sábado, 14 de fevereiro de 2009

De pres são

Um comentário pode desencadear tudo, do nada não acontece. Mesmo um facto corriqueiro, um aborrecimento que noutras ocasiões seria relevado, ganha importância e peso.

A vontade é de dormir e só acordar quando for a hora da próxima encarnação, o que pode durar até cento e vinte anos, ou mais. Mas o sono não resolve o problema e não dura tudo isso.

Por fora pode-se não apresentar qualquer sinal. Para nossos avós já seria difícil perceber qualquer um, para a sociedade egocêntrica de hoje beira o impossível. A pessoa trabalha, anda, come, aparenta até alguma alegria e todos acham que tudo está bem.

Não se consegue conversar a respeito; Primeiro porque só poderia ser detectada a parte hormonal, a material do problema, as outras ainda não são tangíveis, dificultando ao extremo um desabado eficiente; Segundo porque raríssimas pessoas, mesmo os profissionais da área, estão capacitadas a lidar com a gente que sofre assim; Terceiro e pior, porque a maioria dos que sofrem não acredita nem consegue ver meios de receber ajuda eficiente, às vezes nem tenta.

Há os ignorantes que chamam de frescura, dizem uma noite no bordel resolve. Se resolvesse, a Holanda seria isenta de suicídios.

Há os charlatães que tiram diplomas de medicina e enchem o coitado de drogas, sem sequer terem uma palavra que não seja sobre os sintomas.

Há os bem intencionados que, no afã de ajudar, falam besteira e pioram o quadro, pois o modo como falam fazem o estímulo se converter em cobrança.

Há os que não dão a mínima.

Dizer "deixa disso, você é forte, bonito, tem tudo o que quer, seu irmão tá pior e tá feliz, bola pra frente, a vida é bela" não adianta. Isso piora o quadro. A pessoa passa a se sentir incompetente por "ter tanta cousa" e não estar feliz, é uma pressão que a empurra mais para baixo.

Comparações são um tiro no pé de quem pretende ajudar, e podem ser um tiro de verdade na testa do depressivo. Alegar que existem pessoas em pior situação é inútil, alegar que elas são felizes mesmo na miséria imprime uma culpa muito grande no doente. Ele não está ruim porque quer, ele simplesmente não consegue ver uma luz no fim do túnel. A única luz com a qual conta é a de uma vela perpétua, falar as bobagens acima é assoprar a vela achando que é carvão. Só que velas, ao contrário do carvão sólido, consomem cera em vapor, assoprar manda o combustível para longe do pavio, que se apaga. Daí para atentar contra a própria vida é um pulo.

Se tu cometeres a asneira de apagar essa vela, trate de acender imediatamente, sob o risco de ela nunca mais arder.

O problema pode não ser sequer hormonal, quanto mais visível, mas existe ou não faria efeito. Ele pode ter imaginado o problema, mas enquanto não conseguir parar de imaginar esse problema, continuará sofrendo. Reconhecer que ele sofre, mas que não é um coitadinho de jeito nenhum, ajuda muito. Ficar por perto, de vez em quando, aproveitar as poucas aberturas para ajudar a encontrar uma solução já consiste em uma solução. Ainda que o pretenso socorrista não saiba o que fazer, convidar a fazê-lo já oxigena aquela velinha que o depressivo tem no peito. Ele está dentro da depressão, com essa luz extra pode acabar vendo caminhos que não enxergava antes, com isso ajudando a si mesmo a sair desse estado.

Pior é quando o problema é mesmo tangível, mas os outros não dão a mínima para o que ele significa para a pessoa. Geralmente os piores algozes, neste caso, são os familiares. Eles confiam que já conhecem a pessoa de longa data e falham em querer deduzir que é tudo capricho, que aquilo não tem a mínima importância, que todo mundo vive sem isso, que está fora de moda, os amigos vão rir de nós, et cétera. Acredite, mané, aquela caixinha de phósphoros cheia de botões raros é extremamente importante para a pessoa. É o único laço que a mantém viva na Terra. Se este laço for rompido, ela perde o único compromisso que tinha na vida.

Quando digo "compromisso", não me refiro à agenda social ou profissional, que isto se compra com dinheiro e acaba no fim da programação. Compromisso é um objectivo na vida, seja o quão desmioladamente ridículo for, ele deve existir. Estudar a vida e a obra de uma actriz islandesa obscura e sem importância do cinema mudo, levar uma refeição todos os dias para uma amiga que não consegue sair do trabalho para almoçar, fazer parte do coral de uma igrejinha do interior. Qualquer cousa que tire o foco do umbigo ajuda o depressivo.

No meu caso, o compromisso ajuda de modo incontestável. Compromisso com o serviço público, com a família, com os meus ideais, com a firme convicção de que não devo abandonar ninguém sob hipótese alguma, compromisso com a forte religiosidade que era impensável há dez anos. Com o tempo, passei a perceber o quanto faria sofrer as pessoas que amo. Me dói o peito só de pensar em fräu Adriane aos prantos, a Luna miudinha em soluços, Meg atônita e sem acreditar, a Nenê inconsolável com mais uma perda. O passar dos anos transforma o compromisso em amor, estas são algumas das pessoas que sob hipótese alguma quero ver chorando.

Assopraram minha velinha um milhão de vezes, não raro com agressividade, foi um milagre eu ter resistido à fase de céptico, pois dar cabo de mim já tinha me passado pela cabeça.

Tenho uma técnica para sair mais rápido das fases de depressão, ouvir músicas tristes e românticas. Elas aceleram a queda. Em vez de espernear no ar, que não me oferece apoio algum, me estatelo de vez no chão duro, este sim me oferece base para me levantar e voltar a subir. Dói, eu choro, mas funciona comigo. Com outros pode ser fatal, mas sob a supervisão profissional competente, pode funcionar até certo ponto. Outro ponto é que me tornei fortemente nostálgico, até um pouco vintage, um efeito colateral que não me traz incômodos.

Estou começando a sair de uma crise depressiva que durou quase dois meses. Ter o que fazer e poder fazê-lo foi fundamental, porque nem sempre o deprimido consegue fazer o que quer, como as bonecas de papel da Grace, que ainda estou devendo. A crise foi agravada por uma série de factores que não cabe contar aqui, mas o compromisso com as pessoas que amo e a religiosidade me mantiveram longe de qualquer pensamento estúpido. As pessoas confundem alegria com felicidade e me cobram estar alegre vinte e cinco horas por dia, também confundem tristeza com infelicidade e quase me agridem por isso.

Meus queridos, ajudem o depressivo a ajudar a si mesmo. Não tentem fazer nada sozinhos por ele, nem pensem que a felicidade química dos medicamentos afasta o pior. Se sentir gente é imprescindível, só gente faz o outro se sentir gente.

Ofereça a mão, ajuda para resolver o problema e nada mais.

10 comentários:

Fio disse...

É bom saber que essa doença não acomete só à você, também ajuda muito, Humberto. Me vi em cada frase do que você escreveu. E sinceramente, concordo com cada uma delas.

Se precisar de uma mão, amigo, estarei aqui. E quero contar com a sua, tb.

Abraços

Adriane disse...

Texto inspirado, verdadeiro. Também passei por quadros depressivos, e é bem isso que você escreveu. Daí minha ojeriza à frase "logo tu?".
Um "sai dessa, você é lindodivinimaravilhoso" pode ser pior que um tapa na cara.
Nanael, eu amo teus textos!
Também pode contar comigo e sei que sempre poderei contar contigo. Pronto, fiquei melosa...

Meg disse...

Nanis, corági, viu?
O Talicoisa tá aqui pra você :)

Frank disse...

gostei bastante do texto, Nanis...

Tenho quase certeza que passo por um quadro depressivo há um tempo, mas essa doença cria tantos mecanismos internos que é difícil se livrar...

Cansei das pessoas acharem que estou brincando quando resolvo falar (já que geralmente sou eu que ouço e aconselho)... Ou achar que é fácil, sabe?

O pior de tudo é quem fica dizendo que é frescura, que é coisa de quem não tem louça pra lavar... Isso só aumenta a culpa de se estar assim. Quer dizer, eu tenho uma vida super confortável , a não ser pela internet, pq me sentir assim?

Hahaha, sou muito bizarro, fico aqui falando disso sem nem saber se eu tenho...

O fato é que me sinto triste e culpado a maior parte do tempo, e, segundo pesquisas que andei fazendo em sites confiáveis, tenho maior parte dos sintomas da depressão adolescente...

1.Mudanças acentuadas na personalidade
2. Mudanças acentuadas na aparência,
3. Alterações nos padrões de sono
4. Alterações nos hábitos alimentares
5. Prejuízo no rendimento escolar.
6. Falar sobre morte ou suicídio
7. Provocar ferimentos em si próprio
8. Pânico ou ansiedade crônicos
9. Distribuir objetos pessoais

menos a parte de destribuir objetos pessoais, pq oi? Não dou meus livros má é nunca, ok?


Ah, e tenho o que eles chamam de Sofrimento Moral...

Enfim, uma merda...

Frank disse...

Andei pesquisando mais e...


Na Depressão também é muito freqüente um prejuízo no pensamento, na concentração e na tomada de decisões. Os depressivos podem se queixar de enfraquecimento da memória ou mostrar-se facilmente distraídos. A produtividade ocupacional costuma estar também prejudicada, notadamente nas profissões intelectualmente exigentes. Em crianças deprimidas pode haver uma queda abrupta no rendimento escolar, como resultado da dificuldade de concentração.



Na Depressão favorecida por uma Situação Anímica há um sentimento depressivo valorizando conjecturas irreais e imaginárias, de tal forma que o panorama atual dos acontecimentos e a expectativa do porvir são funestamente valorizados. Sofre-se por aquilo que não existe ainda ou, muito possivelmente, nem existirá. Um exemplo disso é a Depressão experimentada diante da possibilidade da perda de um emprego, ou da perspectiva de vir a sofrer de grave doença e assim por diante



Gente! Eu SOU assim!

Luna disse...

E eu posso saber por que o senhor não contou nada pra gente? Quem sabe ajudar, como é o seu caso, também precisa saber pedir ajuda.

Nós te amamos.

Nanael Soubaim disse...

Minha querida, a minha depressão tem muto a ver com as frustrações que só se resolvem com os problemas sendo resolvidos por mim, o que infelizmente não pode ser delegado.

fabio_ disse...

Ah, Nanis, mas falar umas asneiras e dar umas gargalhadas libera umas endorphinas...
De qualquer forma, nóis tá aqui.

Já comigo, acontecem duas coisas em especial: um bloqueio criativo desgraçado e uma acidez que beira o cinismo. Detesto.

fabio_ disse...

Outra coisa: Deprê é esse enfeite de Natal da China, onde nem Natal de comemora. Te mando um feito com exclusividade e carinho.

Nanael Soubaim disse...

Nada feito por escravos fica bem feito. Agradeço o carinho e aceito a oferta.