domingo, 19 de agosto de 2018

Dead Train in the rain IV

    Um dos personagens mais importantes do livro. Importante a ponto de nada fazer sentido sem ele. O monstro, o gigante, perto de quem Brad Pitt é o  patinho feio, aquele que faria Goethe parecer um idiota e Jason Momoa um anêmico! O guru e protetor dos personagens principais...



Richard ainda estava revoltado com a perda do pai e do tio, mas deixando sua fúria inaparente (...) meditativo. Sua mãe chamou o pastor para tentar ajudá-lo, já que não confiava em psicoterapeutas. Ouviu falar horrores dessa gente, principalmente por falarem de sexo. Onde já se viu?

Em uma triste tarde de inverno, quando o risco de congelamento já não era acrescido do de ficar atolado na neve, o pastor Bruce Robinson chegou à casa dos Gardner, para falar com o rapazote. Como sempre leu trechos da bíblia, enfatizando as recompensas celestes que esperam pelos justos...

- Portanto, pequeno Richard, você não precisa ficar triste. Seu pai e seu tio estão na companhia do Senhor, gozando das recompensas celestes, enquanto o assassino está condenado às danações eternas do inferno.

O silêncio do musculoso rapaz era tão perturbador quanto seu olhar de reprovação, ele conhecia a bíblia de trás para frente, saberia citar qualquer passagem apenas puxando facilmente pela memória. Olhar que acentuava o efeito intimidador de seu porte físico. Ficaram quase meia hora no silêncio lúgubre, até ele mesmo o quebrar...

- É só isso que tem a me dizer?

Sua voz grave e severa ecoava pela casa, mesmo sem uma nota mais alta. O velho pastor (...) Balbucia um “sim” tímido e tem uma resposta...

- Então é isso, Deus não existe. Assim como meu pai, o soldado que lançou a bomba provavelmente é luterano (...) um coitado que foi arrastado para uma guerra estúpida, que teve o aval de uma sociedade imbecil, apoiada na idéia cretina de que um ser superior escolhe quem vai sofrer e quem não vai. Aquilo foi uma guerra, matar não é uma opção, é questão de sair vivo. Onde estava esse seu Deus (...) enquanto ele era bombardeado?

- Estava com seu pai e seu tio, morrendo com eles... Para expiar seus pecados!

- Então confessa que seu deus está morto. Por que diabos esse deus idiota preferiu morrer, em vez de salvar... Aliás, por que ele deixou essa guerra acontecer?

O embate tem início, talvez mais feroz do que o conflito que assolou e devastou o velho mundo.  A certa altura, com livros de história e geografia universitários em mãos (...) ele coloca Robinson contra a parede. Ele nunca foi um fiél submisso e de olhos vendados, sempre foi adepto da máxima “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”, que agora se volta quem a pregou...

- Aqueles alemães não escolheram nascer na Alemanha, da mesma forma como meu pai não escolheu ser americano. Então por que uns são punidos por nascerem em países inimigos? Aliás, já que “a alma é criada no acto da concepção”, por que seu deus deixa tanta criança inocente nascer nos países miseráveis da América do Sul? Que pecados elas tinham, se não existiam antes?

Daquela conversa, que da meia hora esperada durou uma tarde inteira, e para o escândalo da família inteira, Richard sai completamente ateu. Se não tinha motivos para comemorar o natal, neste ano, agora tem um para nunca mais querer fazê-lo... pelo menos não com sentido metafísico, porque os presentes ele quer, podem guardar a lista que ele fez, porque os presentes de vocês serão comprados.

&

O desgosto de Richard pela vida se acentua rapidamente. A mãe morreu de tristeza, não suportou a viuvez estúpida. Sua irmã Deborah aparentemente enlouqueceu e sumiu sem deixar rastros. O rapaz estava sozinho no mundo, sem ter nem mesmo a quem dizer “bom dia”. A casa da família era enorme, com cômodos amplos e um terreno que era quase um sítio. Poucas pessoas além de Nancy sabiam o quanto isso oprimia o coração que aquela cara de malvado esconde.

Paralelamente, Nancy tem brigas quase que diárias com seu padrasto. Serguei Bruchev se deu bem com todos desde que chegou da União Soviética, menos com ela. As raras vezes em que conseguem conversar são pontilhadas de pérolas, que ela consegue tirar pedagogicamente dele, de sua vida na Rússia. Desmentindo mitos e confirmando algumas neuroses americanas acerca do comunismo.

Para não transformar os desentendimentos em inimizade, poupar a mãe de desgostos e dar companhia ao amado, casa-se com Richard ainda muito jovem, passando para a casa onde os fantasmas da família assombravam o mecânico, também muito jovem. As relações com o padrasto melhoram muito, mas a má impressão já está instalada.

sábado, 18 de agosto de 2018

Dead Train in the rain III

    Mais um trecho da viagem que vai durar mais do que vocês imaginam, por isso a cada estação a despensa do trem é reabastecida. Isto não é um conto de aventuras, embora as tenha, é uma história de vidas inteiras.


Depois que os militares saíram, elas ainda ficaram um bom tempo se consolando sem saber direito quem a quem. Fester, irmão caçula, preferiu ficar no quintal, para ver seu mundo desabando sem que os outros o vissem chorando (...)
Nancy liga para Richard, seu namorado. Ele também perdeu o pai, além do tio que lhe ensinou o ofício de mecânico, ouviu seu grito a poucas casas de distância. O garoto está descrente do futuro, não só por causa do duplo luto. Começou a estudar e trabalhar muito cedo, apenas pelo prazer de ser útil, imitando seu herói paterno. Sua mãe lhe disse “Deus o trará de volta”, no que pensou se seu pai era tão melhor do que os outros, para ter esse privilégio. Ele consegue consolá-la, mas não com palavras de consolo propriamente ditas, lhe diz que não há escolha, que seguir em frente é o único caminho possível...
- Mas eu estou perdida!
- Eu também. Está escuro, não sei o que existe lá na frente, mas sei o que existe lá atrás e não quero ficar lá. Ainda se pudéssemos trazê-los de volta... mas não podemos! Não vamos voltar no tempo se deixarmos de viver nossas vidas...
A convence a ser forte, depois que passar o pior do luto. Ele está em uma situação delicada porque precisa consolar mãe, irmã, tia e toda a família da namorada, precisa ser forte, mas por dentro quer colo. Não só isso, ainda terá o ônus de assumir precocemente a responsabilidade financeira por sua família e esquecer os próprios sonhos.
Naquele ano o natal não teve luzes. A cidade, pequena, tinha perdido mil de seus habitantes para a guerra. Não havia uma alma em Sunshadow que não amargasse luto, quer em família, quer por proximidade e amizade. Algumas crianças ainda colavam os rostos nas janelas, na vã esperança de que tivessem mentido ou se enganado, que veriam seus pais chegando no meio da neve, com as mãos cheias de presentes, com o típico sorriso cínico dos cidadãos locais. Ninguém apareceu.
A cidade mais esquecida de Michigan agora era também a mais triste. Eles sempre contaram só consigo, já que o Estado e Washington nunca priorizaram uma cidade que parece não ter futuro, de estar sempre à beira da extinção. Mas na hora de ir às armas, foi uma das com perda proporcional mais cara.
Por esse desprezo explícito ainda existe o pacto de proteção mútua entre os nativos, que chegam a cuidar das casas desocupadas (...) não querem que o ar de cidade-fantasma se repita na sua. A desvalorização dos imóveis é o de menos para eles, querem manter a dignidade de Sunshadow, como a de seus habitantes. Sabem de cidades que desapareceram ou estão em vias de extinção, por falta de habitantes. Não querem que seu lar tenha o mesmo destino, mas a taxa de natalidade tem sido perversa.
Com o fim da guerra os Estados Unidos entram em uma euforia inédita. Apesar da União Soviética, ninguém contesta sua liderança, o que reforça o clima interno festivo. Entretanto, lugares como a pequena Sunshadow só sentem o amargor aumentar. Nenhum de seus filhos voltou. Nenhum. Piora o facto de nenhuma cidade vizinha dar valor ao sacrifício que aquela gente esquecida ofereceu. Poderia ser, de então em diante, a cidade dos mil heróis, mas aos olhos do Estado continuava a ser a desprezada Vai Quem Quer; Pequena demais, sem qualquer atrativo, com uma arrecadação medíocre e sem expressividade regional; além de tradicional bode expiatório da região.
A ferrovia é desactivada poucos meses depois, por falta de demanda, tirando a única fonte confiável de recursos para a cidade. Para muita gente, Sunshadow não duraria muito mais tempo, se tornaria uma cidade fantasma como tantas outras pelo país. Os cidadãos, porém, tinham outros planos, ainda que ficassem conhecidos como mulas teimosas.

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Dead Train in the rain II

    Dada a partida, vamos conhecer os primeiros personagens. Espero que a época retratada em cada trecho esteja clara aos leitores, pois nada, ne mesmo uma vírgula é acessório nesta longa ferrovia.

    Aboletem-se em seus assentos, a viagem começa agora.



Ela escolhe com cuidado a carta que vai mandar, escreveu três para eleger a mais adequada. Por mais que lhe doa o coração, e dói como uma facada, não se vê no direito de ser um ponto fraco ou mesmo um obstáculo aos planos de seu amado (...) . Escolhe a terceira, é a mais firme e não dará chances de retorno. Atravessa a praça central e entra na agência dos correios segurando os prantos. Na volta manda os irmãos para a escola e desata a chorar, mas não destrói as cartas não enviadas, assim como não o fez com as anteriores. Alisa o camafeu que ele lhe deu, quando se conheceram, mas também não tem coragem para se livrar dele, o guarda com as cartas. Lá fora uma carroça leiteira mal lubrificada entoa uma canção triste, como se chorasse. Ela ama aquele homem, como o ama! Por isso mesmo disse adeus.

Quando os garotos voltam, uma maquiagem leve já disfarçou o rubor e o jantar está quase pronto. Nos dias consecutivos ela se empenha em costurar, escrever, reforçar a educação dos irmãos e se resignar. Não é só o coração que está partido, David era uma esperança de uma moça sozinha e seus irmãos mais novos saírem do sufoco financeiro. Naomi suspira e volta a trabalhar na costura, às vezes também assinando colunas no jornal com um cognome masculino, sabe que uma mulher falando de economia e política nunca seria levada a sério, mesmo já estando em plenos e prósperos anos vinte. Mas eis que um dia aparece um homem que aceita se casar com uma mulher muito mais inteligente do que ele, aceita acolher os garotos e as coisas ficam menos pesadas. O maquinista ajuda a transformar os garotos em homens e ganha de presente dois lindos rebentos. Por algum tempo o coração daquela mulher sábia e sofrida terá descanso.

&
Nancy chegou mais cedo em casa, dispensada das duas últimas aulas por conta de um telephonema que a direção recebeu, mas isso não lhe foi dito. Não que não gostasse delas, amava, mas já estava estafada daquela maratona de estudos. Como a mãe, quer ser professora. Tem muita paciência com crianças, mas praticamente nenhuma com adultos chatos. E, Deus! Como eles conseguem ser chatos! Parece ser um esporte popular entre eles!
O festival de twist de sábado ainda cobrava os tributos, pesados demais para quem viu a vitória ser roubada, todos desconfiam que seja por causa de sua origem, especialmente porque imitou Carmem Miranda melhor do que todas as outras, sem estereótipos, mesmo sendo loura; o preconceito contra quem sai de Sunshadow ainda é grande. Estranhou o clima assim que entrou. Na realidade, nem se lembrava de que estavam em plena guerra. Tremeu nas bases quando viu sua mãe chorando desesperada e um oficial da marinha embaraçado, olhando para si como se tivesse feito algo errado. Só seu gato Beef agia assim. Então ela se lembrou de que estavam em guerra, e que a sua casa era a única na rua que ainda não tinha recebido aquela notícia horrorosa...
- We’re sorry, Nancy... But...
O Tenente Gerald Petty Green, o último sunshadower ainda vivo no front, fora completamente destroçado por uma bomba nazista, nem a cabeça inteira sobrou para a família enterrar. Beef só teria mais uma semana de vida.

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Dead Train in the rain - I

    Caríssimos, como sabeis alguns de vós, eu escrevo. Não só em blogs, nos quais tenho sido mais esporádico do que gostaria, mas tenho uma obra escrita em novecentas páginas com fonte 9.

    Pois sim, vendo a dificuldade em manter o Talicoisa respirando por motivos que não vêm ao caso, aproveitarei a ociosidade para fazer deste o obstetra do Dead Train, porque meus sete leitores betas estão com dificuldades em manter o compromisso e, enfim, estou fazendo tudo sozinho.

    Sem mais, espero que apreciem e saboreiem os petiscos nesta longa viagem.

DEAD TRAIN


Ele chega ao povoado com o cenho franzido, sem saber como dar a notícia. Foram dias de argumentação infrutífera, ante um homem de coração duro e miolo mole. Assim que desce do cavalo, é cercado pelas duas centenas de habitantes...


- Senhores! Tenho uma boa notícia e uma má notícia. A boa é que concordaram em nos deixar aqui, já que não vai custar nada para eles.


Há um início de festejo, ele deixa que se alegrem, mas solta a bomba assim que eles caem em si, vendo sua expressão preocupada...


- A má é que estamos por nossa conta. Não vão investir um Dólar furado em nossa cidade (...) Sabem o que disseram de nós? Que até o sol faz sombra para nossa gente.

As pessoas que foram persuadidas a irem para aquela área, décadas antes, com a promessa de desenvolvimento e prosperidade, se vêem sozinhas. Fazem um acordo comum de proteção, já que o governo acha a estação provisória muito desprovida de importância para receber sua atenção. Refere-se ao povoado como “lugarzinho à sombra do sol”, para não perder apoio político chamando-o claramente de desprezível, enquanto as cidades próximas decidem acaloradamente qual o terá como distrito, perde a que for escolhida...

- Então, minha gente, vamos trabalhar, porque precisamos disso mais do que o resto do país.

E o filho de um ladrão com uma ex-meretriz é formalmente aceito como o primeiro líder da comunidade, não que ele quisesse a encrenca. Se tinham alternativa? Não, nenhuma.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

A Maldição dos Templos - resenha

   



    Demorei, mas li o quarto livro da saga OS DRAGÕES DE TITÂNIA, do meu amigo Renato "Matthew" Rodrigues. Não é por ser meu amigo, mas o sem-vergonha sabe escrever!


    Aos desavisados, este livro pode parecer mais do mesmo, mas devo lembrar que não se trata de uma série de histórias sobre a ordem paramilitar, cada livro é uma parte da longa história; se ele fosse colocar tudo em um livro só, seria um catatau imenso e pesadíssimo, que ninguém conseguiria ler. E sim, "A Maldição dos Templos" é o arroz com feijão que ele sempre serve, mas cada livro tem seus temperos e seus acompanhamentos. Não só isso! Este livro faz jus e dá seqüência com trema prefeita aos anteriores. Um leitor novato poderia devorá-lo sem medo de não entender a trama, mas conhecendo os outros, o sabor é mais refinado.

    E por falar nisso, o refinamento da história merece um comentário à parte! A necessidade de administrar a quantidade crescente de personagens, sem que um se pareça com os outros, sem trocar nomes e sem atropelar o modo de vida de cada um, demonstra o profissionalismo e a organização que se escondem no jeito debochado de ser do autor. E nenhum personagem é supérfluo! Todos eles, mesmo os figurantes, têm suas funções, por mais efêmera que seja a participação. Entre os principais, o leitor pode ser pego de surpresa, ao se defrontar com um sujeito que não dá as caras há livros!

    Diga-se de passagem, este livro tem surpresas agradáveis para os que sentiram os lutos dos amigos. Certamente não da maneira como gostaria, mas o sabor desse acepipe de acompanhamento é igualmente aprazível, e dá sinais de que será servido novamente em outra oportunidade; só não me perguntem quando; mesmo que eu soubesse, não diria ainda que um cinísio halterofilista me ameaçasse.

    O que temos de particular neste quarto livro, é o modo lépido e consistente com que o autor aborda a corrupção, e se embrenha nas suas causas expondo a sordidez como algo arraigado no cotidiano de um corrupto, pois mais do que a ganância, é necessário haver o completo desdém para com a vida alheia para alguém se corromper. Boas intenções não resistem à primeira vantagem ganha de modo torpe. Isso inclui a forma didática e eficaz como ele mostra a formação de um monopólio, baseado em um problema que o próprio corrupto ajudou a formar. Qualquer semelhança com a política brasileira NÃO É mera coincidência! Renato tem se indignado de modo contundente, nos últimos dois anos, em uma seriedade em que ele quase não se faz reconhecer.

    O mais interessante, é que esses quatro livros compreendem o tempo de pouco mais de um ano. Daí não é de o leitor se espantar com o tamanho e a quantidade de arestas ainda por aparar, que todos os personagens têm uns com os outros. A coisa é muito recente, compreendem? Eles não conhecem todos os defeitos dos parceiros de ordem, ainda há muitas esquisitices para cada um revelar aos outros e, diga-se de passagem, vocês não devem cair na armadilha de acreditar que já conhecem o senhor Augustos Máximus Khosta. Saber que ele é um baita nó cego e um grandicíssimo safo, é tudo a que vocês podem se apegar.

    Outro tempero próprio deste livro, é que o amor está no ar. Não só a paixão complicada entre uma freira nórdica e um príncipe misterioso, mas a coisa pega fogo... ou quase... bem, em dados momentos, pega fogo mesmo, mas podem tirar seus pégasos da chuva, não é nada impróprio para menores. Seus mentes poluídas!

    Em alguns momentos, parece que um caso vai se resolver, que um ou dois vão se entender com os pares, mas a coisa fica na promessa. Não de graça, é claro, afinal os figurantes querem seus cachês! O costumeiro gancho que Renato sempre dá para o próximo livro, neste foi replicado várias vezes. Há personagens antigos que não davam as caras há tempos, há personagens novos que deixaram marcas cordiais em suas curtas aparições, em ambos os casos eles ainda têm o que fazer nesta saga, e podem reservar seus exemplares do quinto livro, porque eles serão importantes.

    Como sempre, claramente auxiliado pela primeira dama da magia brasileira, Renato nos dá algumas lições que, façam o favor, não me digam que vocês não notarão! Eis algumas:
  • Às vezes as aparências não enganam! O que (ou quem) parece ser ruim é realmente ruim, mas quase sempre esconde o seu pior para quando for dar o golpe, então não meça prudência se precisar lidar com gente assim;
  • A diferença básica entre um parlamento e uma arena de luta, é que o lutador se apresenta quando vai dar o golpe, o parlamentar se apresenta quando o golpe já foi dado;
  • Não superestime sua capacidade, não importa o quão grande seja, de reconhecer o perigo. Sempre haverá alguém mais perigoso e experiente do que você, e vai te enganar direitinho! Tenha sempre um pé atrás e um punhal oculto para se defender;
  • Nunca tente completar, por falar nisso, o que o outro está tentando dizer. Em vez de ajudar, pode deixar o outro mais nervoso e atrapalhar ainda mais o seu julgamento. Ajude, se for necessário, mas não tente fazer por ele o que só ele deve fazer;
  • Os motivos do outro, especialmente se for um pai de família desesperado para não perder sua casa! Por mais baixo que ele PAREÇA estar descendo, o facto consumado pode ser o exacto oposto do que você está pensando;
  • O fanatismo não desaparece se seus fundamentos forem proibidos, pelo contrário! Uma população desprevenida e crente de seu desaparecimento, é incapaz de evitar que ele se ramifique; então não reclame dos idiotas se mostrarem como são, nas redes sociais, incógnitos eles são mais perigosos;
  • SEMPRE, mas SEMPRE MESMO, desligue o corrector automático do Office! Ele não sabe que não precisa colocar todas as palavras de uma oração na mesma concordância em que uma das trezentas foi colocada! Ele é burro!
    Sem mais, meus queridos, é mais uma obra literária de entretenimento com boas lições morais enxertadas, digna do nosso bom amigo! Eu recomendo!

    Agora só mais uma coisa... De onde surgiu em minha cabeça, a musiquinha irritante e TOTALMENTE SEM NOÇÃO "Shokozug! Shokozug! Shokozug! A fada do amor!"?

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Não quero risadas ro-ro, quero risadas re-re!


MEU DEUS! ELES ESTÃO JUNTOS!

    Quem foi Jerry? Bem, a biographia dele pode ser pesquisada à vontade pela internet, então falarei de minhas impressões deste ícone do gênero! Este ratinho malandro, que sempre fez o gato Tom de bobo... Hein? Não é esse Jerry? Tem outro? Ah, sim, me desculpem!

    Joseph Levitch, o judeu sério e irascivelmente perfeccionista detrás de Jerry Lewis, era o tipo de paciente que um psicanalista diagnosticaria facilmente como tendo dupla personalidade. Ele não fazia questão de esconder seu humor de urso faminto, na verdade o praticava com religiosa assiduidade. Durante os estudos para cada trabalho era de um tecnicismo que fazia qualquer um duvidar que aquele homem chato pra Corinthians, era o mesmo que fazia os colegas se molharem de rir durante as gravações.

    Há quem diga que quando juntos Jerry, Dean Martin e Audrey Hepburn, ninguém suportava o trio. Aqui, aliás, há um gancho para corrigir algumas injustiças de aprendizes de fofoqueiros. Jerry tinha um luto íntimo e coletivo, por conta do holocausto, que a Alemanha CONFIRMA OFICIAL E
CATEGORICAMENTE QUE ACONTECEU; ninguém puxa briga com a Alemanha e sai andando em linha reta. Audrey, já contei aqui, fazia parte da resistência à ocupação nazista na Bélgica, levando mensagens em suas sapatilhas. Ela não gostava de pessoas falsas, logo aquele aloprado arrumadinho das telas, tinha sim algum reflexo na vida real, só que o mau humorado típico e verdadeiro nunca dá o braço a torcer, não em público e não a qualquer um; leia-se: imprensa.

    A fidalga gostava de pessoas que a fizessem rir, mas não simplesmente gargalhar em um encontro social e depois virar a cara. Se eles se davam minimamente bem, meus caros, então o sacripantas não era tão má pessoa assim, pelo contrário. Se ela às vezes queria torcer seu pescoço? Com absoluta certeza, ela sempre foi assim com quem gostava, de quem não gostava ela preferia manter uma distância fria e civilizada.

   Dean não era uma muleta e tampouco um sub-Sinatra. Ele tinha personalidade própria, era um conquistador canastrão com cantadas surradas que, justamente por isso, funcionavam. Ninguém se previne contra o que parece ser inofensivo, por isso tanta gente pega gripe todos os anos. Ele foi o parceiro perfeito e contraparte ideal para os tipos ingênuos e desengonçados de Jerry. Os dois eram as caricaturas perfeitas do americano médio da época e, acreditem, eram o cidadão se reconhecia nos dois. Um era o que o americano acreditava ser, o outro o que no fundo realmente era e não admitia nem para o espelho. Até hoje é assim, e o brasileiro não é tão diferente dele para fazer pilhérias.

    Apesar de ter se desligado cedo demais, acredito para mim, dos grandes estúdios, ele continua a ser lucrativo para a Paramount, porque seus trabalhos vendem bem até hoje; e muito mais a partir de hoje, Elvis Presley e Michael Jackson que o digam! Os filmes dele sempre foram sucesso garantido na televisão. Os petizes, quando vêem seus filmes pela primeira vez, estranham e se assustam com o cenário da época, mas no fim se assustam mesmo é percebendo que as pessoas eram felizes sem esse monte de coisinhas cibernéticas de hoje. Ele é quase unânime, só desagradando mesmo à geração "mimimi olhar torto me ofende". Até quem o odeia gostava dele!

    Não é todo super astro lendário da era de ouro de Hollywood, que aceita fazer uma participação em um filme brasileiro, convidado por um maluco sem noção que faz o protagonista da trama. Ele fez mil exigências, mas todas elas foram irrisórias diante do resultado, e praticamente inexistentes para quem aproveitou a experiência única de ver a dupla personalidade emergir cada vez que contracenavam. Hassum, seu rabudo!

    Quanto às declarações polêmicas, provas de que ele tinha sim dupla personalidade, Lewis as assumiu, se desculpou e não tocou mais no assunto, embora a imprensa especializada até hoje esmiúce cada uma delas em todas as possibilidades inimagináveis, até que parem de dar audiência e patrocínio. O que mais queriam que ele fizesse? Que "desdissesse"? Quando indignado, não tinha jeito, o humorista sem noção emergia e evitava que ele soltasse algo bem mais grave do que o "politicamente incorrecto". Hoje, até dizer que não gosta de indie alternativo acústico folclórico milenar, pode ser ofensivo para alguém. Ele realmente estava coberto de razão, ontem, quando decidiu que não queria mais viver neste mundo insuportável.

    Algo que o alter ego mostrava bem, quase que em forma de parábola humorística, é o que hoje muita gente me reclama: se você é bom, então você é só um amigo, para romance as pessoas preferem quem as faz sofrer. É só uma das mazelas da sociedade que ele mostrava de forma escancarada. Podem ver isso em todos os filmes dele, em especial em "O Professor Aloprado", que tem as duas situações em um só personagem. Desculpe, Murph, seu trabalho é óptimo, mas o verdadeiro e legítimo nerd primordial, foi Lewis quem revelou ao mundo e interpretou como ninguém.


    A última polêmica é seu filme proibido "O Dia Em Que O Palhaço Chorou" de 1972, onde ele narra a tragédia de um palhaço judeu em um campo de concentração, que era obrigado a alegrar as crianças que esperavam para entrar na câmara de gás. Embora tenha financiado a obra e se divertido muito, fazendo palhaçadas e tirando o director do sério muitas vezes, ele a odiava. A considerou um lixo. Na verdade o que se acredita é que ele fez tão bem o papel, que se odiou por tê-lo feito. A boa notícia é que provavelmente estará nos cinemas até 2022, segundo especulam. Se é bom mesmo, só a estréia com acento agudo dirá, mas é certeza de que quem não gostar, ainda assim vai ver três ou quatro vezes só para apontar detalhe por detalhe e provar que não gostou; mesmo que tenha gostado.

    Ah, tá, eu não falei que ele fez parte da minha infância, que era o rei da Sessão da Tarde, que a Globo perdeu a graça depois que parou de exibir seus filmes, que ele era o verdadeiro e legítimo comediante... Talicoisers! Todo mundo já disse isso! E eu não sou todo mundo!

    Triste? Sim, estou, mas isso passa. A obra do mestre fica. Uma salva de gargalhadas para JERRY LEWIS!

sábado, 1 de julho de 2017

Orai

    Orai pela flor de Florianópolis. Orai pelos espinhos que ainda tentam defendê-la!

    Lembrai de seus risos sem pudor, em suas pétalas ao vento, lembrai de sua verve maternal para com os brotos que sequer saíram de seu caule.

    Dizei, ó mundo, dos males que teria esta flor feito em teu meio! Dizei, ingratos, das regras que a acusai de impor e que vós mesmos não tenhais dito com outras palavras!

    Fazei, prole d'outros ventres, saber da bondade austera que essa flor lhes legou, do destemor para com espinhos alheios ao enfrentas deles as pragas, que noutras flores causavam temor!

    Resignai-vos, discípulos desse perfume, com o desfecho que estiver além de vossos poderes, mas não com os rumos do que vossas folhagens puderem alcançar.

    Apressai-vos para vislumbrarem a beleza que ainda ostenta, e o aroma que ainda exala em seu perímetro. Não tardai a fazê-lo!

    Orai, jardins que a flor acolhia, que suas pétalas já estão infestadas por pragas! Orai, colibris sedentos, que ainda podem servir-se de seu néctar, orai de vossos jovens corações.

    Orai, pois as ervas daninhas já lhe tomam a vizinhança.

    Orai, pois os pulgões já pousam em suas folhas e sugam sua seiva vital.

    Orai, que já não há mais o que fazer.

    Orai e esperai.