita infraestrutura.
- Jose tem razão em se preocupar com você, mas não dá para negar que seu “problema” é encantador! Tão jovem e tão lúcida!
- A adversidade forja o caráter, você sabe disso melhor do que eu. Aliás, nossa novata Rita sabe bem disso, eu conheço a sua história, nós nos inteiramos a respeito de vocês.
Horror! Horror! Todos olham para ela, esperando que diga alguma coisa. Ela olha para os outros novatos e eles devolvem o olhar, ela se volta para Renata e solta o que lhe vem à cabeça, esperançosa de que não lhe custe a mesma...
- Posso ficar neste emprego pra sempre? Trabalho até de graça.
Novamente um ataque de risos coletivo. Os doze músicos de Detroit estão se mostrando humoristas natos. Há dois à mesa (...) avisando que vão aproveitar a piada em um filme.
&
Enquanto os novatos se instalam, embasbacados com o requinte de suas suítes, os veteranos permanecem lá em baixo, revendo o planejamento e actualizando os dados. Zigfrida observa seus pacientes, especialmente Patrícia (...) Olha para Gregory e se pergunta se ele sabe realmente o alcance do que fez para ela. Decide cutucar...
- Rapaz, você me poupou um trabalho hercúleo!
- Eu? Como?
- A Patrícia que está à minha frente não tem um por cento do peso da que deixei em Dallas! Você está fazendo um bem enorme a ela!
Ele sorri. Isso lhe serve de blindagem contra as sabotagens dos despeitados. A sueca pormenoriza o que diz (...) da garota. Ela enche o namorado de afagos, durante a explanação da sueca...
- Mas você sabe que há outro lado, não sabe? Ter sido responsável por essa melhora gigantesca, fará os outros te cobrarem a manutenção.
- Ah, isso! Já me cobraram! Já apareceram fãs de joelhos, me pedindo que não estragasse o bom serviço que fiz.
- Você não me contou isso! Te constrangeram?
- Não. Eu disse que entrei nessa pra casar e que só dependeria de você.
- Greg! Eu aceito!
A sala de reuniões vira uma festa (...) Só embaça um pouco o brilho da ocasião, as caras de Rebeca e Ronald. Pela lei, eles jamais poderão se casar. Josephine os fita longamente e os abraça por trás...
- As leis da física são as únicas imutáveis. Essa lei estúpida vai cair, só esperem.
Diz com a certeza de quem sabe que um dos principais pilares já não existe (...) Está pessoalmente empenhada para que a obra da Cascavel Branca não sobreviva muito mais do que ela. O argumento de que a família tradicional americana será destruída pela miscigenação, está perdendo força rapidamente. Os novatos descem pegando a conversa pelo fim (...) Também participarão da entrevista de hoje à noite, no Boa Noite Mundo. Tobby está ansioso para ver de perto a evolução da banda.
Novamente os novatos tremem feito varas verdes. No auditório, o fã clube domina. Se isso é um incentivo, é também uma pressão (...) Meia hora e a histeria dos fãs invade o estúdio, e muitas famílias em Detroit ligam para parentes, mal acreditando no que vêem. Todos riram dos doze (...) Especialmente a família de Rita, que já se conformara em vê-la pelo resto da vida cantando em bares e festinhas de guetos. Agora a mãe da moça esfrega nas caras dos descrentes a imagem da filha ao vivo (...) entrevistada por Tobby McGinnes como uma estrela do rock.
&
A primeira fase da turnê não traz problemas, não além dos decorrentes da própria natureza do ofício (...) Voltam para Sunshadow com uma pequena multidão a tiracolo, inclusive Gregory dando satisfações a Nancy, já tendo sido providenciada acomodação para todos os músicos, na propriedade de Mr. Fischer. Ele, aliás, é a surpresa de que Richard falou à irmã. Eles conversam no escritório, em poltronas, enquanto Richard apresenta os quartos aos novatos...
- Eu te conheço desde que você era um toquinho de gente, não imagina a alegria que senti, quando Richard te trouxe de volta.
- E o senhor não imagina a minha!
- Decerto! Eu quero te propor uma coisa, Deborah. Você soube da debandada que houve aqui, quando minha esposa faleceu. Então sabe que cada um pegou um naco do patrimônio (...) nunca mais deram notícias! Por isso eu quero evitar que eles coloquem as mãos no que me restou, e ponham a perder todo o trabalho que eu tive para montar uma atração apresentável para a cidade, com a ajuda de seu irmão.
- Está me propondo casamento, Mr. Fischer?
- Estou. Você sabe que eu não (...) quero isso para ser visto com uma mulher que poderia ser minha filha. O que eu quero é uma companheira em quem eu possa confiar e que impeça os ingratos de destruírem meu trabalho. Amor, a Naomi já dizia, basta nós deixarmos que ele nasça, e ele nascerá.
- Ritchie, eu sei que você está aí atrás. Apresente-se!
- Pô! Todos esses anos longe e você não esquece minhas manias??
- Desde quando você tem esse emprego de cupido?
- Desde agora.
- Foi ele quem te pediu para intermediar?
- Sim, foi ele. Eu tinha outros caras em mente, mas ele me chamou para uma conversa e eu prometi interceder. Vai, casa com ele, vocês dois não têm nada a perder, além das noites solitárias.
- O senhor sabe que eu fui prostituta?
- Sim, eu sei. Mais da metade de nós é descendente de ladrões e prostitutas, foi esse tipo de gente que deu início a Sunshadow!
- Ritchie, traz as minhas coisas? Eu já vou ficando aqui e pegando intimidade com o Gerald.
- Ahahahahahahahaha! Vou trazer suas coisas, também.
Em meia hora a propriedade está cheia de gente (...) vão directo ao cartório e lá assinam os papéis. A festa se dá de improviso, na praça do trem morto, com cada um levando um quitute para a comemoração. Gerald Fischer nem é tão velho (...) o matrimônio durará uns quinze ou vinte anos. A animação é by Dead Train. Tudo, claro, registrado por Matthew, pela revista, pela imprensa e pelos paparazzi, que também entram na boca livre.
À noite, a sós com o marido em sua suíte, Deborah faz sexo de livre e espontânea vontade pela primeira vez na vida (...) Na manhã seguinte, Gerald estranha a facilidade com que urina, a agilidade súbita e a pele menos enrugada. Olha para a cama e vê sua jovem esposa ainda despertando (...) terá de volta uma experiência da juventude, suspirar pela amada distante (...) Está apaixonado, irremediavelmente apaixonado. Tem pena de quem não consegue sentir isso.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Dead Train in the rain XLVI

    Novos tripulantes. A estação 46 mostra a colheita do primeiro plantio; este é opcional, aquela é compulsória. Escolha bem suas sementes e embarque, o trem vai partir.

Verificam os calhamaços para esta turnê (...) São dois volumes para cada integrante da banda. Cada um pesa umas seis libras, que claro, não poderão carregar nos braços o tempo todo. Já têm um organograma para estudar no dia seguinte a cada show e sempre que houver um tempinho.
Enzo se despede de Silvia, que ainda o preocupa (...) ela tem medo de se mostrar e ser traída. Ele pede que Matthew tire algumas poses suas com ela, para mandar por correio enquanto estiverem em turnê. Com prazer ele gasta um rolo inteiro e deixa para a garota mesma revelar (...) Vão de trem para Detroit conforme acordo firmado, onde farão o primeiro show do ano.
Os passageiros do trem ficam absortos (...) não demora e logo todos os vagões ficam sabendo que The Dead Train is in the train. Os seis ficam animados em poder transitar pelos vagões, algo quase impossível de se fazer em um avião (...) Robert leva ao primeiro vagão, após muito passeio, uma revista que ganhou de fãs. Uma Mad quase toda dedicada a esculhambá-los, na capa o título “Exumamos o Dead Train”...
- Ahahahahahahahahah!!!!
Rebeca racha de rir. Matthew photographa inclusive o contágio de humor que acomete os outros. Eles olham as sátiras, as charges de cada um, chegam a Detroit chorando de rir (...) A banda realmente cresceu, há uma equipe de músicos esperando por eles para o ensaio e o show de amanhã. Desde o show em Dallas que a estrutura pulou para outro patamar, com uma turnê internacional a coisa fica realmente grande. Mais patrocínio, mais mão de obra, mais cobertura, mais paparazzi, mais compromissos e muito mais responsabilidade envolvidos. Até porque, no decorrer da turnê, tratarão de negócios correlatos à sua carreira.
Com pontinhos de protestos em contrário, um mar de fãs (...) vai ao delírio assim que saem. Mais do que simplesmente sucesso de mídia, eles projetaram Michigan de forma muito positiva para o mundo. Vão sob trovoadas de flashes para o ônibus que os aguarda, enquanto seu equipamento é transferido para o caminhão. O repórter da revista faz perguntas pontuais, como...
- Ela é sempre assim?
- A Rebeca é sempre assim. Nós somos sempre assim – responde Patrícia, do alto de seus 5’8½”. Fazemos o possível para o trabalho não sugar nossa essência.
- E você não vai parar?
- De cantar? Nunca!
- Não! De crescer!
- Hahahahahaha...
O caminho para o hotel está coalhado de fãs, pais de fãs e simpatizantes que sabem o que eles fazem pelas pessoas. A polícia está por perto para prevenir novos ataques (...) Na entrada do hotel distribuem abraços entre os fãs conhecidos e posam para photographias com eles, avisando das sátiras que viram durante a viagem (...) Rebeca está encurtando a distância das estaturas, já está alcançando Renata.
Dão mais um aceno para os fãs e vão para dentro, fazer a lição de casa. É o que os funcionários do hotel dizem a todos os que perguntam (...)Terão que prestar contas delas quando voltarem a Sunshadow. As actividades acadêmicas (...) vão para as páginas da revista.
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Primeiro ensaio com uma equipe grande de músicos, doze a mais, ao todo. Se o efeito é mais rico, a dificuldade de afinação e sincronia é maior. Renata pede um foco de luz para o xilofone, outro para o contrabaixo, mais um para o piano e um último para o saxofone, então improvisam um jazz para começar de facto o ensaio. A correção e a sincronização duram a tarde inteira (...) para os músicos contractados fica claro que a banda não é de estrelas, é uma equipe e como tal é que trabalha. Uma última afinação com o pequeno coro de três vozes e terminam por hoje, com a noite se anunciando. São orientados sobre o que não comer, a dormir cedo e evitar bebidas alcoólicas.
O repórter da revista vai aos músicos, colher impressões e perspectivas para o show. Eles são unânimes no elogio ao profissionalismo dos garotos, que poderiam ser filhos de alguns deles. No começo tiveram medo, porque a fama de rigor e cobrança deles é notória no meio, mas (...) eles sabem deixar leve o trabalho árduo, ao qual estão muito bem acostumados. Fora isso, o encantamento com a beleza das garotas é confesso, especialmente com a líder da banda (...) por conseqüência deles também, pelo menos até o final do show de amanhã.
No hotel ligam para casa. Tranqüilizam suas famílias, Enzo tranqüiliza as duas (...) Tomarão um banho, uma refeição leve e vão descansar. Amanhã terão um dia cheio, e suas paciências precisam estar vazias para receber tudo (...) Richard dá por encerrada a missão de hoje, pode ir descansar e meditar um pouco.
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É o que esperavam. O namoro de Patrícia e a solidão de Robert dominam a coletiva. De vez em quando alguém faz uma pergunta inteligente, mas as fofocas predominam. Sobre a maratona de shows e compromissos, Patrícia responde “Por isso passamos meses planejando e nos preparando”...
- Senhorita Petty, é impressão nossa ou a senhorita está... Como direi, mais leve?
Os outros respondem por ela, cantando “My Missing Star”. Ela fica rubra, sem conseguir esconder o sorriso. Quando a entrevista vai ao ar, Gregory se desmancha. Nancy suspira, vendo sua menina crescendo rápido e tomando as rédeas da própria vida. Enquanto a matéria vai ao ar, eles ensaiam (...) membros do fã clube estão lá, desfrutando de um privilégio que só o fim de semana pode proporcionar, não estariam com eles se houvesse aulas hoje, é uma das regras da banda.
A cada intervalo, uma conversa com os músicos e com os fãs, tudo registrado para a edição especial de fim de ano da revista. Voltam para o hotel, para uma massagem, uma refeição leve e a sesta. Precisam estar plenos para o trabalho da noite.
É permitido que tirem photos dos garotos, pelo que tiveram a prudência de vestir pijamas largos e confortáveis. Cortinas fechadas, ambiente fresco, calmaria e eles adormecem rapidamente, estão cansados. Aos músicos de apoio foi recomendado o mesmo...
- Eles ainda parecem crianças, Mr. Gardner!
- Dormindo, de guarda baixada, parecem mesmo. Acordados, a história é outra.
- O General Nelson mandou um abraço, Brain.
- Mande outro para ele, agente. Em que posso ser útil?
- Já foi (...) você estava certo, em boa parte os mísseis soviéticos são embustes (...) para exibição nos desfiles militares.
- É isso que me preocupa. Eles sabem que sabemos?
- Aparentemente, sim, sabem.
- Então vão se apressar em fabricar mísseis operacionais, para nos intimidar.
- Faremos mais.
- E teremos uma corrida armamentista. Com ela, os custos das ogivas vão cair e logo qualquer país fuleiro terá (...) sua própria bomba atômica.
- Com o surto de ditaduras que estamos enfrentando...
- Algumas financiadas por nós, não se esqueça. Chamem Hollywood, o projecto não pode mais esperar.
O agente se despede e volta para seu posto, de onde avisa a quem deve (...) Richard medita, preocupado, enquanto observa a filha ser photographada. Sua única ambição é deixar um mundo para ela e seus descendentes viverem. Patrícia acorda (...) e vê o pai. Vai leve e dengosa a ele, o abraça pelo pescoço e dá um recado...
- Deixa pra pensar em salvar o mundo depois, tá. Descansa também.
E volta sorridente para a cama (...) e Matthew começa a rir. Ela tem razão, precisam ambos estar em ordem para a noite. Não dá para dormir, mas ele vai se sentar em uma poltrona confortável e meditar acerca de outro assunto, como Audrey e Melinda, que agora engatinham pela casa.
No início da noite, após uma refeição bem leve, seguem para o estádio. Os fãs já começam a tomar seus lugares, os paparazzi também, os críticos musicais começam a chegar e os vendedores de lanches faturam alto. A gritaria começa assim que o ônibus desponta na esquina, se intensificando quando os seis aparecem nas janelas. Lá dentro eles encontram a equipe pronta. Não sabem se seguiram à risca as recomendações, mas alguns testes mostram que seguiram a contento (...) Deborah trata de aquecer e relaxar todos os dezoito, enquanto eles aquecem as vozes e as mãos. Terminam e aguardam a hora de subirem ao palco, para onde os músicos de apoio já estão indo. Meia hora e todos os lugares da plateia estão tomados. Mais cinco minutos e eles estão à entrada do palco, de mãos dadas. Os músicos tocam uma introdução para uma música e eles entram, é o cume de dois dias de trabalho.
Deborah (...) tenta imaginar que são crianças brincando no pátio, para tentar simular o que seria tê-la visto crescer. Por D’us, como se sente burra! Sair ainda muito jovem, na calada da noite, com uma mala nas mãos e nenhum destino na cabeça! Não (...) acredita que saiu do inferno em que estava. Quando cantam Resignation, ela começa a chorar. Richard a acolhe e ela abraça a única pessoa a quem deveria ter pedido ajuda. Novamente sente-se burra (...) Estar viva já é um resultado positivo, para quem viu várias garotas morrerem à mingua, no chão, e depois serem descartadas no compactador de um caminhão de lixo. Está viva, com uma profissão e uma família que a ampare. Para de chorar e apenas troca carinhos com o irmão...
- Obrigada pelas sobrinhas, Ritchie!
- Como diria a Renata, você já pagou mais do que devia, merece alguns bônus.
- “Bônus”?
- Em Sunshadow você verá.
Terminam a primeira parte do show (...) Deborah vai cuidar dos garotos. Da sobrinha cuida como se fosse um presente caro.