sábado, 23 de fevereiro de 2013

Carta resposta a uma certa revista



Querida dona Maior Revista de Informação do País,


Recentemente recebi uma simpática cartinha da Senhora, me convidando a ter uma assinatura sua. A Senhora foi tão bacana que até se dirigiu a mim usando meu nome!
Nunca desconfiaria que isso é o que se chama de "mala direta", uma carta previamente digitada onde apenas meu nome precisou ser preenchido, e lógico que acreditei que a assinatura, em um azul caneta-esferográfica foi feito a mão, com todo carinho, por seu diretor. Claro que não era apenas uma imagem impressa repetida aos milhares, imagine.
Mas vamos ao conteúdo da adorável cartinha. A Senhora tocou meu coração, sabia? Fiquei muito tocada com a sua autodescrição como uma revista "investigativa e esclarecedora, com reportagens que antecipam e explicam as grandes questões do Brasil e do mundo". Também descobri que a Senhora tem "as entrevistas mais reveladoras" e até prometeu que eu teria "contato com os colunistas que não deixam ninguém indiferente".
A Senhora sabe como sou desinformada, não? Então, gentilmente se ofereceu para preencher esse imenso vazio que existe em meu intelecto com suas reportagens essenciais, com capas que acompanham os grandes debates nacionais, como por exemplo, o destino de personagem em novelas.
Como poderia viver sem a opinião da Senhora sobre isso? Ainda mais que não existem revistas especializadas em entretenimento e novelas, muito menos programas de TV a este respeito, então, é absolutamente necessário que uma revista como a Senhora nos esclareça sobre o que se pensa de determinado personagem e porque ele faz tanto sucesso.
E a Senhora toca num ponto ainda mais frágil: opinião. Como a Senhora é muito minha amiga e me conhece até pelo nome, sabe que eu não tenho uma e que preciso da Senhora para ter alguma. Pobre de mim! 
Eu preciso da Senhora para ter opinião, para pensar. É uma vergonha eu ainda não ser sua assinante.
Pena que eu não posso chamar a Senhora pelo nome, porque, ao contrário de mim, a Senhora está protegida, e pode dizer que não quis me chamar de inculta e desprovida de opinião ou de informação, mas se eu ousar citar seu nome certamente serei processada. Mas claro, é tudo em nome da liberdade de imprensa, a Senhora está apenas tentando proteger meu direito de ter uma opinião- desde que ela seja igual à sua, que, é claro, é a melhor, é a única que se pode ter.
Muito obrigada, dona maior Revista de Informação do País!

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Benny e seu amor impossível

Fonte: Syracuse.com

Desde nove de Novembro de 1946, por Savage, distrito de Mayland, em Baltimore, em plena euforia pela derrota humilhante do eixo, Ruben Armand Mardones está entre nós. E desde 1978 ele canta entre nós, então morando em Nova Iorque.

A maioria de vocês não o conhece, até porque anda sumido da mídia internacional. Não, ele ainda está e canta entre nós, mas o estouro de seu maior sucesso ficou no início dos anos oitenta. Precisamente em 1980 ele alcançou as paradas de sucesso com "In to the Nigth". Depois de novo em 1989.


Fonte: Bio Benny Mardones
Trata-se da história de um homem jovem que se apaixona por uma adolescente. Ele alimenta a paixão, mas todo mundo diz para deixar a menina em paz, que ela é chave de cadeia e que seu beijo tem sabor de chumbo. É uma canção simples, bem construída, com instrumentação bem acertada, e a voz possante de Benny dando o tom dramático.

Tudo é bem latino, como a origem do cantor e compositor. Aliás, foi compondo que ele começou sua carreira. A figura dele, na época, estava bem de acordo com os cantores latino-americanos, que começavam a fazer sucesso usando figurinos que eram tidos como afeminados, em seus países de origem, como peito de fora, cabeleira longa, et cétera.

Os americanos, por sua vez, viam aquilo como uma invasão de motoqueiros, ou de piratas repletos de sensualidade. Mas como todos os outros, Mardones era um rebelde de família, não fazia necessariamente as besteiras aventureiras que cantava... Pelo menos nem sempre.

Mas também canta sucessos de colegas, como "I Started A Joke", dos Bee Gees, à qual empresta o tom operesco de sua voz dramática.

Foram vários discos de platina a endoçar sua reputação, especialmente quando o precoce revival oitentista começou, ainda em 1989. Vejam bem, foi a década perdida, mas todos já estavam com saudades... Do quê, meu Deus? Bem, o tempo nos mostraria do quê. Benny Mardones estava incluso.

O garotão esbelto enfrentou os vinte anos de turbulências que viriam depois, não só para ele, mas para todos os artistas de carreira sólida. Nem Sinatra escapou de uns abismos em sua carreira. Eu estava lá, foi uma época muito dura.

Em 2000, que deu partida para a verdadeira década perdida, da qual todos querem esquecer, foi diagnosticado com o mal de Parkinson. O tremor nas mãos é claro, mas não afetou em absoluto seu instrumento de trabalho. E ele trabalha muito, fazendo questão de manter o padrão de qualidade de suas apresentações.

Hoje ele mora em Playa Del Rey, na Califórnia, onde divide a vida com a esposa (desde 2011) Jane Mardones, levando tudo em um ritmo mais tênue. O filho Michael, em vez de matar os pais de vergonha, como é moda entre os artistas, preferiu trabalhar (productor de vídeo) e casar, dando uma netinha ao pai.

Apesar de tudo Benny não tem do que reclamar. E se tiver, em vez de tagarelar e encher a paciência alheia, ele compõe e canta uma música bem bonita a respeito.



Músicas dele, clicar aqui.
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Uma boa biographia, ver no websaite oficial aqui.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Imprensa de moda, por favor, MORRA!!!

Arte de Arthur de Pins

Um artigo que Fräu Schroeder mostrou no facebook, do Blog "Conversa de Beleza", aqui, me deixou preocupado. Com a profusão de escândalos e tragédias que castigam este início de ano, as pessoas tendem a não dar importância, esquecendo que tratam-se de pessoas públicas, às quais seus filhos e filhas tendem a copiar, mesmo contra a vontade de vocês.

As bibas enrustidas, e as declaradas, estão atacando com malévolo fervor as actrizes que estão acima do peso, e também as que estão abaixo dele. Para a infelicidade das pessoas de bom senso, esses improvisos genéticos têm influência na mídia, e podem prejudicar a carreira de uma pessoa. Quem ousa desafiar seus padrões doentios, por exemplo, não é poupada do escárnio fútil de "jornalistas" idem.

Fonte: Dazed Digital
A idéia, como Naomi Wolf deixou claro, não é aprimorar a  beleza, é manipular a mulher. E olha que ela tem beleza para esfregar nas caras dos fulanos! É tão simples quanto perverso: Deixa-se a cidadã temerosa de uma rejeição social, tudo em seu subconsciente, para dificultar uma tentativa de libertação, e ela fica menos preocupada com o que realmente faz diferença em sua vida, além de se tornar uma consumidora ávida e obediente daquilo de que não precisa, como dietas idiotas vendidas por programas idiotas, por apresentadores idiotas, para um público idiotificado pela anestesia banal e não raro vulgar de seus conteúdos. Sim, podem considerar como um tipo de máfia, porque mortes por doenças correlatas à anorexia, acontecem todos os dias... E eles estão se lixando.

Não se iludam, funciona. Assim como é para o homem um risco social, o facto de não transar com a primeira que der mole, para a mulher também o é se decidir não se enquadrar em um padrão de beleza... ou mesmo no de feiura, que ora predomina. Uma roupa no número certo que esteja um pouco mais recheada, pode custar a uma candidata a vaga de emprego que pleiteava. Por que? Porque uma parcela assustadoramente grande das empresas, usa o padrão de feiúra mórbida das passarelas, como quesito eliminatório. Resultado, como se já não bastasse a pressão da mídia idiota, com seus programas idiotas, que vendem dietas idiotas, é que estamos oscilando entre a obesidade e a anorexia mórbidas. Se antes era para não perder aceitação social, agora é também para não perder o emprego, em muitos casos. O que acontece com as famosas, em escala menor, mas suficientemente perigosa, acontece com as anônimas.

Fonte: Contact Music
É notório, e já abordei aqui, a sanha com que criticam a diva inglesa Adele. Mesmo hoje, mais esbelta por conta do apoio nutricional do marido, os inúteis se mordem de raiva, porque não conseguem prejudicá-la ao chamarem-na de "gorda". Acontece que ela conquistou sua fama e credibilidade sozinha, às custas de sua voz e suas belas letras, se lixando para comentários estéticos. Muitos, como eu, chegaram a pensar que ela fosse uma diva negra dos anos sessenta, ao ouvirem-na pela primeira vez. Que espanto ao descobrirem que se tratava de uma menina loura e branquela, com carinha de boneca de porcelana. Felizmente, ela e Caro Emerald, outra diva que se fez por si mesma, se esmeraram em agradar um público muito mais maduro e exigente, conquistando em especial os adeptos d cultura vingate, que vêem nas duas o melhor dos anos dourados... Inclusive, no caso de Caro, a estrutura curvilínea e opulenta das pin-up's dos anos quarenta. Caro, aliás, é responsável pelo ressurgimento profissional das big bands.

Lamentavelmente, as actrizes não têm essa mesma sorte, não as jovens. Os estúdios idiotas, com seus roteiros idiotas, aplicados por directores idiotas, para um público pubianamente idiota, acaba enfatizando demais os dotes estéticos, com closes de partes específicas, em poses tão naturais quanto suco em pó. Foi longe o filme em que a beleza da actriz era valorizada. Se antes, a cintura fina em comparação com os quadris, era um visual desejado, hoje empurram a esqueletização completa, insensíveis aos danos que causarão à moça. Muitas moças ainda precisam da popularidade estética, para conseguir trabalhos.

Uma vítima dsta regra triste, é a musa Angelina Jolie, que outrora interpretou a opulenta heroína Lara Crof, mas hoje mal poderia interpretar a Olívia Palito. A moça é depressiva bipolar e os picaretas dos estúdios sabem disso. Sabem e exploram, ou já teriam dado um basta no sofrimento que a marginália da moda-cabide lhe causa. Mas talvez ninguém esteja indo tão perigosamente longe quanto Keira Knightley, que sempre foi magra, mas hoje parece estar economizando comida para mandar aos famintos da África. Repito, elas têm muitos fãs, muitos mesmo! A maioria deles disposta a seguir seus exemplos.

Fonte: Glam Ásia

Duas jovens odiadas por essa seção supérfula da imprensa, são Jessica Simpson e Jennifer Lawrence. Jennifer, com mais jeito de lolita, com cintura fina e ossos devidamente cobertos por camadas salutares de gordura e músculos, é simplesmente chamada de "gorda". Jessica, que nunca foi magricela, ficou mais opulenta e causou indignação geral no meio. Como assim, ela mexe no próprio visual sem nos consultar? Sem beijar nossos pés e perguntar se poderia mudar algo, como se tivesse direito a ter vida própria? Ba-le-i-a! Ba-lo-fa! Lam-bis-gó-i-a! Gor-da! Ou morre de fome, ou a gente vai te boicotar, sua ba-ran-ga!

Karen
Acontece, que essas mocinhas também têm fãs, que compram o que sai a seu respeito, e que vão seguir muitos de seus exemplos, como não dar a mínima para kits milagrosos de emagrecimento, vendidos sem receita médica em balcões de programas supérfulos. Elas desafiaram a máfia da anorexia. Não custa lembrar que a voz mais maravilhosa do século XX, de Karen Anne Carpenter, nos foi tomada muito precocemente por um infarto fulminante, decorrente de complicações de sua anorexia nervosa. Ela sempre se via mais gorda do que era, mesmo quando estava esquelética.


O mais estranho é apelarem à sexualidade, para tentar convencer o público masculino, de que aquilo é bonito, quando ancas largas e musculatura no lugar, são o que activa a libido humana; ao menos a saudável. Não menos estranha do que o facto bizarro, de que algumas vezes isso funciona. Sentir atração por uma mulher com cara de doente, ossadura despontando sob a pele e coluna curvada pela carência muscular, me soa como necrofilia.

Certo, alguém vem aqui, lê, não gosta, acha que vou cortar meus pulsos compapier-machê por causa de uma crítica e escreve: Ai, mas você não entende na-da de mo-da! Na-da! Totalmente ou do mundo fashion! Quem você pensa que é, para discordar das determinações dos deuses das passarelas? Quem é Nanael Soubaim? Ou Soubanha? Deve ser uma gor-da re-cal-ca-da, que não conseguiu ser modelo, porque não passou pela porta da agência, entalou e teve que ser puxada por um guincho. O mundo fashion está acima dessas pequenezas humanas, e até desse bloguinho insignificante. Eu vou te boicotar! Vou de enxovalhar na minha revista! Vai se @#@*##!!!***!!. Já li conteúdos mais cabeludos a meu respeito.

Estão rindo do quê? Fiz uma pequena sátira para exemplificar o que se passa. Esses caras realmente acreditam nisso, que suas grifes subsistiriam sozinhas, se o planeta inteiro fosse dizimado. Não, não estou exagerando, poucos conseguem sobreviver neste ramo, sem um ego inflado até cobrir os olhos. É como se perceber suas próprias limitações, fosse um delito grave.

Arte: Arthur de Pins. Fonte: Casa de Chás

Os conceitos de beleza estética, são muito elásticos, mas a regra de que nenhum excesso presta, é absoluta. Só quem pode dizer que esses quilos a mais lhe fazem mal, é o teu médico. Nem estilista, nem modelista, nem crítico de moda, tampouco apresentador de programa de fofoca dúbia, que vende "kit para emagrecer sem esforço e sem perder o prazer de comer". Se ele der sinal verde, e te dará para muito mais cousas do que imaginas, então, minha filha, tome um banho, hidrate esse teu corpitcho, sinta-se PODEROSA e vai ao mundo, que ele é seu.

Pronto, bonecas de filme trash, agora podem se rasgar de ódio de mim.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Novo Star Trek, mais fundo nos temores humanos

Fonte: http://cinemacoma.com/the-star-trek-into-darkness-teaser-trailer-is-awesome/

O que Star Trek tem a ver com natal? Tudo. Foi a série que, pela primeira vez, colocou alienígenas, orientais e mulheres, inclusive uma belíssima negra, no pelotão de elite do elenco fixo.

Jornada nas Estrelas trata de uma Terra em que os povos já desbastaram suas diferenças, em que a ONU passa a existir de facto, e não apenas como marionete de potências, inclusive ditaduras sangrentas.

Os militares, então, sem serviço no planeta, passam a proteger o espaço ao seu redor, inclusive preventivamente, agindo em missões diplomáticas aonde a humanidade ainda não chegou, oferecendo cooperação pacífica a todos os planetas habitados que encontram.

Recentemente, voltaram a fazer longas da franquia, que valem à pena e merecem o fardo de ser Star Trek. Não que as últimas séries não tenham sido boas, mas muitos episódios começaram a ficar longe do carisma e da qualidade artística que arregimentou fãs pelo mundo, e deu origem ao movimento cosplay.

Agora, indo mais fundo na philosophia de auto superação e esperança, mais natalino do que isso é quase impossível, está previsto para 26 de Julho de 2013, no Brasil, o longa "Star Trek in the Darkness", com título nacional "Star Trek - Além da Escuridão. Um bom exemplo de como o título nacional pode ficar melhor do que o original... Alguns vão entrar na sala pensando que é uma estréia surpresa de Batman, inclusive pelo cartaz promocional.

Antes que alguém se empolgue com um filme fatalista, pessimista e batmaníaco, vou logo repassando o recado do director JJ Abrams: "Eu não gosto de ir para o cinema para me sentir mal. Eu não gosto de ir ao cinema para me sentir deprimido e diminuído. O motivo pelo qual você vai ao cinema é para se sentir maior, mais forte e mais feliz. Esse é um filme que, certamente, vai para além da escuridão. Mas eu seria o diretor errado se deixasse os personagens por lá".

Algo nós dois temos em comum. O mundo real já é duro e pessimista na medida certa, não preciso pagar dez pilas para sair do cinema com vontade de cortar os pulsos. Também por isso não gosto de filmes de zumbís.

O vilão, vivido por Benedict Cumberbatch, é o terrorista Johnn Harisson, que o actor descreve como uma mistura macabra de Coringa com Hannibal. Se tiver um quarto da inteligência e do carisma de cada um, será um vilão épico. É um cara "comum" que surta contra o seu emprego e dá trabalho para a tripulação da Enterprise. Simplificando a história, é claro. Ele consegue não só destruir a frota estrelar, como levar o então pacífico e próspero mundo inteiro, a uma crise profunda, que justifica o título.

Com o mundo indefeso, a Enterprise é chamada de volta, para dar conta do recado. Só que o vilão está dentro da organização, ele conhece tudo, todas as rotinas, todos os protocolos, todos os acessos, algo que nenhum outro funcionário talvez saiba. É assim que ele se torna tão perigoso.

Com isso, a tripulação bebe na fonte, tendo seus integrantes expostos pessoalmente ao perigo. Não estou falando de o Capitão Kirk estar defronte ao inimigo, falo de o James Kirk estar na mira dele. É pessoal, Harisson quer ver todo mundo morto. De preferência, com humilhação.

Algo de muito bom, em que a série original falhava, certamente pelo extremo interesse da época no espaço desconhecido,  é a inclusão da Terra de então nos novos filmes. Nos anos sessenta, não dava para se fazer muito, além de filmar em cenários e nos desertos. Hoje, com um universo inteiro podendo ser gerado por computador, e os paradigmas tecnológicos da primeira série deixados para trás, os roteiristas podem delirar à vontade. Imaginem se a série original, tivesse tido acesso a tamanha capacidade técnica!

Aos marmanjos de plantão, os mini vestidos curtinhos continuam, a onda do politicamente patético não atravessou o escudo de proteção da nave, mas como no original, a barra não sobe.


quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Villa-Lobos, o clássico do Brasil

Fonte da imagem: /http:/vejasp.abril.com.br/materia/heitor-villa-lobos-125-anos

Noêmia queria que ele fosse médico. O incentivou aos estudos o quanto pôde, mas ele preferiu se render aos dotes líricos de Raul. Não se pode dizer que foi um desgosto, afinal ele tornou-se um marco da música mundial. Raul era compositor amador e funcionário da Biblioteca Nacional, ou seja, pelo menos estudar muito foi uma vontade muito bem feira à Noêmia.

Heitor Villa-Lobos, filho de Noêmia Monteiro Villa-Lobos e Raul Villa-Lobos, despencou por aqui em cinco de Março de 1887, voltou lá para cima em dezessete de Novembro de 1959.

De 1905 a 1912, conheceu Norte e Nordeste do país. Quem leu "Triste Fim de Policarpo Quaresma", sabe da paúra que os brasileiros tinham de conhecer o interior do país, ainda mais em uma época em que viajar, significava ficar muito tempo fora. Não é como hoje, hoje podemos ir e voltar de um extremo ao outro em um dia, de avião. Com tanto tempo disponível, quisesse ele ou não, descobriu um mundo completamente novo, uma avalanche de pedras perciosas, onde o vulgo alienado só vê cascalho. Era um gênio, conseguiu ver o óbvio.

Foi em 1915 seu primeiro concerto, mas a crítica considerou suas obras modernas demais, em vez de reconhecer o próprio provincianismo. Sua insistência tenaz o impeliu a continuar tentando, no já existente eixo Rio-São Paulo, até vencer pelo cansaço o ranço reinanrte. Chegou a se apresentar em Buenos Aires, em 1919, que na época era um laboratório para o refinado público europeu.

Não sei o que vocês vêem no colégio, hoje, mas no segundo grau ele foi matéria de prova. Villa-Lobos revolucionou por romper o cordão umbilical que os músicos tinham, até então, com a Europa. Enxertou aquelas canções populares, indígenas, os aspectos folclóricos e muito patriotismo em suas composições. Não por acaso, foi o músico-símbolo da Semana de Arte Moderna de São Paulo, em 1922. Serestas, choros, estudos para violão, ciranda de piano... Os anos vinte lhe deram sua explosão de criatividade, sempre enfatizando o Brasil.

Em uma ocasião, ele foi reger com um pé de sapato e o outro de chinelo. A crítica teceu longos comentários especulativos, achando aquilo ultra hiper, escafalobeticamente moderno... Mas era só o dedão machucado mesmo.

Entretanto, ele não foi um rebelde radical, só quis que seu país tivesse seu próprio cabedal, de modo relevante, e conseguiu com louvor. Foi em 1914, início da Primeira Guerra Mundial, que descobriu seu estilo próprio, passando a rejeitar a ditadura euromusical vigente. A obra é "Danças características Africanas". Depois se firmou com "Amazônia" e "Uirapuru", em 1917, chegando aos anos loucos dono de seu estilo. Mas "Bachianas Brasileiras", um neobarroco, é que o tornou um maestro entre os maestros.


Foi à Europa em 1923, porque ainda era o centro do mundo, voltando em 1924, depois de novo em 1927, com a esposa Lucilia, desta vez com o patrocínio o magnata Carlos Guinle, em uma turnê. O apoio da soprano Vera Janacópulus e do pianista Arthur Rubisntein, facilitou sua apresentação ao meio artístico, e a reduzir a desconfiança da crítica.Voltou em 1930, com a crise das bolsas no auge. Nesta década, termina seu primeiro casamento.

Um feito épico foi a "Exortação Cívica", que teve um coral com doze mil vozes... Se vocês nunca tentaram reger um coral, por pequeno que seja, não podem imaginar o tamanho desta obra hercúlea. Em 1932, já dirigia a Superintendência de Educação Musical e Artística. Getúlio Vargas, que podia ter todos os defeitos do mundo, mas queria ver o país no primeiro mundo, tornou obrigatório o ensino de música nas escolas. Villa-Lobos passou então, a focar o ensino musical em suas obras.

Vargas gostava dele. Seu amor à pátria calçava bem com as pretensões do Estado Novo (de mentalidade velha) de Getúlio. Pelo menos para a cultura, Vargas foi um dos maores brasileiros de todos os tempos, porque foi quando o folclore nacional conseguiu sair do armário, capitaneado pela batuta de Villa-Lobos. Seu "Canto Orfeônico" resultou no "Gua Prático", que trata de temas populares harmonizados, prontos para uso de músicos profissionais.

Veio mais uma guerra e os americanos viam a simpatia sulista pelo regime nazista. Tratou de cortar o mal pela raíz e mandar o mundo artístico fazer uma propaganda melhor do que a hitleriana. Funcionou, como sabemos. Roosevelt mandou Leopold Stokowski e a The American Youth Orchestra para fazer as honras da casa. Stokowski pediu a Villa-Lobos uma seleção dos melhores músicos e sambistas, para gravar a coleção "Brazilian Native Music".

O time escalado foi de primeira: Pixinguinha, Donga, João da Baiana, Cartola e companhia limitada. Foi este o samba que os americanos conheceram, muitíssimo diferente do que expelimos hoje.

De 1944 a 1945, com a guerra já no papo, regeu e foi homenageado em Boston e  Nova Iorque. Notaram aqui o fio da meada? Os americanos, e o resto do mundo, tiveram o que havia de melhor em música brasileira. Foi esta gente, ainda que sob os filtros da mídia ianque, que fez nossa cultura ser admirada lá fora, foram décadas de trabalho árduo, de pressão bélica e tudo mais. De volta, ele fundou a Academia Brasileira de Música.

Operou de um câncer em 1948, se casando logo em seguida com uma ex-aluna, Arminda. Um consórcio de onze anos. Compôs ainda "Floresta da Amazônia" par a Metro Goldwin Mayer. Ele praticamente morava nos Estados Unidos, nos dois últimos anos de vida.

Fumante inveterado, não foi perdoado pela idade, sua saúde decaiu rapidamente até o desenlace.

Villa-Lobos foi parte de um Brasil que tentou dar certo, que fez de tudo para dar ao cidadão comum, as ferramentas para sair sozinho das trevas em que se encontrava. Hoje, nas escolas públicas e quase todas as particulares, não se aprende caligraphia, nem philosophia, nem música, nem a ser gente. Quem, hoje, se lembra quem foi Heitor Villa-Lobos?



Mais Villa-Lobos, clicar aqui, aqui e aqui.
Website dedicado ao gênio, em inglês, clicar aqui.

domingo, 16 de dezembro de 2012

Doutora Talicoisa


Atenção, talicoiser e taleitores, temos uma notícia urgente, urbicho e urplanta!

A nossa barachiana professora Fräu Adriane Schroeder, foi aprovada na defesa de seu doutorado. Sim, meus queridos, agora ela é Doutora Talicoiser Adriane Schroeder.

Não é como o doutorado fajuto de dotô deputado, dotô delergado ou dotô mobral. Não, meus caros, ela é doutora por mérito e justiça. Ao contrário dos citados, ela passou anos de sua preciosa vida, debruçada em livros, gastando os tubos com publicações, photocópias, pesquisas e o escambau à quatro.

Imagino agora, ela, ao se deparar com um fugitivo do mobral a se declarar "doutor", se apresentar como doutora, falar de sua tese e perguntar qual a do cidadão. Geralmente essa gente nem sabe o que é uma tese, nem em qual lanchonete tem para servir.

Como doutora de facto e direito, ela tem um arcabouço para se embasar. Não tentem constrangê-la com seus mitos, crenças e folclores. Ela não conseguiu chegar aonde está, com "eu acho que pra mim na minha opinião", não, meus amigos, ela é DOUTORA. Ela não tem recortes de revistas, ela tem provas documentais registradas, carimbadas, rotuladas, pra poder voar.

Ela te esfrega na fronte as tuas falhas, derruba toda a tua argumentação baseada em "porque assim está escrito" ou "não é o usual na região". Claro que há as antas bípedes que não entendem nem como se cai para baixo, quando na verdade não se cai para baixo, mas para o centro de gravidade, que continuarão a tagarelar doentiamente, acreditando ter a nota fiscal da razão em sua posse. Com estas, ela não gasta seu latim, prefere gastar seu sarcasmo cruel e impiedoso.

Nossa prezadíssima co-blogueira voltou, como já perceberam, a participar deste modesto espaço, neste ano, com dois singelos textos. Com tempo para respirar, concluída esta árdua etapa de sua rica vida, poderemos contar com mais contribuições, mesmo que de vez em quando, com a ajuda do professor Carvalho, é claro.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

As verdadeiras histórias de Papai Noel


Foi muito comum, até fins dos anos noventa, exibirem durante todo o mês de Dezembro, filmes novos e reprizados com temática natalina, quase sempre com o mesmo título: A verdadeira história de Papai Noel. Não que os títulos forrem realmente todos iguais, mas a preguiça reinante nos setores de tradução, fazia que com que as versões brasileiras o fossem. Era tanto filme ou animação diferente, com o mesmíssimo título, que as crianças devem ter oscilado entre o ceticismo completo, e uma tremenda crise de existencial... Isso me lembrou Matrix... É, pode ter sido isso.

Os argumentos eram diversificados. Os mais comuns, eram de um Nikolau que fabricava brinquedos na floresta, para distribuir às crianças pobres. Com o tempo, o número de crianças atendidas, e a idade de Nikolau, cresciam, e ele já sentia dificuldades para andar na espessa camada de neve, sob um frio de rachar e com um saco de presentes cada vez mais pesado. O mongo levou anos para perceber que precisava de um veículo. Naquela época a Kombi ainda não existia, então ele optou por um trenó. Como cavalos não suportariam o frio, optou por renas, como moto-veículos de tração.

A capacidade de as renas voarem, tinha explicações tão sortidas quanto. A mais recorrente rea por magia... Na verdade, a mais recorrente mais parecia milagre mesmo. A maior parte era por aspersão de pó mágico, que mal tocada a pelagem das renas, sem nem penetrar nela, e elas já saiam voando por aí. O que não explicavam, é como o trenó se comportava como se fosse uma última rena da fileira, em vez de voar pendurado, deixando cair tudo pelo caminho.

Houve também os que representavam Nikolau como um subversivo fora-de-lei, em terras onde a caridade e os brinquedos eram proibidos. Ele já foi até preso. Bem, aqui há uma certa lição que foi mal aplicada, sobre abuso de autoridade e de como um político estúpido, consegue estragar tudo com uma canetada só.

Bizarras, e que ainda hoje têm quem produza, ainda que em muito menor quantidade, são os filmes de comediantes que tentam ajudar Papai Noel... Como "Ernest Salva o Natal"... Dá vontade de chorar, com aquelas piadas.

Mais amena, mas que também começou a ficar muito batida, foi a longeva moda de fazer personagens de desenhos, ajudarem Papai Noel. Teve de tudo. Desde a turma do Zé Colméia, até os Smurfs. Nem os Flintstones escaparam. Pelo menos eram menos pretensiosos do que os filmes com comediantes.

Não que eu seja contra filmes de Papai Noel na época do natal, longe de mim. O problema é que a falta de criatividade e bons roteiros, começou rapidamente a ficar evidente. Mas houve alguns que cativaram pela história bem cuidada, pela beleza photográphica e pela preservação de uma certa ingenuidade, sem cair na idiotice. É o caso de uma animação em stop-motion de 1970, narrada e cantada pelo grandioso Fred Astaire, com o título de... "A Verdadeira História de Papai Noel".

Eu poderia contar o filme, mas é melhor vocês mesmos o assistirem, vale à pena.