quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Dead Train in the rain XXII

  Falando de negócios. A estação 22 trouxe o profissionalismo à bordo, ele não vai mais tolerar actos falhos. Apresentem seus bilhetes, o Dead Train está finalmente nos trilhos.


(...) Josephine explica os motivos da surpresa. Fala de Shirley Temple, para exemplificar, e de alguns casos que o grande público desconhece, para dar início ao que interessa...

- Eu tinha dito que não queria que vocês explodissem cedo demais (...) Eu esperava poder acompanhar vocês por mais um ano, pelo menos, para que a fama não se alastrasse antes do tempo. Infelizmente, em termos, as sincronicidades os obrigaram a se relevar muito cedo e sua fama acabou ganhando vida própria, praticamente antes de percebermos. Por isso mesmo quero propor-lhes uma estréia oficial imediata (...) para vocês crescerem mais rápido, alcançarem a fama que já galopa louca pelo mundo e tomar as rédeas dela, antes que cause estragos irreparáveis. Peço que leiam com cuidado as cópias de contracto que têm em mãos (...) a urgência da redação pode ter me feito deixar algo de importante para trás. O texto inclui ainda as responsabilidades de Matthew como assessor de imprensa da banda, papel que ele já desempenha desde que vocês se revelaram.

- Financeiramente ele é muito interessante! Mas você deixa claro que tem medo que saiamos do controle. Por quê?

- Vi o vídeo de seu debute, vocês se empolgam com muita facilidade. Um grupo empolgado comete erros sem perceber, acaba não notando a tempo que cometeu excessos e jogou sua credibilidade pela janela.

- Poderíamos ver e você nos explicar?

Ela roda o vídeo colorido, para o deleite de Matthew. Aponta cada detalhe  (...) deixa claro que essa empolgação pode ser um elemento vital em um show ao vivo, se for mantida sob controle. Haver um negro e uma estrangeira na banda, conclui, pode piorar muito os efeitos de uma manchete depreciativa.

- Ok, eu compreendi. Vocês têm alguma observação?

- Não ficou claro para mim, a parte de eventuais turnês internacionais. Se está tão preocupada com nossa integridade, eu gostaria que incluísse parágrafos sobre nossa segurança e socorros médicos.

- Bem observado. Eu disse que poderia ter esquecido algo... Farei a inclusão, monsieur conde. Alguma observação mais?

- Só uma. Precisaremos das assinaturas de todos os outros pais (...) eu não posso assinar por todo mundo.

- Você tem uma procuração deles para cuidar dos seis, não tem? Então ligue para eles e avise. Se estiverem de acordo, providenciaremos o envio de um representante que voará com vocês para Sunshadow.

- Só mais uma coisa – arremata Richard - Não quero que eles ganhem um só centavo adiantado. Primeiro trabalham, depois recebem (...) ensinei minha profissão à minha filha e ela está acostumada a só receber o que tiver merecido.

Josephine aceita com satisfação, então Richard faz as ligações. Alguns têm ataques histéricos ao saberem que eles estão com Jose De Lane, mas todos concordam. O mecânico assina um protocolo e estão praticamente contractados, já podem ser apresentados como nova sensação do grupo de entretenimento que comanda os estúdios (...) os seis fazem a festa na sala de reuniões. Finalmente o Dead Train está nos trilhos da carreira artística. David chama a equipe de apoio para fazerem um planejamento profissional (...) O logo que Renata fez foi aceito. Alguns acharam meio sóbrio demais para um grupo de adolescentes, meio art déco, mas a proposta deles nunca foi a de mero entretenimento. O dia inteiro é dedicado aos trabalhos de planejamento. Patrícia se sente absurdamente confortável naquilo, especialmente porque os resultados aparecem logo, o que acalma a índole de Rebeca.

Assistem à íntegra do vídeo do aniversário de Patrícia, ela fica absolutamente encantada ao se ver na tela. A película colorida dá um ar de cinema ao evento, é quando Richard descobre quem é Bartholomew Simpson. A directoria dos estúdios viu o filme várias vezes, para avaliar o sexteto, não raro alguém saía dançando pela sala de reuniões. Ouvem passos e olham para trás, Renata e Matthew estão dançando. Afastam a mesa e dançam também.

São levados à sua hospedagem. Quem falou em hotel? Ficarão hospedados na residência de Josephine, em Beverly Hills. A família inteira da diva costuma passar o natal com ela, isso justifica morar em um palacete. O estilo é o mais fino do art déco (...) tudo da mais fina procedência, de matéria-prima e mão de obra. A amplitude é para seus sobrinhos poderem brincar à vontade, quando a neve atrapalhar lá fora. A viuvez trágica e precoce não lhe transparece na face, nem o aborto que sofreu no incidente. Ainda hoje alguns dogmopatas a acusam de ter deixado seu filho morrer, como se capotar por quase uma quadra (...) lhe desse muitos meios de proteger o feto. Os fãs que testemunharam o acidente, ainda hoje se lembram do desespero e da histeria que a cena causou.

Deixa-os à vontade, para que escolham seus aposentos. Por agora não falarão de negócios, são amigos em uma tarde livre. Patrícia já puxa Renata para dividir uma suíte consigo, não só por precaução. Quer actualizar as conversas sobre a mediunidade da amiga, não esquecendo do (...) adulto onze anos mais velho. A brasileira explica (...) das peripécias pelas quais passaram em New York e nem se deram conta. Continuam conversando, se revezando na ducha, com a americana cada vez mais estarrecida...

- Quer dizer que tem alguém aqui, agora?

- Dezenas.

Ela se envelopa na toalha imediatamente, arrancando risos. Renata explica que não adianta e não é necessário, é como ter vergonha de ficar nua diante de um bicho (...) a nudez pura e simples não acarreta coisa alguma...

- Mas você disse que tem um monte de caras aqui! Nunca fiquei nua na frente de ninguém!

- Não é só aqui, eles estão em todos os lugares, inclusive no seu quarto, em Sunshadow. Há basicamente dois tipos de espíritos; os com os quais não precisa se preocupar, e os com os quais não adianta se preocupar. Sua avó é uma deles.

- Ela está aqui? Então estou tranqüila... Mas quem são os outros?

- Relax, baby! (...) a maioria deles não pode nem perceber a sua presença. Imagine a massa de espíritos que nos cercam, como fãs; se você for mudar cada rotina, cada atitude com medo que alguém veja, vai virar uma múmia!

- Jura?

- Juro. Pode se trocar sem medo.

Ela tira a toalha, tentando ver algo escondido entre os móveis de vez em quando, mas tira. Evitam demoras, logo chamam para o jantar e a moçoila sabe como Josephine preza a pontualidade. Usam a primeira roupa confortável que pegam e vão. Do alto da escadaria vêem uma das faces cruéis da diva, ser cruel consigo mesma. Ela vistoria milimetricamente a arrumação da mesa de jantar, usando as estampas da toalha de mesa como marcação para os elementos (...) tudo feito para o roteiro ser seguido a contento. Seu olhar, se vê do alto, é crítico, aguçado, atento ao menor desvio. Patrícia pede que preste atenção, a cena é uma demonstração de como não aborrecer a anfitriã, inclusive (...) Josephine termina, está tudo a contento, já pode relaxar em seu vestido azul profundo. Olha em volta e vê as duas protegidas em sua observação...

- Pardon moi, mes chèries. Esta é a Josephine chata e implicante que as câmeras não mostram, eu devo ser um flagelo para meus empregados – se justifica a diva.

- Não é muito diferente da minha mãe. Ela não aceita de mim menos do que cem por cento...

Renata para de falar e observa ao redor da diva, nunca viu tantos espíritos elevados em um só lugar, agora ela é quem fica tímida...

- Algum problema?

- Você... Acredita em espíritos?

- Oui, sou espírita. Você é médium?

Patrícia trata de intermediar a conversa (...) diz inclusive que o pai, ateu, estudou o assunto para poder ajudar sua amiga. Encerram o assunto quando os demais começam a descer, mas ela quer tratar com a brasileira sobre essa mediunidade. À mesa ela pede permissão a Richard, que consente com uma prece de agradecimento, mostrando que é ateu e não um chateu misoteísta. A festa gastronômica tem início, com todos os comensais sob a rígida observação da tutora (...) é de sua natureza estudar as pessoas com quem lida. A experiência de vida só acentuou essa característica, que irrita muita gente, mas os benefícios que traz são muito maiores do que o incômodo por seu olhar de raios X.

Deixam os garotos descansarem da comilança, pela primeira vez sem precisarem lavar as louças, vão os três conversar no escritório. Em vez das cadeiras à mesa, Josephine escolhe as poltronas, para não haver possibilidade de alguém esconder um gesto ou tique comprometedor. Seu alvo principal é Matthew, que tem se mostrado útil, mas é um repórter e deve ser tratado com o cuidado necessário...

- Eu estou certa de que vocês perceberam o naipe dos talentos que temos na sala de estar, também estou certa de que compreenderão minha preocupação em relação ao relacionamento de monsieur Tamasauskas com Renata, que é pouco mais do que uma criança, e uma criança que precisa de atenções especiais.

Ela fala com sua dicção perfeita e seu fôlego excepcional, dando espaços enormes entre vírgulas. Deixa claro que não é a diferença de idade que a preocupa, é o facto de alguém da imprensa estar inserido na intimidade de um membro muito delicado da banda (...) Por hora só avisa que seu bom comportamento será regiamente recompensado, exaltando a vida nababesca que levará, mas com isso deixando claro que o exacto oposto também é verdade (...) Ela pede que ele se pronuncie sobre a brasileira e presta uma atenção científica a absolutamente tudo o que consegue. É actriz. Não só isso, é a diva de milhões, a musa de gerações, é Jose De Lane, sua majestade no mundo artístico, ela sabe identificar melhor do que qualquer um o menor traço de fingimento; já ajudou a polícia a identificar psicopatas, com esse talento. Não é o caso. Ele fala de Renata com um misto de afeto e gratidão, seus olhos brilham, seu timbre fica suave e, se deixam, ele vara a noite tecendo elogios à amada. Ela percebe a sinceridade, fica mais tranqüila (...) sem deixar transparecer. Se volta para Richard...

- Sobre nossa preciosa Patrícia...

- O que ela disser ou fizer, eu assino em baixo.

- Eu tenho certeza. Mas quero tratar de um assunto delicado. Eu sei pelo que ela passou ainda criança, estou a par de todo o desenvolvimento dela desde então. Minha pergunta é, ela realmente superou tudo isso?

- Eu não sei. Sei que ela está agindo como mulher de verdade, mas na nossa vizinhança não temos profissionais de psicoterapia, não em quem possamos confiar. Conhece algum?

- Muitos. Foi bom ter tocado no assunto. As letras que ela me mandou, em nossas correspondências, são de uma poesia maravilhosa, mas algumas delas são extremamente tristes!

- “I fix my face in the window, I have a hope, they will back so happy to us. I fix my eyes in the snow, my mind is a magic postman, have a news from you. You ill back to us...”

- Sim, principalmente esta. Eu quase chorei quando terminei de ler! Há uma semelhança perversa e uma diferença gigantesca, entre superar um trauma e apenas suportá-lo.

- Ela está trabalhando nesta canção há mais de um ano. Não é fácil chegar à porta do quarto e ouvir os soluços dela. Já protegi minha filha de fanáticos religiosos, de malandros mal intencionados, recentemente até de bandidos, mas a dor no coração dela eu não posso curar.

- Então concorda em eu arranjar ajuda profissional para os seis?

- Concordo e agradeço.

É a primeira vez que Matthew vê aquele cara enorme e debochado, ficar tão taciturno e triste. Percebe que a filha é seu calcanhar de Aquiles. São interrompidos por uma música, deduzem que eles encontraram a sala de música e estão se esbaldando. Ouvem a voz de Enzo dando o sinal para a contagem regressiva e vão até lá. É uma distância curta, Josephine faz questão de tocar algo, após o trabalho pesado...

- Cé uno, duo, tre... Adesso!

- Uuuuuu-uuuuu... Uuuuuuuuu...

- Back to Sunshadow now, were your home stand by you. Back to your home again, were your people stand by you...

Esquecem o clima denso do escritório, se concentram na voz do rapaz ao violão, com os outros fazendo o coral. Começam a ter saudades de Sunshadow, sem a menor idéia do que se passa por lá. Não sabem que os pais de Matthew se enturmaram e decidiram se mudar para a cidade (...) O certo é que deixaram Renato mais tranqüilo, convencido de que um homem mais velho pode ser um bom marido para sua filha. Já escolheram a casa, é bem próxima à dos brasileiros (...) Ainda há muitas casas desocupadas na cidade.
              Na Califórnia os garotos aproveitam os últimos momentos de despreocupação profissional. Amanhã começarão a trabalhar pesado, farão ensaios para gravar o disco, participarão de reuniões, auxiliarão o departamento de marketing, combinarão entrevistas e planejarão shows. De hoje em (...) o que fizerem em público não será mais relevado, tudo o que disserem a seu respeito deverá ser levado em conta, e não poderão se dizer surpresos quando detalhes de suas tenras infâncias vierem à tona.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Dead Train in the rain XXI

    Enfim elas se reencontram. A estação 21 lembra aos leitores de que a vida tem vontade própria, então não se apeguem aos seus planos, pode ser necessário mudar tudo! tenham sempre um plano B nesta viagem e embarquem no Dead Train!


No cair da tarde, chegam os pais de Matthew, enquanto os oito conversavam (...)Renata olha pela janela, vê um Ford A Phaeton 1929 vermelho com capota branca e solta um “Que lindo!” que chama a atenção do pretendente...

- São meus pais! Meu pai tem esse carro desde os dezesseis (...).

- Seu pai tem um Ford de Bigode? Eu acho lindo!

- Sorry?

Ela explica que as alavancas contrapostas na coluna de direção, renderam no Brasil o apelido de Ford de Bigode. O rapaz teve várias vezes a oportunidade de ficar com o carro, mas tinha vergonha, acreditava que seria rejeitado pelas mulheres se fosse visto em um automóvel tão velho, apesar de estar em perfeitas condições de uso. Agora a única mulher que lhe interessa diz que acha lindo!

- Quer dar uma volta?

- Quero!

Os olhos dela brilham (...) Os sexagenários chegam, tocam a campainha, abrem eles mesmos a porta e procuram logo pela neta do “brazilian hero”. Matthew apresenta Renata, surpresa em seu vestidinho azul e verde...

- Mas que garota linda!

- Você é muito parecida com seu avô! Tem os olhos generosos dele!

Um misto de gratidão com fascinação sincera invade o casal. Theodore nunca teve a chance de agradecer ao soldado que o salvou da morte (...) Só depois de algumas cenas comoventes é que são apresentados aos demais, e notam a presença do filho caçula (...) durante a conversa, percebem o evidente entrosamento entre os dois, no que é advertido pela mãe...

- Matt, ela é muito jovem! Ainda não está em idade para certas coisas!

- Eu sei, mamãe, a mãe dela já me avisou a respeito.

- Você veio do Brasil com sua família, não veio?

- Com meus pais, sou filha única.

Por enquanto. A menstruação de Eduarda está atrasada e as mudanças de humor começam a ficar freqüentes. Vem 3R novo por aí.

Na manhã seguinte, Theodore e Emily acordam o filho bem cedo (...) Matthew começa a se lembrar por que decidiu voltar para New York, mas decide ser polido (...) antes de soltar um palavrão...

- Você não nos disse que Renata é uma celebridade!

Lá vai ele, explicar à mãe o que sua condição de acordado na marra, antes de o sol nascer e ainda meio grogue, lhe permite...

- VOCÊ CONHECE JOSE DE LANE???

Agora sim, ele tem o que explicar! Quando Richard sobe (...) sem querer acaba jogando mais lenha na fogueira. Entre os combatentes, Sunshadow é quase lendária, ninguém sabia com certeza se realmente existia a cidade que perdeu todos os filhos enviados à guerra, já que nem nos mapas dos livros escolares ela consta...

- Meu pai, meu tio e meu sogro estavam entre eles.

Começam a consolar o grandalhão. Ficam felizes de o filho estar se relacionando com gente tão boa, estavam preocupados com essa total falta de compromissos. Pedem para falar com os pais da moçoila (...) Conversam, advogam em favor do filho, enfim, tratam de assegurar uma boa relação com os pais dela. Tudo isso acontece em menos de quinze minutos.

O desjejum é providenciado antes que os garotos acordem. Assim que eles acordam e sobem, estão lendo o jornal. A matéria sobre a visita rendeu duas capas e um baita patrocínio. Parece que a fama está ganhando vida própria. Aliás, a viagem parece ter ganhado vida própria e mudado completamente os planos dos sete, que jamais pretenderam fazer amigos em uma terra desconhecida, muito menos ver suas vidas viradas pelo avesso antes da hora. A de Renata destrambelhou completamente.

Vão ao Central Park. O Coach segue o Ford A, que leva apenas os dois pombinhos. Ela adorando a experiência, que ajuda a se distrair um pouco do fardo que leva. Tem visto espíritos aflitos desde que chegou a New York. Gente que veio e foi engolida pela cidade, ou desfrutava de boa posição social e morreu na miséria. Com eles, aprendeu que uma metrópole não perdoa erros (...) vê um mendigo pedindo esmolas à porta da prefeitura, ele parece não saber que morreu em 1930, provavelmente de frio. Ela vê uma moeda sutil em sua mão direita (...) O encara e ele percebe que é visto por ela, pela primeira vez em mais de trinta anos, alguém nota sua presença. Se aproxima, enquanto os outros se photographam em frente ao prédio e ela lhe dá a moeda. Enfermeiros o cercam e dizem que vão levá-lo para um abrigo, onde terá uma sopa e suas feridas serão tratadas, e os três somem. Pela primeira vez gosta de ser médium.

Chegam ao parque. É a coisa mais magnífica que eles já viram. Se assumem, sabem que são caipiras, estão deslumbrado (...) Matthew avisa para não se afastarem, que é muito fácil se perder lá dentro. Dele se tem uma vista impressionante dos prédios. São levados até o lago, meio vazio nesta manhã fria de outono, mas ainda assim com alguns casais corajosos. No inverno, ele se torna um grande ringue de patinação. Logo à frente, um cidadão tenta ganhar alguns trocados com seu violino. Os seis conversam, passam a bola para Renata e vão conversar com o violinista. Ela já lhes tinha ensinado a música, então só vão acompanhar...

- Entendeu? Pronto?

- Pronto.

- Índia seus cabelos nos ombros caídos, negros como a noite que não tem luar! Seus lábios de rosa para mim sorrindo, e a doce meiguice desse teu olhar...

Ele não entende uma palavra sequer, mas gosta e memoriza. Funciona, aos poucos os freqüentadores se aproximam e o clima de romance aquece o lugar, e notas começam a encher o chapéu no chão. Ganha o equivalente a uma semana de trabalho (...) Logo alguém diz “Is the Dead Train” e o público aumenta. Que aproveitem, amanhã voam para Los Angeles. Matthew finalmente concorda em ficar com o Ford 1929.

Na manhã seguinte, mais uma manchete, agora em vários jornais: The Dead Train sing in the Central Park. Alguns paparazzi já começam a procurar o hotel em que estão hospedados. Robert chega na hora marcada, para buscar o ônibus. Aproveita para paparicar os filhos, sem eles a casa ficou assustadoramente grande e fria. O imprevisto é ter que levar Emily e Theodore (...) para conhecerem os pais da brasileira, e a filha do homem que salvou uma família inteira, salvando um americano à beira da morte.

Passam a manhã conversando, até chegar a hora de se separarem de novo. O ônibus os leva ao aeroporto e de lá volta para Michigan (...) Na sala de espera, a conversa animada ajuda a matar o tempo, enquanto outros passageiros à espera do vôo começam a reconhecê-los. Patrícia fiscaliza os outros sete, sabe que não podem mais agir à vontade em público, sem que um paparazzo se aproveite indevidamente até de uma coçada nos fundilhos. Está de pé, enorme, em um terninho azul pálido e cabelos soltos, atenta a tudo (...) alguns cidadãos começam a photographar e os paparazzi se aproveitam, se misturam aos fãs. Essa conversa de serem famosos e terem fãs, ainda não lhes desceu direito, estão muito acostumados a agir livremente sem dar satisfações a ninguém, além de seus pais. Alguns pedem para terem uma photo com a banda, e assim vai até serem chamados para o embarque.

Dos seis, só Renata já tinha viajado de avião, mas uma só vez. A decolagem é uma experiência nova para os garotos americanos, ficam encantados com a cidade cada vez menor, lá em baixo. New York foi uma experiência mais suave do que imaginavam, graças ao anfitrião que conseguiram. Tentam (...) arrancar alguma coisa de Patrícia, mas ela insiste que só saberão detalhes quando se encontrarem com a anfitriã. Tem a prudência de não mencionar nomes (...) Foi bem treinada pelos pais e pelas correspondências com Josephine (...) Ela providenciou um ônibus dos estúdios e sua equipe de filmagem, para registrar a chegada dos oito. Já viu as notícias de hoje, percebeu que estão melhores do que esperava. A apresentação no Central Park, para ajudar o violinista, a comoveu tanto quanto agradou à sua índole artística.

É claro que onde está Jose De Lane, há uma multidão! Centenas de pessoas se amontoam para conhecer os pupilos da diva. David Grant está com ela, ele também é uma lenda viva, ajudou a salvar os estúdios que estavam à beira da bancarrota, investiu tudo naquela francesinha geniosa, que (...) foi embora após uma proposta indecorosa em um concorrente (...) e acabou levando o principal. De então em diante, ela foi a mola mestra dos estúdios. Alguns repórteres especializados quebram o silêncio...

- Senhora De Lane, é verdade que está aguardando os garotos da banda Dead Train?

- Você sabe que sim, monsieur. Fique aí, vai ver como as notícias não exageraram em nada.

- Eles já têm contracto com alguma gravadora?

- Sim – responde David – conosco (...) a Inglaterra está gestando uma geração de excelentes músicos, nós acreditamos que eles tomarão muito espaço no nosso mercado. O Dead Train é nossa aposta para enfrentá-los.

Ainda não assinaram, mas assinarão. Ele disse isso para jogar um balde de água fria nas mais remotas esperanças da concorrência. O avião surge no horizonte, a torre confirma (...) e os representantes dos estúdios seguem para o saguão de desembarque. Josephine falou muito deles, especialmente de Patrícia, que só tem visto por photographias, e pelo documentário (...) Ela mesma lhe contou como cada um estaria vestido, antes de saírem ao aeroporto (...) Vão à vidraça sem imaginar a tietagem que se deu no avião, quando foram reconhecidos, e quando descobriram a ascendência nobre de Ronald. O americano, por mais que rejeite a monarquia, tem um apreço gigantesco por títulos legítimos, como os nobiliárquicos; ainda mais quando acompanhados de um nome gigantesco. Richard e Matthew ficam intrigados, ele deveria ter sido preterido pelas aeromoças, por ser negro, mas foi o maior conquistador de toda a aeronave! Principalmente depois de se apresentar como conde, após boas conversas.

Aterrissam (...) e eles são os primeiros a sair. Sai Matthew, que desce rapidamente com a câmera em punho e clica a saída dos demais. Então sai a impressionante figura de Richard, que mal coube no portal do avião. Josephine deduz rapidamente quem eles sejam. Então sai Patrícia, e alguém grita...

- A princesa Grace de Mônaco!!!

- A princesa Grace é a vocalista do Dead Train!!!

A francesa precisa se apressar para desfazer o equívoco (...) Os seis descem e os flashes trabalham alucinadamente. Eles acenam timidamente, mal acreditando na recepção. São conduzidos a um espaço cedido à diva (...) Quando se avistam, ela e Patrícia deixam a pose de lado e correm para o abraço. São amigas. Desnecessário explicar o quanto as três imprensas presentes gostam da cena; a dos estúdios, a de fora e Matthew Tamasauskas. Depois que as duas louras se abraçam (...) a garota faz as apresentações. Coisa rápida, querem evitar exposição desnecessária, vão rapidamente ao ônibus que os aguarda.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Dead Train in the rain XX

    O reconhecimento. A estação vinte dá aos nossos amigos uma amostra da vida de artista, mas é só um doce para seduzir incautos gulosos. Tenham cuidado onde pisam e embarquem, o trem vai partir.


Matthew volta do jornal com um sorriso de orelha a orelha (...) saiu da redação com a alma lavada. Fumou um charuto do chefe, comeu do que estava em seu frigobar, tomou de seu whisky, deu pitacos na pauta do dia seguinte e prometeu fazer uma boa matéria, quando voltar de Hollywood. Volta de ônibus (...) com pose de quem está de Lincoln Continental. Tem seu sorriso emoldurado pelo rosto corado, cor que pegou nos anos em que entregava jornais e revistas da editora que controla o grupo.

Desce e atravessa a rua, já vendo seus amigos (...) Combinou com eles de lhes apresentar a sede da ONU; ou, como ele costuma dizer, a zona máster do baixo meretrício do mundo. Saiu de um ônibus para entrar em outro, mas desta vez no GMC Coach com motorização híbrida. O velho ônibus está fazendo quase o dobro de milhas por galão, depois da conversão...

- Que caras são essas?

- Nada, Romeu (...) a Julieta te espera. E cuidado com essas mãozinhas serelepes, hein!

Richard não perde a piada. Ele tem vinte e sete anos, ela tem dezesseis, ainda assim todos acreditam que podem se dar bem. E ficam mesmo com tanta intimidade quanto privacidade, já que a fileira do lado está vazia. Patrícia sabe que devem ser deixados a sós, sempre que possível, para se entenderem. Mas coisa séria mesmo, como disseram os pais da moça, só depois dos dezessete anos. Não antes e não durante, só depois dos dezessete!

Vão photographando tudo o que acham interessante pelo caminho. Param em um sinal e, enquanto clica (...) um guarda paquerando em horário de serviço, Rebeca à janela é reconhecida por um passante. O cidadão olha para o jornal em mãos, olha para ela, vê Ronald e Robert também de câmeras em punho e os anuncia...

- Hey! São os garotos do Dead Train!

A notícia correu rapidamente as duas cidades. Outros aguçam a visão e os reconhecem, mas Richard engata a primeira e arranca, que o sinal já ficou verde. Alguém deduz que estão indo para a sede da ONU, logo alguém fica sabendo e alguém pega um atalho para lá, com uma câmera em punho. O lugar de onde vieram e a viagem que farão, porém, continuam sob conhecimento restrito.

Vêem de longe o prédio em estilo arrojado, cheio de bandeiras enfileiradas, como se todas realmente tivessem o mesmo valor para a secretaria geral. O veículo negro-esmeraldino para (...) O nativo os leva para a recepção, onde são reconhecidos. Pelo menos dois funcionários estiveram na apresentação de estréia.

Autógraphos! Pela primeira vez na vida, lhes pedem autógraphos. Ficaram famosos em New York, isso é passaporte para uma fama nacional tão rápida quanto perigosa. Mais ou menos como descobrir da pior forma, que o carro que se dirige é um bólido com carroceria leve, como Josephine já disse a Patrícia (...) Matthew registra. Alguns os olham com caras de “famosos quem?” e procuram se inteirar da situação. Rebeca se diverte, mas não gosta de ser cercada por multidões. Atende o público em seu vestidinho azul minimalista, frenética, olhando vividamente para aquela gente estranha, que não sabe de onde está saindo. Ninguém quer ouvir “Você esteve com eles e não pediu um autógrapho???” mais tarde.

Finalmente podem continuar com a visita (...) Richard é observado por alguns militares. Um deles espera pela oportunidade para se aproximar...

- Avise ao General Nelson, só por garantia.

Dá a instrução ao colega e se aproxima. Se for quem parece ser, todos naquele prédio correm riscos de morte dolorosa. A dúvida se dá por ele estar acompanhado daqueles garotos e do repórter, mas a descrição é muito parecida.

Jeremy Nelson é avisado e põe seus contactos para trabalharem (...) Enquanto isso, o Capitão Krumb acompanha o grupo de perto, procura saber quem são os acompanhantes e quem seria o grandalhão. As informações até o tranqüilizam, mas não o suficiente, as semelhanças são grandes com um agente duplo que estão caçando há anos. Precisa de um modo de ficar à sós com ele, por alguns minutos. Vê uma soldado (...) lhe diz algo ao ouvido e ela se aproxima do grupo, também para pedir um autógrapho; algo que em condições normais a sua função não permitiria. Assim que Robert lhe entrega o bloquinho, ela finge uma queda de pressão e cai, prontamente amparada por Richard...

- Obrigado, senhor. Pode trazê-la à enfermaria, por favor?

- Claro que sim. Onde é?

Dois pontos a favor; ele a pegou antes que atingisse o chão e parece não saber onde fica a enfermaria. O agente duplo conhece cada canto do prédio, e não daria grande importância ao mal súbito da moça, não até ser interpelado. Matthew continua clicando.

A cena é imponente. Um homem de terno cinza, enorme, com a musculatura preenchendo todo o paletó, carregando uma militar delicada... mas (...) ninguém folga com ela e sai ileso. Chegam à enfermaria e o próprio Richard começa a cuidar da moça. Ele é um gênio, estuda de tudo, sabe de tudo a fundo, inclusive medicina; logo percebe que ela não tinha passado mal cousa nenhuma...

- Por que a senhora fingiu o mal estar? Seu caso é de desidratação leve, não teria lhe causado o desmaio.

Krumb entra em cena, deixando ridiculamente exposta uma arma descarregada. Se ele for quem parece ser, se aproveitará. Mas não se aproveita. Patrícia chega com os outros e debela de vez as suspeitas...

- Pai, tudo bem?

- Graças a Deus!

- Por que, Capitão? Acredito que nos deve uma explicação.

Ele explica de forma reduzida, para não expor segredos de Estado, mas sabe que está falando com o honesto pai de família americano Richard Gardner...

- Esse cara é russo?

- Sim, ele é.

- Minha sogra era viúva de um russo, que fugiu aproveitando as falhas nas fronteiras, quando Stálin concentrou esforços para enfrentar os nazistas. Se é um russo e se parece comigo, então eu sei quem é.

- Mr. Gardner, com isso o senhor acaba de se tornar perigoso. Não para a América, mas para os espiões inimigos. O senhor pode nos conceder uma conversa reservada e manter segredo?

Consente. Jeremy liga, avisando que o agente foi visto em Amsterdã, e está sendo seguido de perto por pelo menos sete países que querem sua cabeça (...) Agora vão ao escritório, onde Richard receberá instruções para sua segurança (...) os militares começam a perceber o calibre que têm ao seu lado...

- Uma bomba atômica ainda é cara. É questão de tempo para outros descobrirem como enriquecer urânio, como obter plutônio... E não precisa explodir, espalhar material altamente radioativo causaria estragos maiores e mais perversos do que uma explosão. Pensem comigo...

Decidem investigar um pouco a respeito dele (...) órfão de guerra, casado com uma órfã de guerra, endereço, profissão, o incidente do incêndio e nada mais. Richard é quase uma caixa preta, mas é valioso. A conversa dura meia hora e as partes trocam números e endereços para contacto. Por hora, ele volta aos seus tutelados.

A Estátua da Liberdade. Uma réplica gigante da mãe de Frédéric Auguste Barthoudi, escultor do monumento. Um dos maiores focos de teorias da conspiração no mundo inteiro. Todos (...) sobem até a coroa. Se photographam mutuamente e são photographados pelo jornalista. Aqui, pelo menos, o passeio transcorre sem incidentes. Quando descem, são surpreendidos por várias câmeras serelepes, disparando de todos os ângulos. Rebeca logo cutuca Matthew e o nomeia assessor de imprensa da banda (...) Voltando ao prédio, a baixinha reclama...

- PORRA! Eles nem sabiam quem a gente era! Parecia que estavam é com medo de parecer que não sabiam o que realmente não sabem, na frente dos amigos!

- Mas havia dois repórteres de verdade entre eles.

- Sim, assessor de imprensa, acredito. Me incomoda é tanta gente querer autógraphos e photographias, sem jamais ter ouvido um acorde nosso sequer!

- É por falta disso? Eu posso resolver.

Manda Richard (...) rumar para a redação, onde eles vão encontrar formadores de opinião que poderão dizer que ouviram os seis cantarem, e em um veículo de circulação nacional. Ele realmente gosta daqueles sete, está sinceramente apaixonado por Renata, mas isso não lhe tira a visão prática, sabe que (...) terá toda a mordomia que quiser, se não vacilar. Avistam a sede do jornal. Não é o maior, mas tem circulação nacional, credibilidade e uma boa carta de anunciantes e assinantes. Ele desce primeiro, mandando avisar ao chefe que The Dead Train quer conhecer o Coast to Coast News. Richard desce sucedido da filha, Ronald, Enzo, Rebeca, Renata e Robert. Ainda têm fresquinha na memória a região em que vivem (...) tudo aquilo lhes parece grandioso e requintado. É grandioso e requintado, mas não é o mais.

O cicerone apresenta colegas e departamentos (...) No fim do corredor, o chefe aparece à porta do escritório. É um homem que viveu anos duros, passou fome com a grande depressão e teve que vender garrafas velhas para sobreviver. Se lembra até hoje de ver sua família indo para um lado, os móveis para outro e a casa sendo penhorada. Viu suicídios bem à sua frente, gente que torrou tudo o que tinha na farra especulativa dos anos vinte, contabilizando dívidas como se fossem dividendos, não suportando ver tudo virar pó.

As apresentações são festivas, pela primeira vez o jornal tem um furo artístico antes dos outros (...) Os colunistas de arte e entretenimento iniciam uma conversa informal, que dará frutos formais, com câmeras pipocando por todos os lados. Entre um assunto e outro, dão uma palhinha...

- Back to Sunshadow now, were your home stand by you. Back to your home again, were your people stand by you. Look yourself in mirror now, look your childhood again, is your true self...

E (...) vêem que não houve exagero nos relatos. São realmente talentosos, têm domínio de técnica e cantam do coração (...) Além de terem estilo próprio no repertório, algo raro de se encontrar.

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Dead Train in the rain XIX

    E o sucesso veio, serelepe e sem pedir licença. A estação dezenove traz à bordo uma breve lição que muitos artistas em início de carreira negligenciam. Todos à bordo, o trem já vai partir!


Os seis acordam tarde. É algo a que terão que se acostumar. Irritantemente linda até despenteada, com cara amassada e de pijama florido, Patrícia chega à copa (...) Richard faz questão de mostrar à filha a página inteira no caderno de cultura...

- Wellcome to the success, honey!

A garota olha, vai à capa e vê a manchete, volta ao caderno e lê minuciosamente. Não quer acordar os outros agora, sabe que estão cansados, mas não se furta o direito de dar gritinhos e correr pelo pequeno cômodo. Richard e Matthew notam (...) a perfeição de proporções e a estatura. Se olham...

- Não tem como eu dar uma de Renato e tentar disfarçar. Minha filha é uma mulher feita, mesmo tão nova!

- Quinze?

- Quinze. Dois dos quais sob educação rígida e treinamento severo, para poder encarar a carreira.

- E não me arrependo de um segundo sequer! Cara! A turma vai ficar maluquinha, quando ler isto!

- Ler o quê?

Chega Rebeca, com cara de ressaca e lhe é apresentada a matéria. A ressaca passa. Ela desce de pijama (..) e acorda todo mundo no ônibus. Antes que tenham ganas de torcer seu pescoço, a alegria pelo sucesso faz esquecer a dor de cabeça pelo despertar rude. Foram providenciados números para Sunshadow, alguns distribuídos nos endereços pertinentes, mais um calhamaço deixado na única banca da cidade, na praça do trem morto. Não dá para quem quer. Ficam imensamente surpresos de um jornal de fora falar de Sunshadow (...) e falando bem. Os pais dos astros se encontram na casa de Patrícia, para uma comemoração improvisada. Não foi só seu talento que eles expuseram, foi a cidade inteira. O prefeito também dá as caras, sem a pompa a que a maioria deles está acostumada, afinal, todo mundo lá se conhece há décadas...

- Nancy, você leu o... É, você e todos os outros leram!

- Vem pra festa, Daniel!

- Eu mal posso acreditar (...) Nós saímos do esquecimento!

- Só não sei se foi tão bom eles terem começado tão cedo.

- Foi necessário – responde Eduarda. Nenhum teatro do mundo daria uma estréia melhor.

Em Los Angeles, alguns colegas de estúdio abordam Josephine (...) para mostrar o jornal...

- Não são os garotos de que nos falou?

- Oui! Oh la la... Eles começaram muito cedo! Bart! Bart, consiga o telephone deste (...) repórter.

Josephine causa muitos ciúmes no mundo artístico. Ela nunca se conformou em ser um rosto bonito com uma voz sedosa e potente, é um cérebro activo e crítico dentro da classe artística, ela vai atrás do que quer e impõe respeito, não é uma estrela, é Sua Majestade A Estrela. Não depende mais do cinema para sobreviver, gerencia muitos negócios com competência, incluindo os dos estúdios, ajuda colegas e até tem parcelas de patrocínio nas produções (...) Boa parte dos ciúmes vêm da direção, muitos acreditam que a francesa tem mais prestígio do que o presidente dos estúdios. Ela sabe muito bem quanto ciúme, inveja e inimizades gratuitas ganhou, por ser competente em tudo o que faz. Quando era criança, sua mãe dizia para fazer sempre bem feito, que seria recompensada, mas que não fosse bem feito demais, porque seria punida. A galeria de prêmios em sua casa fala por si (...) Consegue a ligação...

- Bom dia, desejo falar com Matthew Tamasauskas (...) Da parte de Josephine Delacroix.

Mandam alguém ligar para o apartamento dele. Em meio à comemoração, Patrícia ouve o repórter duvidar que a diva de milhões queira falar consigo. Agradece novamente à avó pelo treinamento musical pesado que recebeu. Decide interferir...

- Boa! Eu não posso falar agora, mas se ela quiser falar com a Patty Solar...

A redação se desmancha em risadas. A secretária dá o recado e tem uma resposta que pensa ser uma contra ironia...

- Ela disse que a dama do Alfa Romeo quer falar com ela também.

- “Dama do Alfa Romeo”???

- É ela. Manda darem seu número.

- Como assim? Você conhece... Não! Você conhece Jose De Lane?!!!

- Tem muitas coisas que você precisa aprender a meu respeito. Uma delas é que eu jamais digo tudo o que sei. Foi ela quem me deu este colar – diz aos outros.

Em menos de um minuto, a musa de gerações liga para o humilde apartamento de um repórter que, há até dez horas, só era conhecido pelos leitores habituais de New York. Ele sua quando o telephone toca novamente, desafoga a gola e atende...

- Alô?

- Bonsoir, monsieur. Suponho que esteja falando com Matthew Tamasauskas... Prazer em conhecer, sou Jose De Lane. Desejo conversar com o senhor sobre Patrícia Petty Gardner, minha protegida.

Ele sua bicas! Passa a olhar para Patrícia como se ela também fosse uma deusa de Hollywood. Os demais já estavam pasmos com o desenrolar da conversa, agora estão pasmos com a líder da banda também. Richard observa a filha de longe, cientificamente, aguardando o momento de tocar no assunto. Assim que o anfitrião desliga o aparelho...

- Ela quer que eu vá com vocês à visita combinada.

- Ok (...) para a alegria de nossa pianista. Ah... Well (...) Nós tínhamos planos para o ano que vem, mas nossa estréia precoce acabou forçando mudanças...

- Nós quem?

- Mommy, Josephine and me, daddy. Vou explicar. Lembra quando comecei a esticar rápido e todas as minhas roupas ficaram apertadas, de uma só vez? Quando mamãe e eu fomos comprar novas (...) ...

Conta (...) o facto de ter lhes pedido discrição, a não ser que ela mesma se revelasse, como aconteceu agora. Enquanto ouve, ele tenta imaginar que motivos a actriz pode ter tido para fazer isso. Ela dissera, ao longo das correspondências, que não os deixaria desperdiçar seus talentos, nem caírem em mãos inescrupulosas. Talvez tenha sido isso, talvez tenha percebido que aquela pequena publicidade acabaria atiçando a sanha da banda podre do show business. Sim, é exactamente por isso. Josephine não perde tempo e avisa aos executivos sobre seus planos, explicando como conheceu Patrícia. Avisa que não quer que estourem de uma vez, que são seus pupilos e tudo mais...

- Na sexta-feira eles chegarão (...) e gostaria que um de vocês também fosse, para estudar os garotos.

- Eu vou – se oferece um septuagenário com cavanhaque. Talvez sejam os últimos grandes talentos que eu conheça, antes de morrer, quero conhecê-los bem.

- Ficarei honrada com sua companhia, monsieur Grant. Vamos tratar dos detalhes?

A actriz dá momentaneamente lugar à executiva. Josephine, de posse do que a garota lhe disse sobre seu pai, tem um esboço de contracto praticamente pronto. Eficiente, ela conclui sua parte, pede os pareceres de cada um e um protocolo é assinado por todos. Agora ela precisa ir, tem (...) mais três ou quatro meses de filmagens pela frente, emagreceu sete quilos para fazer o papel.

No Brooklin, em um edifício que já foi comercial, Matthew tenta digerir a avalanche pela qual acaba de passar. Está assustado. Feliz, mas assustado. Vê agora a chance de fazer o filho do chefe engolir as palavras rudes e arrogantes (...) Acorda quando Patrícia termina de explicar sua relação de amizade estreita com Jose de Lane...

- Só mamãe e eu. E só ela sabia dessa visita, Jose não me contou nada até esta manhã.

- Compreendo, mas gostaria de saber por que ela está fazendo isso por vocês.

- Ela é altruísta, papai. Ela ajuda muita gente no meio artístico (...) nos contou das pessoas talentosas que viu se perderem na vida, por terem sido acolhidas por pilantras. É possível vencer sem um padrinho forte, sim, mas os riscos de um artista, principalmente uma mulher precisar transar para abrir as portas, é muito grande. Nós tivemos a sorte de encontrar uma pessoa íntegra e poderosa, poderemos trabalhar tranqüilos (...) enfim... Dos canalhas mais perigosos, ela vai nos ajudar a nos livrarmos.

- Minha filha – se aproxima abraçando e afagando o rebento – você me faz acreditar cada vez mais em teorias conspiratórias. Como conseguiu esconder isso de mim?
- São os genes. Também me tornei um gênio.

domingo, 2 de setembro de 2018

Dead Train in the rain XVIII

    A vida não faz a menor questão de se adequar aos nossos planos. Na estação 18 é o que ela faz, e a Dead Train estreia onde jamais esperava. Peguem seus ingressos e embarquem, o expresso vai partir!


Vão todos, inclusive Matthew, no ônibus para a entidade de New Jersey de que ele falou. Pelo caminho tiram photographias aos montes! Terão que comprar mais filmes (...).

Em Beverly Hills Josephine prepara a recepção antes do previsto. Vai alegre e festiva aos estúdios, conversar com os figurões. Como quase sempre, sai com motivações funcionais, raramente aparece em público a lazer. Tem saudades de quando podia chamar sua amiga Grace para suas empreitadas (...) Combinou com Nancy uma visita aos estúdios, da qual Patrícia ainda não sabe, assim como só Patrícia sabe, dos sete, que vão visitar a diva. Belo cenário para uma teoria conspiratória.

Vêem um set de filmagem montado, sempre há algum em New York. Este é um comercial de sapatos femininos, estrelado por Dovima. Ainda atrai atenção, mas (...) a maioria passa, olha e segue caminho. Matthew acompanha os sete, para evitar que tenham problemas antes que seu pai chegue. Fazem um belo turismo pela cidade, com contos e histórias de cada local. A Broadway enche os olhos dos garotos...

- É um dos lugares que mais freqüento. Deixo aqui boa parte de meus vencimentos, mas não me arrependo. É cultura, entendem? O que eu compro aqui, nenhum ladrão é capaz de levar.

- Sua philosophia faz sentido, está em sintonia com a nossa – diz Renata.

Os dois conversam animadamente, enquanto os outros seis fazem a típica cara de cinismo dos sunshadowers (...) cochicham e começam a cantar, em voz baixa...

- I crossed all the universe for give my missed star. The pines in my hart, is from the sad journey, dear...

Richard não quer que a brasileirinha tenha envolvimentos antes da hora, ainda mais com um homem (...) quase desconhecido, mas é plenamente a favor de que os seis tenham experiências que lhes façam diferença, o que inclui o amor. E todo mundo vê nas caras dos dois que tem coisa bonita no ar! Não adianta negarem. Patrícia se encarrega de dar o noticiário por um telephone público, desta vez com quatro pitaqueiros fazendo algazarra ao seu redor...

- Sim, senhor e senhora Rodrigues Ribeiro Rocha...

- Deixa de firula e chame logo de “Three R” – provoca Enzo.

- Mamãe, estou em New York – grita Robert.

- Moça, sai logo dessa cabine, quero telephonar – continua Rebeca.

- Ei, parem de fazer bagunça! O cara é gente boa, nos acolheu... Sim, é o repórter que cobriu o nosso incidente... O pai dele (...) foi salvo de um bombardeio na guerra.

- Que coisa boa! Eu sei o que sua mãe nos contou, em detalhes, sobre o que toda Sunshadow sofreu com as perdas no conflito... Hein??? Meu pai?!!

- Sim, foi o seu pai que salvou o pai dele, quando todo mundo achava que não tinha mais salvação. Agora os dois estão conversando, e eu acho que estão se interessando um pelo outro...

Agora a coisa complica. Renato pula do sofá, quando a esposa transmite a informação e toma o aparelho, exigindo explicações. Manda chamar o jovem adulto, para ter uma conversa séria com ele. Vão-se muitas moedas até o brasileiro do clã dos Queixada se dar parcialmente por satisfeito (...) Alega que não imaginava que algo assim poderia acontecer, que a filha, além de muito jovem, é demasiadamente imatura para essas coisas. Eduarda pega o phone antes que ele tente convencê-los de que Renata ainda não trocou as fraldas hoje. Simplesmente dá um ultimato a Richard, quer que Matthew se faça conhecer por eles antes de qualquer coisa acontecer.

A tarde cai e o ônibus sai. Matthew os leva para o albergue da entidade social, à qual doarão os mantimentos de que não vão precisar. As câmeras trabalham muito durante o percurso, principalmente quando chegam à Brooklin Bridge. Tudo lindo, tudo muito bem construído, mas o cenário muda aos poucos, quando se aproximam da entidade. Já sabiam desses guetos, mas ao vivo é um choque ver tanta carência, quando a poucas milhas há uma circulação tão pujante de riquezas, que sequer sentiriam o peso de incluir esses lugares em seu itinerário. Renata, mais familiarizada com a caridade, se entrosa rapidamente e descobre outros espíritas (...) Logo está no comando da distribuição das doações, facilmente convence os outros a ficarem para ajudar.

Richard chora discretamente. Vê pessoas chegando curvadas, sem perspectivas, muitas delas apenas tiveram marés sucessivas de má sorte, outras foram deliberadamente enganadas, outras ainda abandonadas pela família, como alguns idosos doentes. Patrícia se orgulha de seus parceiros, mas não se furta o direito à indignação. Termina de secar as lágrimas de seu enorme pai e vai directo ao assunto...

- Só uma pergunta. O registro do Dead Train foi concluído?

- Sim, foi.

Era só o que queria ouvir. Termina de ajudar os outros e os chama para o ônibus...

- Essa gente precisa de muito mais do que glicose e proteínas. O Dead Train vai estrear hoje. Aqui, agora, para este público. Começaremos com Forgotten.

- Eeeeeeeeeeeeeehaaaaaaaaaaaa!!!!!!

Rebeca pula de alegria, estava ficando impaciente para começar a cantar. Descem os instrumentos (...) montam tudo diante do público surpreso e começam. Rebeca na bateria, Ronald no baixo, Renata com um teclado, Robert no baixo, Enzo na guitarra e Patrícia com um pandeiro. Todos são vocais. One, two, three...

- Every times they say “the progress ill on”. Every time this people is walking alone. No matter the speeches that they repeat. So many cities continues dying away, and your people still abandoned stay.

Every time walking alone, every nation still ignores. All the lies what we learn, about the nation and about us.

The starvation is knoking in the next door, but you don’t listen by the television, what show any clowns like was a mirror...

Conseguem arrancar lágrimas daquelas pessoas, tanto quanto elas arrancaram de Richard. Gente que passa em frente fica curiosa com a música e decide entrar, tanto necessitados quanto o povo alienado e de bom coração que povoa a América. Eles também choram, inclusive de remorsos. Matthew tem um furo e photographa o máximo que pode (...) uma parcela grande das poses evidencia Renata. Pega filmes emprestados para registrar a estréia daquela turma que não sabia que era de cantores (...) Liga para a redação, explica, pede ao editor que ouça, ele gosta e manda que continue, embora o mundo artístico não seja sua especialidade. Rebeca toca com vontade, como se batesse em quem tornou a canção necessária. Ao fim da canção, o público de cerca de mil pessoas aplaude de pé. Patrícia não perde a chance...

- Boa noite, senhoras e senhores. Sejam bem-vindos. Este é o show de estréia da banda Dead Train, um show beneficente, como podem ver. É gratuito, mas se quiserem pagar ingressos na forma de donativos, ficaremos imensamente gratos. Eu sou Patty Petty, à minha esquerda temos Enzo e Renata, à minha direita, Conde Ronald e Bobby, logo atrás está a nossa mascotinha linda, Hot Rebeca.

- YEARRRR!!!

A baixinha faz a fuzarca na bateria, e Patrícia continua com a apresentação. Chama a próxima música e o show continua. The Dead Train está nos trilhos.
A notícia se espalha por New Jersey e logo a entidade fica abarrotada, tanto de gente quanto de donativos. Ninguém sabe quem são aqueles seis, mas gostam do que eles cantam e de sua iniciativa. Alguns boêmios nova-iorquinos, que buscavam algum lugar deprimente para suas elucubrações intelectuais, também se rendem e deixam para lamentar a vida em outra noite.

sábado, 1 de setembro de 2018

Dead Train in the rain XVII

    Estação dezessete. O mundo é rude e não perde a chance de tirar as esperanças de alguém, mas com nossos amigos ele falhou. Peguem sua teimosia e embarquem, o trem já vai partir.


Todos a bordo! Um GMC Coach com motor diesel marítimo, devidamente adaptado por Richard, aguarda os pré-astros da música para sua primeira turnê conjunta. O ônibus tem lugar para oito passageiros, atrás dos bancos há um dormitório, uma cozinha minúscula e um pequeno banheiro. Foi pintado de preto em baixo e verde acima da linha de cintura, as cores da banda. Há uma pequena comoção, a cidade inteira comparece às seis da manhã para se despedir dos garotos. Os bagageiros do Coach ficam lotados de mantimentos, material para primeiros socorros, cobertores, productos de higiene pessoal e filme, muito filme photográphico (...) Cada um leva sua câmera.

Sete horas, a porta se fecha e o ônibus parte. Pega rapidamente a rodovia e ruma para New York City. Mas antes uma visita a Cadillac, onde Richard entrega um compressor que fez de próprio punho, pelo qual recebe e então retomam o caminho...

- Agora que estamos a sós, posso contar uma coisa para vocês. Mr. Fischer me pediu para experimentar a carreira como técnico em competições de arrancada. Aquele foi o terceiro compressor que entreguei.

- Mamãe sabe?

- Vai saber, quando vir o saldo da nossa conta bancária (...) Esses sopradores são peças de muita precisão e podem destruir um motor, se mal regulados, esperei o primeiro completar um mês de uso, para aceitar a segunda encomenda. Na volta eu meto a cara no projecto e a grana começa a entrar de verdade.

A conversa se mantém em alto nível, animada, nem percebem o tempo passar e já chegam a Lansing (...) Ao contrário do que muitos pensam, inclusive alguns americanos, é esta a capital de Michigan. Todos já olham a população com olhos de profissionais da música, estão afinadíssimos. Alguém reconhece Richard, o cumprimenta e é apresentado à trupe, que ele diz apenas estar levando para conhecer a vida longe do conforto de suas pacatas cidades. O amigo aprova a idéia, diz que todos os pais deveriam fazer essa apresentação assistida aos filhos. Conta a história de um sobrinho que conheceu o mundo ainda cedo, por conta própria e de modo torto, cuja missa de sétimo dia foi tão dolorosa e repleta de culpa quanto seu sepultamento. Ele dá alguns detalhes e Robert começa a cutucar ritmicamente o peito, com os dedos indicador e médio, como se estivesse compondo uma melodia. Ronald o acompanha, discretamente. São convidados a um lanche.

A viagem começou muito bem, os seis discutem o ritmo que nasceu (...) Renata anota tudo em um caderninho, devidamente cifrado, com referências e detalhes do que gerou a música. São chamados à conversa, o anfitrião ainda não conhecia os garotos.

O ônibus parte (...) para Detroit. Relembram as experiências de suas viagens em família, que suscitam outras lembranças e algumas lambanças. Mesmo com mais de dez anos de uso, o veículo desliza como um Cadillac pela estrada. Ele foi completamente desmontado e aprimorado. Coisa que a linha de montagem seriada não permite, por questão de custos. Ou pensam que é simples parar uma linha de montagem para agregar detalhes e sofisticação? Sai mais barato fazer outra linha só para versões mais caras. Há, por exemplo, um motor eléctrico de 50hp no eixo dianteiro, para ajudar nas arrancadas, acelerações e regenerar as frenagens, inspirado no pioneiro Lohner Porsche, de fins do século XIX. Ter conhecido o Kilowatt de Fischer, o ajudou a se inspirar. Ao contrário do que acontece no Brasil, segundo soube por Renato, na América é fácil e barato conseguir peças e insumos.

Em Detroit eles vão ao estacionamento com que foi combinada a pernoite, depois saem para conhecer o museu de arte moderna. A cidade é pujante, a indústria metalúrgica lhe garante uma saúde financeira muito sólida (...) Richard ficou sabendo das Drag Races que há na cidade, pelos funcionários do estacionamento. Quer conhecê-las. Quando for época, também o Detroit Motor Show. Quer entrar de cabeça nesse ramo, mas sem negligenciar seus pupilos.

Acontece um incidente e Richard novamente para na delegacia, desta vez por uma tentativa de assalto. Ele levou um tiro de raspão, mas dominou os dois meliantes antes que ameaçassem os garotos, principalmente as garotas. Patrícia faz um curativo no pai (...) O chefe de polícia pergunta, vendo um negro entre eles, o que esses garotos estão fazendo nas ruas, e o mecânico explica, não tudo, mas bastante e a contento...

- Deixe eu ver, por gentileza... Aham... Sim, certo, parece tudo em ordem, senhor Gardner. Eu lamento muito que seu primeiro dia em Detroit tenha sido marcado por um incidente tão desagradável!

- Ah, tudo bem. Essa gente brota feito erva daninha em todos os lugares. Não fosse aqui, seria em New York, Los Angeles, qualquer lugar do mundo.

- Curativo pronto.

- Obrigado, filha. Ela cuida de mim melhor do que eu dela. Aliás, ela cuida da gente melhor do que eu deles. Até do conde.

Aponta para Ronald e causa espanto. O rapazote tem um porte altivo, quase arrogante, consegue se manter alinhado sem esforço. Ronald Julius Jean Patrick Marie Leon Denis Goulart Delizard Solei De Champs Elisée Roi Louis Van Provence Lumiére de Canard Noir de Savoir conversa um pouco com o bacharel e impressiona, não só pelo tamanho do nome, também pela vastidão cultural que herdou da família.

Saem com qualquer vestígio de má impressão debelado. Até porque foram preparados para encontrar isso (...) Seguem com o dia de folga, há coisas a conhecer, incluindo potenciais fãs.

Retomam a estrada meia hora após o desjejum, com tanque cheio e dois filmes a menos (...) nada foi photographado sem a presença de pelo menos um deles na imagem, tudo já visando registros para a carreira. Continuam clicando, sempre que aparece algo interessante na paisagem. Detroit, apesar do incidente, deixou uma boa impressão. Sobra dinheiro para a cultura e ela é prestigiada. Entretanto, viram uma quantidade considerável de carros importados, inclusive  Volkswagens como o de Nancy. Esse dinheiro sobrando pode ser um tiro pela culatra.

Entram em Ohio. Agora só param e descansam em Cleveland. Decidem alguns detalhes da viagem pelo caminho, inclusive que os filmes serão revelados em New York, com duplicatas a serem enviadas por correio a Sunshadow. Onde, no momento, a jovem Nancy distribui as notícias que já teve por telephone.

Um acidente e a viagem é interrompida. Um caminhão Studebaker 1950 foi abalroado pelo ônibus, saindo do posto de combustível. O motorista (...) subestimou a carga de sucata. Ninguém teve ferimentos graves, Patrícia cuida de contar isso à mãe antes que a imprensa local chegue. E chega rápido, estão a menos de cinqüenta milhas de New York. Renata olha atentamente para o caminhoneiro magricela, está vendo sombras ao seu redor. Relata a Patrícia assim que ela desliga o telephone...

- Sombras? Como assim?

- Ele está cercado por uma legião de trevosos. Bêbados, em sua maioria. Estão com pressa, tentando esconder algum mal feito.

- Isso explicaria ele não ter calculado direito a manobra, e sua agressividade também. Vou avisar o meu pai.

Enquanto a polícia tenta colher dados, o caminhoneiro tenta de todo jeito dar o assunto por encerrado (...) O policial estranha a pressa, troca olhares com o repórter e com Richard, que se prontifica a cutucar o leopardo...

- Por que essa pressa?

- Estou atrasado! Tenho muito o que fazer! Não é da sua conta, cuida da sua vida!

- Bêbado você não está, mas tá muito paranoico!

Ronald vai até o caminhão, ver se encontra algo estranho. No noticiário da tarde, o destaque é “Homem mata a própria filha na prensa do ferro velho e tenta esconder o corpo”. O pequeno conde recebeu sua primeira ameaça de morte, com altíssimo viés racista. O assassino chegou a puxar a arma e apontar para sua cabeça, até Richard mostrar para que deveria ser usada a força bruta. Dos dois tiros, um pegou de raspão, na face esquerda do rapazote. Aquelas revistinhas de detetives, que lhes pareciam tão absurdas há até um ano, começam a ser levadas a sério.

Richard e Patrícia consertam o que podem, comprando algumas peças no posto mesmo (...) se despedem do repórter, que ajudou bastante a encontrar um lugar seguro para os reparos pesados, mas antes ele dá um conselho...

- Senhor Gardner...

- Richard. Pode me tratar por Richard.

- Certo, pode me chamar de Matthew. Richard, eu vi que vocês se prepararam bem, mas tenho que dar um conselho. Fiquem de olhos bem abertos. A América ainda não é um país tão hospitaleiro quanto se pensa, nem com o próprio americano. Eu admiro muito quem enfrenta a morte com dignidade, o garoto negro se portou como um herói, mas heróis também morrem. Quando virem a cor da pele dele, o bom coração do público vai endurecer um pouco e todos se perguntarão se ele não provocou a tentativa de homicídio. Eu sei, é algo estúpido! Mas a estupidez ainda está muito arraigada na nossa sociedade. Não deixem ele andar sozinho pelas ruas, nem a garota médium, que será facilmente confundida com uma mexicana e também sofrerá alguma hostilidade.

- Eu sou brasileira.

- Desculpe ter falado de você, não sabia que estava perto... Brazilian? You’re from Brazil, in Soult America?

- Yes, I’m.

Ele fica empolgado. Conta das histórias que seu pai trouxe da guerra, dos brasileiros malucos que ninguém sabia de onde tinham saído, mas é elogioso em seu humor. Ele agradece à moçoila com um abraço, porque foi um brasileiro que salvou seu pai, levando-o nas costas, quando os próprios americanos disseram que estava morto e deveria ser deixado para trás. E vejam só...

- Daniel Ribeiro? É meu avô! Ele ainda vive em Rio Verde.

Aquela garota tão encantadora, que lhe deu um furo de reportagem (...) começa a ficar irresistivelmente linda. Ele chora. Viu vários vizinhos receberem a péssima notícia dos militares, gelou completamente quando três deles apareceram à sua porta, até ver que um deles era seu pai. Ele vai ao telephone e liga para os pais...

- Pai? Sim, sou eu... Lembra-se do Daniel Ribeiro?...Sim, ele mesmo... Acabo de conhecer a neta dele.

E assim os sete conseguem o bem mais precioso que se pode ter em New York, conseguem amigos. Já não estão mais sozinhos em uma cidade gigantesca e quase desconhecida, onde ninguém conhece ninguém. Quando se é um amigo, ser negro ou estrangeiro pesa bem menos na balança (...).

São aconselhados a mudar seus planos, esquecer a viagem à Los Angeles por terra e irem de avião. As passagens aéreas não são mais o luxo de outrora (...) Terão que deixar para conhecer o país inteiro em outra ocasião, talvez em uma turnê profissional. Por agora, tratam de descansar da manhã turbulenta e refazer os planos. Não poderão contar com o ônibus, que até agora lhes serve de alojamento. Da mesma forma, os suprimentos que estão no bagageiro perdem sua razão de ser. Matthew levanta o dedo e dá uma sugestão, há uma comunidade hispânica em New Jersey que ajuda pessoas carentes, tem um albergue onde os víveres seriam muito bem vindos.

- Sim, mãe, papai está refazendo todos os cálculos e roteiros. A gente vai sair daqui directo para Los Angeles, de avião.

- Ok, vou avisar Jose. Como está Ronald?

- Melhor do que todo o resto. Você não imagina como ele ficou altivo, com os olhos brilhando, depois de encarar aquele cara (...) parece que gostou de ter se metido em encrenca e ser ameaçado de morte! Sei lá, deve ser herança da tradição medieval que ele traz.

- E como está Renata?

- Outra com um sorriso de orelha a orelha. A cada decepção que temos aqui, ela parece ficar mais feliz.

- Só tem doido nessa banda... Menos mal. Enzo, Robert e Rebeca?

- Os dois tiveram que conter a baixinha, para ela não pular no pescoço do sujeito, e quase apanharam dela. As personalidades estão aflorando aqui, entende? Já sei exatamente com que tipo de gente estamos lidando; Gente que não troco por ninguém!

- Ah, muito bem! Tava começando a ficar brava – exclama Rebeca!

- Assim, sim, rabinho espichado – diz Renata.

- Falando da gente às escondidas, Patty Petty! Solta o verbo – Diz Ronald.

- Queria ouvir o que a pessoa do outro lado está falando também – Diz Enzo, se aproximando.

- O que a nossa adorável líder está tramando?

- Nadica de nada, Bobby. Mãe, depois conversamos, tem um parlamento querendo satisfações de sua rainha, aqui. Meus queridos, estamos tirando algumas coisas boas desses apuros todos. Os âmagos de nossas personalidades estão aflorando (...) Isso é bom, porque vai evitar que tenhamos surpresas desagradáveis em nossas turnês.

- Então, tudo bem se eu enforcar alguém com a fiação das caixas de som, se me irritarem?
- No, honey. Mas tudo bem se você impuser respeito. Não dá para fazer shows da cadeia, queridinha. Tranqüilizei Mamãe Urso, para ela conseguir dormir nesta noite fria.