domingo, 31 de maio de 2009

Oi? Quem? Como assim?

Lady Gaga: se você acompanha esse blog assiduamente com certeza já ouviu falar nela. Na verdade, nem chego a ser tão exigente, basta ter dado uma olhada nos sites de entretenimento nos últimos dois meses para se ter um número enorme de informações sobre a cantora.

É o seu estilo que beira o bizarro (ou é bizarro mesmo, dependendo do humor/ponto de vista/se você não pega ônibus em frente a um bordel) que é pauta na maior parte das matérias relacionadas à cantora. Lady Gaga não é, contudo, um fruto apenas do seu visual. Até por que se fosse, ela seria apenas mais uma dessas celebridades desesperadas por atenção, aquelas que sempre são comentadas, mas os comentários não se revertem em frutos para seu trabalho (nem seu trabalho se torna alvo de comentários).

Há também quem diga que Gaga é tão visada por ser uma das poucas artistas que unem apelo visual a talento real, já que ela é uma das poucas no mundo POP que se envolvem em todo o processo de composição da música. Esses, contudo, também não chegam perto de uma explicação.

Nem eu mesmo sabia explicar por que me via tão interessado no que a cantora fazia. Tá, eu reconheço que me entusiasmo facilmente com essa coisa de celebridade, mas com a Gaga foi diferente, já que seu trabalho também passou a me interessar.

Milhares de penteados bizarros depois, só comecei a chegar a uma conclusão em relação ao fenômeno Gaga depois de tentar formar uma opinião de seu mais novo vídeo, Paparazzi. E a resposta foi que: não, o sucesso da Lady Gaga não está num mapa astral extraordinário (ela é uma simples ariana com ascendente em Peixes, o que no máximo revela uma pessoa equilibrada), ou numa sorte muito grande, o sucesso de Lady Gaga está exatamente nessa dúvida que ela causa nas pessoas, nessa quebra de expectativa, que há muito não se tinha...

Foi essa mesma característica que levou Madonna e sua “revolução sexual” ao estrelato, e que alavancou a carreira da Britney Spears (olha só a garotinha do clube do Mickey dançando em trajes mínimos e com uma cobra enrolada no pescoço!), e era a falta dessa característica que vinha tornando o mundo da música (infestado de garotinhos com anéis de virgindade e estrelas de séries infantis) tão absurdamente insuportável.

Ora, se Lady Gaga é uma cantora Cult, por que tem tanta coreografia nos vídeos? Mas se ela é uma artista POP, por que o vídeo é visualmente tão chocante?

Quer dizer, o que pensar desse vídeo? Artístico? Bizarro? Sem sentido? Somente POP? Reparem que essas mesmas questões são feitas em relação à cantora. Tanto o vídeo quanto a cantora são um mistura disso tudo. E esse é o trunfo dela, numa época em que o mundo do entretenimento está catalogado nas categorias mainstream e underground, bonzinhos da Disney e junkies que se recusam a ir para Rehab, quando estamos finalmente nos acostumando a simplesmente classificar tudo o que vemos, quando estamos nos acostumando a nos rotular de alguma forma, ela aparece, sem rótulos, sem classificações, tão caricata que parece original, tão original que chega a ser caricata. Incomoda, encanta, deixa em dúvida, é assim que vejo o vídeo Paparazzi, assim que vejo Lady Gaga...


http://www.youtube.com/watch?v=QQJ9Vi8GLok

sábado, 30 de maio de 2009

Dia dos namorados... ra, ra, ra, ra!

É a data que substituiu, no Brasil, o dia de São Valentin; 14 de Fevereiro. Como o caráter é puramente comercial, pois Junho era fraco em vendas, ficaram algumas tradições de fora.

São Valentin não é só para quem te chupa os beiços ou faz nheco-nheco contigo, é para todos os entes queridos, familiares ou não. Presentes, mensagens, flores, serenatas, enfim, cousas profundas que ficaram de fora da nova data rasa.

Já o dia dos namorados é uma época contraditória. Muitos namoros são desfeitos nas imediações desta data, quase sempre porque um dos dois (ou ambos) não pode ou quer gastar com presentes. Não se trata simplesmente de dar um presente a alguém, é a tua namorada e todo mundo exige que ela revire os olhinhos de contentação, ao abrir o embrulho, paralelamente exigem que ela retribua de uma forma ou de outra, à altura. Mesmo que ela realmente não faça questão de presente nenhum, dependendo da idade, será motivo de piadas no dia seguinte, na escola ou no trabalho, se não relatar uma epopéia consumista de dar inveja aos ianques.

Enquanto muitos namoros são desfeitos, uma multidão está desesperada à caça de alguém, qualquer um, para a data não passar em branco. Serve até uma passeata esdrúxula, no centro da cidade, para reivindicar namorados... Para mim aquilo foi só jogada de marketing para aparecer na televisão. Dessa feita, logo criarão o "Movimento dos Sem Movimento" com o lema "Queremos algo pelo que lutar". Vamos ser sinceros, avacalharam.

E o povo não sabe porque quer namorar. Na realidade, o povo não quer namorar, não em sua maioria. Só quer aproveitar um par de lábios úmidos e um par de pernas abertas. Uma desculpa para continuar fazendo o que já faziam sem alarde no resto do ano, ou para começar a fazê-lo.

Não que eu seja contra sexo, amassos, línguas se lambendo e afins. Só sou um sujeito precocemente velho e ranzinza, que já não tem paciência com datas vazias, campanhas vazias e, principalmente, gente vazia. Me deram um canal de internet porque quiseram, agora agüentem.

Os primeiros que fizeram campanha para essa data, em Goiânia, foram os motéis. E olha que praticamente todos eles ficam em Aparecida de Goiânia, que é limítrofe, para fugir da nossa fiscalização sanitária. Entraram na onda falsa de que amor é hormônio.

Cartinha bem escrita com ilustrações encantadoras e juras de amor? Não, mande uma cartela de anticoncepcionais e estará no espírito do doze de Junho.

Nas escolas as festas juninas dividem lugar nas discussões com a falta de namoro. Analisemos; meninos de um lado reclamando do quanto as meninas são interesseiras e falam bobagem, do outro as meninas reclamando do quanto os meninos são egoístas e falam bobagem. Falam uns dos outros, mas não uns aos outros, decerto que brigariam, mas a briga acaba e as diferenças são aplainadas. Um namoro ao menos sairia de imediato.

Mas essa data é meramente comercial, mais um modo de te fazer se sentir mal ou culpado por não ter dado presentes, de preferência presentes caros. Não houve troca de mensagens entre amigos para que os namoros se formassem. Sexo é empolgação, empolgação passa, se não gostar de conversar com o outro o namoro vai pras cucuias mesmo, sem remédio.
Ano que vem, aproveitando que faço vinte anos de amizade com um verdadeiro anjo encarnado, tentarei lembrar de reiniciar a esquecida tradição da troca de gentilezas sem interesses, entre amigos mesmo. Será dia quatorze de Fevereiro, um domingo, mandarei os envelopes na sexta-feira (com instruções para não abrir antes da hora) e esperarei pelas reações após a missa. Isso cultiva amizades sinceras, só para ver os amigos contentes.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Tolerância é "uó"!

Duns tempos pra cá, uma onda insuportável tomou conta do mundo. E eu não estou falando do fanqui nem das mulheres-com-nome-de-comida.


Refiro-me a algo que começou com o tal do politicamente correto.
Uma chatice. Na verdade, muito pior do que isso, porque da chatice a gente tem como se esquivar. O politicamente correto é um amontoado de falso bom-mocismo, uma tremenda hipocrisia.


Como se denominar um cego de portador de necessidades especiais (ou diversamente capacitado) fosse eliminar o preconceito. Rá! Pelo contrário, todo esse falatório tem um ranço de condescendência que me revolta o estômago. É algo que diz assim: "olha como eu sou bonzinho, me considero superior, mas uso um termo eufêmico para te denominar".

Isso tudo remete a outra palavra que veio nessa esteira, e que tem um cheirinho insuportável de falsidade. É a tal ideia de tolerância, um estelionato intelectual que carrega um vírus mortal de preconceito e uma possibilidade mais que real de explosão.

Isto porque tolerar é suportar, aturar, permitir algo (um ato, uma presença, enfim). Remete a consentimento. É um disparate uma pessoa achar que ser tolerado é algo aceitável.

Eu não quero ser tolerada. Quero ser respeitada. Não concordar comigo é me respeitar também, afinal, estabelece-se o debate e estamos em igualdade intelectual.

Dizer que se é tolerante é como dizer que se tem paciência com aquele ser ali, que você considera errado, feio, torto, mas tudo bem, você é tão bacana, tão politizado, que o tolera.

Mas se a tolerância envolve essa "paciência" (que, no fundo, é um menosprezo disfarçado), envolve também uma repressão a um sentimento de raiva, um disfarçar de intenções, um abafamento de opiniões, um dique de falsa aceitação que pode romper a qualquer momento. E estourar em xenofobia, perseguições, ódios de todo tipo.

O respeito não, pois respeitar é conhecer. Sem falsa moral, sem bom-mocismo, sem eufemismos, sem condescendências.

Update: a imagem abaixo traduz exatamente o que quero dizer. De um lado, "um conto de Spilberg", em que ele recebe grana do congresso estadunidense e promete ensinar (eca!) tolerância. Do outro, o desenho animado "O espanta-tubarões". Só pra acrescentar, lembre que o tubarão principal, no filme original, tem os traços, a pinta e até a voz de Robert de Niro, conhecido por sua atuação em filmes de gânsters. Dizendo ensinar tolerância, evidencia o chargista, Spilberg vende difamação. O que o artista genialmente aponta é que há, na verdade, uma nova roupagem a um velho preconceito. Perfeito! E é exatamente isso que tolerância significa.























Por isso enfatizo:

Tolerância não! Tolerância é .

domingo, 24 de maio de 2009

Até quando cansou

Vocês também têm a mania de ficar ouvindo sempre as mesmas músicas, até enjoar? Eu tenho. Pensando nisso, e com a preciosa ajuda do contador do meu Windows Media Player, verifiquei quais são as minhas mais ouvidas do momento. Todas elas estão com mais de dez execuções.

10. Alone Again Or (Love)


Não sei se a banda Love é muito conhecida. Quando eu era adolescente, tinha uns amigos que gostavam dessas riponguices. Na época, eu não tinha paciência para ouvir Love. O nome do álbum de onde eu tirei essa música é "Forever Changes". Esse nome nunca me saiu da cabeça, acho perfeito. Um dia, procurando alguma coisa diferente para baixar, pensei no Love e viciei no disco todo. "Alone Again Or" é a primeira faixa do álbum que eu resolvi conhecer só porque tem um nome legal. E a música tem uma frase perfeita: "I think that people are the greatest fun". Concordo. Pessoas são o máximo, desde que não queiram muita conversa.




09. The Funeral of Hearts (H.I.M.)


Adoro H.I.M. porque eles são melodramáticos, de um jeito diferente. As canções falam de amor, mas as letras não são como as do Bon Jovi. Nessa aqui, que é uma das minhas preferidas, eles dizem: "when angels cry blood on flowers of evil in bloom". Não é lindo? Aliás, eu podia contar quantas vezes eles falam a palavra "sangue" no repertório.




08. Kayleigh (Marillion)


Marillion é metal farofa? Eu só conheço essa música e ela é bem parecida com outras farofeiragens da vida. Kayleigh é o nome de alguém? Acho esdrúxulo. O ruim de ouvir essa música é que ela gruda. Muito. Cuidado ao clicar na janelinha. Mas eu adoro os "do you remember".




07. Tangerine (Led Zeppelin)


Uma música "awnnnn" do Led. É a minha fixação do momento. A vida não é a mesma sem Led Zeppelin. Eu preciso ter pelo menos uma música deles "à mão". Viciando em "Tangerine", consegui me livrar do vício em "The Rain Song", que tem quase oito minutos. Não tenho tempo para isso, beijos. Confesso que sinto um pouco de vergonha alheia ao ouvir "Tangerine... Tangeriiiiine!". Quem diria que uma simples bergamota inspiraria alguém a escrever música? Deve ser culpa dos "tóchicos".




06. Perhaps, Perhaps, Perhaps (Cake)


Nunca vi a cara do vocalista do Cake, nem sei se ele é vivo e/ou heterossexual. Mas penso seriamente em pedi-lo em casamento. Só por causa dessa voz e desse senso de humor. Nunca te vi, sempre te amei. Como você se chama, a propósito?




05. Careless Whisper (George Michael)


Quando eu não estou "ripongando", estou ouvindo músicas bregas. Simples assim.




04.Say You Love Me (Fleetwood Mac)


Só conheço uma pessoa que gosta do Fleetwood Mac: a Meg. Se um dia eles fizerem um show no Brasil, só nós duas estaremos lá. Dizem que o Fleet (intimidade) começou como uma banda de blues, depois virou pop. Nunca ouvi a fase blues, mas a pop é tão legal, que me basta. Gosto de ouvir "Say you love me" quando preciso me animar.




03. All I want for Christmas (Draco and The Malfoys)


Draco and The Malfoys é uma banda americana de Wizard Rock. Wizard rock é rock temático, inspirado no mundo de Harry Potter. Quem leu os livros sabe que Draco Malfoy costumava dizer as maiores barbaridades, sem dó. Ouvir essas coisas em forma de música era tudo o que eu precisava. Draquinho é meu personagem preferido. Nessa música natalina, ele singelamente pede um presente de Natal a Voldemort: fazer com que Harry Potter desapareça. Lindo!





02. Sugar Daddy (Fleetwood Mac)

Mais uma música do Fleetwood Mac. Eu adoro a Stevie Nicks, mas confesso que Christine McVie faz as melhores canções, as mais animadas.





01. Remember You're a Girl (Kaiser Chiefs)

Todo o cd do Kaiser Chiefs é viciante. Mas "Remember" é a bola da vez. Gosto de ouvi-la antes de dormir, porque ela é muito "awnnnn".




É isso aí. Espero que alguém clique nas janelinhas e ouça as músicas, porque este post deu um trabalhão para ser feito.

O Turbilhão

Antes de qualquer coisa, mil perdões, Nanael, por atropelar o dia. Mas precisa escrever. Hoje.

O momento não é dos mais fáceis. Encarar a si mesmo no espelho, todos os dias, não é coisa simples de ser feita.

Não falo daquela olhada que se dá antes de sair, pra conferir se não há remelas nos olhos, ou se os dentes foram bem escovados.

Falo daquele olhar que se dá no próprio olho, procurando a si mesmo.

Desde o início da minha terapia, notei que é isso que eu tenho feito, todos os dias. Obviamente, não em todos os momentos, pois a vida continua. Mas sempre se dá um tempo, e nesses momentos, é que, como se diz hoje em dia pela juventude (não sou mais jovem, já passei dos 30) "o bicho pega".

Você começa a notar o quanto você errou, e erros que você jamais imaginava ter cometido, você entende que está fazendo, e sempre fez.

Jamais havia me considerado orgulhoso. E descobri que sou. Porque não gosto de pedir ajuda, não gosto de me sentir menos que os outros. Não gosto de depender de ninguem. Gosto de "estar por cima da carne seca".

E eu, que me achava tão humilde. Sem lembrar que quem é humilde de verdade, não se vê como tal.

Que eu sou muito preso ao passado, isso já não é novidade. Mas tenho que lutar contra isso. Quem vive de passado é museu. Ter uma memória fotográfica não ajuda a esquecer. Mas tenho que aprender a viver o aqui, e o agora.

Ficar ansioso com o futuro? Para que? O futuro a Deus pertence. Claro que me cabe lutar hoje para garantir um futuro (tanto neste plano físico como no outro) decente. Mas me cabe lutar hoje, e nada mais. O julgamento sobre o que foi válido ou não, o que foi bom ou não, o que deu certo ou não, cabe somente ao Altíssimo.

Até aí, tudo bem. São coisas que a gente aprende. Mas e quando tudo isso toca o coração?

Aí, meus amigos, é que, como se dizia antigamente (não é, Nanael?) "que a porca torce o rabo".

Como pensar que o "amor da sua vida" foi a sua maior fonte de auto-destruição?

Como pensar que aquele amor que talvez não tivesse tanto significado, hoje faça tanta falta?

Como compreender que um amor não volta mais, e não conseguir aceitar o luto por ele?

Como compreender os erros que você mesmo cometeu, e que afastaram esta ou aquela pessoa de você?

Como aceitar certas coisas?

E reconhecer que se você tivesse agido diferente, a vida seria diferente?

Mas isso é viver de passado. Não sou museu.

A luta diária contra si mesmo, na frente do espelho, é uma luta meio inglória.

Ninguém a reconhece. Só você. E o Eterno.

O grande perigo é se perder no meio do turbilhão de coisas que passam pela sua mente. É não encontrar porto seguro. Não encontrar ponto de apoio. Não saber mais o que é certo ou errado.

Mas o Inefável está sempre lá, pronto a te ajudar.

E o terapeuta, é o seu fio de Ariadne no labirinto do Minotauro. Durante todo esse processo de individuação. Tal qual dizia Jung.

Às vezes, pensamos que seria tão melhor se houvesse uma pequena cirurgia que corrigisse tudo isso.

Mas lutar, todos os dias, na frente do espelho...

É tão mais recompensador....

E te faz cada vez mais forte.


E no olho do furacão, eu encontro a saída.

sábado, 23 de maio de 2009

O elogio, a adulação.

Há uma fronteira tênue.

Antes de mais nada, um elogio é quase sempre um a cobrança. Se te chamam de inteligente, se dizem que gostariam de ter tua aptidão, que ficam impressionados com tuas idéias, cuidado!

Primeiro porque a maioria vai te cobrar ser genial o tempo todo, qualquer erro que para outros seria um deslize banal, para ti será uma sentença condenatória. Não estou brincando, nem é exagero. Se tens um talento, qualquer que seja, e te elogiam por causa dele, amizade, é um passo para se tornar vítima do que deveria te dar o sustento. Mais ou menos como o rinoceronte, que por causa de uma das armas mais temidas da natureza, seus chifres de marfim, está ameaçado de extinção em vários países da África. Que zebra não gostaria de afugentar uma hiena apenas balançando o nariz? Infelizmente o mercado negro também gostaria de ter esses chifres e não mede conseqüências para obtê-los.

Não digo que o elogio não seja bom. Há muitas pessoas que fazem questão de te valorizar e dar o devido crédito aos teus méritos. Reconhecem que seus carrinhos de papelão são muito melhores do que elas conseguiriam fazer com madeira. Há também, entretanto, os aduladores (insira aqui um solo de órgão a vapor para filmes de terror) que têm a mesma aparência dos fãs. Aqui a cobra fuma, e sabemos que o tabagismo mata, pois a adulação também.

O adulador não se contenta em alguém ter talento, ele quer ter esse talento a seu serviço. Ou seja, o adulador é também um invejoso da pior estirpe. Por que? Porque ele se passa por aliado muito melhor do que teus verdadeiros aliados, ele está ao teu lado o tempo todo até conseguir tudo o que quer, quando não conseguir mais, te abandona e busca outra vítima. O adulador enche teu ego até estourar, te tornando dependente dele, te afastando dos outros, por fazer com que pareçam não te dar tanto valor. Quando vê... Pum! Ele passa a te comandar.

Como ele faz isso? Enquanto te elogia, ele vasculha a tua personalidade e busca teus pontos fracos, algo que um ego inflado exibe em letras de néon. Nos pontos fracos expostos ele se instala e passa a agir, sempre elogiando, sempre enaltecendo, sempre te colocando como um dos (se não o maior) gênios do gênero.

É aí que mora o perigo do elogio, ele se transforma em adulação a mais tênue baixa da tua guarda. Lembremos daquele ditado do Espiritismo: Vigiai e Orai. De nada adianda rezar o Pater Noster pensando na calcinha rendada que viste no varal da vizinha. Antes vigie o teu ego, discipline-o, então estarás pronto para receber elogios. Se bem que, quem faz isso, não se encanta com eles.

Na ausência de um adulador, o ego invigilante toma seu lugar. Chega o momento em que a pessoa não consegue viver sem uma platéia, precisa desesperadamente de uma massagem egóica. Os artistas cênicos e músicos sabem muitíssimo bem do que falo. Suicídios no meio não são raros, muitas vezes por não suportarem um mero (e até salutar) hiato na carreira. Elogio vicia.

Mas os amigos mais íntimos e sinceros não estão a salvo de serem algozes do elogiado. Imaginem nossa amiga Luna, que sempre consegue transformar em textos de primeira os seus maus humores. Se fôssemos companheiros um pouco menos maduros e um pouco mais entusiasmados, estaríamos cobrando dela o tempo todo um texto mau-humorado e muito engraçado. Chegaria o ponto em que ela se deprimiria, porque ninguém é mau-humorado o tempo todo, nem mesmo o Zangado da Branca-de-Neve. Muito menos mau-humorado e engraçado o tempo todo, nem mesmo Jerry Lewys. Nós perderíamos nossa valorosa companheira de blog, este que inevitavelmente se dissolveria em pouco tempo.

Uma pessoa de talento é mais talentosa quando deixada em paz. Assim como Garrincha deu seus maiores espetáculos em campinhos de terra batida, descalço e longe das câmeras. Não preciso dizer o que o inflar de ego fez com ele. Aprendamos com seu exemplo. Elvis Presley deu a volta por cima quando decidiu só cantar aquilo em que acreditava, até ser morto pelas drogas que seu empresário forçada o médico a enfiar nele. Não, queridos, não foi suicídio, nem ele, nem Marilyn Monroe. No caso dela, foi uma fatalidade mesmo, na época não se cogitavam os malefícios dos phármacos sintéticos. Quase tudo o que se fala desta indústria é verdade.

Voltando ao assunto, a pressão sobre quem recebe o elogio tem um peso a mais que quase ninguém nota, o que o torna mais cruél: o próprio elogio. Quase ninguém imagina que um elogio possa fazer mal, que possa soar como cobrança, que possa deprimir, então cobra que o elogiado esteja feliz em ser elogiado. Não é por maldade, é por ignorância. Mas o elogio é uma cobrança. Nem sempre maléfica, mas é uma cobrança, e quanto maior for o mérito da lisonja, tanto maior é a cobrança para manter o nível. Imaginem que o mundo é um gibi. Imaginaram? Óptimo. agora imaginem se Clark Kent não tivesse o alter ego Super Homem. Super Homem não tem família, residência, identidade, nada. Super Homem não existe nem nos quadrinhos, quem existe é o Clark, co-identidade de Kal El. Por não existir, Super Homem pode receber todas as cobranças possíveis, pois elas desaparecem quando ele põe os óculos e volta à labuta diária para pagar as contas e sustentar a família. Ainda bem, pois ser honesto, honrado, gentil, educado, indestrutível, quase instantâneo, forte, elegante, culto, bem relacionado no Universo inteiro, bem apessoado, afinado, inteligente, jovial, ponderado, et cétera, et cétera, et cétera, leva qualquer um às portas do suicídio. Com ele seria ainda pior, porque décadas de exposição com certeza o tornaram resistente à kriptonita, ou seja, nem se matar ele poderia.

Elogio é bom, mas é como um medicamento, deve ser sabiamente dosado e ministrado. Alguns precisam de muitos elogios, alguns de um só elogio de grande magnitude, mas ninguém precisa ser elogiado o tempo todo, ainda que acredite precisar. A crítica honesta e oportuna é o melhor que os amigos podem fazer por uma pessoa talentosa, claro que acompanhada de um elogio singelo e sincero.

Texto feito para nossa amiga Fofolete, que demonstrou um imenso interesse pela minha complexa e lebiríntica personalidade.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Que tal ser a patinha feia?

Cresci sendo considerada a menina feia da família. Em meio a primas de rostinho delicado com cabelos cacheados, outras loiras-de-olhos-azuis e outras tantas com lindos cabelos negros, eu era aquela com cabelo ralinho e rosto grande.

Na escola, além de tudo, usando roupas da famosa Butique Simidão (se me dão eu uso), não atraía os olhares masculinos.

Eu era a feinha da periferia. E tinha outras esquisitices também: o sobrenome cheio de consoantes, o fato de ser protestante, pobre, não saber dançar nem imitar as cantoras rebolativas da época e, mais tarde, o fato de ser filha de pais separados. Ainda era um tabu, acreditem.

Troncuda, com os músculos fortes da ascendência indígena, era pesada, não sabia a medida da força e, lógico, era tida como grossa. Sem muita paciência para as coisas-de-menina, ficava sempre com os moleques mesmo, sendo seguidamente confundida com um deles. Isso porque, além de tudo, não usava cabelo comprido. Vocês sabem que cabelos finos + periferia = piolho. E toca joãozinho no cocoruto!

Ao contrário de todas minhas amiguinhas, não tinha namoradinhos nem, mais tarde, ia pras festinhas. No dia-a-dia, era a amiga-bagunceira-piadista-que-ninguém-queria-namorar. Sabem aqueles filmes com mocinhas rejeitadas pelas patricinhas e bonitões da turma? Pois é, pois é. Muitos suspiros rolaram. E ainda rolam em filmes assim. Fazer o quê?

Eu ainda podia me consolar com a história do Patinho Feio, e achar que um dia viraria cisne. Mas ser a esquisitinha me trouxe algumas vantagens: primeiro, livrou-me de muitas frescuras; segundo: possibilitou-me conviver e conhecer a alma masculina e, finalmente, me impulsionou para os estudos.

Então percebi que não precisava ser nem a patinha feia nem o cisne, bastava ser eu mesma.