sábado, 21 de fevereiro de 2009

Sem título 1

Plantaram uma muda e ele ria, ela estava sem jeito e ficou furiosa, com o vestido cheio de terra. Mas eram só crianças que mal tinham aprendido a ver beleza nos outros. A plantinha miúda balançava ao vento forte de outono, mas crescia.

O natal foi triste, a véspera foi de luto. Um anjo entrou sem pedir licença e o seio materno já não estava lá. Os amigos diziam para ter coragem e tocar a vida, ela só segurava sua mão e lhe deixava chorar. A doçura em um momento tão amargo fazia esquecer a revolta. Ele sabia, garotas crescem antes dos garotos.


A planta já espalhava folhas, despindo-se para o inverno seco do centro-oeste. Mas era uma árvore tão jovem, ainda havia muito o que crescer.


Ela chora pelo fim do namoro com quem só queria diversão, não quis saber de futuro, só do cassino que via nela. Ele ficou ao seu lado, ouvindo e esperando o momento de dizer que garotas crescem antes dos garotos.


As flores que a pequena árvore já exibia também forravam os jardins, as praças e enchiam de promessas as palavras de amor. Os dois não se ignoravam mais. Tanto respeito, tanta dedicação. Pouco sabiam do cotitiano do outro, menos se viam do que gostariam, mas sabiam um quem era o outro. Dos campos as flores iam para os olhos. De vez em quando os garotos também crescem.


A árvore então madura revelava os primeiros brotos que ensaiavam a frutificação. Um conheceu a vida pregressa do outro, dos dramas e das alegrias, das virtudes e das fraquezas, o que exigir e o que perdoar. Vinte anos de amizade findados para ceder ao namoro o lugar devido.


Discussões tolas, efêmeras, que os abraços calavam e desvaneciam. Não havia paixão no coche, ela estava sob os arreios, o cocheiro era o amor que o respeito e a amizade criaram e educaram. De mãos dadas pelas ruas, não exibiam o glamour da intimidade que só os dois conheciam, como em filmes branco e preto, como em páginas que só o autor sabe tudo o que quis dizer.


As bodas à lua cheia com o vento uivando lá fora, as estrelas admirando o casal com terna comoção, com as paredes silentes testemunhando o destino que escolheram de comum acordo. Os acordes de Osanas sacros virtualizavam o acto, onde cada um buscava a plenitude do outro, pelo que era o caminho que extasiava, o orgasmo tão somente uma misericórdia aos corpos que não resistiriam ao amor de seus ocupantes, se estes levassem tudo às extremas de sua comunhão.


A primeira fruta tão doce e vermelha, uma cereja brilhante que alimentou a gestante em sua glória conjugal. Que dificuldades oscilariam a solidez de um brilhante tão bem lapidado? A semente da cereja foi plantada e brotou. Os choros noturnos lembravam sempre que o amor é mais ação do que sentimento, demanda prática. Noite após noite o praticaram e acalmaram a sanha do rebento.


A pequena cerejeira foi para um vaso maior, protegida sem ser poupada. Vento, chuva, sol e as mãos serelepes da pequena doçura que conceberam. Ambas cresciam fortes, ambas cresciam belas.


Tantos casais se distanciavam e eles permaneciam. Tantos arrastamentos passaram sem sucesso ante a casa, tantas vicissitudes que a vida impõe não desbotaram o compromisso. O amor era baseado na maturidade e no respeito do inverno, sensações vieram na fartura da primavera.


Ela baseava sua maturidade na convivência e na assistência, ele na bravura com que sobreviveu à infância e à adolescência. Um sabia o que exigir e o que perdoar do outro, garotas crescem antes dos garotos, mas um dia eles também crescem. Seu fruto amadurecia no respeito e no trabalho, à salvo do vazio de do afã pela comodidade.


Um dia o mesmo anjo entrou novamente sem pedir licença. Agora eram só ele e a filha, ela segurava sua mão e o deixava chorar. As duas cerejeiras estavam nuas e a chuva lavava seus prantos.


Duas árvores crescem melhor quanto mais longe estiverem uma da outra, ela levou a cerejeira cuja origem alimentou sua mãe. Agora precisava da mesma alimentação. Via seu pai todos os dias, coloria sua vida esmaecida pela viuvez precoce, mas já não era sua casa. Tinha suas próprias mudas e seu próprio jardim para cuidar.


Os anos passam, as folhas caem e a amoreira morre. Eleonor volta para buscar seu amado, que a casa dos dois já está arrumada.

4 comentários:

Meg disse...

Inspirado em fatos reais?

Adriane disse...

Poético, Nanael... como sempre!

Adriane disse...

Poético, Nanael... como sempre!

Nanael Soubaim disse...

Não, não foi inspirado em factos reais que eu conheça, ao menos... Na realidade, quase factos reais, há um pouquinho de mim e minha vida no meio.