quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Dead Train in the rain CLVIII

    Novamente o fanatismo. A estação 158 obriga Sandra a cumprir com uma promessa e prepara terreno para mais transformações. Fiquem atentos e embarquem, o trem vai partir.


O assédio assusta. Carly chega a bloquear acessos ao seu perfil por alguns minutos, não estava conseguindo usá-lo (...) O público é variado, tanto quanto inconveniente. Pedidos de namoro, de photos, de visitas, perguntas de foro muito íntimo e propostas indecorosas (...) vai falar com Phoebe. Ela dá uma olhada nas figuras mais atrevidas, infelizmente é o que esperava, quase sessenta por cento são brasileiros...

- Tem muita gente bloqueando todos os brasileiros, porque nenhum deles vem com “troll de internet” no cabeçalho do perfil. Em segundo, perdendo de muito longe, vêm os russos, mas são só garotos travessos, perto dos trolls brasileiros.

- Por que fazem isso? Quer dizer, a Rê, a Pancada e o Elias são brasileiros!

- Meu bisavós maternos também são, a tia Claire é... O Brasil vive uma fase aguda e muito severa de sensação de impunidade, isso tem se refletido no comportamento principalmente dos jovens. Imagine um garoto que acredita estar na proteção do anonimato, que é uma ilusão, diante de um ídolo ou um cara que odeia. E acredite, no Brasil, quando um meliante de verdade é pego, ele se revolta e jura vingança contra a sociedade, se foi preso por furto, promete começar a matar quando sair...

- E sai, depois de soltar essa merda na frente da polícia?

- E na frente das câmeras. Sim, a lei os ampara. Não os protege de abusos policiais, mas os coloca nas ruas rapidinho. Imagine um garoto cheio de hormônios e vontade de se afirmar vendo isso pela televisão... Pronto, identifiquei os trolls e estou bloqueando todos. Perfil operacional.

- Você mexeu no meu perfil?? Como??

- Proteger nossos negócios de hackers faz parte do meu trabalho. Pega seu tablet porque já tem fãs postando... Ei, eu conheço estes dois, são paparazzi.

- Depois do que você me falou, eles não são nada.

Ela vai falar com Sandra. Phoebe tem uma preocupação a mais, as redes sociais se tornaram noticiários de carnificinas no oriente médio, isso onde elas não foram simplesmente bloqueadas (...) Sandra fala consigo, após dar conselhos preciosos à comparsa de banda. Se mais um governo for simplesmente derrubado (...) há dezenas de grupos radicais prontos para tentar ocupar o vácuo e piorar tudo. Encerram a conversa sigilosa e voltam a viver suas vidas civis, porque abdicar delas não vai evitar o desenrolar dos factos.

Richard responde a uma questão directo do presidente, sobre a bisneta. Reitera que nunca hove e não há qualquer experiência de manipulação genética para reprodução, na organização. A insistência se deveu a resultados que cientistas do governo conseguiram, ao monitorar os membros da organização e concluíram que a garota é muito mais forte do que deveria ser, se fosse uma pessoa normal...

- A questão não é só de sigilo institucional, Phoebe é minha bisneta, então é também um assunto de família. O que posso dizer é que meu neto é mais forte do que eu, ela é bem mais forte do que o pai.

- Quanto mais forte, se não for difícil de responder?

- Muito mais forte. Como eu já disse, estamos estudando a genética dela, vários genes que em nós estão aparentemente inactivos, nela funcionam a todo vapor.

Dizer que ela é páreo para um gorila macho adulto, está fora de cogitação. Ver sua graça de bailarina ao caminhar, como se estivesse deslizando, engana. Vai com Albert e as meninas até a casa dos bisavós, e sai com eles no bom e velho Nash (...) Albert pensa bem, duas garotas atraentes, inteligentes e bem humoradas são ímãs para paqueras, se ainda por cima tiverem gosto e conhecimento automotivo...

- Phee... Temos que falar sobre as meninas.

- Por quê?

Ela estaciona e solta a maior gargalhada de sua vida. Ruma para a casa dos outros bisavós e dá a notícia, Albert está com ciúmes preventivos (...) Logo a cidade inteira ri dele, enquanto a esposa o consola, afirmando que todo mundo é um pouco careta (...) Aproveitam que Eddie está ajudando Glenda na compra da parte do enxoval que ela mesma não vai confeccionar...

- Ok, vamos ao ponto: Todo mundo é careta! Em pontos diferentes, sob circunstâncias diferentes, em graus diferentes, mas todo mundo é. Faz parte do nosso instinto de sobrevivência, você não tem que se sentir mal. Simplesmente reprimir um instinto, dá condições para radicalismos, os mesmos contra os quais você lutou no Kwait.

- Eu nunca liguei pra rótulos e agora descubro que tenho uma caretice!

- Não é um rótulo. Não neste caso. Na verdade acredito que seja uma proteção do seu subconsciente para evitar que você radicalizasse e fizesse alguma asneira irreversível. Equilíbrio, lembra-se? A Frida te disse isso, ninguém pode viajar nas asas do avião, viaja-se dentro da fuselagem.

- Com gente nas asas o avião nem decola, no máximo desperdiça potência perambulando pelo aeroporto.

- E não é assim que a humanidade está?

O cabo (...) se vê obrigado a concordar com ela. Pobre Albert! Era tão auto suficiente, tão confiante e seguro de si, mas desde que pisou em Sunshadow viu suas certezas sobre si se esvaziarem paulatinamente.

&

Voltam de Juneau e Honolulu, deixam os outros em Sunshadow e voam para o escritório central. Queriam fazer uma surpresa, mas o público está perguntando aflito pelas bugigangas licenciadas. Especialmente os colecionadores (...) Lojas de antiguidades já têm milhares de cofres preparados e programados para abrir em vinte e cinco anos, só aguardando seu conteúdo (...) mas temiam a perda do investimento pelo silêncio da banda a respeito...

- Mel!

- Tudo pronto! É só os licenciados começarem a produzir e teremos lojas abastecidas.

- Você fez tudo isso no tempo da nossa viagem pra cá?

- Tive uma ajudinha vital da sua sobrinha. Bee, vem cá!

Pegam a moçoila, carregam pelo salão interno, levam para fora e a jogam na piscina, pulando em seguida (...) os productos licenciados, todos made in USA, Canada e Mexico, começam a ser distribuídos em no máximo uma semana. São dois mil cento e quatorze itens fabricados por mão de obra paga (...) Há artigos de US$0,50 a US$15.000,00 o que inclui uma jukebox com tudo o que havia de melhor na época da estréia da banda e tudo o que há de melhor hoje, inclusive baterias para quando não houver rede de energia por perto.

Voltam para Sunshadow acompanhando as notícias (...) Chegam e encontram Nancy à espera da filha, a chama para a chefatura sem dizer o motivo, para que não se irrite precocemente. Elias está prestando depoimento, enquanto Sandra espera apoiada no noivo...

- Eu disse que nunca mais deixaria vagabundo tocar nele.

- Sandra, o que aconteceu com seu pai?

- Os caras daquela igreja, madrinha. Cercaram meu pai que nem cercaram o Jee, queriam obrigar ele a comer o livro e se desculpar. O primeiro tentou enfiar uma página na boca dele e ele se defendeu, cheguei nessa hora. Os outros partiram pra cima e o resto eu não me lembro direito... Acho que matei um.

A voz é tensa, mas é mansa, como se estivesse acostumada. Charles termina de colher o depoimento e (...) já esclarecendo que o rapaz foi agredido e a filha o defendeu, as imagens de vídeo em vários ângulos não deixam dúvidas. Um deles tinha uma calibre doze e apontou para ele, é justo o que corre risco de morte. Patrícia vê as imagens...

- Não dá pra acreditar...

- Viu? Esperaram ele entrar numa rua mais vazia e o cercaram. Mas o que me assustou foi a reação da Pancada... Ela pareceu um wolverine acuado, mal dá pra ver os movimentos dela!

- Eu o trouxe pra cá para protegê-lo, Chuck. Mas me esqueci de que ele poderia conseguir seus próprios inimigos apenas sendo ele mesmo...

- Patty?

- Mom... Eu vim tão contente de Los Angeles! Eu estava tão feliz!

- Ele está bem, meu amor, sequer foi tocado. Desfranze essa testa.

É um custo alisar aquela testa (...) A acusação de “caçoar da volta de Jesus, que está marcada para o fim do ano, quando o mundo será devastado por uma chuva de fogo e os eleitos verão os ímpios morrerem continuamente no inferno” procederia, se ele tivesse elaborado aquelas parábolas para atacar más condutas de religiosos que pregam a santidade. A carapuça serviu, só isso.

Pode parecer oportunismo, mas Julia aproveita o episódio para tratar da entrevista, para ele deixar claro o que o levou a elaborar o conteúdo (...) Ele olha para o menino em seu colo, se vira para a apresentadora e concorda, desde que a entrevista seja gravada na cidade (...) Patrícia volta à Máquina de Costura taciturna, compenetrada. Quer muito ter um dia mais proveitoso, mas não sabe como. Vê as filhas com as pequenas (...) Elizabeth se adianta, pergunta se podem marcar aquela entrevista para ajudar na novela, ou se o momento é inapropriado.

Ela pensa. Em situações normais, seu estado de tensão seria contraindicado, mas neste caso é perfeito para passar-lhes o que tem a acrescentar, com frieza e severidade necessárias (...) vai falar da parte humana dos líderes mundiais e suas conseqüências para o bem e para o mal. Falará de atrocidades cometidas apenas por uma mágoa ou uma decepção, motivos que beiram a infantilidade, camuflados sob discursos ufanistas (...) as características e os históricos dizem claramente quem são.

A tarde cai e colore de escarlate as nuvens, mas o assunto não se esgota antes de a noite vir. Conseguiu esvair a tensão com aquela entrevista, para a alegria do marido (...) porque ela saiu da chefatura como quem carrega o mundo nas costas. Alguns dias passam na dureza cotidiana. Julia chega com um operador profissional e seis tablets Dead Train para a gravação. Primeiro grava a chamada por um tablet, deixando o entrevistado tímido em segundo plano...

- Boa noite, Mundo!... Tá, boa tarde, mas isto só vai ao ar à noite... Depois de muita insistência e ser muito chata, finalmente consegui a entrevista exclusiva com o criador da pedagogia que acabou levando o seu nome, e tem conseguido tanto simpatizantes ferrenhos, como inimigos ferozes. Vocês devem estar se perguntando, com os livros em mãos “Como ele chegou a todas essas idéias malucas?” é o que vamos descobrir, logo depois dos comerciais. Não saiam daí!

Uma breve pausa e recomeçam a gravar. Ela começa perguntando (...) sobre essa conversa de “Branca de Neve com um cesto de nozes em uma carruagem de abóbora puxada por três porquinhos mosqueteiros indo para a casa do chapeleiro louco”...

- Foi numa época muito difícil, em que ela estava com a saúde frágil e eu precisei conseguir bicos para arcar com o tratamento. Certa noite, como de hábito, ela me pediu um conto. Ela queria uma história, não uma desculpa, mas eu estava muito cansado. O que me veio à mente foi uma lição de teor moral, que normalmente não se conta para crianças, então elaborei uma parábola...

Ouvem-se sutis risadas do cameraman (...) Julia aprofunda as perguntas e quanto mais adentra, mais profundidade encontra. Fica claro para ela que foi das profundezas de suas próprias trevas que ele tirou todas essas lições, transformadas em livros. Às vezes precisa fazer uma pergunta engraçada, para contrabalancear (...) seu abismo parece não ter fim...

- Sobre a Sandra Cocada... Você serviu de cobaia para os primeiros doces que ela fez?

- Na verdade ela não deixava muita coisa para outros experimentarem, comi migalhas, lasquinhas de cocada e bombons trufados. Não se iluda com aquele corpo, eu não sei onde ela enfia tanta comida!

- Uma mulher que come e não engorda??? Prevejo marés de inveja e pragas sendo rogadas!

É o que acontece. No decorrer da exibição da entrevista, os desafetos começam a ligar para feiticeiros de anúncios de jornal, cada um deles responde “Você não sabe com quem está se metendo! Deixe essa mulher em paz ou me esqueça!” e desliga na cara. Tio Quimbim mandou dar o recado (...) Enquanto isso, Sandra é carregada pela casa e jogada na piscina, para depois os outros cinco pularem atrás. Isso já virou tradição.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Dead Train in the rain CLVII

    Cantar estressa menos; A estação 157 mostra o valor de se viver daquilo que mais se gosta, inclusive para a sanidade mental. Embarquem, o trem via partir.


Em Dallas é mais privativo, ficam na fazenda de um velho amigo, que se recusa a morrer (...) Noventa e oito anos de, como diz a esposa, “alegria e safadeza sem imites”. Evelyn conhece a propriedade melhor do que os outros (...) conhece os empregados, os animais, os carros da coleção, os aviões antigos que só um doido varrido como o velho Barry-Kelly poderia ter, o porta-aviões com doze aeronaves da segunda guerra de uma coleção de barcos que só um completo... Bem, vocês entenderam. Aos críticos, os amigos enumeram os mais de cento e cinqüenta empregos gerados só com a manutenção e limpeza de todo esse acervo. Os barcos também ficam na fazenda, parados no lago. Voltam cheios de inspiração e histórias, finalmente descobriram o conteúdo que a amiga escondia, doravante ela terá que participar das conversas da turma.

Lá mesmo se dá uma entrevista com o sexteto. Vão preservar os garotos por algum tempo, mas eles estão detrás de um espelho falso, vendo tudo de perto. Eles aprendem as técnicas de postura e entonação de voz, que a edição nem sempre mostra, para manter o devido respeito e falar tudo sem dizer absolutamente tudo. Marcia resiste à tentação de ligar para a filha (...) Se entretém com as meninas, enquanto Albert cuida de pacientes e Richard de assuntos secretos. Às vezes se lembra dela andando com um livro pela sala, mas a imagem que tem é a de Phoebe da primeira infância. Vê o relógio, a esta hora ela deve estar assistindo à entrevista das avós e seus comparsas.

Eles tentam explicar por que um carro eléctrico que beira o revolucionário, roda aos montes em Sunshadow, quando o lançamento oficial só se dará no meio do ano. Patrícia responde sem hesitar...

- Sunshadow vive no século XXI desde o início, é este o diferencial. É o que acontece com várias tecnologias que são raras ou quase inexistentes fora de lá. Nós pensamos e agimos como pessoas do século XXI.

- Mesmo com o gosto arrebatado pelo meio de século passado?

- O mundo do meio de século era muito mais moderno do que este, mesmo com a tecnologia escassa da época.

- WOW! Valeu pela declaração, ela vai dar meses de polêmicas e dezenas de interpretações pra gente conseguir patrocínio!

A entrevista segue na leveza das risadas, algumas quase convulsivas (...) Nem todas as entrevistas são tensas e desagradáveis.

A entrevista gera polêmica. Aumentou a aura de mistério de Sunshadow e atiçou a sanha conspiracionista de muita gente, em especial dos ufólogos (...) Alguns deles têm representantes empregados na equipe do show, sem saber que a organização e a guarda imperial sabem que estão lá. Eles observam o mais próximos possível o ensaio (...) tudo lhes parece ter dedo alienígena. Especialmente Phoebe, que administra seus 2,12m e 150kg sem qualquer sinal de desajeitamento, como se fosse Suzy Parker em uma sessão de photos.

Ela carrega instrumentos pesados sem ajuda, com (...) a graça de uma bailarina. É muito difícil não se apaixonar por esta mulher (...) Ela põe os vasos com plantas ornamentais na entrada para o palco, de modo que quem for entrar pode ver o público sem ser visto por ele. Ela se lembra bem das palavras da avó, sobre o meio de século, gosta do estilo dos anos 1940, mas a escassez de tecnologias a teria deixado aflita, limitaria muito sua ação. Inclusive a precariedade comparativa dos meios de transporte, os mesmos que agora evitam que uma mãe se angustie em casa...

- Mom...

- Baby!

Todos olham para a arquibancada com caras de “Não acredito nisso” (...) A cena é a esperada, Phoebe pula seis metros adiante e corre para a mãe, que (...) desce com cuidado os três degraus e mal corre três passos até ser alcançada. Quase desaparece embrulhada no corpo do rebento. Sente um alívio imenso, como se uma cólica menstrual cessasse repentinamente. Os ufólogos acompanham os colegas de serviço (...) pensando “Os aliens também amam”, o que para eles é uma boa notícia.

Na fazenda, após o ensaio, pouco antes de irem para a sagrada sesta, Marcia acolhe a filha em um sofá da sala da lareira (...) só responde “She is my baby” a qualquer pedido de explicações, com a cara mais lavada do mundo. Richard promete explicações pormenorizadas, mas só amanhã, quando acordarem, hoje precisam descansar para encarar quase duzentos e vinte mil fãs. É tanta gente esnobando os ingressos em redes sociais, que a transmissão ao vivo foi liberada, para evitar desconfortos com os que não conseguiram os seus.

E o show é um estrondo. Marcia relembra a turnê no Brasil (...) só tem olhos para o desempenho da filha no coral, às vezes fazendo a segunda voz. Aquele fôlego que a fazia falar sem parar por mais de um minuto, quando era uma criança pequena! Por incrível que pareça para os fãs, um dia ela o foi. Os mimos durante o intervalo não são poupados de pilherias, enchendo os bastidores com gargalhadas que contagiam até quem está de fora, próximo ao camarim.

Richard explica a visita inesperada...

- A amada estava tendo uma espécie de crise de abstinência. Ela estava se lembrando da Phee caminhando pela casa, preenchendo os ambientes, mas só conseguia se lembrar dela com não mais do que seis anos de idade...

Renata olha para a filha, avisa que terão uma conversa séria (...) Voam para Los Angeles assim que se alimentam, e têm explicações de Richard, de manhã bem cedo.  A orquestra vai para Sunshadow, com Evelyn, Marcia, Richard e as meninas, a tarefa que têm é só para a banda mesmo. Enchem Josephine de felicidade e esperam pela visita de Shag (...) Ele baseou o trabalho em relatos e photos dos seis. Ele acertou em cheio! Dos cem trabalhos que mostrou para escolherem, compraram todos. Ainda o nomeiam vendedor autorizado das réplicas com o selo Dead Train. Patrícia liga para Melinda e o artista pode ir, para entregar os originais e receber pelo serviço. Agora é com a equipe da banda.

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Nancy participa da conversa (...) Marcia está cada vez mais parecida com a matriarca, para o bem e para o mal. Renata começa avisando à filha de sua responsabilidade como psicóloga experiente e bem qualificada (...) O tom de voz, porém, é maternal, sabe que as duas têm uma ligação forte de outras eras, que foi agravada pelos episódios da infância ainda recente da neta...

- Está me entendendo?  Não é porque a Phee ainda mora na sua casa, que ela não tem sua própria vida. Ela é uma mulher, tem marido, filhas e agora uma carreira. Ela não vai conseguir trabalhar direito se souber que você está chorando em casa...

Nancy se lembra da conversa com Fester, ele disse algo parecido. A manhã é toda dedicada a isso (...) Um esforço semelhante faz Enya, para que o marido confirme a visita dos pais, ou pelo menos da mãe. Ele avisa que não vai suportar ver a filha ser desprezada outra vez (...) mas a maturidade dela o faz pender cada vez mais para o aceite. Promete pensar no caso, mas  não agora, com a cabeça cheia de urgências vindas do outro lado da linha do equador.

Sandra aparece quando ele entra no Model S e vai para Lansing. Vai falar com a madrinha depois, por esse excesso de dedicação ao trabalho, por agora fala à mãe...

- Tá foda! Eu não vou dar conversa, se vierem, ninguém precisa se preocupar comigo. Além do mais, temos uma turnê que vai até o fim do outono, eles só me veriam de relance e olhe lá.

- Deixa comigo, eu estou enfiando isso na cabeça dura dele. Agora desfranze essa testa... Minha preocupação, se vierem, é a companhia, porque eu também tenho muito trabalho até o natal e Kurt vai embora já em Maio... Mamãe sozinha com eles, até os universitários voltarem à tarde das aulas...

Sandra fala com a madrinha, que concorda com ela, Elias está exagerando no trabalho (...) mas agora quer falar do namoro quente que ela e Giovanni conduzem longe das câmeras. Ele está com Jerry e Dean, falando sobre esses namoros com suas primas. É um pouco mais atrevido do que o pai (...) Ann e George vêem seus rendimentos ficarem pequenos diante dos cachês dos filhos. O mesmo com Carly, que assume as despesas da casa e decide que se mudarão em breve para Sunshadow (...) Pensando bem, vai agora mesmo ver isso...

- Mas é claro! Pra você a gente vende! Só um instante que já te levamos...

Entram e tomam um café com pão de queijo, enquanto conversam. A jovem ouve os detalhes, eles fazem questão de contar a história da casa (...) No mesmo dia se mudam, e ela se livra da tia com procuração de Deus para ser sua única representante na Terra (...) não quer se arriscar a pisar em Sunshadow e nunca mais conseguir se purificar. Vão os cinco comparsas ajudar na mudança e jogar a amiga na piscina, para pular também em seguida, como rito de boas-vindas.

A manhã seguinte é de farra. Vão todos à casa da novata e a escoltam ao ensaio diário. Hoje alguns usuários do metrô sentem a falta da passageira mais ilustre, ela pôde acordar com mais calma e prestar atenção ao amanhecer (...) Poder fazer as coisas com calma e (...) era um sonho desde que adolesceu, vendo os pais correrem para seus empregos e só voltando no fim do dia, estafados. Hoje eles também vão a pé, tranqüilos a admirar a paisagem, pensando em como retribuir à filha.

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Chegam os primeiros protótipos do material impresso. Os seis analisam com cuidado, são cento e oitenta imagens (...) A guerra fria está em todas, assim como paparazzi e carros de época caricaturados. A capa do álbum é o que consome mais trabalho, é a praça do trem morto com os seis ainda adolescentes e um cenário cheio de objectos escondidos (...) Coisas e situações que fizeram parte da história da banda...

- É impressão minha ou ele te caricaturou como agente secreta, nesta aqui?

Enzo mostra uma alusiva à Grande Turnê, com Patrícia entregando uma carta a um espião dentro de uma caixa de correios(...) A biblioteca se torna uma gargalhada só. Vai o dia todo, mas conseguem analisar um por um, com minúcias e o controle de qualidade que lhes deu a fama. Melinda dá o sinal verde e começam a rodar tudo (...) Deixam os outros entrarem na biblioteca, para verem suas reações. As crianças amam, querem brinquedos naqueles moldes.

Enquanto a família vê o trabalho, os seis levam Elias para o coreto do jardim. Ele fica entre a prima e a madrinha, que vai directo aos assuntos. Primeiro o mais simples, querem que pare com essa dedicação excessiva ao trabalho (...) Ele praticamente tomou conta da BYOP e da Sandra Cocada, que por tabela o faz tomar decisões também na Brook’s Hot Chocolate (...) Patrícia fala do desenvolvimento de Robby, o quanto Richard se afeiçoou ao menino e o que está perdendo em não aproveitar mais o que o velho Gardner está fazendo por ele...

- Mas eu sabia o que seu pai era capaz de fazer por ele, por isso posso me dedicar com tranqüilidade ao trabalho.

- As coisas não são bem assim, meu querido. Não é o que meu pai e seu filho estão ganhando, é o que você está perdendo. Você chega em casa, ouve o menino com todo carinho, mas não participou do que ele conta.

Não é difícil (...) A segunda parte é que é o osso! Olhares de desconfiança são distribuídos a cada argumentação (...)  ele adverte que o filho é tudo o que eles não o deixaram ser, com a mesma idade. Ronald argumenta que a relação com um neto pode ser muito diferente da com os filhos. Ainda assegura que a cidade inteira ficará de olho, e que será uma boa chance de verem o que realmente enfrentou na juventude.

Pensa, pensa, pensa... Ele concorda. Avisa que não vai pagiar ninguém, mas concorda em fazer os preparativos (...) Mesmo com condições, para os seis é uma vitória. Para Enya é uma festa. Ele cuida para que essa visita não coincida com nenhuma festividade (...) Renata se adianta e comunica Goiânia, que aguardem a confirmação de uma data e preparem os dois para a viagem. Agora os seis podem desabam nos sofás e respirar...

- Eu quero voltar pra turnê! Vamos voltar pra turnê, é muito mais simples, estressa menos!

- Não dá, Rê! A gente tem muita coisa pra fazer aqui... Mas podermos fazer um show de improviso, vai nos fazer bem. Só nós seis, o que me dizem?

Vão à praça do trem morto, com instrumentos electrônicos (...) Seguidos de uma horda de paparazzi, cuja movimentação denuncia o porvir, eles ajeitam a aparelhagem ao redor da 4-4-4-4 (...) enquanto a massa de turistas e imprensa se aglomera ao redor...

- Eles vão cantar?

- Mas aqui, no meio da praça?

- Parece que sim, mas... Sem ingressos, sem...

O burburinho é interrompido pelas notas de piano de Renata, e logo abafados completamente pelas de guitarra de Enzo. Começam com Bla-bla-band. Terminam a canção já desestressados. Continuam com Forgotten em um tom mais sóbrio, depois encerram com Back to Sunshadow (...) Arthur chega no fim da tarde e encontra os seis ainda rindo, avisa que a apresentação surpresa já rodou o mundo e foi compartilhada milhões de vezes. Liga a televisão e lá está a notícia, com a chamada “É muito bom viver em Sunshadow”...

- Mas não é pra qualquer um, Greg – diz Rebeca.

- Paparazzi safados não são aceitos, Greg – continua Robert.

Apelido relembrado, recomeça a farra. Assim ficam até a noite.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Dead Train in the rain CLVI

    O primeiro show. A estação 156 marca a estréia acentuada da nova formação e da orquestra. Embarquem e aboletem-se em seus lugares, o trem vai partir.


Voltam de três shows a tempo de participar do casamento da “professorinha milagrosa” (...) A manhã seguinte é de choro. Melinda foi socorrer Audrey, mas acabou chorando com ela. A tímida Stephanie vai no Cadillac da tia ao centro de convenções (...) É uma cerimônia simples, com Renata, Marcia e Phoebe na celebração. Bem depressa ela se torna uma senhora e todos vão para a festa.

A manhã seguinte só tem duas a celebrar o casamento. Richard leva a filha no Cadillac 1925 (...) Stephanie não sairá de lua de mel sem prestigiar sua primeira aluna. Onde vão passar a lua de mel? Os casais ignoram, disseram que seria surpresa (...) A moça desce e alguns figurões começam a chorar. Ela percorre a distância até o altar e eles sentem todas as vísceras descerem. Ela diz “sim” e eles derramam o aguaceiro. A moça rica e de beleza extraordinária, com tantos poderosos aos seus pés, casou-se com um dentista renegado do interior de Oregon.

Assim que o Airtrain decola, em meio a choros de mães, Patrícia liga para Mônaco...

- Caroline, avise que eles já partiram... Não, eles não sabem e não saberão até chegarem, por isso marquei um vôo noturno! Cuidem deles como se fossem seus filhos; pode puxar as orelhas dos quatro!

Pelas estrelas, Phoebe avisa à prima e mestra que estão indo para a Europa. Foi terminantemente proibida de consultar o “tabletrain”, para não estragar a surpresa, mas ninguém disse que não poderia se valer da astronomia. Descem em Lion (...) São levados para o palácio antes de a imprensa chegar, elas recebidas como princesas. As da família logo advertem do poder que Patrícia lhes delegou.

Voltam na semana seguinte, após luas de mel de sonhos (...) os paparazzi reconheceram Phoebe de muito longe, os quatro foram clicados quase vinte e quatro horas por dia. A forma física da professorinha foi uma grande surpresa, pois passa a maior parte do tempo dentro daquele jaleco (...) A rotina é retomada em parte, ambas continuarão morando nas mesmas e amplas casas, para a felicidade de suas mães.

O próximo casamento é de Happy Moon, que quer a mais absoluta discrição (...) Até lá, ela conclui o burilamento dos seis. Já não tem o que acrescentar, apenas repassa as recomendações e técnicas (...) Liga para a Máquina de Costura, onde os seis estão em uma reunião mais leve, diz “Estão prontos. Já os mandei para vocês” e dá esta missão por encerrada.

Eles chegam e encontram os seis sorrindo de forma marota. Patrícia diz “Agora a coisa vai ficar séria pra vocês” e os chama à reunião (...) O próximo show será em Austin, seguido de Dallas. Enzo mostra os locais onde vão se hospedar e cantar, os passeios programados e as entrevistas marcadas. Será um mês cheio. Carly dá uma olhada nos rapazes das photos, gostou bastante da fauna local. É a única solteira da turma, se sente injustiçada. Toca em um botão e vê a Austin dos anos 1960, se encanta. Se pergunta se não dá mesmo para viajar no tempo e trazer algumas daquelas coisas (...) Um letreiro que acabasse de ser substituído não valeria nada, mas hoje...

- O-ho! Temos uma vintagista em franco desenvolvimento aqui!

Phoebe inicia a festa, mas dá-lhe razão (...) Tem idéia de um bom negócio e a insere na conversa. De quebra será um bom meio de treinamento para a organização. Sugestão aceita e festejada, voltam à turnê do jubileu. Desta vez levarão quase metade da orquestra, Evelyn já selecionou e treinou os componentes, que demandarão um avião extra.

Albert se despede pela primeira vez da esposa (...) mas ela promete contacto todos os dias. Carly, Dean e Jerry estão ansiosos, ainda sem conseguirem se ver do lado de dentro do palco. Evelyn não sabe por que tem que ir, está nervosa, tem medo de falhar (...) Malas levadas, vão os vinte e cinco para o Airtrain, enquanto os músicos da orquestra vão para o Airwagon (...) O vôo é rápido, apesar da distância, as aeronaves pousam com quinze minutos de diferença, por questão de segurança. O aeroporto explode, os fãs reclamam sua quota de carinho e a recebem, assediando também os novatos. As agentes só estranham dois drones (...) pode ser só uma filmagem imprudente de paparazzi, mas elas sabem demais para não desconfiar de gente que as vê e não pode ser vista.

O cinco ônibus os levam ao hotel, totalmente reservado. A imprensa destaca três factos: A estréia dos novatos, a orquestra sinfônica acompanhando e, especialmente, a polêmica maestrina acompanhando os pais nesta fase da turnê (...) Instalam-se e vão todos os duzentos e oitenta para o auditório, com Patrícia dando as regras...

- Dezessete de vocês já sabem, mas não custa lembrar. Nós não estamos aqui a passeio, estamos trabalhando e devemos estar SEMPRE na melhor forma. Não que não devam se divertir, nos momentos livres, devem, mas vocês têm a responsabilidade de se apresentarem sempre uma hora antes de cada compromisso, aptos a darem conta do recado. Por isso a recomendação de não tomarem bebidas geladas, moderarem muito nos etílicos, terem muito cuidado com o que comem entre as refeições e irem cedo para a cama, ou logo que voltarmos do show. Sua dieta já foi definida e ninguém tem permissão para oferecer uma molécula de proteína a mais para nós; são ordens expressas minhas. Tomem cuidado com o que falam em público, a imprensa é mestra em distorcer qualquer vírgula faltante ou desnecessária, deixem para falar bobagem quando estivermos a sós...

As recomendações são simples (...) Sabem que são necessárias, que a banda deve sua reputação em parte à disciplina de seus integrantes, mas para a orquestra é algo completamente novo...

- Para finalizar, não pensem que o número dilui vocês. Estou vendo cada um, conheço cada um e sei como cobrar de cada um. O Texas inteiro está de olho em vocês e vai me contar qualquer desvio. Por último, mas não menos importante, vocês conhecem o rito do chocolate, não tentem me enganar. Por agora é só, aproveitem esta manhã de folga, pode ser a última por um mês.

Água fresca, suco natural e frutas serão fartamente oferecidos (...) Um flash dos noticiários tranqüiliza as quatro, os drones eram de paparazzi mesmo (...) É impossível não notar Phoebe antes de todos os outros, para o alívio de Albert e o amornar do coração de Marcia. Alguns amigos de longa data querem conhecer os seis novatos e rever a maestrina, gente que já foi patrocinadora e hoje é apenas parceira.

Avisam que um drone foi abatido, ao bisbilhotar o deck da piscina, rastrearam e encontraram o controle remoto, mas o operador já tinha fugido (...) Patrícia olha para os outros...

- A coisa está ficando séria. Se um helicóptero já é difícil de expulsar a tempo, imagine um aparelhinho desses! Lamento muito, amores da madrinha e da vovó, mas vocês terão que evitar a piscina.

Há protestos. Não dos músicos, mas dos empregados do hotel. Eles ficam revoltados com o cerceamento da privacidade de seus hóspedes, sim, mas também com a privação do espetáculo que queriam ver à beira da piscina (...) Chegam a um acordo e a piscina volta a ser liberada, com ressalvas, o sol sulista é só uma delas. Respeitadas, vão à piscina enquanto ainda é cedo. Hoje terão uma entrevista sobre a turnê do jubileu, mas algumas polêmicas acabam incluídas, como a dupla personalidade de Evelyn, os flagrantes de genialidade e superioridade física de Phoebe, os casos trágicos de Sandra e Jerry, e outras aparecem no decorrer do programa. Mandam mais de mil perguntas para o escritório central, por decurso de tempo.

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Seis drones, uma entrevista e dois ensaios depois, vão ao estádio do show. Sandra faz par com Rebeca e atiça os fãs (...) Demora um pouco até todos entrarem, e ainda vai meia hora para os quase duzentos mil fãs se aboletarem em seus lugares. Em meio à alegria moderada da banda, Evelyn está quieta, Deborah tenta relaxar a moça, mas o burburinho lá fora denuncia um público que dá três Sunshadows em população. Chega a hora e Madeleine a pega pelo ombro, carinhosa, como se fosse com sua neta. A aparição dos músicos de apoio já rende uma ovação fenomenal, assustando mais a jovem maestrina, que pensa no colo da mãe. Jack a leva para o comando da orquestra, com o senso paterno que soube aplicar aos filhos. Ela olha para aqueles músicos (...) respira mais pausadamente, faz a saudação vulcana com as duas mãos e seu rosto amedrontado fica sério.

Rebeca e Ronald sabiam que isso iria acontecer. Os músicos de apoio ficam pasmos (...) Os seis novatos sobem ao palco e a multidão vai ao delírio. Eles observam a cena, se entreolham, conversam com os veteranos e iniciam com Back to Sunshadow (...) Evelyn se transforma completamente. As nove vozes do coral principal são potencializadas pelas quarenta vozes suplementares, regidas e ajustadas como se houvesse uma Evelyn para cada uma delas (...) O efeito espetacular já rende uma matéria rápida nos canais de internet.

Chega a hora. Os seis se dão as mãos, ficam à entrada do palco, Rita os anuncia, eles entram e o Texas inteiro treme (...) Quem ainda não gostava, depois dessa entrada passa a amar Dead Train. O show é épico, as redes sociais e os perfis da banda ficam lotados de postagens e comentários. A manhã seguinte reserva flores, cartas, flashes, drones apreendidos, a frente do hotel coalhada de gente e muito, mas muito chocolate no saguão. Patrícia (...) chama a polícia e pede que os empregados do hotel embalem e lacrem tudo aquilo, vai tudo para Sunshadow agora mesmo (...) além é claro da cota a que todos têm direito delegado. Nem uma bala a mais.

domingo, 3 de fevereiro de 2019

Dead Train in the rain CLV

    Enfim a cura. A estação 155 mostra um dos muitos disfarces que um trauma pode assumir, às vezes é preciso a máscara ficar pesada para se revelar. Todos à bordo, O trem vai partir.


- Ai, que lindo!!! De novo! Quero ouvir de novo!

- Tia Frida, eu...

Zigfrida fica feliz e saltitante (...) Passa a tratá-lo como trata os garotos da nova formação e tratou os originais. Acredita que ele esteja fora de perigo, especialmente depois do “Tia Frida”.

Phoebe está com os outros, em um ensaio livre. Estrearão no coral da banda em Maio (...) Os titulares estão em uma passada rápida por Los Angeles, decidiram quem vai ilustrar o álbum triplo, dois discos de músicas inéditas e um com clássicos de todas as fases. Entram na loja (...) com as caras mais lavadas do mundo, localizam o artista entretido com um catálogo e se aproximam...

- Oi, Shag. A gente quer fazer uma encomenda – começa Patricia.

- Claro, só um instante e já...

A loja entra em colapso. Em uma hora a histeria está controlada, as câmeras forram o horizonte dos eventos e conseguem falar com o artista, praticamente sitiados pela clientela (...) Ele entende, fica feliz da vida e os clientes espalham que ele recebeu uma encomenda grande do Dead Train (...) Capas, contracapas, encartes, folders promocionais, discos de vinil, brindes, enfim, ele vai contar a história da banda com sua arte retrô cínica e elegante. Tudo acertado, voltam ao Jose’s Hotel para algumas horas de folga.

Em Sunshadow, Ingrid descobre que a juventude local é muito mais livre e feliz do que poderia supor. Se uma garota disser “Não” é fim de conversa (...) seus dogmas ideológicos estão dando tilt e fundindo seu hardware. Vai falar com a tia...

- Minhas broncas nunca falham! Me conte exactamente o que fez e viu, não economize detalhes.

- Vi umas garotas de roupas curtinhas, pareciam ter vindo da academia...

As gafes são hilárias, os garotos da cidade estão acostumados a relevar (...) contaram-lhe uma parábola de Elias para ilustrar o que acontece à juventude da cidade, mas ela ainda não digeriu...

- Eu perguntei qual era a verdade deles, e comentaram “Ela não leu Elias”. Me contaram uma história maluca de um ovo que não cai nem sobe, que só acelera até o chão e...

- “A verdade é o ovo quebrado no chão. Ele não sobe ou cai, isso depende do ponto de vista americano ou japonês, ele apenas acelera em direção ao centro de gravidade da Terra, mas é interrompido pelo piso e, na desaceleração brusca, a casca se rompe. Todo resto é especulação”.

- Sim, foi isso! É parte do folclore americano?

- Não, mas já se tornou parte da cultura da cidade... E lá vem o autor do pensamento!

Elias chega para deixar à madrinha, coisas a que não querem que hackers tenham acesso. Zigfrida o chama e apresenta a sobrinha, que nunca tinha ouvido falar dele. É quase um alívio, seria se não soubesse se tratar de alguém que se recusava a ter informações de um lugar que considerava um refúgio nazista (...) Aquele homem baixo não tem absolutamente nada do que imaginava como um intelectual (...) não impressiona, enquanto é perguntado sobre trivialidades, mas quando ela começa a falar do Brasil...

- Fixar a Flying Lady no capô de um Reliant o transformaria em um Rolls Royce?

- Não, claro que não! Nem o número de rodas é o mesmo!

- Pois o “governo bonzinho” do Brasil acredita que sim, e foi com esse critério que alardeou ter erradicado a pobreza. Frida, a madrinha ainda deve demorar e eu preciso ver problemas com novas taxas sanitárias no Brasil. Entregue isto, ela sabe o que é.

- Desculpe a demora, meu querido! Tive aqueles imprevistos de sempre...

O leva para a biblioteca, vê o que trouxe e pergunta sobre a hóspede. A sobrancelha esquerda levantada e a boca torcida para a direita dão a resposta. Saem conversando sobre o casamento de Kurt com Happy Moon (...) Elias confessa o desconforto quando pensa a respeito, mas foi para isso que fortaleceu a filha, ela sairia à sua própria vida cedo ou tarde. Ela, no momento, dá a Elizabeth e Prudence uma pequena aula sobre conspirações religiosas, que decididamente não são coisas de Deus. A próxima agente será Patrícia e, finalmente (...) Josephine. Alerta que é muito grande o número de ateus muito instruídos em religiões, que decidem ganhar dinheiro como pastores (...) que falam o que o fiél quer ouvir. Cita nomes, sabendo que manterão sigilo (...) Esse curso secreto de conspiração e espionagem já lhes rendeu uma aventura infantil e três romances policiais, um vai virar filme.

Albert vai mostrar o carro à noiva (...) trouxe de Detroit um Mercury Coupé 1951 vermelho. A idéia era um carro original que refletisse sua rebeldia inata, mas não custasse uma fortuna, as opções convergiram para os coupés e logo o filtro mostrou o Mercury. Rebaixar o teto seria cair na mesmice (...) Phoebe põe a família toda no carro antigo novo e manda tocar. Passam pela Máquina de Costura, prometendo uma visita assim que terminarem o passeio. Ingrid vê Albert ao volante, alisa o ventre enquanto encara o cabeludo que se afasta a calmas 20mph. Está interessada nele.

Na volta ele dá detalhes de como encontrou o clássico (...) Com os três grandalhões na frente, Marcia não conseguia ver o caminho, Phoebe se abaixou várias vezes para a mãe ver o para brisas. As meninas tagarelam, enquanto Spark e Lady Spy se entendem, e Zigfrida fica de olho na sobrinha, que está sempre por um fio, no teste. Quer ver até que ponto pode confiar nela, de agora em diante, mas tem se frustrado (...) pela tendência intacta de buscar por aventuras sem medir conseqüências. Botou em sua cabeça o pouco juízo que tem, enquanto a família da mãe a bombardeava diariamente com discursos de liberdade total e ilimitada. Albert interrompe sua meditação...

- Capitão! Mrs Petty! Phoebe! Eu não fui buscar só o Mercury, mas também isto – tira uma caixinha do bolso do blusão e a abre diante da família – Phee, quer se casar comigo?

É uma festa! Patrícia chama sua comadre e os bisavós da noiva, enquanto perto dali, Stephanie também aceita o pedido do noivo, após anos de insistência. Vão todos para a Máquina de Costura. De longe, sóbria, a inglesa observa o folguedo. Foi ensinada pelas companhias a desdenhar tudo aquilo (...) O que vê não é o que se acostumou a acreditar, não há constrangimentos ou desconfortos. A cena é o cume de uma manhã alegre, que encerra um ciclo em que os envolvidos escolheram estar (...) Tudo de livre e espontânea vontade. Acertam que Stephanie se casa um dia antes, para haver duas festas de arromba seguidas.

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Ingrid entra na suíte que hospeda os tios. Não tem muito jeito para dar explicações, apenas se senta diante deles e começa a falar...

- Eu tinha uma amiga... Ela era muçulmana, mas sempre conseguia escapar e sair com a gente. Ela conheceu uns professores de história e philosophia, durante um ano e meio, quase dois, se aprofundou nos estudos do islã, mas não da forma como os pais dela queriam... Talvez nem quisessem que estudasse, só obedecesse um macho alpha e pronto... No ano passado ela foi flagrada pelo irmão conversando em público com amigos que eles não conheciam, de cabelos soltos. Ela teria dito, segundo esses amigos que tínhamos em comum, que “Allah não confiaria seus segredos às mentes limitadas dos homens, está claro que mandou mensagens em versos para que pudéssemos digerir. Só um ingênuo leva poesias ao pé da letra”, o irmão a interrompeu chamando-a de infiel e traidora, bateu nela e foi detido. Voltou depois com uma arma e uma faca, com a arma afastou os outros, com a faca degolou a irmã... A polícia descobriu que ela seria enviada para a Arábia Saudita na semana seguinte, para se casar à sua revelia. A comunidade muçulmana manifestou pesares pela família, nas não deu a mínima para Asma. As outras religiões condenaram o hábito deles, mas ninguém sequer tocou no nome dela. Acho que era só isso...

- Não é só isso. Eu conheço o caso, só não sabia dessa amizade. Vem pra titia...

É a primeira vez que (...) se deixa envolver e chorar sem a companhia da solidão. Finalmente aquela caixinha preta se abriu e deu um fio de esperança a Zigfrida. Ela chora o luto que segurou por quase dois anos (...) solta todos os monstros que tinha enjaulados, dando subsídios para a sueca elaborar um tratamento eficaz, e aprender palavrões novos. Na manhã seguinte, só com os companheiros de senda, ela conta o que foi aquela choradeira (...) Sente um pouco da dor da sobrinha, talvez porque foi a única pessoa a quem ela pediu ajuda...

- Eu tinha medo de trazer ela, mas agora tá claro que foi a única decisão certa. Lá ela iria cair no radicalismo e talvez contraísse um câncer, pelo represamento das emoções. Ainda tem muita coisa pra investigar, mas ela soltou o que eu precisava para saber o que fazer.

- Acompanhem ela em um passeio pela cidade. Você já terminou com Albert, então pode se dedicar a ela e mostrar que o mundo não é o que esses canalhas querem que ela acredite.

Segue a sugestão de Brain. O casal a leva a um tour (...) lhe apresentando a Naomi Petty Green Children Foundation (...) Passam o dia inteiro lá dentro e saem com uma Ingrid completamente diferente.

sábado, 2 de fevereiro de 2019

Dead train in the rain CLIV

    O preconceito libertário. A estação 154 traz um choque de contracultura. Embarquem, o trem vai partir.


Enquanto a imprensa fala sobre a mulher das palavras de ouro, a mesma cuida de assuntos convergentes da banda e da organização. Os outros não notaram, mas ela e Rebeca receberam notícias que podem evitar ou eclodir guerras. O fanatismo religioso em solo americano é um dos estopins, por isso Tiamat, Window, Angel e Knockout estão na reunião com os veteranos (...) Ainda há rumores de ambições de políticos brasileiros, que querem fazer na América o que fazem no Brasil, para isso infiltrariam descendentes (...) que iniciariam aqui o altíssimo e sem paralelo padrão de corrupção que fazem lá. Josephine nem quer pensar no poderio bélico americano nas mãos de um político tipicamente brasileiro.

Saem preocupados, mas cientes do que precisam fazer. Retomam suas vidas civis, começando pela avalanche de aclamações que o projecto de Phoebe recebeu, incluindo do Pentágono (...) A banca avaliadora não encontrou uma falha sequer no projecto de formatura, na verdade não entendeu metade, precisou consultar a autora várias vezes. Pudera, usou conhecimentos de física só comuns a doutores (...) Os bons préstimos prestados sem interesse financeiro, em todo o Estado, pesaram muito a favor na avaliação que já seria impecável.

A mídia científica divulga com entusiasmo, logo outras mídias encontram as matérias, por buscas simples. Bastou digitar “Phoebe Petty” (...) Logo “Ela não é humana! Repito: Ela não é humana!” enche os canais de celebridades e de teorias conspiratórias. Os fãs retrucam com “Diva interplanetária”. Tobby, claro...

- Boa noite, mundo! Eu sou Tobby MacGuiness.

- Eu sou Julia Foster, e estamos aqui para novamente nos aproveitarmos de nossa intimidade com a Dead Train!

- Trouxemos hoje três cientistas de verdade, que vão tentar nos explicar o que exactamente fez de tão revolucionário, nossa adorável Smiling Heart Phoebe.

- Eles explicarem é uma coisa, a gente entender é que são elas. Bem, voltaremos em trinta segundos.

“Nós não temos certeza do que se trata, mas sabemos que funciona” dá início à hilária entrevista, que pretendia ser séria e sisuda (...) acompanhar o raciocínio da garota é uma tarefa ingrata. Ela não entende como eles não entenderam algo tão “simples” (...) manda algumas respostas pelo facebook, tornando-se a quarta e involuntária entrevistada...

- Foi por isso que não entendemos direito – conclui uma PhD – ela uniu mais de setenta áreas de vários ramos do conhecimento científico!

- Seria preciso uma universidade inteira para estudar o trabalho dela!

Ela recomenda a leitura do livro de Stephanie (...) e Julia tem mais um gancho com “Ajudaria muito se o próprio Elias concedesse uma entrevista” e tem apoio imediato dos cientistas.

Quando o programa termina, com ele a participação da moça, vem Marcia pular nela e enchê-la de afagos, orgulhosa de seu rebento (...) Na manhã seguinte, após os treinamentos matinais, ela é carregada pelo jardim e jogada na piscina, onde todos pulam em seguida. Ela (...) trata o caso apenas como um dever cumprido. Albert fica cada vez mais encantado e inseguro, Nancy não deixa de notar e liga para a pessoa certa.

Zigfrida chega com Solveig para um serviço que, espera, desta vez será leve, pois da parte de dramas familiares Renata e Marcia já tomaram conta...

- Fofo, esse papo de ela ser areia demais para seu caminhãozinho, não cola. Primeiro porque se fosse assim, ela seria areia demais até para um navio cargueiro, segundo porque ela não tá nem aí pra isso, terceiro e mais importante porque, boy, quem te escolheu foi ela. Se liga, ela tá na sua, não tem chance pra outro.

- Difícil não me comparar com premières e príncipes.

- E tu achas que a Patty não é desejada até hoje por reis e chefes de Estado? Mas com quem ela se casou, heim? Com o assistente de estúdio que ajudou na gravação do debute dela. Quer ouvir a historinha, boy? Então escuta e vê se aprende, mané!

A sueca resume, mas inclui o episódio em que ela foi ter com Arthur (...) consegue cortar o mal pela raiz. Mas concorda com ele que, se fosse levar ao pé da letra, ninguém seria digno de Phoebe, assim como é com Patricia.

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Tia Frida aproveita para conhecer os bebês da banda; Naomi, Rose, Serena, Colleen e Natasha, que parece uma boneca de porcelana. O desenvolvimento das três primeiras chega a assustar (...) A idade chegou para ela, mas como é com seus comparsas, dentro do compromisso de manter corpo e mente aptos a qualquer emergência, os anos foram generosos (...) Ela se esbalda com aquelas crianças. Quando volta à Máquina de Costura, vê Patricia com uma expressão muito séria (...) A casa logo se enche de colaboradores, Solveig a acolhe e ela conta...

- Houve um acidente de avião em Londres, Lennart e Ulla estavam nele. Ingrid tinha passado mal e ficou em casa.

Esperam ela terminar de chorar. A sobrinha agora é sua única parente viva, não teve muitos contactos com ela, mas às vezes eram tempestuosos. A família da mãe queria que fosse uma garota sem limites(...) Perguntam o que quer fazer, porque a mesma família que queria estragar a garota, agora não se mostra tão receptiva para conviver (...) Ela olha para o seu amado banana, ele aperta sua mão e em seis dias a garota desembarca em Sunshadow. Foi uma filha tardia, Zigfrida advertiu o irmão e o repreendeu muitas vezes, pela tentação de dar-lhe a vida que “as amigas dela levam”, que é muito mais confortável para seus pais do que acompanhar e podar os excessos típicos da adolescência.

O choque com a juventude local é inevitável, lhe parece ser muito careta, muito certinha, muito conservadora (...) Impressão toda formada no trajeto do aeroporto até a sede da cidade velha. Levá-la directo para Los Angeles estava fora de cogitação. Ela, com seu sotaque gritante do centro de Lodres, quebra o silêncio, que a tia utilizou para avaliá-la...

- Não parece ser muito divertido. Não há jovens nesta cidade?

- Há muitos jovens, eles se divertem muito, só não fazem merda para terceiros limparem depois.

Isso a faz lembrar-se das broncas após farras destrutivas (...) Perda de mesada é comum na sua história. Também se lembra que foi a única de um grupo undenground que não cometeu suicídio (...) e era a única entre eles que tinha limites dentro de casa. Com Zigfrida não funcionavam os discursos inflamados (...) Com o sunshadower também não. Ela pensou muito antes de trazer Ingrid, mas todas as outras opções eram muito piores.

Chuck está ao volante do Crown Victoria 1955 vermelho e marfim, com teto de plexiglass (...) Reconhece tudo aquilo, houve época em que adolescentes de Summerfields vinham com discursos prolixos, para justificar fazerem o que bem entendessem (...) o trauma da perda está estampado no rosto dela. Chegam à Máquina de Costura (...) É onde ficarão até a sueca concluir o trabalho com Albert. Ele torna-se uma preocupação extra, porque a sobrinha já se envolveu com homens casados e não vê nada demais nisso.

Encontram Ana Clara e Elisa preparando o almoço, enquanto a dona da casa está resolvendo problemas corporativos. Lady Spy fica atenta, a visitante não lhe inspira confiança (...) Sobe à suíte que lhe foi reservada, ao lado da sua. Pé direito alto, cômodo amplo, a janela toma quase toda a parede e dá acesso à sacada (...) Há uma efêmera ilusão de falta de limites, que some quando a tia avisa sobre os treinos matinais...

- Então não se assuste, o povo aqui acorda muito cedo e pega no pesado logo de cara.

- Cara... Tinha outras idéias disto tudo.

- Pensou errado. Aqui não tem moleza pra ninguém, e com você não será diferente. Isso mesmo, você deve agir aqui como agia quando eu ia visitar vocês. Aquela pistoleira não vai mais estragar você.

Sobra espaço no armário, ela estava acostumada a comprar roupas todos os meses (...) Sabe que agora isso é passado. Descem, o cheiro que vem da cozinha denuncia a iminência da refeição. Uma voz sedosa em tons autoritários se aproxima, após um ronco de motor semelhante aos Porsche e Volkswagen a ar estacionar e cessar...

- Eles estão brincando com fogo, Arthur! Desta vez nós não vamos socorrer aqueles pilantras. Se quebrarem, que quebrem, depois encaminhamos os empregados para outras vagas, mas eles vão arcar sozinhos com sua arrogância... Gente nova no pedaço, a Igrid chegou.

- Lady Spy está mantendo distância dela.

E corre para sua senhora assim que a vê. Nos braços dela se sente segura (...) e a inglesa acha Arthur muito atraente para quem já é bisavô. Mas a figura de Patrícia a inibe (...) um tapa dela deve doer muito. Dão-lhe as boas vindas de praxe e vão almoçar, e ela estranha comer à mesa com uma família.

Arthur se despede da irmã e da cunhada, até a hora de fechar a BYOP, elas lhe repassam suas impressões (...) As duas encontram Elias baixando o relatório trimestral, acham por bem avisar-lhe da visitante de carinha meiga e coração agressivo. Sandra estica o pescoço e avisa...

- Eu sei curar e sei matar. Meu namorado é só meu.

Chuck também dissemina suas impressões, não é o tipo de adolescente de fora que seria indicada para as escolas de Sunshadow. Nancy toma conhecimento, vai dar uma olhada em Albert, que está atendendo uma criança. Espera e o alerta assim que desocupa...

- A própria Frida disse isso dela. Tome cuidado, deixe seu comprometimento bem claro.

- E por que ela se interessaria por mim? Acho que o capitão seria mais cobiçável, não?

- Ricky tem uma postura muito militar, ele cresceu sob uma disciplina rigorosa. Você veio de uma vida muito livre e a deixa transparecer, isso a atrai.

- Veja o tamanho da minha aliança de noivado.

- Para ela não faz a menor diferença. O conceito de “casamento aberto”, dos outros é claro, fazia parte da vida dela. Bancava a Lolita, tinha uma relação e ia embora sem olhar para trás.

- Putz! Valeu pelo toque. Vou dar um alô pra Phee.

O laboratório da fábrica tem dezesseis prototipadoras de diversos portes e tipos. Phoebe termina de programar (...) e vai ter com o noivo (...) À Tarde ela conhece a garota, levando as filhas e o gato. A pouca aceitação às crianças é bem visível, a pouca aceitação de Spark à visitante também (...) O porte da jovem mãe a intimida muito, mas imagina um sexo oral delicioso nela. Está disposta a tudo para fugir da realidade do luto, mais do que fugia da realidade que os noticiários pioram antes de apresentar ao público...

- Não te ofereceram o direito de abortar?

- Eu nem cogitei isso.

- Seu corpo, suas regras, certo?

- Eu segui minhas regras. Rose, não pense que não estou vendo vocês! Tire a mão dai. Spark, vem... Menino travesso... Eu não me arrependo de ter parido.

Aquilo soa muito conservador à visitante, lhe vem à mente os boatos sobre crianças prometidas para casamento assim que nascem (...) tenta imaginar que tipos de castigos sofreu para se comportar automaticamente assim. À noite, com os tios, tem a primeira advertência...

- Ela nunca foi castigada em grau nenhum, a não ser pela vida. Ainda que essa sua cabecinha entupida com feromônios não conceba, ela é feliz com a vida que leva. Deixe de ser preconceituosa, Ingrid! Você está julgando as pessoas desta cidade da mesma forma que se dizia julgada por conservadores. Você pensa que se não for do seu jeito, na sua mentalidade, a vida não faz sentido. Nenhum psicólogo sério endossaria isso, como todos os que você abandonou não endossaram. A Phee não tem pressa, não tem ansiedade, não tem medo, não tem apego, não há nada que estrague o dia dela. Ela é feliz trabalhando duro, ensaiando pesado, cuidando das filhas e do gato, e ainda arranja tempo para ajudar as pessoas; sem reivindicar sequer um “obrigado”. As pessoas aqui são assim, foram educadas assim desde bebês. Não é a falta de um orgasmo ou de uma desforra contra o “sistema” que anula a felicidade. Eles fazem tudo o que fazem apesar do sistema, que não é um deus invencível e nem um demônio implacável. Nenhum deles, principalmente desta família, procura temperos para a vida, eles a temperam sozinhos, mesmo sem fortes emoções a cada noite, se valendo só do que têm. Nesta cidade, de cujas feridas você nem faz idéia, o grande mal que você chama de sistema e só existe no seu coração, não vingou. Veja se julga menos e aprende mais, vai precisar muito disso em Los Angeles.

Preferiria ter ido dormir com o traseiro quente a com os ouvidos zunindo (...) se julgava o suprassumo da tolerância e do acolhimento de diferenças (...) Adormece cedo, também cedo acorda com um barulho vindo do jardim, então se lembra do primeiro aviso. Vai à janela e vê todas aquelas pessoas, quase todas famosas, praticando artes marciais (...) Aquilo a assusta, os combates com armas assustam ainda mais, o desempenho de Phoebe a apavora. Não há coreografias como as de cinema, aquilo é pra valer. Ao fim, Phoebe aponta para cima, notou a espectadora durante o combate...

- Bom dia, sono leve – cumprimenta Patrícia. Desculpe acordá-la tão cedo, mas isto é prática antiga, uma tradição da cidade. Volte pra cama, o seu desjejum estará na mesa da copa.

Pulam todos na piscina, para descontrair, e o treinamento de hoje é encerrado.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Dead Train in the rain CLIII

    Juventude estendida. A estação 153 ilustra bem o que planos, mentes activas e corpos bem cuidados fazem pela longevidade. Peguem seus bilhetes e embarquem, o trem vai partir.


Liberam o calendário de shows para 2012 (...) A melhor notícia é que a nova formação estreará bem antes do previsto, o que facilitará também a agenda de serviço reservado da organização. Em 1964 eles eram patrocinados, em 2012 eles vão patrocinar a turnê, isso logo se espalha entre os fãs, pelas redes sociais. A última reunião oficial da banda inclui os novatos (...) O clima é ameno, ouvem-se risadas, apesar do mundo em desmoronamento as perspectivas são boas, enfim. Falam com leveza sobre o futuro musical que lhes aguarda.

A prioridade agora, sem urgências para atrapalhar, é repassar experiência aos garotos. Detalham sobre os ritos para subir ao palco, os exercícios de respiração, as sestas entre o último ensaio e a apresentação, o cuidado com a acústica, a lida com os fãs, os paparazzi e os desafetos que vão simplesmente achar que aquele trecho daquela canção é uma indirecta...

- Não se iludam com o calendário – alerta Patricia – os egos nunca estiveram tão inflados. Qualquer um com mil seguidores em um canal de vídeo pode se achar uma celebridade, e querer cobrar até para cumprimentar alguém em público.

- Não é exagero, nós já vimos isso acontecer – completa Robert. O sujeito ainda jurou processar uma vendedora que não o reconheceu, a acusou de sabotar sua carreira.

Os seis se entreolham perplexos, se voltam para os veteranos e disparam a rir, contagiando-os...

- Hey, eu sou o famoso Ninguém!

- Quem você pensa que é pra não me reconhecer?

Os gêmeos começam e todo mundo acrescenta trechos, Rebeca ritima com a bateria e logo têm uma canção nova em gestação (...) Depois vão para os acepipes altamente calóricos, para poderem enfrentar o inverno que já bate à porta. A canção é registrada e fará parte de algum show, de surpresa.

A neve começa a cair (...) À exceção de Phoebe e as meninas, todos estão empacotados. Ela entra em uma loja de relógios, de um colaborador da organização, pede para ver alguns modelos exclusivos e é levada para dentro, onde o piso se abre e descem ambos às instalações secretas. Estavam pensando em desactivar e encher de terra, pois o modelo já tornou-se obsoleto (...) mas Sandra aventou a possibilidade de serem utilizadas como apoio para a construção de uma cidade subterrânea. O assunto é tratado com engenheiros, que visam especialmente o inverno rigoroso e as tempestades, que costumam preceder furacões.

A cidade nova inteira é interligada por instalações (...) o trabalho seria consideravelmente pequeno. Ela sobe de volta com um relógio altamente complexo em mãos, para Albert, vai à casa da bisavó paterna e pega as meninas, então conta alegremente das conclusões a que chegaram. O governo gostou do preço e da possibilidade de agentes secretos ainda poderem circular disfarçados (...) o metrô teria suporte para futuras ampliações e o turismo um argumento a mais. Vão falar com Daniel e Laura, que concordam com o quanto seria bom terem instalações assim, para a população poder viver melhor durante o inverno...

- Como assim “Já existem essas instalações”?

- Não há mais motivos para segredos, não para vocês. A construção da cidade nova foi em cima de instalações para a cooperação com a CIA e as agências de países amigos, mas o conceito dessas bases já não faz mais sentido. Vejam aqui...

Patricia mostra-lhes no tablet o mapa das instalações (...) São três pavimentos com iluminação e ventilação, que agora poderão ser naturais. Ninguém precisa saber que elas já existiam (...) Reúnem os cidadãos mais respeitados da cidade, tratam a respeito e todos concordam, já no fim do inverno começarão com as obras e a ocupação do subterrâneo. Josephine tem a positiva e avisa aos colaboradores, é motivo para festa. A imprensa residente se apressa em ir ter com aqueles cidadãos (...) Eles apenas avisam que haverá novidades e que em breve o inverno não separará mais os sunshadowers, que podem contar com os mesmos feitos tecnológicos e de engenharia que criaram a Máquina de Costura.

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Em tempo recorde, embasada não só nas novas tecnologias, mas também em seu aprimoramento profissional, Glenda entrega para Stephanie uma caixa com cópias do “The Eliasian Pedagogy” (...) Há um extra, uma última página que resume a História de Elias, Sandra aparece no terceiro de seis parágrafos. Julia a sugeriu. Elias agradece com um sorriso de meia boca, ainda não se acostumou com a notoriedade e não consegue vestí-la, mas Patricia amou terem tirado a tartaruga do casco! Vai ajudá-lo a lidar com isso, mas quer que ele lide.

A noite de autógraphos é bem mais animada do que se esperava, com o termômetro adormecido e as pessoas reticentes em sair de suas camas quentes. Claro que haver um bufett de sopas e caldos quentes ajudou a (...) não esperarem o frio passar. Aubrey manda imagens em tempo real para o escritório central, Audrey paparica o rebento até no sanitário, Enya assegura que Elias também também assine o livro para seus fãs (...) A numerosa família e os aspirantes a parentes estão lá (...) Glenda dá boas notícias vindas de todo o país e várias partes de outros. O lastro do parentesco se fez valer novamente, e o tema da obra dá coceira em muita gente, inclusive quem não gosta do modo de ensino de Sunshadow.

No dia seguinte o sucesso, a glória, o prestígio e o fanatismo. Milhares de exemplares foram queimados por divulgarem a pedagogia do “trem do diabo”(...) Bem, os livros queimados não foram doações, todos foram comprados, a divulgação da queima atraiu a atenção (...) e o rótulo de “proibido” atiçou a sanha de muitos leitores. Torna-se um best seller instantâneo. Ela nem pensa em agradecer aos fanáticos, que finalmente a descobriram, mas gosta dos resultados.

O pouco que resta de ano transcorre na toada mais mansa, com todo mundo só saindo para o estritamente necessário. Phoebe não é todo mundo, ela sai com as filhas no Cadillac com capota baixa (...) Ninguém quis arriscar, foram Richard, Marcia e Albert com elas, mas empacotados, enquanto as três usam apenas agasalhos leves (...) até duas figuras similares a ursos de pelúcia aparecerem no horizonte branco, uma delas apontando para a direita. Patrícia e Renata os param, não tem conversa, as três são devidamente empacotadas e todos levados à Máquina de Costura, onde chocolate quente e pão de queijo recém saídos do forno completam a aventura das pequenas, para quem tudo foi festa...

- Mas eu não senti frio, juro!

- Não me provoque, Phoebe. Deixe para demonstrar sua imensa resistência quando ela for necessária. Tome seu chocolate.

Patricia encarna Princess, para falar no tom certo de autoridade. As pequenas terminam de comer e correm para os instrumentos, então as bisavós vão atrás e as ajudam a tocar Bohemian Rapsody. Do alto da escadaria, Lady Spy observa a tudo despreocupada, de barriga cheia (...) Ela olha para o cenário alvejado lá fora, estima a temperatura e comenta consigo...

- Rrrrr, rrrrrrr, mhmown...

E se esparrama em sua almofada. Havia um paparazzo maluco na rua, ele se resfriou, mas (...) as imagens lhe renderam muito, mas muito dinheiro, além de mais uma polêmica sobre a moça.

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Glenda anuncia a gravidez (...) Na rede social da cidade ela escreve simplesmente “A ninhada terá início! Woohoo”. Isso faz Tobby e Anita enfrentarem o inverno glacial de Michigan para ir ter com o casal (...) Ela alega saber quem é a criança, já escolheu o nome e começou a esboçar a decoração do quartinho. Elvira terá pelo menos um ano e meio todinho para si, quando o próximo da lista será gestado. Até planos para um halloween especial o casal tem...

- Ela não vai ser bruxa, ela é uma bruxa. Você não tá entendendo, Juan? Eu não vou parir novatos, só tem gente bem antiga na fila, da primeira leva de degredados.

- Wow... Teremos uma casa assombrada por nossos próprios filhos?

- Esses barulhinhos e luzes que vocês costumam relatar, serão coisas do passado.

- Vão acabar?

- Não, meu! Se liga! Até agora a gente tava tocando valsinha para ninar crianças, a partir de Setembro será rock pauleira!

- Baby, seus sogros chegaram!

O velho McGuinness corre para ter com a nora e apóia a idéia de assombração voluntária, será um atrativo extra para o museu.

A neve derrete, a barriga aparece e as obras para a cidade subterrânea têm início. Não utilizam mão de obra desconhecida desta vez, só os operários costumeiros e de confiança (...) começa também o calendário de shows da Dead Train. O velho Coach viaja até Lansing, para a primeira apresentação do ano fora de Sunshadow. Desta vez os novatos ficam em casa, ensaiando e aprimorando. Há cinco décadas a tradição do mar de fãs e paparazzi se repete, em essência o fenômeno está intacto, só algumas neuras e tecnologias novas foram acrescentadas.

Encontram os músicos de apoio no hotel, com quem descontraem um pouco até irem conhecer e ensaiar no palco do show. Fazem alguns ajustes no som, mas podem ensaiar rapidamente (...) Outra coisa que continua essencialmente a mesma, é o carinho para com os fãs. Selfies aos borbotões vão parar nas redes sociais (...) À noite a pauleira rola solta, o sexteto de sexagenários esbanja energia e talento. As manchetes do dia seguinte seguem a do Coast to Coast News com “A terceira idade acaba de ser reescalonada”, aqueles seis garotos pulando e correndo pelo palco não podem ser chamados de velhos.

Vão para Detroit, onde farão uma visita ao salão do automóvel (...) Vão do hotel para o pavilhão, pegando todos de surpresa, especialmente a segurança. Os ceos das montadoras fazem questão de irem ter com a doutora em dissipação e conversão de energia em máquinas térmicas. Tudo o que ela disser, de bom ou mau de seus carros, é precioso, ela conhece o assunto. Eles não ignoram ninguém, nem os menores e mais obscuros fabricantes de réplicas (...) ainda assim a imprensa automotiva dedica um espaço enorme à surpresa e aos comentários extremamente técnicos de Patrícia.

“Vocês estão muito tímidos” reverbera em todos os canais de notícias automotivas. O contraste com a ousadia de outrora e os passos sobre ovos de hoje, a indústria americana parece ter medo de se recuperar (...) Daí nascem mais matérias, mais reportagens, mais acessos, mais patrocínios e uma imensa cesta de chocolates finos em agradecimento à diva, que em meio a risos decreta...

- Cada um pega três bombons. O resto vai para Sunshadow. Não tem conversa, eu conheço vocês, especialmente vocês cinco, não vou arriscar uma diarreia no meio do show...

Os chocolates são vistos indo para as mãos de um membro da equipe e ele para Sunshadow, logo todos deduzem que aquela banda da grande turnê ainda está viva, para a felicidade dos fãs.

No camarim, o que encontram? Mais chocolates, que Patrícia manda embrulhar em dezoito pacotes iguais e lacrados (...) O restante sai como planejado, eles aquecem os músculos, as vozes, meditam um pouco, se dão as mãos e vão à entrada do palco, até Rita os anunciar...

- Atenção senhores passageiros, o expresso para o mundo da felicidade vai partir. Peguem suas reservas de energia e embarquem no DEAT TRAIN!

O estádio quase desmorona, os seis entram ovacionados e logo começam com Bla-bla-band. Nos bastidores, Deborah dança com Eddie até o intervalo (...) Voltam na manhã seguinte para o aconchego do lar, onde mais chocolate os espera...

- “Em agradecimento pela consultoria informal e pelo brilho que emprestou ao nosso salão”... “Consultoria informal”? Será que eu não posso abrir a boca sem alguém se aproveitar disso?

- Não quando o assunto é automóvel, meu amor. Sua opinião vale ouro, mesmo a mais informal.

- Por isso aquele cara da Chevrolet estava todo animado, com bloquinho e caneta em mãos! Ainda a garota com uniforme da Acura, ela estava gravando a conversa... Parece que eu dei um milhão a cada um deles, de tão felizes que ficaram!

- Olha, se eles conseguirem tirar proveito de metade do que você disse, é por ai mesmo. Até eu, que sou leigo, entendi o que você disse sobre turbilhonamento de alta velocidade.

Não um milhão, mas cada um ganhou um carro médio pela iniciativa. Athur até consegue explicar mas não refresca. Os engenheiros, de posse dos pareceres, estão trabalhando a todo vapor, como os operários da cidade subterrânea. Arcos de concreto vulcânico armado microligado são adicionados a cada metro escavado (...) Esperam entregar tudo até o natal.