sábado, 15 de agosto de 2009

Vários pesos, várias medidas.

Tenho uma colega que puxa o filho para trás, enquanto o pai puxa para frente com o pronto apoio da família.
O moleque mal sabe diferenciar protocolo de preto-no-colo. Pois certa feita, em uma feira agropecuária, ela o flagrou aos beijos com uma menina. Não beijinhos, mas daqueles que a molecada vê na televisão e vive querendo alguém para praticar. Nada de errado, se o malandrinho nada fizesse além de estudar e existir. Se algo acontecer, ele não tem como arcar com as conseqüências, nem no financeiro, nem no psicológico. Nem falarei em moral e espiritual porque é exigir demais.
Hoje há um pé de guerra na casa dessa colega, porque o pai querer espalhar pelos quatro ventos que o filho "é macho e sabe agarrar", enquanto ela quer dar-lhe a dose diária de safanões. Até a irmã dela apóia, deixa o filho livre e a filha presa. Homem pode, mulher não pode.
Vamos à contradição. Querem que o filho seja macho, mas querem que a filha seja pura, casta e virginal até o suspiro final, dando à luz por concepção do Espírito Santo.
Se eles podem, mas elas não, eles vão poder com quem? Não vai dar para ser macho, porque só vai restar homens nas ruas (que visão mais horrorosa, heim!) e terão que se virar entre si. Ou seja, por esta análise, essa mentalidade é um estímulo ao homossexualismo, embora este seja rechaçado com violência por muitas famílias. Rechaça, mas planta e cultiva com esmero.
Noutra análise, há a mulher para casar e a para transar. Então vem outra mazela, pois para manter essa mentalidade é necessário e vital que alguém expulse a filha de casa. Ou seja, a felicidade do homem é necessáriamente a infelicidade de uma família inteira. Não há meio termo, se é preciso haver mulheres que jamais poderão se casar, porque em uma sociedade assim elas jamais se casariam, elas têm que sair de algum lugar, de mulheres que deram à luz. Ou estas mulheres seriam filhas de prostitutas, perpetuando um mundo de miséria e frustração, ou seriam filhas expulsas de casa, tendo causado uma dor que raramente um homem é capaz de conceber.
Não há meio termo aqui. Notem que em ambas as possibilidades, é preciso desgraçar a vida de alguém para manter os prazeres masculinos.
Agora vamos para as rodinhas de discussões mais reincidentes. Elas discutem política. Mais do que isso, falam mal de políticos. Com que moral? Alguém que incentiva o filho a abusar de outra pessoa mas não admite sob hipótese alguma que aconteça consigo, é em quê diferente dos políticos mal falados? Em nada.
Ambos só se importam com seus prazeres, não lhes interessa se a outra parte se sente bem; ambos não dão a mínima para quem venham prejudicar por seus interesses, pois se acham no direito de usar a outra pessoa para alcançar seu objectivo; ambos são capazes de matar uma pessoa para tirar satisfações de seu prestígio ferido, pois exibir e aprimorar a fama conquistada lhes é mais caro do que todo o resto.
Sim, há a questão cultural, que é difícil remover. Muito difícil. Dificílimo, aliás. Mas não é impossível. Ninguém adere a uma idéia, por mais pressão que sofra, se não lhe for simpática.
É muito cômodo poder esvair suas más tendências em alguém e ainda obter aprovação do grupo, pois a fama de bom pai de família e cidadão honrado fica preservada, apesar de falsa.
É muito cômodo poder fazer algo que incomoda, mas ter a certeza de que o mesmo não poderá ser feito impunemente consigo, fica preservada da máscara de cidadão calmo, equilibrado e civilizado.
No primeiro caso acima será preciso inventar uma mentira mais a cada dia, pois sempre haverá uma geração que quer saber os motivos disto e daquilo, e as explicações dadas a uma não servirão para a outra. Mas nós sabemos o quanto isso sai caro, estamos pagando o preço há alguns anos, mis precisamente desde Setembro de 2001.
No segundo caso acima, ficam confinados a agressividade e o rancor. Ambos crescendo com o tempo e um dia investindo contra as portas, até que estas sejam postas abaixo e eles se enfrentam. É o que está acontecendo hoje. Ser cortês e educado se tornou símbolo de hipocrisia, ser honesto é se arriscar a perder o respeito do grupo, não querer ter tudo aqui e agora é se arriscar a te virarem as costas.
Hoje em dia os filhos não respeitam os pais. Certo, meia verdade. Afinal, foram os pais que ensinaram seus rebentos a se colocarem acima do outro. Se o garoto transa é garanhão, se a garota transa é piranha? Então ele vai concluir que é melhor do que ela, que tem mais direitos, que é privilegiado. Um dia isto se vira contra quem não pode mais se defender, como um pai idoso. Não adianta reclamar, ele se acha superior a quem não pode se defender, lhe foi ensinado isto desde a mais tenra idade.
Depois de falar mal dos políticos e defender a pena de morte até para quem rouba para comer, ele vai entrar em seu carro, dar ré sem ver o trânsito, disparar, furar sinal, entrar na contramão, estacionar em cima da calçada e agredir quem achar ruim. Reconhecem a cena? Pois é, não saiu do nada, pois o nada não existe. O vácuo não existe. Se falta algo, outro algo toma seu lugar, e nem sempre esse outro algo presta. Começou quando colocaram o menino em posição de superioridade a alguém, seja uma menina, seja um empregado, seja um animal de estimação, seja quem for. Ele foi recompensado por agir como se fosse superior, quando adulto já não tolera mais não ser recompensado por isto. Ser punido, então, é jurar alguém de morte.
Nem todos chegam a tal extremo, mas todos o que compactuam com essa mentalidade corroboram para que tal extremo seja alcançado. Vão deter o extremista com que argumento? Toda agressividade que usarem para tanto, será vista como permissão para agredir em nome do que se acreditar, pelos mais jovens.
Gritar "Fora Sarney" e cochichar "Coma todas elas" é usar vários pesos e medidas, ensinando à criança que sua conveniência é mais importante do que a necessidade comum. Pois o pai já idoso e ranzinza pode ser muito inconveniente.
Para a colega de quem falei, aconselhei plantar uma marmeleira, que dá varas finas, fortes e flexíveis. Uma medida extrema para uma situação extrema. Infelizmente ela mora em apartamento, mas já cogita a idéia de pisar no chão e não pagar condomínio. Ela já percebeu que não está sozinha e que, na falta do amparo familiar, terá o dos amigos. Porque de pouco adianta incentivar e virar as costas, isto é hipocrisia. Ela sabe que se tentarem estragar o menino, terá a quem pedir ajuda para que volte a prestar. Isto é usar um peso e uma medida, não gerar contradições e cortar um mal pela raiz.

4 comentários:

Adriane disse...

Muito bom, Nanael.
Não se pode cobrar coerência sendo incoerente...

Nanael Soubaim disse...

Esse negócio de sectarizar me dá ganas de ter um ataque psicótico. A colega, cujo nome não exporei, existe de verdade, o drama é real.

Nanael Soubaim disse...

Talvez eu fale da Pelélope Charmosa no próximo texto, vou pensar...

Luna disse...

Isso ainda existe, é? Se bem que eu fui criada "quase" assim, com bem menos liberdade que os meus irmãos. Só não fui criada "totalmente" desse jeito, porque a minha mãe não deixou.