segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Tortura através dos anos

Sabe aquela sensação de que algo muito ruim vai acontecer? Você sua frio, tem taquicardia, quer fugir, mas não tem para onde. Sua ansiedade atinge o limite máximo, você deseja morrer – ou ficar muito doente – para não ter que enfrentar aquilo. Ao longo da minha vida me senti assim várias vezes. Sempre que era dia de Educação Física.

Brincadeiras
Até a quarta série, minhas aulas de Educação Física se resumiam a brincadeiras, como a do Ovo Podre. Acho que isso acontecia porque a minha escola não tinha muitos recursos, como uma quadra de vôlei ou um campo de futebol. De vez em quando, a professora tinha a brilhante idéia de fazer competições de corrida. Eu sempre perdia. Todo mundo dizia que eu não corria o suficiente. E eu não conseguia ver sentido nenhum naquilo. O que se ganha correndo?

Danças Gaúchas
Um belo dia, fui convocada a participar do grupo de Danças Gaúchas da escola. Não foi por causa das minhas fantásticas habilidades de dançarina. A professora simplesmente convocou um número X de crianças e eu estava entre elas. Não foi tão ruim, até que eu gostava. A gente se sentia importante quando saía da aula para ensaiar, enquanto os outros ficavam lá, presos na sala de aula. Eu não era a pior dançarina, até onde me lembro. Às vezes eu era xingada porque me distraía muito. Pena que o grupo de dança era igual ao Menudo: depois de uma certa idade, a gente tinha que sair.

Esportes com bola
A partir da quinta série, tudo o que era doce se acabou. Começamos a aprender a praticar esportes de verdade. Não era igual a jogar vôlei na rua. Na escola tinha rede, tinha time e tinha regras. E eu tinha todos os motivos do mundo para ficar ansiosa quando era dia de Educação Física.

O vôlei era o meu pior pesadelo. Eu odiava ter que jogar aquilo. E esse ódio se refletia no meu desempenho. Era sempre a última a ser escolhida para o time. Meus saques muito raramente passavam para o outro lado da rede. Quando a gente tinha que trocar de posições na quadra, eu nunca sabia para onde ir. De vez em quando, aproveitando a distração da professora, minhas colegas me deixavam permanentemente na posição de levantadora, onde eu não precisava fazer nada. Assim, o time não perdia pontos e eu podia praticar minha maior defesa: deixar o corpo na quadra e levar a mente para outro lugar, bem longe dali. Eu era ótima nisso, pena que essa habilidade nunca valeu nota, nem elogios.

Além do vôlei, havia o handebol, que era o meu esporte preferido. Eu jogava muito bem, porque handebol é um esporte muito fácil. Vou ensinar o segredo do meu sucesso: é só seguir a manada. Se todo mundo corre numa direção, você corre junto. Se a bola vier na sua direção, você desvia dela e deixa que alguma fanática por esportes faça o que deve ser feito. Você é figurante, não é atração principal.

Quando o Brasil foi tetra campeão, as meninas da minha aula tiveram uma iluminação: aprender a jogar futebol. Graças a Deus, naquela época, o professor de Educação Física não obrigava ninguém a jogar. Eu ficava assistindo ao jogo com extremo desprezo. Querer jogar futebol só porque o Brasil ganhou a copa é o mesmo que fazer aula de dança do ventre por causa da novela “O Clone”. A adolescente que eu fui odiava modinhas.

Dança, de novo
Depois de todos os traumas físicos e psicológicos, do estresse pós-traumático e dos danos morais e materiais que sofri por causa dos esportes com bola, no Segundo Grau (oi?), cheguei ao paraíso. Na minha nova escola, nós podíamos escolher a modalidade esportiva que quiséssemos. Eu escolhi a dança, porque não precisaria chegar nem perto de uma rede ou de uma quadra.

Não era ruim, mas também não era bom. Meu maior vexame foi ter que fazer um trabalho em grupo sobre rumba. Eu sei lá o que é rumba? A gente se preparou mal e porcamente e depois teve que dançar na frente da turma toda. Teve de tudo: de coreografia mal ensaiada a meninas tropeçando na saia e quase caindo. Ainda assim, era bem melhor do que jogar o maldito-seja-eternamente vôlei.

Você pode até pensar que eu sou muito loser. Pode até ouvir aquela música do Beck em minha homenagem. Mas sou uma sobrevivente. E digo mais: aos 31 anos, meu corpinho está bem melhor do que o de muitas das minhas ex-colegas fanáticas por esportes. E juro que jamais pus os pés numa academia.

8 comentários:

Luna disse...

Agora não consigo parar de ouvir a música. Comofas/

Nanael Soubaim disse...

You are winner in my heart.

Josei disse...

Tirando as partes de dança, este post retrata minha vida. Sempre fui péssima nos esportes, a última a ser escolhida para os times, até que eu cansei de sofrer e pedi dispensa da Educação Física, já no segundo grau (também é do meu tempo...). O engraçado é que, durante a faculdade, eu pratiquei kendô, musculação e hidroginástica por vontade própria!!! É, não tinha bola nem times, deve ser por isto...

Gabi disse...

Ai, Luna! Adorei! Odeio educação física, a desculpa hoje em dia é: "tem que ter sim, cai no vestibular!" meu, o que cai no vestiba é biologia! Que eu saiba eu não vou precisar sacar na frente de ninguém!
E eu também, sou uma adolescente que odeia modismo!

Meg disse...

Cai no vestibular? OMG.
Eu semprei fui meio ruim, vez em quando até que eu jogava passavelmente.
E agora eu vou voltar pra aula de dança, minha gente.
Começo semana que vem.

Luna disse...

Me emocionei profundamente com o comentário de Mr. Soubaim. S2

Acho que a melhor parte de ficar velha (oi?) é abandonar essas torturas. Já pensei em fazer ioga, só pra ver como é. Quem sabe um dia...

Se joga na dança, Meg! Vc pode ser a nova hobbit do Tchan!

Adriane disse...

Amei!
Eu era troncuda, forte e amava EF. Mas era desajeitada...
As meninas detestavam ficar perto de mim.
Quanto à dança, tentei na universidade Jazz, mas a coodenação motora e a cintura duríssima nunca me ajudaram.
:(

Frankulino disse...

Adorei!!! Eu também odiava esportes... Sei lá, a pessoa fica totalmente esposta e não sabe onde colocar a mão... eu só achava que estavam todos me olhando e não me sentia confortável, o que me levava a pensar se as pessoas estavam vendo que eu não me sentia confortável, o que me deixava mais sem graça ainda... Fora que eu tinha vergonha própria por está correndo atrás de uma bola, achava isso o cúmulo da VA quando via na TV...


Quanto ao trabalho de dança, Debs, não se traumatize... É só perguntar sobre um certo trabalho da Rafa que você vai pensar que o seu foi praticamente a melhor apresentação que a Rumba já viu em toda a sua história!