sábado, 3 de janeiro de 2009

Sem vergonha de ser rico

Mãe e filho andam pelas terras, é chão a se perder de vista.

Ela sempre sorridente, com os dentes brilhando e uma postura de rainha. Ele cabisbaixo, taciturno e resmungando.

Ela mal terminou o segundo grau, ele está terminando jornalismo, após ter feito administração e flertado com todos os livros de philosophia que viu pela frente. Ela estudava e trabalhava, às vezes ao mesmo tempo, para depois fazer as provas. Ele sabe os preços dos livros porque é vigiado e tem que trabalhar para garantir o direito às regalias. O pai bem que tentou, mas não conseguiu estragá-lo como queria.

Ela mostra tudo o quanto conquistou em vinte e oito anos de trabalho árduo, a pequena vila que fez para os empregados, a mata densa que preservou e tudo mais. Ele fala de lutas de classes, de exploração e de como descobriu que todo rico é desonesto. Sente o rosto arder por isto...

- Por que fez isso?

- Porque me chamou de desonesta.

- Eu? Eu falei dos burgueses que enchem os bolsos...

- E ocê acha que que eu sou o quê? Acha que aquele Mercedes SLR na garagem é de mil cilindradas? Acha que fiz crediário pra comprar ele?

Doris o olha com aquela cara de quem sabe onde está a marmeleira mais próxima. Ele se desculpa, mas começa a soltar mais impropérios similares. Para não torcer-lhe o pescoço, o manda se calar. Descem dos cavalos à sombra daquela marmeleira próxima, cheia de galhos apropriados para uma vara, e começa...

- Ói, eu sei que cê tá revoltado com esses porqueiras que ficam arrotando riqueza, com esse governo sem-vergonha que só sabe arrecadar e embolsar, que cê queria vê todo mundo trabalhando e ganhando dignamente. Eu te ensinei isso. Mas vendo que passar a maior parte do ano longe de casa tá te fazendo mal. Óia pra mim, Gabriel Felipe, mas óia bem pra mim. Oiô? Quê que cê conclui?

- Que se a senhora for me visitar na faculdade, vou quebrar muitos dentes dos caras que vão dar em cima.

Não era a intenção, mas conseguiu amolecer a matrona. Ela respira e continua...

- Filho, eu sou rica. Eu sou muito rica. Meu nome não aparece nessas listas de magnatas porque eu não deixo, não quero chamar muita atenção. E se eu sou rica, você e a sua irmã também são. Cê tava xingando a sua própria família! Quando eu cheguei aqui, tudo isso era pasto e erosão. É mais de mil e quinhentos alqueire e tudo tava destruído. A nascente tava mais careca que o Esperidião Amim. Eu saí com o seu pai (esteja onde o infeliz tiver, céu ou inferno) de Jataí pra Goiânia, pra tentar a sorte como doméstica, que ele tinha conseguido emprego de motorista. De vez em quando eu ajudava ele e a gente passou pela BR 060 um montão de vezes, e a cada vez essas terras aqui tavam mais decaídas. Um dia foi à leilão, pra pagar as dívida do picareta que pensava que era fazendêro. Nóis arrematou só com o suficiente pra pagar o fisco.

- Tava ruim assim?

- Ô se tava! Ninguém mais se interessou. Seis anos de trabalho só pra acabar com erosão e plantar umas árvores. O povo, só pra humilhar, jogava entulho e esterco dos gado do nosso lado da cerca. Aí que eu eu atinei que eles era tudo formado, diplomado, mas nunca saíram da sala de aula pra ordenhá uma vaca. Eu nasci em fazenda. Tudo o que jogavam aqui, a gente pegava e misturava com a terra. Pois ao fim desses seis anos, a gente já tinha recuperado todo o dinheiro investido aqui. A Madalena tinha cinco anos e eu já ia engravidar docê. A gente penou, Gabriel Felipe, ninguém deixou o emprego nos dois primeiros anos, mas depois não deu pra conciliar e ficamos só com a fazenda mesmo. As piscinas estão hoje onde era uma erosão com uns quinze metros de profundidade, por uns sete de largura e cento e tantos de comprimento. A primeira coisa que compramos, foi aquela Brasília verde que a sua irmã usa. A gente podia ter comprado carro novo, mas queria economizar pra investir.

- trabalharam pra cacete, heim!

- Sim. Nóis dois concordamos que seria melhor mudar pra cá de uma vez. Trabalhamos sete dias por semana, de antes do sol nascer até um pouco depois de anoitecer. Foi dez anos sem saber o que era férias nem feriado. A Brasília chegou a servir de trator, quando o nosso quebrou. Filho, quando você entrou na escola, o pior já tinha passado. Chegávamos a ficar seis meses sem sair daqui, só trabalhando, comendo as verdura, fruta e peixe que conseguia aqui mesmo. Até a Madalena começou a ajudar, cuidando da casa enquanto seu pai e eu íamos pra roça. Acha que essa crise do ano passado foi a primeira? Não, foram muitas. A cada uma, um vizinho nosso falia, e a gente comprava as terras dele com tudo dentro, até pião. Dei muita surra em machão até aprenderem a obedecer ordem de mulher. A maioria se demitiu, mas quem ficou me oscula a mão. Só com quinze anos de trabalho, quando a sua irmã já estava mocinha, é que parente começou a aparecer. Aí viu nossos empregados ganhando bem, tendo casa, alimentação, médico na fazenda, nossos carros na garagem, as lavouras com as faixas de terra descansando, piscina, quadras de esporte, a escolinha onde você estudou com os filhos dos empregados, enfim. Enquanto os outros jogavam dinheiro no cassino da especulação, a gente comprava valores, investia, capacitava o funcionalismo e a nós mesmos. Vem crise, vai crise e todo mundo trabalhando. Claro que só forçar o braço sem usar a cabeça é puxar carroça. Mas quem só fica pensando sem suar, enlouquece, inventa crise, inventa medos, inventa até tudo virar realidade pra depois lamentar que "o mercado" retraiu. Quando o seu pai morreu, eu fiquei sozinha com vocês dois pra cuidar, cem famílias pra dar trabalho e a parentaiada querendo aproveitar.

- Pato e parente, só servem pra sujar o carro da gente.

- É isso aí. Dei uma casa pra cada um deles e mandei todo mundo fazer que nem eu, trabalhar. Eu falo alemão não é porque fiz curso, é porque eu trabalho com gente da Alemanha. Todo dia faço ou recebo ligação, e-mail, carta, de lá, da França, Itália, Inglaterra, Espanha, Argentina, Japão, Irlanda, Estados Unidos, o mundo todo. Eu exploro o trabalho, não o trabalhador. Não deixo ninguém fazer mais de doze horas por dia, pra não prejudicar a vida dentro de casa. Os sem terra apareceram aqui, enquandotava estagiando em São Paulo. Ofereci ofício, vida decente. A maioria não quis, fosse por que não queria mesmo ou porque tinha medo de punição, mas entrar aqui pra fazer baderna eu não deixei. Quem ficou não se arrependeu. Tem sim muita gente que gasta um milhão com salão de beleza, embora não faça efeito, mas tem dó de pagar mais que o mínimo pra um empregado. Tem muita gente ruim desse jeito. Mas foi o que eu te falei, é gente que esqueceu como é a vida de trabalhador, ou que nunca conheceu a catraca de um ônibus. Eu sou rica porque trabalho, porque me dedico àquilo que faço. Não aqui pra fazer umas horas e pendurar o paletó no fim da tarde. Fazendeira de verdade está trabalhando vinte e quatro horas por dia, porque esta fazenda não é um emprego, é a nossa vida. Como todos os negócios que a gente tem. Eu faço por merecer o que tenho, a Madalena faz por merecer o motor-home dela, você faz por merecer aquela baita coleção da Audrey Hepburn. Aliás, tem um galpão que já não usamos, cê pode fazer um museu dela se quiser. Aqui ninguém ganha em cima do outro, a gente ganha trabalhando todo mundo junto. Ocê não tem que ter vergonha de ser rico, assim como eu nunca tive de ser pobre, quando era. Eu chamei esse povo todo pra trabalham com a gente, eu sou responsável por eles, tenho consciência disso. Esses que se empetecam pra ir á igreja, subornam o padre, o pastor, o diabo que seja e saem chutando cachorro, esses vão ter o que merecem da pior forma. O corpo apodrece, dízimo nenhum impede isso. Nós, que somos da Samária, também teremos o que merecemos, aliás, já estamos tendo. Não se deixe envenenar por esses revoltadozinhos de ar condicionado, Gabriel Felipe. Eles, no lugar daquela gente, fariam tudo igual. Berram que querem cultura, mas ninguém aceita pagar entrada inteira, nem prestigia gente talentosa de verdade. Falam que o povo paga mal, mas vai ver se eles dão dez reais por flanelinha. Falam de democracia e tal, mas o que aconteceu quando vocês elegeram aqueles doidos pro grêmio?

- Putz! Virou uma ditadura. Não aceitam palpite de ninguém.

- A sua adorada Audrey Hepburn, que eu tive o prazer de conhecer pessoalmente, você sabe que tipo de anjo ela foi na Terra, sabe que nenhum sindicato de trampolim eleitoral fez metade do que ela fez. Ela era rica. Cê sabe que ela passou fome na infância, mas morreu rica. Não tenha vergonha de ser rico, tenha vergonha quando uma idéia egoísta começar a te cegar, mas aí deixa que eu te dou uma surra e cê acorda. Ser rico não é privilégio, é uma provação de Deus e a gente tá passando no teste, meu filho. Olha quanta gente o nosso trabalho beneficia, são quatrocentas e sessenta crianças na fazenda que têm escola, saúde, espaço pra brincar, enquanto os pais trabalham sossegados e certos de que amanhã vão ter mesa farta. Todo natal a gente faz um almoço comunitário, todo mundo come, todo mundo festeja, todo mundo compartilha, todo mundo fica feliz. Quanta gente cê conhece que faz isso? Então? Cê ainda acha que tem que ter vergonha de ser rico? Que tem que dar trela pra alarme de especulador que mama na teta do governo, porque perdeu tudo na jogatina? Que tem que ficar triste porque os outros não fazem o que a gente faz? Azar deles. A idade cobra o tributo pelo que foi gasto na juventude, a maioria deles tá torrando tudo em psicanalista e clínica de retardar a velhice, que é causada mais pela ruindade que pelo tempo. Eu, com cinqüenta anos (com trema, que também não gostei dessa reforma) ou não um pitéu, que nem ocê deu a entender? mais nova que muita balzaquiana. Vamos pra casa, vamos planejar esse museu que vai empregar umas dez pessoas, pelo menos. Ela sim, é cultura útil.

Montam e vão ambos sorridentes, dentes brilhando e postura de reis, procurar Madalena para o planejamento desse museu.

5 comentários:

Fio disse...

Hmmmm.....

Adorei o texto, Nanael. Trabalho enobrece. Riqueza é consequencia.

Feliz Ano Novo, meu caro.

Adriane disse...

Opa, belo texto. Ditadura pseudodemocrática? Conheço de pertinho, assim como so pseudomarxistas de butique.

fabio_ disse...

Eu tenho medo de comentar os textos do Nanis!
:P

Nanael Soubaim disse...

Por que, sêo Fábio?

Anônimo disse...

Pena que é só historinha do antigo PT.