sábado, 20 de fevereiro de 2010

Ah, Amélia.


Casamento não deve ser venda casada, Amélia. Por que olhar só para as virtudes? Porque ele é homem? As virtudes de um homem, postas na balança, freqüentemente sequer movem o fiél, quando os defeitos estão no outro prato. Quando é necessário prestar tanta atenção, é porque o alvo é na verdade pequeno demais.

Não precisas de um homem para ser feliz, Amélia. Ser bom pai e bom provedor não é virtude, é obrigação, é como elogiar alguém por não ter atropelado as crianças que atravessavam a rua. Se é por isto que te empurram para ele, então o argumento está morto.

Se queres se realizar como dona de casa, faça-o na tua casa. Decore tua casa, receba bem as visitas, mantenha tudo limpo e organizado, equipe bem a cozinha, faça de teus aposentos um cenário de revista, cultive o jardim com que sonhas. Mas não ache que precisas de outra pessoa para ter tudo isto. Amélia, ah, Amélia!

Tua capacidade de resignação é tocante, mas não se resigne em ser anulada. Toda essa capacidade de doação deve ir para quem merece e precisa, Amélia, não para quem a deseja. Se precisas de braços fortes, tens os amigos que bem cultivaste. Um bom psicólogo te ouve e te dá o aconselhamento que marido machão nenhum é capaz de oferecer, ainda que quisesse, pois não quer. Ele só olha para si mesmo, para como aparecerá para os outros homens em seu homossexualismo insoluto, te levando para passear encoleirada e cabisbaixa.

Em última instância, case-se com quem gostas de conversar, ainda que ele ganhe menos. Não é à família quer queres se dedicar? Não relevarias o comportamento troglodita? Então releve os comentários alheios de gente a quem não deves satisfações. Teus amigos de verdade não se afastarão de ti por isto, é um bom momento para filtrá-los, Amélia.

Não precisas de um homem para te proteger, Amélia. O mundo medieval de cavaleiros e bárbaros invasores já não existe, mesmo então haviam mulheres que se defendiam sozinhas. Proteção, hoje, é discar 190, porque diante da arma de um meliante só a polícia saberá agir.

Sim, Amélia, ninguém está te obrigando a se casar, mas gente como ele vai querer te obrigar a permanecer casada, talvez dividindo a casa com outra coitada que caiu na sua conversa.

Machões, Amélia, são como adolescentes mimados, que jamais admitem que suas vontades sejam sequer questionadas. Levante teu rosto ainda sem hematomas, pense nos teus dentes ainda intactos, no corpo que jamais foi entregue à força, no amor por si mesma e pelos seus, aos quais não poderás ajudar sob o julgo de alguém.

Divisão de tarefas deve ser feita como em uma empresa, pela competência e por nenhum outro critério. Um casamento feliz depende da felicidade de seus membros, ou será apenas um cartaz de papel, que não resistirá à primeira chuva para enrugar e descolar do painél. Para ser feliz, Amélia, dependes de ser feliz consigo mesma.

Sim, Amélia, vá. Imponha a tua vontade à tua vida e não permita que vontades alheias o façam. Se alguém te abandonar, outro toma coragem e se mostra. Se queres tanto ter e fazer feliz teus filhos, eles te agradecerão quando adultos por esta decisão, pois se és capaz de cuidar de si mesma, não terás dificuldades em cuidar de teus rebentos, de teus amigos, teus pais e de toda gente que te ama de verdade.

Levanta, Amélia, que é de pé que os guerreiros agem. Teu emprego é parte de tua conquista, teus estudos não devem ser interrompidos sem real necessidade, a sociedade que ajudas a manter deve agir em teu favor e não à tua revelia. Pois és boa, és justa, teu coração imenso já perdeu as contas de quantas pessoas acolheu e encaminhou na vida, não pode ser ferido por um bicho bípede.

Ergue tua espada e vá à luta. O mundo ainda não é um paraíso, não repouse como se já fosse. Sejas Amélia, não amarga. Dê à tua juventude o presente da liberdade, que separá-la da promiscuidade tu já sabes bem. Tua elegância não tem par, tua educação esmerada te dá vantagem em qualquer lugar do mundo. És grande demais para pertenceres a alguém, Amélia. Se for de tua vontade, arranje quem mereça caminhar e lutar do teu lado.

Críticas terás fazendo ou deixando de fazer, seja isto ou qualquer outra cousa na vida, aprenda a conviver com elas e selecionar as que te acrescentam. Discriminação os homens também enfrentam, continuar teu caminho não vai agravá-la. Não ganhas sendo quem és, mas se anulando perdes tudo, até a vontade de viver. Tu mereces muito mais do que tens, Amélia, muito mais do que tens e muito mais do que te oferecem.

Abra um blog, mande e-mails para divulgá-lo, consiga teus seguidores e espalhe as tuas idéias. És livre, Amélia. Se foste feita para ter vida em abundância, saiba que a liberdade é parte orgânica da vida. Mesmo as árvores, que parecem inertes em suas raízes, crescem para onde bem entendem, basta que lhes pareça melhor a direita ou a esquerda e para lá lançam seus galhos. Tu és frutífera, abra tua folhagem, floresça, frutifique e espalhe o que tens de melhor, que solo e água para isto te serão providos.

Não permita que os outros lamentem "Oh Amélia", faça com que se admirem "Ah, Amélia!".

Eva foi criada junto com Adão, eram unidos pela costela. Não se deixes enganar por traduções mal feitas e feitas por conveniência. O mundo precisa de ti viva, bem, sorridente, não à sombra alheia. Um cavalheiro que mereça assim ser chamado, não tenta submeter uma mulher como tu, mas se joga aos seus pés.

Decidida, Amélia? Então abre este sorriso, desenrugue a testa e vá para a vida. Me avise quando abrir o blog.

3 comentários:

Adriane Schroeder disse...

Texto primoroso, Nanael.
Me faz lembrar aquele texto que dizem ser do Profeta Mohamed (Maomé): "A mulher foi feita da costela do homem, não dos pés para ser pisada, nem da cabeça para ser superior, mas sim do lado para ser igual, debaixo do braço para ser protegida e do lado do coração para ser amada."

Nanael Soubaim disse...

Muitos magos (incluso eu) acreditam que ele foi assassinado, o que treria causado a divisão no islamismo. Pelo que me consta, ele era feminista até para os padrões de hoje.

Luciano disse...

Por que crucificar a nós, homens, supondo que todos nós somos culpados de agressão, traição e subjugação? Por que essa injustiça?
Estou em vias de casar-me com uma mulher maravilhosa, a qual respeito e quero bem, embora não haja como uma cachorrinho submisso à vontade feminina, como os "homens" de hoje. Não sou um escravo, nem do lar, nem da relação, mas sei tratar minha futura esposa com dignidade e respeito, como se deve tratar a alguém que se quer bem. Dividimos as tarefas de casa, conforme tempo, habilidade e disponibilidade, planejamos ter um filho e criá-lo bem (ao invés de ter uma penca e ter que dar a eles uma educação meia-boca e uma vida mediana). Ganho menos do que ela com carteira assinada, mas faço outras coisas para aumentar os ganhos e fazer com que tenhamos uma vida confortável, de modo que nossos ganhos se equiparam. Contudo, ela assume a necessidade de se ficar junto, de uma mulher que precisa, como todas as outras, de um homem, assim como o homem dela precisa; pois ambos são metades de um só ser. Iguais no ser, no ter e no fazer; sem chauvinismos, que são atributos dos dois gêneros (qual foi a mulher que nunca fez uma piadinha idiota e preconceituosa sobre homens?) nem a velha cena de um idiota submisso se jogando aos pés de uma bruaca que talvez lhe tome todo o dinheiro e a vida e os filhos pra depois ainda lhe sapecar uma pensão (a lei brasileira superprotege a mulher, dando-lhe regalias fora do princípio da igualdade).
Vamos deixar de lado esse chauvinismo pseudo-feminista de comercial de cosmético barato e assumir o que os gêneros não querem: a necessidade de um para o outro, a necessidade mútua.