quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Dead Train in the rain VII

    Esperança e desespero.
    A primeira apunhalada da vida, uma pessoa jamais esquece.


Há três anos sem um luto, Naomi ajuda a filha a preparar o aniversário de quatro anos da neta, ainda a única. Fester não (...) faz questão de colocar alguém para sofrer neste mundo estúpido. Fazem tudo de modo que as crianças não percebam. Para elas, será apenas uma surpresa depois da aula, “se fizerem por merecer”. Quando os outros chegam, é hora de Nancy tomar as rédeas e comandar a preparação. Os pais dos outros alunos também ajudam.

Richard (...) se empenha em dar os toques finais no presente feito para a filha. Construiu ele mesmo um ferrorama gigantesco, que montará na sala. A locomotiva é uma réplica das também gigantescas e aerodinâmicas steamliners dos anos trinta e quarenta, que assombraram o mundo com velocidades de até 125 milhas por hora. Bonecas? Sim, ela vai ganhar dos convidados, ele tem certeza disso (...) Passou um ano inteiro dedicado ao projecto, depois que viu a menina improvisando carrinhos com caixas de sapatos, onde colocava suas bonecas para dirigir. Desde que ela começou a cantar “Dead train in the rain” em vez das musiquinhas banais de crianças, teve certeza de que tinha um pequeno gênio em casa. Orgulhoso (...) mas com proporcional preocupação, sabe bem o que acontece com gênios neste mundo idiota, especialmente se tiverem vaginas. Estas transformam o mérito em golpe de sorte, aos olhos da sociedade. Embora saiba de estrelas de Hollywood com alto quociente intelectual, elas só são admiradas por suas plásticas.

Conclui os últimos testes e, dando a volta por fora, para Patrícia não ver, leva as peças à sala, para montá-las rapidamente e fazer a surpresa, assim que todos forem chamados para o “lanchinho” que prometeram.

Quando fica sério, Richard é taciturno, compenetrado como um lobo, mas quando decide brincar é o moleque em pessoa, pode ser comparado a Pã. Veste um fraque bordô e põe uma cartola azul teal, para recepcionar as crianças. Nenhuma pintura, sua cara de deboche é garantia suficiente de risos aos borbotões.

Terminada a aula, Naomi manda todo mundo ir lavar as mãos na lavanderia, para não estragarem a surpresa. A casa é simples, mas muito ampla, de madeira boa e com boas bitolas, construída no início do século, pouco antes de Sunshadow se tornar formalmente uma cidade, em vez de apenas um distrito de Summerfields. Foi comprada por uma ninharia, já que ninguém dá um centavo para morar em uma cidade que só tem acesso por um desvio, e a ele encerra.

Assim que Enzo dá o sinal, da janela do quarto do casal, ela coloca as crianças em fila indiana, com a neta por último. Cada mãe pega seu petiz (...) para que não se denuncie a surpresa à aniversariante. Assim que a menina chega ao umbral da porta, Nancy liga as luzes, que também acionam o trenzinho que apita e imita ruído de trem a vapor, e Richard faz das suas...

- Respeitável público! Apresentamos o show principal desta tarde! A genial, a fenomenal, a estratosférica, a bonitinha e fofinha Miss Patrícia Petty Gardner!

David coloca um disco de sua big band preferida e a menina adentra sob aplausos, absorta e encantada, naquela sala colorida, iluminada, repleta de gente amistosa e cheia de pacotes bonitos, além do trenzinho enorme se deslocando pelas paredes, nos trilhos suspensos em vários níveis. Aqueles olhinhos verdes brilham como nunca, e sua dona dispara para seu fantasiado pai.

Sabem esses dias que ficam na memória de uma pessoa por toda a vida? Que contribuem para formar seu caráter e sua capacidade de se relacionar com o mundo? Patrícia teve um deles.

&

A vingança dos racistas recai sobre o traidor da raça ariana. Richard teve tempo para tirar a família, mas Naomi, sem saber que a neta já estava salva, entrou desesperada e agora agoniza na casa em chamas. Nancy e Patrícia se desesperam com os gritos de dor da matriarca, que logo cessam, então elas é que gritam enlouquecidas, se abraçando e se desmanchando em lágrimas. Richard tem seu ateísmo consolidado naquele momento.

O cenário de filme de terror não abala. Abala participar do velório da que foi a moradora mais bem quista de Sunshadow. Apesar da idade, ainda era uma mulher bonita, mais ainda quando estava com as crianças, que choram copiosamente. Os Petty Gardner e Fester já esgotaram sua cota de lágrimas para o dia, permanecem taciturnos, silentes. Richard tem mais do que luto no olhar, tem ódio, tem uma raiva contida de religiões e sua “afinidade mórbida com quem produz holocaustos em nome de uma lenda imbecil” que ele não engole. Mais lhe dói testemunhar o sofrimento da família, especialmente de sua pequena jóia.

Chegam ao túmulo. O pastor (...) Se limita a lamentar a perda e encomendar a alma de Naomi. Ele também chora por dentro, ela foi uma paixão proibida que se recusou a deixar o noivo por sua causa. Sente-se culpado pelas tentativas da juventude, sente-se (...) ainda mais culpado por ser racista (...) sente-se pecador demais para merecer o reino dos céus, talvez por isso se esmere tanto em converter e guiar as pessoas pelo caminho da libertação, às vezes com empenho excessivo. Queria chorar por fora, mas não quer dar bandeira, ainda mais diante daquelas que poderiam ter sido sua filha e sua neta. Enquanto ora, cabisbaixo e em uma ladainha quase surda, recita “Obrigado por me livrar de um pecado, meu amor, me perdoe” na esperança de que ninguém ouça. Patrícia ouve. A avó a treinou em tempo integral, tem ouvido absoluto e discerne muito bem a pior dicção, mas por hoje a menina de oito anos não vai se preocupar com isso. Precisa confortar sua mãe, que tem o mesmo pensamento em relação ao rebento.

Só se salvou o que estava no galpão da oficina, posta a cinco metros da casa para não incomodar com seus ruídos (...) Se lembra quando, no último aniversário, ela lhe deu a última lição de vida...

- Mas eu não quero que você morra! Não quero perder você!

- Patrícia, ouça o que eu vou te dizer (...) O que eu sou hoje, o que sofro e do que usufruo hoje, tudo foi fruto de minhas escolhas, tudo derivou de minha estrita responsabilidade. No dia em que eu me for, eu quero ter a certeza de que você continuará com sua vida, não vou morrer sossegada se acreditar que não vai lutar por seus sonhos, não posso ter paz se souber que você vai se acomodar e se moldar ao que os outros querem que você seja. Sob hipótese alguma existirá céu para mim, se você cair na armadilha de ser feliz na medida do possível. Eu acredito em vidas futuras, mas tenho os pés no chão para saber que esta oportunidade, se você perder, nunca mais vai recuperar. Se eu, quando desencarnar, tiver concluído sua educação básica a contento, e você tem correspondido, eu vou feliz. Ainda que não possa te ver de novo, minha parte mais preciosa vai te acompanhar pela sua vida inteira.

- “Desencarnar”?

- Embora eu freqüente a igreja, como luterana, eu sigo a philosophia kardecista. Desencarnar, no kardecismo, é abandonar definitivamente o corpo (...) Um dia vai aparecer alguém para te explicar melhor, se eu não tiver tempo. O importante, meu amor, é que você seja a melhor Patrícia que puder ser. Não tente ser melhor do que o outro, porque ele pode se revelar um medíocre com pompa intelectual, e até uma lesma é melhor do que esses tipos. Seja você. Aprenda a se amar, não por causa de suas qualidades, porque isso é condicionar o amor. Se ame apesar de seus defeitos. Se amando, você saberá amar o próximo. Amando o próximo, em vez de o querer para sua estante, você saberá se desapegar e deixa-lo ir, como eu, quando for a minha hora. Se você me ama mesmo (...) você vai chorar quando eu for, mas só porque não poderá mais conviver comigo. Saudade dói mesmo. Mas depois vai passar. Sabendo que eu ficarei triste em te ver triste, você vai se esforçar em ter de mim o que eu te dei.

- Eu não quero te perder...

- Eu nunca fui sua, Patrícia. Sou sua avó, não sua boneca. Você não pode me perder porque não tem minha posse. E se não tem minha posse, pense bem, ainda que eu me vá, você nunca vai me perder. O que eu te passei até hoje, foi mais do que consegui passar à sua mãe durante toda a vida (...) Lembre-se sempre, Patrícia Petty Gardner, você nunca vai me perder. Você me ama, vai me deixar ir embora, e indo eu nunca vou sair do seu lado. O que eu te ensinei é o meu pedaço que nunca vai sair de você, e que nos ligará para sempre. Saudades doem, mas sabendo cuidar delas, elas também afagam. Lembre-se sempre disso, eu te amo.

A menina se lembra de cada palavra, cada expressão daquele rosto lindo e meigo, de cada movimento daqueles olhos austeros, mas também doces. Volta a lacrimejar, mas sorri...
- Também te amo, vovó. Obrigada.

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Dead Train in the rain VI

    Nasce uma amizade ainda de fraldas. Nossa protagonista precisará de todas as que tiver no longo caminho que tem à sua frente. Sexta estação de nossa viagem, apresentem seus bilhetes e vamos embarcar!


Patrícia observa, de dentro do Studbaker Commander amarelo ano 1947, aquele enorme trem na praça, sob chuva torrencial. O clima da cidade mudou bastante, desde que nasceu. Um raio de cem quilômetros ficou mais verdejante e com o ar mais fácil de ser respirado. Mas também tornou comuns os atoleiros (...) O prefeito foi o único a não gostar da mudança, teme perder as próximas eleições.
A menina já sabe falar um pouco, apesar de ainda se atrapalhar com palavras grandes, mas com o que conhece ela deslancha. Nancy vê o interesse da filha pela locomotiva da praça...
- That’s a dead train, honey.
- Dead train... In the rain...
E começa a cantar a frase, ainda de forma pueril, mas por isso mesmo encantadora. Na verdade a pequena canta melhor do que fala, sua dicção fica mais clara e inteligível. Richard agora sabe por que ainda não teve uma briga séria com Naomi, ela está muito entretida com Patrícia. Passa o dia inteiro lhe ensinando acordes e músicas simples, sempre com canções tradicionais da América. Até o choro dela é afinado! Não, os pais não ficam encantados enquanto a criança se esgoela e se desidrata de chorar, absolutamente, apenas é uma forma muito menos traumática de se perder horas preciosas de sono no meio da madrugada.
O carro entra na garagem pouco depois de a pequena terminar de cantar o refrão. Naomi se apressa em ir pegá-la, enchê-la de mimos e tudo mais, porque da parte severa da educação, os jovens pais estão dando conta. Dá um recado ao genro...
- Um homem de sotaque engraçado ligou, agradecendo pelo serviço no Oldsmobile.
- Sotaque engraçado... Ele falou “scusa, signora” ou coisa parecida? É o Enzo. Veio ainda garoto da Calábria, na Itália, mas só aprendeu a falar inglês depois dos dez anos. A família fugiu do fascismo, a história dele é muito interessante.
A história e seu amor pelo piccolo Enzo, figlio muito querido, que está aprendendo a falar os dois idiomas. Os cabelos negros encaracolados brilham ao sol recém-saído. O menino tem um gosto especial pela música, e é com música que os pais o educam. Ensino musical disciplina a índole de uma criança (...)
A vinte milhas dali, Patrícia canta uma cantiga que a avó traz da bélle époque. Não dá para negar, a mulher vê na neta um pouco da felicidade que perdeu ao longo dos anos. Que carma horroroso! Perdeu o segundo marido exactamente como viu o irmão mais novo morrer! Teve que trabalhar para ajudar a sustentar a família, pois o pai enlouqueceu com o trauma e cometeu suicídio, pulando na frente do primeiro trem que viu passando. Ela assistiu de perto a cena. E viveu cercada de cães e trens ao longo de seus cinqüenta e sete anos, até hoje. Como conseguiu educar tão bem os filhos (...) a psicologia explicaria, (...) Hoje eles são adultos, e não sabem como ela conseguiu. Na verdade o único sucesso sólido que a professora de música teve na vida, foi a boa educação dos filhos.
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Enzo e Richard se tornam rapidamente bons amigos. O facto de ele ser católico praticante, não implicou em falta de respeito mútuo, pelo contrário, eles trocam farpas humorísticas e depois tomam uma cerveja, enquanto as mulheres e as crianças se entretêm. A matriarca adopta mais um (...) Em minutos os bebês estão ao piano, aprendendo a reconhecer os acordes e dando sossego aos pais...
- Dead train in the rain...
- Você está com essa música na cabeça há dias!
- Dead train in the rain...
- Ok, vamos refinar isto.
Enzo começa a acompanhar e Naomi não tem escolha, além de ritmar (...) Como foi consigo, ela inicia desde cedo a escolarização das crianças, que de duas passam para três, para quatro, mais um casal, sempre com a música apoiando essa formação. E assim, no quintal da casa da filha, Naomi supre a falta de uma pré-escola na cidade. Os pais dos petizes pagam à Nancy, já que a mãe não aceita receber por isso.  Não se pode esperar que as provações tenham criado um anjo, o caráter forjado é paga suficiente. Naomi se viu mais de uma vez em apuros, por ser orgulhosa, embora as abrasões da vida a tenham ensinado a controlar essa índole...
- Então, quantas letras temos aqui?
- Vinte e sete -respondem as crianças, mas não ao mesmo tempo.
As familiariza com o alphabeto na mesma toada das outras matérias. É uma mulher de muita leitura, sempre se actualizou com a pedagogia moderna, mas não crê que alguns métodos antigos devam ser abandonados. Não abre mão da disciplina em sala de aula, ou em jardim de aula, como no caso.
Lhe dá trabalho, mas lidar com as crianças lhe faz muitíssimo bem! O luto não resistiu àquelas bochechas sorridentes. Chega a dar as risadas que já tinha esquecido como são, e que tomam rapidamente o lugar das rugas. Ao fim da manhã, quando as outras crianças vão embora, fica em Patrícia uma sensação de estranheza que ainda não superou. Não compreende por que os outros têm que ir embora. Desapego faz parte do aprendizado, e ele será útil na vida de adulta.
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Richard volta furioso da delegacia. Quase foi preso também, mas não poderia deixar o amigo de infância ser detido sem acusação formal. Piorou seu humor a declaração da acusadora, de que ele estaria invadindo um espaço indevido e constrangendo sua família. Por quê? Porque é negro. Mais do que isso, um negro em boas condições financeiras, que não troca de carro todos os anos, mas nunca está com carro velho ou caindo aos pedaços. Neste ano, aliás, David tirou um Plymouth Clipper vermelho 1950 modelo 1951 da loja, com os detalhes que encomendou à fábrica. Ainda há muita gente ressentida da abolição da escravatura e da guerra da secessão, tanto no sul quanto no norte do país, as cidades vizinhas não escapariam mesmo dessa doença...
- Ritchie, você é o irmão que eu não tive! Obrigado, cara!
- Não foi para isso que meu pai e meu tio morreram na guerra? Para combater uma mentalidade mesquinha e garantir a liberdade do mundo? Pode contar comigo sempre, irmão. Vai processar a paspalha?
- Vou, é claro. Não poso deixar que esse comportamento se dissemine. Não posso impedir as pessoas de serem idiotas, mas posso fazer com que hesitem em colocar sua idiotice em prática.
- WOW! Vou pintar uma placa com esta frase e colocar no meu portão!
Meia hora e a frase, com crédito, estampa a frente da casa, em amarelo com fundo preto. Longe dali, um pequeno grupo planeja se vingar da humilhação sofrida. Não aceitou ver um negro ser solto, após uma mulher branca o ter denunciado (...) não entendem o motivo de Richard ser amigo daquele negro, menos ainda de ser ateu, já que é bom e inteligente. O que os impede de tirar satisfações, são os mais de cento e cinqüenta quilos distribuídos em seus mais de dois metros de altura e sua boa capacidade de luta corporal.

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Dead Train in the rain V

    Gravem bem o nome desta pequerrucha! Ela decidiu quando deveria nascer, pois decidirá muito mais coisas de muita, mas muitas vidas.



Nancy e Richard têm seu primeiro rebento, uma menina. A pequena divide com os pais o pequeno espaço no quarto de hospital (...) onde eles, seus pais e avós nasceram. Aliás, a piada pronta da cidade é que ninguém passa por Sunshadow, porque nenhuma estrada passa por lá. Só há uma estradinha de pista simples, que desce da principal e morre na cidade, não há outra entrada ou saída. Só chega a Sunshadow quem quer chegar lá, ou quem perdeu o caminho. A cidade já foi próspera, muito próspera, até o início do século. Prosperidade que seus habitantes mantêm na conservação exemplar de suas construções e sua infraestrutura, ainda que tirem de seus bolsos.

A luz do poste é a única que ilumina o ambiente, a pedido da mãe, para não incomodar a filha, que fica na penumbra, enquanto seus pais têm o contraste duro da iluminação em seus rostos. O rosto duro e claramente amargurado de Richard, pela primeira vez em muitos anos, deixa transparecer ternura (...).

Curioso, mas estava chovendo há até cinco minutos antes de seu nascimento, após semanas de seca outonal. Também é digno de nota que todos pensam que estão viajando. Estavam a caminho de casa, quando a menina decidiu que seria naquela hora. Todo o planejamento pré-natal foi para o saco, mas estão felizes assim mesmo.

A noite transcorre sem qualquer alteração. Eles gostariam de acreditar que este é o temperamento da filha, mas sabem que pode ser só o cansaço pelo trabalho de sair e enfrentar a gravidade, sem o líquido amniótico para ajudar. Terão tempo para pensar nisso, por agora apenas dormem, porque a chuva voltou a cair pela segunda vez no dia.
Foram dois debaixo de sol, voltaram três debaixo de chuva. Não se tem notícias de a chuva persistir tanto na cidade, não de uma só vez. O resultado é que os quintais amanheceram encharcados, as plantas estão mais verdes do que o habitual, a umidade poupou o trabalho de tirar o pó da casa e o ar está mais agradável de respirar. Patrícia chegou em um momento atípico.
A verdade é que nascimentos tinham se tornado atípicos, desde o fim da guerra. Quase metade da população foi embora, traumatizada, para tentar esquecer a tristeza na cidade grande. Metade dos que foram voltou poucos anos depois, frustrada com o grau de dificuldades encontrado, tendo descoberto que a prosperidade prometida não era fácil como parecia, nem os critérios justos como se alardeia. Mas a taxa de natalidade caiu vertiginosamente. Sunshadow tinha quase sessenta mil habitantes em 1942, hoje não tem mais do que quarenta mil. A chegada de Patrícia se torna então, um evento social.

Não deixam de notar, todos os presentes, mas Naomi, mãe de Nancy, fica nitidamente mais jovem ao ver a neta. O marido, pivô do casamento precoce da enteada, é o primeiro a denunciar a luz no rosto da mulher (...)

- Nancy, ela é a cara do seu pai!

- Oh, não! (...) Ritchie, meu pai sempre foi assediado.

- E eu sempre (...) soube colocar seu pai na linha, assim como coloquei vocês dois...

Um pequeno lapso se dá. O tempo parece parar, quando se lembram que Gerald foi o último maquinista da locomotiva desativada, que hoje é a única atração da cidade, na praça central, cercada de flores, em um arranjo meio funesto. Foi apelidada de “trem morto”, quando os Petty Green receberam a péssima notícia.

Apesar de Sunshadow não ter lá muita coisa, cidades bem maiores estão próximas e oferecem boas oportunidades de emprego, mesmo não sendo metrópoles. Às vezes fica incômodo para o ego do cidadão, dizer que mora na cidade “Vai Quem Quer”, como ficou conhecida, especialmente quando um gaiato sem noção insiste em ouvir “Sou de Sunshadow” e responde “Ok, nascido em Vai Quem Quer”. Mas para alguns, isto constitui mais uma vantagem do que outra coisa. Se não atrai viajantes, tampouco atrai meliantes... Além do prefeito, é claro.
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Richard consola a sogra, Nancy tenta explicar à filha atônita o que é aquilo. Um dia após o aniversário da pequena, ela vê a mãe viúva novamente, e novamente por motivos estúpidos. Os policiais tiveram que matar os cães, para resgatar o corpo que estavam comendo. O dono do canil fugiu. (...) O homem se colocou na frende de uma moça negra com o filho nos braços, quando viu os animais escapando da propriedade em Summerfields.
Todos os dias Serguei rezava para tirar da enteada a má impressão que seu jeito rude tinha deixado, jeito que trouxe da vida dura na Rússia (...) de onde trouxe histórias tristes da vida em um país comunista. Bem, foi atendido, de quebra lhe deu um sentimento de culpa e revolta consigo mesma (...) Sunshadow inteira chora, Naomi é uma moradora muito bem quista, mas nunca teve um só dia de sossego na vida, nunca passou um ano sem um luto, em família ou particular. Ainda há o pacto entre os moradores de proteção mútua, mas isso nunca foi empecilho para Dona Morte e sua falta de educação ao entrar nas casas.
O cortejo passa em frente à praça central, tendo a gigantesca locomotiva 4-4-4-4 como testemunha. Carros antigos e novos seguem a pick-up Studebaker 1942, que leva o caixão. Desde o Chevrolet 490 1919 do carteiro, até o Recém-comprado Bel-Air modelo 1949 do prefeito, onde viaja a viúva. Uma mulher linda ainda hoje (...) ela já está acostumada a levar essas apunhaladas da vida, mas nunca perdeu a sensibilidade.
Fica acertado, Fester e a esposa passam a morar na casa da mãe, que passa a morar com a filha mais velha, onde a neta a distrairá de sua viuvez estúpida. O próprio Richard propôs isso, para a surpresa geral...
- Brigas? Mas é claro que haverá brigas, Nancy! Todo mundo briga, nós mesmos já brigamos. Se alguém não está preparado para manter uma relação apesar dos conflitos, não está preparado para viver em sociedade. É brigando que a gente se entende mais tarde, querida.
Diz e sai para o galpão que lhe serve de oficina, onde um velho Packard 1927 (...) espera pela troca da junta do cabeçote... Depois, é claro, de ser asfixiado por um beijo da linda e jovem esposa. A genética sempre foi generosa com Sunshadow.
Richard aprendeu com o falecido tio, que o pior luto é o da decisão não tomada, aprendeu com seu saudoso pai que a melhor decisão é a que se tiver tomado. Arrependimentos fazem parte de se tornar um adulto. Patrícia, serelepe, fica feliz em ter a avó por perto todos os dias, Naomi mais ainda, cantando cantigas de sua infância para entreter a pequerrucha.

domingo, 19 de agosto de 2018

Dead Train in the rain IV

    Um dos personagens mais importantes do livro. Importante a ponto de nada fazer sentido sem ele. O monstro, o gigante, perto de quem Brad Pitt é o  patinho feio, aquele que faria Goethe parecer um idiota e Jason Momoa um anêmico! O guru e protetor dos personagens principais...



Richard ainda estava revoltado com a perda do pai e do tio, mas deixando sua fúria inaparente (...) meditativo. Sua mãe chamou o pastor para tentar ajudá-lo, já que não confiava em psicoterapeutas. Ouviu falar horrores dessa gente, principalmente por falarem de sexo. Onde já se viu?

Em uma triste tarde de inverno, quando o risco de congelamento já não era acrescido do de ficar atolado na neve, o pastor Bruce Robinson chegou à casa dos Gardner, para falar com o rapazote. Como sempre leu trechos da bíblia, enfatizando as recompensas celestes que esperam pelos justos...

- Portanto, pequeno Richard, você não precisa ficar triste. Seu pai e seu tio estão na companhia do Senhor, gozando das recompensas celestes, enquanto o assassino está condenado às danações eternas do inferno.

O silêncio do musculoso rapaz era tão perturbador quanto seu olhar de reprovação, ele conhecia a bíblia de trás para frente, saberia citar qualquer passagem apenas puxando facilmente pela memória. Olhar que acentuava o efeito intimidador de seu porte físico. Ficaram quase meia hora no silêncio lúgubre, até ele mesmo o quebrar...

- É só isso que tem a me dizer?

Sua voz grave e severa ecoava pela casa, mesmo sem uma nota mais alta. O velho pastor (...) Balbucia um “sim” tímido e tem uma resposta...

- Então é isso, Deus não existe. Assim como meu pai, o soldado que lançou a bomba provavelmente é luterano (...) um coitado que foi arrastado para uma guerra estúpida, que teve o aval de uma sociedade imbecil, apoiada na idéia cretina de que um ser superior escolhe quem vai sofrer e quem não vai. Aquilo foi uma guerra, matar não é uma opção, é questão de sair vivo. Onde estava esse seu Deus (...) enquanto ele era bombardeado?

- Estava com seu pai e seu tio, morrendo com eles... Para expiar seus pecados!

- Então confessa que seu deus está morto. Por que diabos esse deus idiota preferiu morrer, em vez de salvar... Aliás, por que ele deixou essa guerra acontecer?

O embate tem início, talvez mais feroz do que o conflito que assolou e devastou o velho mundo.  A certa altura, com livros de história e geografia universitários em mãos (...) ele coloca Robinson contra a parede. Ele nunca foi um fiél submisso e de olhos vendados, sempre foi adepto da máxima “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”, que agora se volta quem a pregou...

- Aqueles alemães não escolheram nascer na Alemanha, da mesma forma como meu pai não escolheu ser americano. Então por que uns são punidos por nascerem em países inimigos? Aliás, já que “a alma é criada no acto da concepção”, por que seu deus deixa tanta criança inocente nascer nos países miseráveis da América do Sul? Que pecados elas tinham, se não existiam antes?

Daquela conversa, que da meia hora esperada durou uma tarde inteira, e para o escândalo da família inteira, Richard sai completamente ateu. Se não tinha motivos para comemorar o natal, neste ano, agora tem um para nunca mais querer fazê-lo... pelo menos não com sentido metafísico, porque os presentes ele quer, podem guardar a lista que ele fez, porque os presentes de vocês serão comprados.

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O desgosto de Richard pela vida se acentua rapidamente. A mãe morreu de tristeza, não suportou a viuvez estúpida. Sua irmã Deborah aparentemente enlouqueceu e sumiu sem deixar rastros. O rapaz estava sozinho no mundo, sem ter nem mesmo a quem dizer “bom dia”. A casa da família era enorme, com cômodos amplos e um terreno que era quase um sítio. Poucas pessoas além de Nancy sabiam o quanto isso oprimia o coração que aquela cara de malvado esconde.

Paralelamente, Nancy tem brigas quase que diárias com seu padrasto. Serguei Bruchev se deu bem com todos desde que chegou da União Soviética, menos com ela. As raras vezes em que conseguem conversar são pontilhadas de pérolas, que ela consegue tirar pedagogicamente dele, de sua vida na Rússia. Desmentindo mitos e confirmando algumas neuroses americanas acerca do comunismo.

Para não transformar os desentendimentos em inimizade, poupar a mãe de desgostos e dar companhia ao amado, casa-se com Richard ainda muito jovem, passando para a casa onde os fantasmas da família assombravam o mecânico, também muito jovem. As relações com o padrasto melhoram muito, mas a má impressão já está instalada.

sábado, 18 de agosto de 2018

Dead Train in the rain III

    Mais um trecho da viagem que vai durar mais do que vocês imaginam, por isso a cada estação a despensa do trem é reabastecida. Isto não é um conto de aventuras, embora as tenha, é uma história de vidas inteiras.


Depois que os militares saíram, elas ainda ficaram um bom tempo se consolando sem saber direito quem a quem. Fester, irmão caçula, preferiu ficar no quintal, para ver seu mundo desabando sem que os outros o vissem chorando (...)
Nancy liga para Richard, seu namorado. Ele também perdeu o pai, além do tio que lhe ensinou o ofício de mecânico, ouviu seu grito a poucas casas de distância. O garoto está descrente do futuro, não só por causa do duplo luto. Começou a estudar e trabalhar muito cedo, apenas pelo prazer de ser útil, imitando seu herói paterno. Sua mãe lhe disse “Deus o trará de volta”, no que pensou se seu pai era tão melhor do que os outros, para ter esse privilégio. Ele consegue consolá-la, mas não com palavras de consolo propriamente ditas, lhe diz que não há escolha, que seguir em frente é o único caminho possível...
- Mas eu estou perdida!
- Eu também. Está escuro, não sei o que existe lá na frente, mas sei o que existe lá atrás e não quero ficar lá. Ainda se pudéssemos trazê-los de volta... mas não podemos! Não vamos voltar no tempo se deixarmos de viver nossas vidas...
A convence a ser forte, depois que passar o pior do luto. Ele está em uma situação delicada porque precisa consolar mãe, irmã, tia e toda a família da namorada, precisa ser forte, mas por dentro quer colo. Não só isso, ainda terá o ônus de assumir precocemente a responsabilidade financeira por sua família e esquecer os próprios sonhos.
Naquele ano o natal não teve luzes. A cidade, pequena, tinha perdido mil de seus habitantes para a guerra. Não havia uma alma em Sunshadow que não amargasse luto, quer em família, quer por proximidade e amizade. Algumas crianças ainda colavam os rostos nas janelas, na vã esperança de que tivessem mentido ou se enganado, que veriam seus pais chegando no meio da neve, com as mãos cheias de presentes, com o típico sorriso cínico dos cidadãos locais. Ninguém apareceu.
A cidade mais esquecida de Michigan agora era também a mais triste. Eles sempre contaram só consigo, já que o Estado e Washington nunca priorizaram uma cidade que parece não ter futuro, de estar sempre à beira da extinção. Mas na hora de ir às armas, foi uma das com perda proporcional mais cara.
Por esse desprezo explícito ainda existe o pacto de proteção mútua entre os nativos, que chegam a cuidar das casas desocupadas (...) não querem que o ar de cidade-fantasma se repita na sua. A desvalorização dos imóveis é o de menos para eles, querem manter a dignidade de Sunshadow, como a de seus habitantes. Sabem de cidades que desapareceram ou estão em vias de extinção, por falta de habitantes. Não querem que seu lar tenha o mesmo destino, mas a taxa de natalidade tem sido perversa.
Com o fim da guerra os Estados Unidos entram em uma euforia inédita. Apesar da União Soviética, ninguém contesta sua liderança, o que reforça o clima interno festivo. Entretanto, lugares como a pequena Sunshadow só sentem o amargor aumentar. Nenhum de seus filhos voltou. Nenhum. Piora o facto de nenhuma cidade vizinha dar valor ao sacrifício que aquela gente esquecida ofereceu. Poderia ser, de então em diante, a cidade dos mil heróis, mas aos olhos do Estado continuava a ser a desprezada Vai Quem Quer; Pequena demais, sem qualquer atrativo, com uma arrecadação medíocre e sem expressividade regional; além de tradicional bode expiatório da região.
A ferrovia é desactivada poucos meses depois, por falta de demanda, tirando a única fonte confiável de recursos para a cidade. Para muita gente, Sunshadow não duraria muito mais tempo, se tornaria uma cidade fantasma como tantas outras pelo país. Os cidadãos, porém, tinham outros planos, ainda que ficassem conhecidos como mulas teimosas.

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Dead Train in the rain II

    Dada a partida, vamos conhecer os primeiros personagens. Espero que a época retratada em cada trecho esteja clara aos leitores, pois nada, ne mesmo uma vírgula é acessório nesta longa ferrovia.

    Aboletem-se em seus assentos, a viagem começa agora.



Ela escolhe com cuidado a carta que vai mandar, escreveu três para eleger a mais adequada. Por mais que lhe doa o coração, e dói como uma facada, não se vê no direito de ser um ponto fraco ou mesmo um obstáculo aos planos de seu amado (...) . Escolhe a terceira, é a mais firme e não dará chances de retorno. Atravessa a praça central e entra na agência dos correios segurando os prantos. Na volta manda os irmãos para a escola e desata a chorar, mas não destrói as cartas não enviadas, assim como não o fez com as anteriores. Alisa o camafeu que ele lhe deu, quando se conheceram, mas também não tem coragem para se livrar dele, o guarda com as cartas. Lá fora uma carroça leiteira mal lubrificada entoa uma canção triste, como se chorasse. Ela ama aquele homem, como o ama! Por isso mesmo disse adeus.

Quando os garotos voltam, uma maquiagem leve já disfarçou o rubor e o jantar está quase pronto. Nos dias consecutivos ela se empenha em costurar, escrever, reforçar a educação dos irmãos e se resignar. Não é só o coração que está partido, David era uma esperança de uma moça sozinha e seus irmãos mais novos saírem do sufoco financeiro. Naomi suspira e volta a trabalhar na costura, às vezes também assinando colunas no jornal com um cognome masculino, sabe que uma mulher falando de economia e política nunca seria levada a sério, mesmo já estando em plenos e prósperos anos vinte. Mas eis que um dia aparece um homem que aceita se casar com uma mulher muito mais inteligente do que ele, aceita acolher os garotos e as coisas ficam menos pesadas. O maquinista ajuda a transformar os garotos em homens e ganha de presente dois lindos rebentos. Por algum tempo o coração daquela mulher sábia e sofrida terá descanso.

&
Nancy chegou mais cedo em casa, dispensada das duas últimas aulas por conta de um telephonema que a direção recebeu, mas isso não lhe foi dito. Não que não gostasse delas, amava, mas já estava estafada daquela maratona de estudos. Como a mãe, quer ser professora. Tem muita paciência com crianças, mas praticamente nenhuma com adultos chatos. E, Deus! Como eles conseguem ser chatos! Parece ser um esporte popular entre eles!
O festival de twist de sábado ainda cobrava os tributos, pesados demais para quem viu a vitória ser roubada, todos desconfiam que seja por causa de sua origem, especialmente porque imitou Carmem Miranda melhor do que todas as outras, sem estereótipos, mesmo sendo loura; o preconceito contra quem sai de Sunshadow ainda é grande. Estranhou o clima assim que entrou. Na realidade, nem se lembrava de que estavam em plena guerra. Tremeu nas bases quando viu sua mãe chorando desesperada e um oficial da marinha embaraçado, olhando para si como se tivesse feito algo errado. Só seu gato Beef agia assim. Então ela se lembrou de que estavam em guerra, e que a sua casa era a única na rua que ainda não tinha recebido aquela notícia horrorosa...
- We’re sorry, Nancy... But...
O Tenente Gerald Petty Green, o último sunshadower ainda vivo no front, fora completamente destroçado por uma bomba nazista, nem a cabeça inteira sobrou para a família enterrar. Beef só teria mais uma semana de vida.

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Dead Train in the rain - I

    Caríssimos, como sabeis alguns de vós, eu escrevo. Não só em blogs, nos quais tenho sido mais esporádico do que gostaria, mas tenho uma obra escrita em novecentas páginas com fonte 9.

    Pois sim, vendo a dificuldade em manter o Talicoisa respirando por motivos que não vêm ao caso, aproveitarei a ociosidade para fazer deste o obstetra do Dead Train, porque meus sete leitores betas estão com dificuldades em manter o compromisso e, enfim, estou fazendo tudo sozinho.

    Sem mais, espero que apreciem e saboreiem os petiscos nesta longa viagem.

DEAD TRAIN


Ele chega ao povoado com o cenho franzido, sem saber como dar a notícia. Foram dias de argumentação infrutífera, ante um homem de coração duro e miolo mole. Assim que desce do cavalo, é cercado pelas duas centenas de habitantes...


- Senhores! Tenho uma boa notícia e uma má notícia. A boa é que concordaram em nos deixar aqui, já que não vai custar nada para eles.


Há um início de festejo, ele deixa que se alegrem, mas solta a bomba assim que eles caem em si, vendo sua expressão preocupada...


- A má é que estamos por nossa conta. Não vão investir um Dólar furado em nossa cidade (...) Sabem o que disseram de nós? Que até o sol faz sombra para nossa gente.

As pessoas que foram persuadidas a irem para aquela área, décadas antes, com a promessa de desenvolvimento e prosperidade, se vêem sozinhas. Fazem um acordo comum de proteção, já que o governo acha a estação provisória muito desprovida de importância para receber sua atenção. Refere-se ao povoado como “lugarzinho à sombra do sol”, para não perder apoio político chamando-o claramente de desprezível, enquanto as cidades próximas decidem acaloradamente qual o terá como distrito, perde a que for escolhida...

- Então, minha gente, vamos trabalhar, porque precisamos disso mais do que o resto do país.

E o filho de um ladrão com uma ex-meretriz é formalmente aceito como o primeiro líder da comunidade, não que ele quisesse a encrenca. Se tinham alternativa? Não, nenhuma.