terça-feira, 4 de agosto de 2009

Professora demitida

Após anos de dedicação quase sacerdotal, ela não suportou e começou a dar as notas que os alunos mereciam. As reclamações, claro, emergiam aqui e ali, logo se generalizando. O ápice veio com a demissão por ferir o mais valioso princípio de uma faculdade moderna: Pagou, passou.

Porém, e sempre há o porém, ela sempre foi uma profissional talentosa e escancaradamente vocacional, pelo que a administração sabia o que estava perdendo. Pedindo então, mediante uma paga generosa, que formulasse um guia para orientar seu substituto. Vendo que também três (os únicos) bons alunos declararam que se transferirão para onde ela for, notou que ainda gozava de relativo prestígio, mesmo entre aqueles filhinhos de papai inúteis, que eles rezam para que jamais lhes recebam em seus futuros consultórios. É negociada uma minuta de despedida e orientação para os discentes. A paga que exige é uma só: a redação, em português correcto e enxuto, dos reais motivos da demissão. Alguns minutos de discussão e concordam. Ela ainda corrige muitos erros crassos, que reprovariam até mesmo no primário, mas a carta de recomendações fica a contento. Ela se põe a redigir, com sua tinteiro Pelican, as orientações em primorosa caligraphia para o coitado que mandarão para o pelourinho:

A minuta ao substituto;

Caro colega, lamento deveras que precise deste emprego. Em poucos anos a sua juventude se esvairá como areia fina entre dedos abertos. Advirto, porém, afim de que atenue a degradação e mantenha sua sanidade mental, que considere isto um mero comércio; você dá o que eles querem e recebe dinheiro em troca. Encontrará dois ou três trabalhadores que não puderam pagar cursinho, e hoje penam para pagar as prestações do diploma, a estes você poderá se dedicar com alegria professoral. Quanto ao resto, dê provinhas medíocres de múltipla escolha que não excedam a escassa intelectualidade reinante.

Considerações de Fräu Schroeder.

Pensa um pouco no que escreverá aos ex-pagantes, pois alunos nunca foram. Decide seguir os próprios conselhos e não super estimar suas inteligências...

A carta aos ex-alunos:

Execráveis bosquímanos, a vocês que um dia passarão fome, pois não conseguirão tocar os negócios de seus pais irresponsáveis, dou as últimas lições, que deveriam ter aprendido no primário;


  1. Nome próprio não é o mesmo que propriedade. É uma convenção milenar para diferenciar pessoas de coisas, uma das regras básicas é usar maiúscula para iniciar cada nome próprio.

  2. Milenar é relativo a milênio, que é um espaço de tempo igual a mil anos.

  3. Se vocês soubessem falar português, saberiam também ler e escrever português, então perceberiam que é mais natural dizer "embrulho" do que "enbrulho", logo "embrulho" é a forma correcta. Lição: não se usa "N" antes de "P" e "B". Exceção feita a nomes próprios.

  4. Exceção é o que não faz parte de uma regra onde deveria estar, em princípio, inclusa.

  5. Inclusa é o mesmo que incluída, fazer parte do conjunto.

  6. Nenhum idioma terrestre faz uso de emoticons, deve-se então limitar-se ao uso dos sinais gráphicos convencionais, salvo em mensagens infomais e de internet, mas somente dentro das turmas de vocês.

  7. Terrestre é o que pertence à terra, o mesmo que terráqueo.

  8. Oxítona é uma palavra com a última sílaba tônica, paroxítona é a que tem a penúltima sílaba tônica, proparoxítona é a que tem a antepenúltima sílaba tônica.

  9. "Última" é a primeira no fim, "Penúltima" é a segunda contando do fim, "Antepenúltima" é a terceira contando do fim.

  10. Relembrando: oxítona, paroxítona e proparoxítona não são personagens de anime, nem baseados sintéticos novos, são itens básicos e regentes da gramática.

  11. O facto de as letras serem padronizadas, embora permitam grandes variantes, se deve à necessidade de uma nação se comunicar eficientemente, sem o quê ainda estaríamos na idade da pedra. Letras não são, portanto, propriedades de quem escreve. Se querem ser entendidos, podem até florear as letras, mas que continuem parecendo letras e não os rabiscos pueris que vocês costumam apresentar.

  12. "Variante" é o que varia, o que permite mudança, e o único carro que consegui comprar com a merreca que ganhava aqui, mas é minha e eu mereci cada ponto de solda, em vez de ficar esperando o papai dar um novo no natal mesmo não tendo aprendido lhufas durante o ano todo.

  13. "Nação" é como uma evolução de "comunidade", um grupo "que tem a ver", com língua, costumes, leis e história próprios.

  14. A Baía da Guanabara fica no Rio de Janeiro, não em Salvador.

  15. São Paulo não é a capital do Brasil.

  16. Não existem ursos, elefantes, tigres ou qualquer animal de grande porte na Amazônia.

  17. Não sei se lhes contaram, mas Papai Noel moraria na Lapônia, então foi perda de tempo mandar cartas para Belém do Pará.

  18. Coelhinho da páscoa não é uma ave.

  19. Ser ecológico não é usar casaco de pele de foca, mesmo sendo cem por cento natural.

  20. Última lição: "Hiato" é o que há entre suas orelhas.

Cola as abas de ambos os envelopes, devidamente endereçados e segue à sua Variant 1979. Nunca pensou que uma demissão lhe lavaria a alma. Sente-se livre, leve, solta. Entra na velha companheira e vai passear, amanhã pensa no resto.

4 comentários:

Adriane disse...

Amei a referência à minha pessoa, Nanael!
E o texto, como sempre, está irretocável.

Nanael Soubaim disse...

[O]IIIIIoIIIII[O]

Anônimo disse...

Tirando que exceção é com cê cedilha, tá horrível.

Nanael Soubaim disse...

Obrigado pela correcção, anônimo, teu comentário também foi péssimo.