domingo, 26 de agosto de 2018

Dead Train in the rain XI

    Começa nesta décima primeira estação o trabalho de nossa protagonista, para  nunca mais terminar. Aboletem-se em suas poltronas, que o trem vai partir.

Os adultos conversam sobre entretenimento. Os amigos já estão grandinhos o bastante para que não atrapalhem a conversa, mesmo Rebeca. Os seis, educados com música, têm ouvidos mais apurados e concordam com o que os pais dizem, é preciso filtrar bastante o que se ouve no rádio, tem muito cantor famoso que só solta sopa de letrinhas ritmadas...

- No decorrer dessa estrada, as porcarias vão acabar se tornando maioria nas rádios! São fáceis de memorizar e empolgam!

- Uma coisa é música meramente de entretenimento - responde Fester ao cunhado - o que é até saudável. O problema é quando a malícia e a preguiça de compor saem do controle.

- Vamos ser claros, Fester! O problema é quando vira sacanagem, e tá virando rotina! Quando os caras não estão nem aí pro que vão falar, soltam titica no microphone e depois viram as costas... E eu me importar com isso é prova de que estou ficando velho...

Os seis também costumam conversar a respeito, já cogitaram formar uma banda ou algo parecido (...) Patrícia, em um longuete verde escuro com alças finas e cinta de tecido negro, solta seu sarcasmo musicalmente...

- Is only bla-bla-bla, bla-bla-bla in the radio! Bla-bla-bla, bla-bla-bla, oh, my love!

Os adultos a olham, Richard coça o queixo e pede que ela repita. Ela repete e ele marca com palmas o andamento, os outros a acompanham e sai algo até interessante...

- We no have a love for the music! We no have a love for the art! Does not matter if a people listen a trash from us. But you are crazy for buy our records, it’s all we want from you!

We have a bla-bla-bla, bla-bla-bla in the radio! Bla-bla-bla, bla-bla-bla, oh, my love!

              Is only bla-bla-bla, bla-bla-bla in the radio! Bla-bla-bla, bla-bla-bla, oh, my honey!

They are a bla-bla-bla bla-bla-band on the air!

- Cara! Vocês têm talento!

Eles finalmente contam, até porque ninguém tinha perguntado, o que tanto fazem naquela locomotiva morta (...) Eles conversam cantando, baixinho, para terem alguma privacidade em local público. Embora já grandinhos e responsáveis, ainda são crianças diante do mundo, por isso os adultos convocam uma reunião com os parentes, para discutirem o que podem fazer por eles. Robert é órfão, nunca foi adoptado, então são só ele e Norma para tratar de Bobby e Rebeca; a menina já tem cinturinha e começa a destacar o busto, o rapazote só consegue falar direito cantando, porque a voz começou a mudar e lhe causa constrangimentos.

Fica claro que eles gostam da idéia de formar uma banda profissional. Fica claro também, que ninguém quer que eles se aventurem pelo mundo em tenra idade, menos ainda antes de terminarem os estudos. Fica ainda mais claro que precisam investir nos seis, que eles precisam sair mais da região, ver o que acontece no mundo com seus próprios olhos, conhecer bastidores, ver também os podres do mundo artístico e amadurecer o projecto da banda que já tem nome: Dead Train. Tudo acertado, deixam a parte musical para os rebentos (...) os adultos cuidarão do resto, e isso inclui um curso prático de não deslumbramento com a possível fama. E, é óbvio, fazem uma festa para expressar a corujice aguda e crônica que acabam de contrair; uma doença incurável. Os adultos não cabem em si.

&

Aproveitam um fim de semana prolongado. Cada família leva seu cantor para um lugar diferente, para que eles tenham experiências diferentes para compartilhar. Nancy e Richard decidem levar Patrícia para o Canada, para ela conhecer algo diferente. Uma fronteira (...) faz muita diferença! Renato e Eduarda levam Renata para Chicago, Robert e Norma levam Bobby e Rebeca para Cleveland, David e Diana levam Ronald e Lucille para Milwaukee, Enzo e Maria levam Enzo, Marina e Victoria para Detroit. Ninguém faz uma viagem muito longa, já que o objetivo é que os cantores aprendam com o lugar, que sintam as diferenças e entendam o que é estar em uma terra estranha, como será quando estrearem. Para Renata a aventura é dupla, porque faz pouco tempo que está em solo americano. Salvo para os nobres, que são parados mais vezes pela polícia, nenhum contratempo.

Todos trazem photographias para compartilhar. De doze a trinta, cada um expõe as suas, Patrícia cataloga e pormenoriza por escrito no verso de cada uma (...) As diferenças são maiores do que imaginavam. Enzo destaca a pujança de Detroit, mas também uma certa despreocupação com o futuro, que seus avós lhe ensinaram que não é prudente. E agora o mais importante, todos trouxeram discos de vários artistas, alguns só conhecidos localmente, para ouvir, avaliar e aprender. Ronald conta uma experiência, que seus pais estão repassando aos adultos...

- Muitos motociclistas com jaquetas de couro abertas, alguns de peito nu, aspecto agressivo. Alguns usavam brincos, tinham cabelos longos, enfim... Quando nós entramos no posto para abastecer e comer, um deles veio puxar conversa, usando o carro novo como pretexto. Os mais velhos deles eram veteranos de guerra...

- Agora eu fiquei intrigada - diz Patrícia. Militares não deveriam ser disciplinados, organizados e ajustados?

- Tem a ver com o que eles viram na guerra e com o que viram na volta. Eles lutaram contra regimes extremamente conservadores, intolerantes e que não davam a menor importância para o indivíduo. Quando chegaram de lá, encontraram algo muito parecido...

Os outros fazem caras de espanto, beirando o estarrecimento, mas ele continua...

- Eles sabiam que suas mulheres tinham tomado as rédeas da casa, que as mulheres em geral tinham dado muito bem conta do recado, tanto que não faltou munição durante o conflito! Na volta, o que viram foi a mesma visão machista que deixaram aqui, e contra a qual lutaram, a segregação racial contra a qual lutaram, o condicionamento da liberdade à adequação aos estereótipos contra os quais lutaram, enfim... Eles abdicaram da vida de conforto e conveniências que o que eles chamam de prisão sutil oferece.

Os jovens se olham, Rebeca com mais espanto e indignação, sem saber o que dizer a respeito. O mais chocante não é eles terem adoptado uma vida livre, é o motivo por o terem feito. Condicionamento meramente protocolar da liberdade dentro do grupo social é a coisa mais antiamericana que já ouviram...

- Foi o que eles nos falaram, Renata. Que a América estava praticando dentro de casa, exactamente o contrário do que pregava nas propagandas. Por exemplo, as sete abordagens policiais palas quais passamos. Éramos quatro negros em um Mercury Sedan praticamente novo, com todos os opcionais de fábrica. Os policiais, provavelmente, têm os mesmos carros há uns cinco anos ou mais (...) Nós trocamos de carro quando quisermos, mas preferimos não ser consumistas inveterados, que foi outra coisa que os motoqueiros apontaram.

- E por serem negros em um carro de luxo - completa Robert - eles sentiram seus orgulhos feridos, é isso?

- Acreditamos que sim, embora nenhum deles tenha sido ríspido ou desrespeitoso em momento algum, pelo contrário, mas fugir dos padrões os incomoda. Aliás, sabiam que é crime branco se casar com negro, nos Estados Unidos?

A discussão dura a tarde inteira, entra em um pedaço da noite e só acaba quando os pais visitantes levam seus filhos de volta para casa. Patrícia, em particular, começa a meditar com profundidade, acoplando à sua própria experiência o que ouviu. Conheceu essa barreira quando tiveram que estudar em outra cidade. Todos os dias os colegas de escola dizem que dará trabalho para o marido, que sendo tão mandona não vai arranjar ninguém. Sua mãe lhe contou de como tiveram que sobreviver durante a guerra, das restrições de orçamento e consumo, dos improvisos que se viram obrigados a fazer até na maquiagem, da dureza que deveria ter sido um aprendizado para o país inteiro; infelizmente tem que concordar com os motoqueiros, embora não queira a vida desregrada que têm.

sábado, 25 de agosto de 2018

Dead Train in the rain X

    Houve época em que a imigração era relativamente simples. Nesta décima estação mais um pilar de nossa trama embarca e já vamos partir.


Vizinhos novos. (...) fazia mais de cem anos que nenhuma família de fora se mudava para lá, a proliferação se dava entre os habitantes mesmo. Robert estaciona o caminhão bem em frente à casa, comprada por uma pechincha, abre o baú e deixa os chapas trabalharem, enquanto a família desce do Nash Ambassador 1951 com pintura prata e preta. Ele vai à casa dos amigos, avisá-los dos detalhes da novidade...

- Brazilians???

- Sim, brasileiros! Vieram na semana passada e hoje cedo conseguiram os móveis para a mudança. Eles falam uma língua muito estranha entre si, quase parecendo um pouco com o espanhol, que eu falo um pouco, mas é bem mais complicada e cheia de sotaques.

- Suponho que eles falem um pouco do nosso inglês, não?

- Sim, Nancy, eles e a filha até que falam muito bem, com o seu sotaque carregado. Eu – o caminhoneiro fica encabulado, mas desta vez tem que pedir ajuda...  Eu sou um homem ignorante, vocês sabem, quase tudo o que aprendi foi com a vida, então gostaria de saber se vocês podem me informar algo sobre o Brasil, porque eu acho que cometi muitas gafes e mesmo assim eles relevaram, até deram risadas...

Nancy faz que vai à biblioteca, mas Patrícia já chega antes com um atlas e uma enciclopédia. Não sabem que raios fez uma família viajar milhares de milhas até a “famosa” Vai-Quem-Quer, quando têm Detroit a menos de três horas de carro. E o que brasileiros vieram fazer naquele fim de mundo, com Nova Iorque tão chamativa e atraente? É o que Patrícia vai descobrir, enquanto os adultos conversam. Ela vê uma menina com pele mais corada do que seus concidadãos têm, o que não é difícil naquela latitude, cabelos espaçadamente enrolados, bonita e curiosa, que acena assim que a vê...

- Hi! How are you?

- Oi. Vou bem, obrigada. Eu sou Patrícia Petty Gardner.

- Prazer, sou Renata. Renata Rodrigues Ribeiro Rocha.

- Wellcome, Renata.

Conversam descompromissadamente, conversa de meninas. Patrícia percebe que a brasileira é muito expansiva, que puxa conversa com uma facilidade gigantesca e não tem pudores de falar de sua vida. Renata leva a americana perplexa para os pais conhecerem. Surpresos, eles pedem desculpas e saúdam a nativa, que é cumprimentada com abraços... Ela nunca fora abraçada por estranhos, fica sem jeito para retribuir! Em meia hora sabe mais dos brasileiros do que Robert (...) Ela faz as vezes de diplomata, avisando a cada parte as sensibilidades da outra, e intermedia a conversa dos adultos. Os goianos fazem questão de preparar um café quentinho, coado na hora, o que é bem-vindo, o clima da região é muito mais frio do que o planalto central brasileiro. O café quente quebra o gelo. Uma hora depois, sai o pão-de-queijo quentinho do forno. Sunshadow adopta a receita, embora não consiga reproduzir todos os efeitos que o quitute oferece, em mãos hábeis.

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Logo a família “Three-R”, como fica conhecida, é formalmente apresentada à cidade por Nancy e Richard. A primeira gafe vem quando alguém grita “olé”, lá do fundo. Os anfitriões ficam mais vermelhos do que o batom de Eduarda...

- Peter, não me faça passar uma vergonha dessas...

Os brasileiros caem na risada, fazem piada e mostram um pouco do que sabem de samba, afinal não são cariocas. As apresentações continuam e também os esclarecimentos. Cidade muito pequena tem suas virtudes, é fácil reunir todo mundo e deixar tudo em pratos limpos. Renato e Eduarda escolheram-na a dedo. É perto de todos os recursos de uma cidade grande (...) a fama injusta da cidade faz os imóveis valerem quase nada, não gastaram metade do que pretendiam, comprando a casa ampla e arejada em que passaram a morar. Alguém pergunta a religião e a mulher responde “espíritas kardecistas”. Novamente têm que desfazer brumas, pois confundem com “santeria”, que em si é uma confusão de quem não sabe do que está falando. Patrícia ficou mais atenta, lembrou-se do que disse sua avó, sobre alguém lhe explicar no tempo devido, se ela não pudesse fazê-lo. Fica quieta e atenta, até as apresentações findarem e todo mundo passar para um buffet, que tem colaboração dos brasileiros, com quitandas goianas. Chama sua turma e Renata para um lugar reservado na praça, o trem morto...

- Que surpresa! Nunca pensei que fosse saber de uma kardecista nos Estados Unidos!

- O que você pode me falar a respeito?

- Que eu tenho inveja de você, inveja boa. Uma alma assim, não reencarna para qualquer um. É um pouco polêmico falar disso com quem não tem conhecimento prévio, mas posso te emprestar o Livro dos Espíritos e algumas revistas espíritas que trouxe do Brasil... Só que estão em português.

- Se o português é tão complicado como vocês falam - interrompe Ronald - então você teria que ler para ela.

- Com todo prazer.

- Eu aceito a ajuda, mas quero aprender. Aliás, nós cinco vamos aprender português. Um idioma novo é uma alma nova, dizia minha avó.

Renata fica surpresa com a capacidade de comando e com a prontidão com que Patrícia é atendida. Tão surpresa quanto com a rapidez com que entra na dança, e se torna o sexto membro da turma do trem morto. E é nele que todos aprenderão, como fica combinado. Todos os dias, quando encontra tempo livre, pelo menos um deles é visto na locomotiva, freqüentemente os seis. Não que seja raro os garotos se valerem dele, é um dos brinquedos preferidos da escassa juventude sunshadower, mas suas seis carinhas são as predominantes naquele canteiro central.

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Dead Train in the rain IX

    Os laços são feitos e devidamente arrematados entre nossos amigos.
    Nona estação, parada rápida, todos a bordo que o trem vai partir.


Turma formada, todos devidamente acomodados, Nancy começa como pode, para quebrar o gelo. Começa a aula cantando...

- Boa tarde, crianças.

- Boa tarde, professora - respondem na mesma melodia, se divertindo.

Funcionou. Pede, ainda cantarolando, que ajudem o garoto de fora, para que consiga alcançar o resto. Entre conversas normais e cantaroladas, o conteúdo é apresentado, explicado, discutido e exercícios práticos realizados. Exactamente como sua mãe lhe ensinava, com a inclusão de técnicas modernas.

Com sua experiência ao balcão, ensina matemática de forma prática, com exemplos próximos e mostrando a utilidade, inclusive usando as bombas de combustível para demonstrar frações e cálculo de volume. No fim da tarde, vê que não se saiu mal, embora ainda esteja com as pernas tremendo. Planeja a aula de amanhã, esperando tremer menos.

Com alguma dificuldade, Robert júnior consegue alcançar os demais. Rebeca, sua irmã, tem aulas à parte, pois ainda é muito novinha, mas grande o bastante para iniciar a carreira estudantil. O ensino intensivo de música surte efeitos positivos nos irmãos, especialmente no garoto, que passa a render mais na escola. Diga-se de passagem, a pequenina se mostra uma aluna voraz, deglute e digere rapidamente o que lhe é ensinado.

O racismo? Ele viu que é uma coisa muito idiota, agora é unha e carne com Ronald, nos estudos e nas travessuras típicas da idade. Certa feita eles estavam brincando de bola, na casa de Robert, quando um vizinho viu aquele garoto negro e mandou que seus dois filhos entrassem em casa. Os dois olharam abismados pela cerca baixa, a cena ridícula. Quando o homem colocou a cabeça para fora da porta da cozinha, o nobre acenou, ele se recolheu rapidamente. Os dois se olharam, combinaram e esperaram. O homem abriu a cortina da janela e os dois acenaram dançando o cancã, ele se escondeu de novo. Mais um pouco e ele olhou novamente, os dois seguravam uma placa escrito “We’re still here!” bem grande. Foi uma tarde de domingo mais divertida do que imaginavam ter. Quando contaram aos pais, após a indignação que quase fez papai Robert partir a cara do vizinho que há muito não lhe agradava, combinaram de fazer algo parecido noutro dia, com mais gente e com mais deboche.

Rebeca ainda era muito novinha para compreender essas coisas idiotas de quem se acha adulto, já começou sua vida social interagindo positivamente com negros, índios e filhos de imigrantes. Novinha, mas sua personalidade agressiva se mostrou desde cedo.

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Patrícia vê um bilhetinho em sua carteira (...) os amigos dizem que viram várias crianças passando por ali, mas não viram quem colocou o bilhete. Abre e lê “O que uma garota legal como você faz com um grupo de perdedores, quando poderia estar com um homem de verdade?”. Fica brava, embora não aparente. Olha discretamente para os lados, mas todos têm a mesma cara de idiota, parece que saíram de uma linha de montagem. Mostra aos amigos na saída, e aos pais em casa. Ela não reclama de ter sido paquerada (...) se aborreceu de a pessoa ter se desfeito de seus amigos; são como seus irmãos.

Nancy e Richard observaram a filha com atenção, ainda pouco mais do que uma criança, mas se formando e crescendo muito rápido (...) a plástica da menina era simplesmente deslumbrante. Decidem observar e testar reações, no próximo halloween, com uma festa em casa. Mas por agora tratam de conter a indignação do rebento, que há muito se queixa de colegas de escola. Adoraria estudar nas escolas legais e cheias de amigos sinceros, dos filmes institucionais...

- Meu amor, venha aqui. Senta no colo da mamãe, enquanto ainda cabe nele... Você já está ficando mocinha. Eu sei que nunca ficou presa às bonecas, que prefere os livros, mas... Vou ser directa, esses caras vão começar a ser inconvenientes, eles vão pegar no seu pé e enxergam os seus amigos como obstáculos. Para eles, os garotos são seus paqueras.

- Como é que é - Indigna-se?

- Você se lembra do que aconteceu com os Blosson, no ano passado? Da encrenca que foi um rapaz se interessar pela Betty e assediá-la, e quando ela correu quase nua do carro para dentro de casa?

- Tá querendo dizer que esse cara quer me namorar? Sem chance! Não vou com a cara de quem não respeita a minha turma... E ainda estou longe de querer saber disso... Colegas minhas que já namoram estão indo mal na escola, sabia?

- Seu pai nunca me atrapalhou, muito pelo contrário. Me incentivou a estudar e até me ajudava nos trabalhos.

- Oras, mamãe, não faça comparações tolas! Papai não é simplesmente um homem, é um Super Homem, um exemplar raro e talvez único, um príncipe, um gênio, um exemplo e modelo para o resto da humanidade...

Ela enumera as qualidade e Richard ouve, com um sorriso de orelha a orelha, detrás da porta. Sai de volta à oficina esticando os suspensórios, mais cheio do que tanque de Cadillac recém-abastecido, se achando o máximo.

Dead Train in the rain VIII

    Um mundo novo e repleto de encantos, como a Drosera é para os insetos. Aqui nasce a era de inveja, despeito e desafetos que nossa protagonista enfrentará pelo resto da vida.
    A oitava estação tem alguns petiscos para nossos viajantes, mas mantenham os bilhetes em mãos, partiremos assim que a locomotiva apitar.

Os três amigos estreiam na escola nova, na cidade de Summerfields, da qual Sunshadow já foi um mero distrito (...) Patrícia, Enzo e Ronald entram em um mundo novo. O director (...) os encaminha à sua sala, é amigo do prefeito da pequena “Vai Quem Quer”, ele os recomendou muito bem, enfatizando a formação musical...

- Bem-vindos pequenos americanos! Este será o seu segundo lar por muitos anos! Vocês vão ser muito felizes por aqui, ah se vão! Vou encaminhá-los para Miss Helen Ross, sua nova professora.

Os três olham para aquela empolgação exacerbada, se entreolham, fazendo caras muito engraçadas, como se perguntassem se isto é um habitante do mundo exterior. Raramente saíram de Sunshadow e vizinhança, que mesmo pequena é bem servida de entretenimento, inclusive com um cinema muito bem actualizado. Embora sinceramente alegre com os novos alunos, o homem se preocupa um pouco com o relacionamento dos três, especialmente Ronald, filho de David, que é negro. Mais ainda por ele ser nobre, o que poderá gerar despeito. Não é rico, mas traz a primogenitude do condado francês, cujo título sua família preferiu manter a vender para escapar da falência, em 1744. O garoto é bem refinado, mas (...) um americano típico.

Entram em sala de aula e a turma realmente estranha. Não só por serem novatos, mas também o contraste da pele achocolatada com as muito alvas. Combinam de Enzo se sentar atrás de Ronald, para evitar brincadeiras maldosas, enquanto Patrícia fica na frente. A professora, após conversar com o director, os recepciona...

- Bem-vindos, meus queridos! Classe, estes são nossos novos amiguinhos; Patrícia, Enzo e Ronald. Eles vieram de Sunshadow para estudar conosco. Dêem as calorosas boas-vindas aos novatos...

Os protocolos sociais se sucedem e Enzo não mora em Sunshadow, ainda, mas passa a maior parte do tempo lá. Os três foram reiteradamente advertidos pelos pais e concidadãos a não se deixarem levar, o povo de Sunshadow tem restrições para com gente de fora. É certo que a América, após a guerra, estava tentando ser uma nação gentil e refinada, mas poucos lugares, como aquela pequena cidade, estavam conseguindo algum resultado concreto, por mais boa vontade que os compatriotas tivessem. Os filmes de Jerry Lewis eram a sátira perfeita desta situação. Ele mesmo era a sátira perfeita desses cidadãos.

No intervalo os três ficam à parte, comentando impressões e olhares curiosos. Sentem-se como se fossem animais exóticos de um circo. Os veteranos apenas os observam de longe. Um solitário sai da inércia e deles se aproxima, não faz rodeios, vai directo para Ronald...

- Como você conseguiu entrar aqui?

- Cara, não foi fácil.

- Você é o único negro nesta escola.

- E você é o único veterano que veio conversar com a gente, em vez de ficar com medo de contrair uma doença. Por que os outros estão afastados?

- Acho que é por sua causa, eles não estão acostumados.

- Que chatos! Ainda bem que você estava aqui.

- Qual o seu nome?

Aprendeu a ser diplomático com o avô (...) Patrícia tomou a frente e mudou o rumo da conversa, aquela menininha mandona. O racismo latente na atitude de Robert logo se transforma em curiosidade, e Enzo começa a descontrair, contando piadas. Foi um golpe de sorte, porque lá há crianças que realmente não gostam de negros, menos ainda de brancos que se misturam a eles, ainda que para alguns seja o primeiro negro com que têm contacto visual.

Quando Richard e Nancy vão busca-los, encontram os três com o veterano, rindo e conversando abobrinhas, e com eles ficam até os pais dele chegarem, quando o grandalhão aproveita para dar uma boa impressão...

- O senhor está de parabéns, seu filho foi de uma conduta exemplar!

- Ah, o que é isso! Este é um país livre! Mesmo que o garoto fosse um marciano verde, ensinei Bobby a não destratar ninguém! Aliás, depois que soube das conseqüências de um atentado de racistas em Sunshadow...

Nancy começa a chorar (...) Os homens conversam reservadamente e o caminhoneiro fica envergonhado. Richard põe panos quentes e novamente agradece pelo tratamento que o filho de um amigo de infância recebeu de Robert...

- “Conde”?

- Meu amigo, este é o conde Ronald Julius Jean Patrick Marie Leon Denis Goulart Delizard Solei De Champs Elisée Roi Louis Van Provence Lumiére de Canard Noir de Savoir, o pequeno Conde de Marselha.

- Caramba! O nome dele é maior do que o meu caminhão!

- WOW! Eu sou amigo de um conde!

A piada involuntária faz Nancy parar de chorar e rir desatadamente. As crianças acompanham os risos.

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Nancy vai ao quarto da filha, de vestido azul e avental rosa. A casa nova é um pouco menor do que a destruída, mas foi construída em tempo recorde, antes de o inverno chegar. Encontra-a entretida com os livros escolares. Nunca os tinha tido, já que a avó a educou com sua própria biblioteca que, aliás, ficou de herança para a si, a salvo no baú que estava na oficina. Até hoje é a única neta...

- Do que está rindo? Do acontecimento de hoje?

- Também. Estes livros são muito simples! Eles não têm nada a me ensinar, só gostei das ilustrações bonitas.

- Sua avó te ensinou em regime de internato, Patty.

- What?

- Internato é um tipo de escola na qual os alunos moram. Neles, as crianças (...) só voltam para casa nos fins de semana ou nas férias. Foi mais ou menos o que minha mãe fez por vocês, só que sem a privação de liberdade inerente.

A menina pensa um pouco. Não conhecia outro modo de estudar, então acha aquela escola meio fraquinha, quando na verdade, sua avó é que trouxe o rigor pedagógico do século XIX à sua educação. Pergunta à mãe se ela não quer dar aulas suplementares para ela e os amigos, para manter o padrão de ensino que vinham recebendo até então...

- Naomi Petty Green era única, Patrícia. Não digo isso só porque era minha mãe, é porque era boa mesmo! Como ela, nós não teremos outra tão cedo.

- Mas você é professora formada, não é?

- Sou... Embora trabalhe ao balcão daquele posto de gasolina...

- Lembra do que ela falou de a gente não desistir do sonho? Você vai realmente decepcionar minha avó?

Tocou-lhe os brios. Decerto que não se considera capacitada para substituir a mulher que lhe deu a educação civil e acadêmica, mas o que a menina lhe diz faz todo sentido. Ela promete pensar no caso, mas (...) agora trabalha fora e não tem o tempo disponível com que sua mãe contava.

Na manhã seguinte, Nancy ajeita o vestido amarelo claro, para começar a atender na lojinha anexa ao posto. Tudo caminha normalmente até que um caminhoneiro familiar aparece. Robert, pai de Bobby. Cumprimentam-se e no decorrer da conversa e do registro das compras, ela deixa escapar que é professora, como a mãe era. Não reclama (...) mas o magistério é sua vocação e sente falta dele. O dono do posto ouve e...

- Se lhe servir, você pode usar o pátio de trás, depois do expediente.

Ele até se lembrava de que ela é professora, mas nunca tinha dito que sentia falta de ensinar (...)  As pessoas costumam reclamar para si da falta de oportunidades, mas nem sempre se lembram de pedir a quem pode ajudar, seja por orgulho, timidez, barreira social ou qualquer outro motivo. Robert pede que seu filho seja incluído na turma, não o quer vadiando pelas ruas, depois da aula.

A tarde é de planejamento. Vê com Patrícia o que a escola formal lhes ensinou, absolutamente nada que já não soubessem com mais qualidade. Então acredita que pode endurecer e exigir bem deles, partir de onde sua mãe parou, embora...

- Não se preocupe, Patty Petty está aqui! Eu ajudo Bobby a se adiantar.
              Bobby não vê com tão bons olhos a novidade. Estava acostumado às tardes livres, vendo televisão ou caçando encrenca pelas ruas. Além do mais, estranha ter que ir todas as tardes para “Vai Quem Quer”. Mas sua mãe gostou da idéia, tanto que incluiu a filha caçula na turma, (...) perdeu democraticamente.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Dead Train in the rain VII

    Esperança e desespero.
    A primeira apunhalada da vida, uma pessoa jamais esquece.


Há três anos sem um luto, Naomi ajuda a filha a preparar o aniversário de quatro anos da neta, ainda a única. Fester não (...) faz questão de colocar alguém para sofrer neste mundo estúpido. Fazem tudo de modo que as crianças não percebam. Para elas, será apenas uma surpresa depois da aula, “se fizerem por merecer”. Quando os outros chegam, é hora de Nancy tomar as rédeas e comandar a preparação. Os pais dos outros alunos também ajudam.

Richard (...) se empenha em dar os toques finais no presente feito para a filha. Construiu ele mesmo um ferrorama gigantesco, que montará na sala. A locomotiva é uma réplica das também gigantescas e aerodinâmicas steamliners dos anos trinta e quarenta, que assombraram o mundo com velocidades de até 125 milhas por hora. Bonecas? Sim, ela vai ganhar dos convidados, ele tem certeza disso (...) Passou um ano inteiro dedicado ao projecto, depois que viu a menina improvisando carrinhos com caixas de sapatos, onde colocava suas bonecas para dirigir. Desde que ela começou a cantar “Dead train in the rain” em vez das musiquinhas banais de crianças, teve certeza de que tinha um pequeno gênio em casa. Orgulhoso (...) mas com proporcional preocupação, sabe bem o que acontece com gênios neste mundo idiota, especialmente se tiverem vaginas. Estas transformam o mérito em golpe de sorte, aos olhos da sociedade. Embora saiba de estrelas de Hollywood com alto quociente intelectual, elas só são admiradas por suas plásticas.

Conclui os últimos testes e, dando a volta por fora, para Patrícia não ver, leva as peças à sala, para montá-las rapidamente e fazer a surpresa, assim que todos forem chamados para o “lanchinho” que prometeram.

Quando fica sério, Richard é taciturno, compenetrado como um lobo, mas quando decide brincar é o moleque em pessoa, pode ser comparado a Pã. Veste um fraque bordô e põe uma cartola azul teal, para recepcionar as crianças. Nenhuma pintura, sua cara de deboche é garantia suficiente de risos aos borbotões.

Terminada a aula, Naomi manda todo mundo ir lavar as mãos na lavanderia, para não estragarem a surpresa. A casa é simples, mas muito ampla, de madeira boa e com boas bitolas, construída no início do século, pouco antes de Sunshadow se tornar formalmente uma cidade, em vez de apenas um distrito de Summerfields. Foi comprada por uma ninharia, já que ninguém dá um centavo para morar em uma cidade que só tem acesso por um desvio, e a ele encerra.

Assim que Enzo dá o sinal, da janela do quarto do casal, ela coloca as crianças em fila indiana, com a neta por último. Cada mãe pega seu petiz (...) para que não se denuncie a surpresa à aniversariante. Assim que a menina chega ao umbral da porta, Nancy liga as luzes, que também acionam o trenzinho que apita e imita ruído de trem a vapor, e Richard faz das suas...

- Respeitável público! Apresentamos o show principal desta tarde! A genial, a fenomenal, a estratosférica, a bonitinha e fofinha Miss Patrícia Petty Gardner!

David coloca um disco de sua big band preferida e a menina adentra sob aplausos, absorta e encantada, naquela sala colorida, iluminada, repleta de gente amistosa e cheia de pacotes bonitos, além do trenzinho enorme se deslocando pelas paredes, nos trilhos suspensos em vários níveis. Aqueles olhinhos verdes brilham como nunca, e sua dona dispara para seu fantasiado pai.

Sabem esses dias que ficam na memória de uma pessoa por toda a vida? Que contribuem para formar seu caráter e sua capacidade de se relacionar com o mundo? Patrícia teve um deles.

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A vingança dos racistas recai sobre o traidor da raça ariana. Richard teve tempo para tirar a família, mas Naomi, sem saber que a neta já estava salva, entrou desesperada e agora agoniza na casa em chamas. Nancy e Patrícia se desesperam com os gritos de dor da matriarca, que logo cessam, então elas é que gritam enlouquecidas, se abraçando e se desmanchando em lágrimas. Richard tem seu ateísmo consolidado naquele momento.

O cenário de filme de terror não abala. Abala participar do velório da que foi a moradora mais bem quista de Sunshadow. Apesar da idade, ainda era uma mulher bonita, mais ainda quando estava com as crianças, que choram copiosamente. Os Petty Gardner e Fester já esgotaram sua cota de lágrimas para o dia, permanecem taciturnos, silentes. Richard tem mais do que luto no olhar, tem ódio, tem uma raiva contida de religiões e sua “afinidade mórbida com quem produz holocaustos em nome de uma lenda imbecil” que ele não engole. Mais lhe dói testemunhar o sofrimento da família, especialmente de sua pequena jóia.

Chegam ao túmulo. O pastor (...) Se limita a lamentar a perda e encomendar a alma de Naomi. Ele também chora por dentro, ela foi uma paixão proibida que se recusou a deixar o noivo por sua causa. Sente-se culpado pelas tentativas da juventude, sente-se (...) ainda mais culpado por ser racista (...) sente-se pecador demais para merecer o reino dos céus, talvez por isso se esmere tanto em converter e guiar as pessoas pelo caminho da libertação, às vezes com empenho excessivo. Queria chorar por fora, mas não quer dar bandeira, ainda mais diante daquelas que poderiam ter sido sua filha e sua neta. Enquanto ora, cabisbaixo e em uma ladainha quase surda, recita “Obrigado por me livrar de um pecado, meu amor, me perdoe” na esperança de que ninguém ouça. Patrícia ouve. A avó a treinou em tempo integral, tem ouvido absoluto e discerne muito bem a pior dicção, mas por hoje a menina de oito anos não vai se preocupar com isso. Precisa confortar sua mãe, que tem o mesmo pensamento em relação ao rebento.

Só se salvou o que estava no galpão da oficina, posta a cinco metros da casa para não incomodar com seus ruídos (...) Se lembra quando, no último aniversário, ela lhe deu a última lição de vida...

- Mas eu não quero que você morra! Não quero perder você!

- Patrícia, ouça o que eu vou te dizer (...) O que eu sou hoje, o que sofro e do que usufruo hoje, tudo foi fruto de minhas escolhas, tudo derivou de minha estrita responsabilidade. No dia em que eu me for, eu quero ter a certeza de que você continuará com sua vida, não vou morrer sossegada se acreditar que não vai lutar por seus sonhos, não posso ter paz se souber que você vai se acomodar e se moldar ao que os outros querem que você seja. Sob hipótese alguma existirá céu para mim, se você cair na armadilha de ser feliz na medida do possível. Eu acredito em vidas futuras, mas tenho os pés no chão para saber que esta oportunidade, se você perder, nunca mais vai recuperar. Se eu, quando desencarnar, tiver concluído sua educação básica a contento, e você tem correspondido, eu vou feliz. Ainda que não possa te ver de novo, minha parte mais preciosa vai te acompanhar pela sua vida inteira.

- “Desencarnar”?

- Embora eu freqüente a igreja, como luterana, eu sigo a philosophia kardecista. Desencarnar, no kardecismo, é abandonar definitivamente o corpo (...) Um dia vai aparecer alguém para te explicar melhor, se eu não tiver tempo. O importante, meu amor, é que você seja a melhor Patrícia que puder ser. Não tente ser melhor do que o outro, porque ele pode se revelar um medíocre com pompa intelectual, e até uma lesma é melhor do que esses tipos. Seja você. Aprenda a se amar, não por causa de suas qualidades, porque isso é condicionar o amor. Se ame apesar de seus defeitos. Se amando, você saberá amar o próximo. Amando o próximo, em vez de o querer para sua estante, você saberá se desapegar e deixa-lo ir, como eu, quando for a minha hora. Se você me ama mesmo (...) você vai chorar quando eu for, mas só porque não poderá mais conviver comigo. Saudade dói mesmo. Mas depois vai passar. Sabendo que eu ficarei triste em te ver triste, você vai se esforçar em ter de mim o que eu te dei.

- Eu não quero te perder...

- Eu nunca fui sua, Patrícia. Sou sua avó, não sua boneca. Você não pode me perder porque não tem minha posse. E se não tem minha posse, pense bem, ainda que eu me vá, você nunca vai me perder. O que eu te passei até hoje, foi mais do que consegui passar à sua mãe durante toda a vida (...) Lembre-se sempre, Patrícia Petty Gardner, você nunca vai me perder. Você me ama, vai me deixar ir embora, e indo eu nunca vou sair do seu lado. O que eu te ensinei é o meu pedaço que nunca vai sair de você, e que nos ligará para sempre. Saudades doem, mas sabendo cuidar delas, elas também afagam. Lembre-se sempre disso, eu te amo.

A menina se lembra de cada palavra, cada expressão daquele rosto lindo e meigo, de cada movimento daqueles olhos austeros, mas também doces. Volta a lacrimejar, mas sorri...
- Também te amo, vovó. Obrigada.

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Dead Train in the rain VI

    Nasce uma amizade ainda de fraldas. Nossa protagonista precisará de todas as que tiver no longo caminho que tem à sua frente. Sexta estação de nossa viagem, apresentem seus bilhetes e vamos embarcar!


Patrícia observa, de dentro do Studbaker Commander amarelo ano 1947, aquele enorme trem na praça, sob chuva torrencial. O clima da cidade mudou bastante, desde que nasceu. Um raio de cem quilômetros ficou mais verdejante e com o ar mais fácil de ser respirado. Mas também tornou comuns os atoleiros (...) O prefeito foi o único a não gostar da mudança, teme perder as próximas eleições.
A menina já sabe falar um pouco, apesar de ainda se atrapalhar com palavras grandes, mas com o que conhece ela deslancha. Nancy vê o interesse da filha pela locomotiva da praça...
- That’s a dead train, honey.
- Dead train... In the rain...
E começa a cantar a frase, ainda de forma pueril, mas por isso mesmo encantadora. Na verdade a pequena canta melhor do que fala, sua dicção fica mais clara e inteligível. Richard agora sabe por que ainda não teve uma briga séria com Naomi, ela está muito entretida com Patrícia. Passa o dia inteiro lhe ensinando acordes e músicas simples, sempre com canções tradicionais da América. Até o choro dela é afinado! Não, os pais não ficam encantados enquanto a criança se esgoela e se desidrata de chorar, absolutamente, apenas é uma forma muito menos traumática de se perder horas preciosas de sono no meio da madrugada.
O carro entra na garagem pouco depois de a pequena terminar de cantar o refrão. Naomi se apressa em ir pegá-la, enchê-la de mimos e tudo mais, porque da parte severa da educação, os jovens pais estão dando conta. Dá um recado ao genro...
- Um homem de sotaque engraçado ligou, agradecendo pelo serviço no Oldsmobile.
- Sotaque engraçado... Ele falou “scusa, signora” ou coisa parecida? É o Enzo. Veio ainda garoto da Calábria, na Itália, mas só aprendeu a falar inglês depois dos dez anos. A família fugiu do fascismo, a história dele é muito interessante.
A história e seu amor pelo piccolo Enzo, figlio muito querido, que está aprendendo a falar os dois idiomas. Os cabelos negros encaracolados brilham ao sol recém-saído. O menino tem um gosto especial pela música, e é com música que os pais o educam. Ensino musical disciplina a índole de uma criança (...)
A vinte milhas dali, Patrícia canta uma cantiga que a avó traz da bélle époque. Não dá para negar, a mulher vê na neta um pouco da felicidade que perdeu ao longo dos anos. Que carma horroroso! Perdeu o segundo marido exactamente como viu o irmão mais novo morrer! Teve que trabalhar para ajudar a sustentar a família, pois o pai enlouqueceu com o trauma e cometeu suicídio, pulando na frente do primeiro trem que viu passando. Ela assistiu de perto a cena. E viveu cercada de cães e trens ao longo de seus cinqüenta e sete anos, até hoje. Como conseguiu educar tão bem os filhos (...) a psicologia explicaria, (...) Hoje eles são adultos, e não sabem como ela conseguiu. Na verdade o único sucesso sólido que a professora de música teve na vida, foi a boa educação dos filhos.
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Enzo e Richard se tornam rapidamente bons amigos. O facto de ele ser católico praticante, não implicou em falta de respeito mútuo, pelo contrário, eles trocam farpas humorísticas e depois tomam uma cerveja, enquanto as mulheres e as crianças se entretêm. A matriarca adopta mais um (...) Em minutos os bebês estão ao piano, aprendendo a reconhecer os acordes e dando sossego aos pais...
- Dead train in the rain...
- Você está com essa música na cabeça há dias!
- Dead train in the rain...
- Ok, vamos refinar isto.
Enzo começa a acompanhar e Naomi não tem escolha, além de ritmar (...) Como foi consigo, ela inicia desde cedo a escolarização das crianças, que de duas passam para três, para quatro, mais um casal, sempre com a música apoiando essa formação. E assim, no quintal da casa da filha, Naomi supre a falta de uma pré-escola na cidade. Os pais dos petizes pagam à Nancy, já que a mãe não aceita receber por isso.  Não se pode esperar que as provações tenham criado um anjo, o caráter forjado é paga suficiente. Naomi se viu mais de uma vez em apuros, por ser orgulhosa, embora as abrasões da vida a tenham ensinado a controlar essa índole...
- Então, quantas letras temos aqui?
- Vinte e sete -respondem as crianças, mas não ao mesmo tempo.
As familiariza com o alphabeto na mesma toada das outras matérias. É uma mulher de muita leitura, sempre se actualizou com a pedagogia moderna, mas não crê que alguns métodos antigos devam ser abandonados. Não abre mão da disciplina em sala de aula, ou em jardim de aula, como no caso.
Lhe dá trabalho, mas lidar com as crianças lhe faz muitíssimo bem! O luto não resistiu àquelas bochechas sorridentes. Chega a dar as risadas que já tinha esquecido como são, e que tomam rapidamente o lugar das rugas. Ao fim da manhã, quando as outras crianças vão embora, fica em Patrícia uma sensação de estranheza que ainda não superou. Não compreende por que os outros têm que ir embora. Desapego faz parte do aprendizado, e ele será útil na vida de adulta.
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Richard volta furioso da delegacia. Quase foi preso também, mas não poderia deixar o amigo de infância ser detido sem acusação formal. Piorou seu humor a declaração da acusadora, de que ele estaria invadindo um espaço indevido e constrangendo sua família. Por quê? Porque é negro. Mais do que isso, um negro em boas condições financeiras, que não troca de carro todos os anos, mas nunca está com carro velho ou caindo aos pedaços. Neste ano, aliás, David tirou um Plymouth Clipper vermelho 1950 modelo 1951 da loja, com os detalhes que encomendou à fábrica. Ainda há muita gente ressentida da abolição da escravatura e da guerra da secessão, tanto no sul quanto no norte do país, as cidades vizinhas não escapariam mesmo dessa doença...
- Ritchie, você é o irmão que eu não tive! Obrigado, cara!
- Não foi para isso que meu pai e meu tio morreram na guerra? Para combater uma mentalidade mesquinha e garantir a liberdade do mundo? Pode contar comigo sempre, irmão. Vai processar a paspalha?
- Vou, é claro. Não poso deixar que esse comportamento se dissemine. Não posso impedir as pessoas de serem idiotas, mas posso fazer com que hesitem em colocar sua idiotice em prática.
- WOW! Vou pintar uma placa com esta frase e colocar no meu portão!
Meia hora e a frase, com crédito, estampa a frente da casa, em amarelo com fundo preto. Longe dali, um pequeno grupo planeja se vingar da humilhação sofrida. Não aceitou ver um negro ser solto, após uma mulher branca o ter denunciado (...) não entendem o motivo de Richard ser amigo daquele negro, menos ainda de ser ateu, já que é bom e inteligente. O que os impede de tirar satisfações, são os mais de cento e cinqüenta quilos distribuídos em seus mais de dois metros de altura e sua boa capacidade de luta corporal.

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Dead Train in the rain V

    Gravem bem o nome desta pequerrucha! Ela decidiu quando deveria nascer, pois decidirá muito mais coisas de muita, mas muitas vidas.



Nancy e Richard têm seu primeiro rebento, uma menina. A pequena divide com os pais o pequeno espaço no quarto de hospital (...) onde eles, seus pais e avós nasceram. Aliás, a piada pronta da cidade é que ninguém passa por Sunshadow, porque nenhuma estrada passa por lá. Só há uma estradinha de pista simples, que desce da principal e morre na cidade, não há outra entrada ou saída. Só chega a Sunshadow quem quer chegar lá, ou quem perdeu o caminho. A cidade já foi próspera, muito próspera, até o início do século. Prosperidade que seus habitantes mantêm na conservação exemplar de suas construções e sua infraestrutura, ainda que tirem de seus bolsos.

A luz do poste é a única que ilumina o ambiente, a pedido da mãe, para não incomodar a filha, que fica na penumbra, enquanto seus pais têm o contraste duro da iluminação em seus rostos. O rosto duro e claramente amargurado de Richard, pela primeira vez em muitos anos, deixa transparecer ternura (...).

Curioso, mas estava chovendo há até cinco minutos antes de seu nascimento, após semanas de seca outonal. Também é digno de nota que todos pensam que estão viajando. Estavam a caminho de casa, quando a menina decidiu que seria naquela hora. Todo o planejamento pré-natal foi para o saco, mas estão felizes assim mesmo.

A noite transcorre sem qualquer alteração. Eles gostariam de acreditar que este é o temperamento da filha, mas sabem que pode ser só o cansaço pelo trabalho de sair e enfrentar a gravidade, sem o líquido amniótico para ajudar. Terão tempo para pensar nisso, por agora apenas dormem, porque a chuva voltou a cair pela segunda vez no dia.
Foram dois debaixo de sol, voltaram três debaixo de chuva. Não se tem notícias de a chuva persistir tanto na cidade, não de uma só vez. O resultado é que os quintais amanheceram encharcados, as plantas estão mais verdes do que o habitual, a umidade poupou o trabalho de tirar o pó da casa e o ar está mais agradável de respirar. Patrícia chegou em um momento atípico.
A verdade é que nascimentos tinham se tornado atípicos, desde o fim da guerra. Quase metade da população foi embora, traumatizada, para tentar esquecer a tristeza na cidade grande. Metade dos que foram voltou poucos anos depois, frustrada com o grau de dificuldades encontrado, tendo descoberto que a prosperidade prometida não era fácil como parecia, nem os critérios justos como se alardeia. Mas a taxa de natalidade caiu vertiginosamente. Sunshadow tinha quase sessenta mil habitantes em 1942, hoje não tem mais do que quarenta mil. A chegada de Patrícia se torna então, um evento social.

Não deixam de notar, todos os presentes, mas Naomi, mãe de Nancy, fica nitidamente mais jovem ao ver a neta. O marido, pivô do casamento precoce da enteada, é o primeiro a denunciar a luz no rosto da mulher (...)

- Nancy, ela é a cara do seu pai!

- Oh, não! (...) Ritchie, meu pai sempre foi assediado.

- E eu sempre (...) soube colocar seu pai na linha, assim como coloquei vocês dois...

Um pequeno lapso se dá. O tempo parece parar, quando se lembram que Gerald foi o último maquinista da locomotiva desativada, que hoje é a única atração da cidade, na praça central, cercada de flores, em um arranjo meio funesto. Foi apelidada de “trem morto”, quando os Petty Green receberam a péssima notícia.

Apesar de Sunshadow não ter lá muita coisa, cidades bem maiores estão próximas e oferecem boas oportunidades de emprego, mesmo não sendo metrópoles. Às vezes fica incômodo para o ego do cidadão, dizer que mora na cidade “Vai Quem Quer”, como ficou conhecida, especialmente quando um gaiato sem noção insiste em ouvir “Sou de Sunshadow” e responde “Ok, nascido em Vai Quem Quer”. Mas para alguns, isto constitui mais uma vantagem do que outra coisa. Se não atrai viajantes, tampouco atrai meliantes... Além do prefeito, é claro.
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Richard consola a sogra, Nancy tenta explicar à filha atônita o que é aquilo. Um dia após o aniversário da pequena, ela vê a mãe viúva novamente, e novamente por motivos estúpidos. Os policiais tiveram que matar os cães, para resgatar o corpo que estavam comendo. O dono do canil fugiu. (...) O homem se colocou na frende de uma moça negra com o filho nos braços, quando viu os animais escapando da propriedade em Summerfields.
Todos os dias Serguei rezava para tirar da enteada a má impressão que seu jeito rude tinha deixado, jeito que trouxe da vida dura na Rússia (...) de onde trouxe histórias tristes da vida em um país comunista. Bem, foi atendido, de quebra lhe deu um sentimento de culpa e revolta consigo mesma (...) Sunshadow inteira chora, Naomi é uma moradora muito bem quista, mas nunca teve um só dia de sossego na vida, nunca passou um ano sem um luto, em família ou particular. Ainda há o pacto entre os moradores de proteção mútua, mas isso nunca foi empecilho para Dona Morte e sua falta de educação ao entrar nas casas.
O cortejo passa em frente à praça central, tendo a gigantesca locomotiva 4-4-4-4 como testemunha. Carros antigos e novos seguem a pick-up Studebaker 1942, que leva o caixão. Desde o Chevrolet 490 1919 do carteiro, até o Recém-comprado Bel-Air modelo 1949 do prefeito, onde viaja a viúva. Uma mulher linda ainda hoje (...) ela já está acostumada a levar essas apunhaladas da vida, mas nunca perdeu a sensibilidade.
Fica acertado, Fester e a esposa passam a morar na casa da mãe, que passa a morar com a filha mais velha, onde a neta a distrairá de sua viuvez estúpida. O próprio Richard propôs isso, para a surpresa geral...
- Brigas? Mas é claro que haverá brigas, Nancy! Todo mundo briga, nós mesmos já brigamos. Se alguém não está preparado para manter uma relação apesar dos conflitos, não está preparado para viver em sociedade. É brigando que a gente se entende mais tarde, querida.
Diz e sai para o galpão que lhe serve de oficina, onde um velho Packard 1927 (...) espera pela troca da junta do cabeçote... Depois, é claro, de ser asfixiado por um beijo da linda e jovem esposa. A genética sempre foi generosa com Sunshadow.
Richard aprendeu com o falecido tio, que o pior luto é o da decisão não tomada, aprendeu com seu saudoso pai que a melhor decisão é a que se tiver tomado. Arrependimentos fazem parte de se tornar um adulto. Patrícia, serelepe, fica feliz em ter a avó por perto todos os dias, Naomi mais ainda, cantando cantigas de sua infância para entreter a pequerrucha.