terça-feira, 4 de junho de 2019

Dead Train in the rain CCLXIV

    Song and war. A estação 264 demonstra a bipolaridade de um ano que mudou os rumos da história, que não é mais para ninar. Embarquem, o trem vai partir.


O treinamento diário tem um lugar reservado, mas não proibiram a divulgação (...) Para a banda e a organização é bom que divulguem, é um incentivo a mais para as pessoas saírem do sedentarismo. Chegam às suítes e Phoebe vê um alerta de mensagem da mãe no smartrain...

- Baby, a gente está indo pro veterinário. Spark tá mal, foi brigar com um cachorro de um abusado, que tava fazendo sujeira no jardim e saiu muito machucado! Mandei as meninas pra tia Nancy, pra elas não verem, mas parece que é grave!

Liga imediatamente para Albert, sabe por ele que o pittbull está quase morto, após o confronto, e que precisou dar uma surra no valentão que queria tirar de Marcia satisfações pelo acontecido. Ela sabe que o pai ficará furioso, mas conta-lhe assim mesmo...

- NINGUÉM TOCA EM MINHA ESPOSA!

- Albert já tomou a frente, dad. Mom is fine, ela está bem!

- Quero falar com ela.

Liga para a esposa, que está em prantos (...) Chama Renata, para tentar consolar e acalmar a filha (...) Os jornais não demoram a divulgar o incidente, enfatizando que um gato venceu quase matando, a luta com um cão visivelmente anabolizado, urrando como uma fera selvagem. O forasteiro está dando explicações à polícia, com o rosto arrebentado, demonstrando pouco se importar com o destino do cão.

Mesmo preocupada, Phoebe vai ao ensaio e ensaia a sério. Nos intervalos tem notícias do gato, mas mantém o profissionalismo (...) Vão para o almoço que precede a sesta sagrada, quando Marcia avisa que Spark está bem e estável, mas sob observação (...) A moça começa a rir em prantos com a notícia, porque as filhas terão uma surpresa mais digerível. Vai à sua sesta de coração mais manso, fazendo uma prece silenciosa pela bolinha de pelos que seu pai lhe deu quando voltou da guerra, e tornou-se um gigante. É justo a mensagem de voz da filha que Marcia utiliza para acalmar Spark, aumentando os efeitos do tratamento. O gato ronrona à voz da dona e adormece rapidamente, como se ela estivesse ao seu lado.

Richard e Nancy estão diante do valentão, que começa a soltar flatulência por falta de algo consistente para sair. Ele nunca pensou que fosse ser punido por alguma coisa, nunca tinha assumido a responsabilidade por seus actos, sempre foi poupado de frustrações, sempre ganhou razão em tudo o que fazia (...) A cobrança que não teve em casa, o Estado vai fazer sem o carinho que bons pais conseguem dosar para seus rebentos. O casal termina de amedrontar o rapaz e vai ter com o veterinário (...) Nancy nem quer pensar na mais remota hipótese de tentarem agredir Beef, que repousa preguiçoso em sua caixa de papelão, após uma refeição substancial.

&

Acordam no tempo previsto com boas notícias de Spark. Vão se preparar para o show (...) A orquestra começa a tomar seu lugar e afinar os instrumentos, enquanto os astros da noite se aboletam no ônibus, um sóbrio e elegante Van Hool TX16 pintado nas cores e com o logo da banda, e “Made in USA” piscando no letreiro. Julia recebe a informação da base, sua alteza acaba de sair com seus nobres para a arena, repassa à segurança de forma confidencial e mais discreta que pode (...) há dois helicópteros seguindo o ônibus, um para segurança e um para transmissão directo para os telões da arena, fora dezenas de drones que dançam ao redor do veículo, com suas hélices completamente envolvidas, para não ferirem alguém.

Assim que o ônibus chega aos limites da arena da apresentação, o público começa a dar o troco nos russos, então os jornalistas entendem porque as construções são de plástico (...) Os cantores vão com tremor e tudo para os bastidores, onde a equipe os aguarda. Uma massagem, uma esticada nas juntas e os cantores de apoio vão ao palco, ajudar a orquestra e a LP32, então o abalo císmico recomeça. Os seis disparam a rir, vai ser o show mais maluco que já terão feito (...) Aisha recebe sinal verde e manda a positiva para a avó, então os músicos de apoio começam a tocar. É o sinal de que o início do show está próximo. Os seis fazem exercícios de voz, relaxam, meditam e vão de mão dadas à entrada do palco (...) Rita com sua cabeleira grisalha dançando, vai ao microphone...

- Senhoras e senhores, última chamada para o mundo épico! Apresentem seus bilhetes, embarquem na festa e venham fazer história com O DEAD TRAIN!

As faculdades mais próximas registram o abalo císmico, porque a cidade efêmera está tremendo com “Forgotten”. Os fãs e até alguns operários cantam e dançam no pique da banda durante toda a primeira parte do show (...) No primeiro intervalo, descobrem os motivos de aquele público estar tão bem disposto...

- Houve uma adesão em massa às academias assim que vocês aceitaram fazer o show – diz Aisha. Aulas de dança, aeróbica, musculação, Pilates... Acho que é o primeiro público marombado para quem vocês cantam.

Patrícia volta de imediato ao palco, antes que eles se dispersem para repor as energias...

- Cara, é sério que vocês fizeram isso pela gente? Eu mal pude acreditar quando Aisha nos contou, desconfiaria se ela não fosse tão séria, fiquei emocionada! Muito, mas muito obrigada mesmo! Eu amo vocês!

Eles vão cismicamente ao delírio! Isso vai para a internet. Os texanos começam a encher as redes sociais com memes, se vangloriando pelo elogio da diva, e ainda aproveitando para colocar “2.5 milions” em letras garrafais vazadas, com a bandeira do Texas de fundo. Alguns moscovitas se mordem, sussurram “Ainda não acabou, seus falas-cantadas de uma figa” e começam a se comunicar a respeito.

A segunda parte do show, sabendo eles que agora os fãs dão conta, é toda dançante. A noite avança e eles não pedem arrego, acompanham as canções, são chamados ao palco, vêem os ídolos caminhando centenas de metros para poderem ficar perto de todo mundo, se esbaldam e tiram proveito de tudo a que têm direito (...) Está todo mundo muito cansado, feliz, mas muito cansado. Voarão amanhã cedo a Sunshadow, mas a cidade efêmera ainda fica uns dois dias de pé, até começar a ser desmontada, para a alegria dos lojistas, pois o público pretende fazer turismo e quem sabe encontrar alguma relíquia, nos arredores do palco.

Enquanto eles voam para casa, o show business pega fogo e o show entra realmente para a história. Vai render assunto e patrocínio por anos, e mais uma leva de fãs que poderão se considerar lendas entre os ghost drivers (...) Os astros chegam a Sunshadow já sabendo da repercussão (...) os paparazzi os clicam loucamente enquanto falam do que souberam nos bastidores dos bastidores.

&

- Spark...

- Grr... Mow...

- Vem pra mamãe, vem...

O gigante maine coon vai ainda sob efeito dos analgésicos, mas com decisão para o abraço de sua humana (...) Uma lágrima não impede que seu sorriso de coração acalme seu gato. O pega no colo e o leva para casa como um bebê (...) Em sua casinha, aquela mesma que Phoebe lhe fez quando o ganhou, recebeu uma insígnia de tenente; agora é um oficial com todas as prerrogativas inerentes. O felino de músculos avantajados observa, cheira as divisas e entra em sua humilde e segura casinha (...) Fica de olho nele, enquanto estuda os relatórios dos implantes feitos na fã voluntária e em Bárbara.

A notícia do cândido regresso ao lar chega a Patricia e Renata (...) A brasileira trabalha, ou pelo menos tenta, com Palhaço no colo, enquanto a americana tem a sofisticada e recatada companhia de Lady Spy. À tarde os seis se reúnem na Máquina de Costura para arrematar os serviços, e Robert recebe uma mensagem de engenheiros, a pequena vila de Sakura logo fica pronta. Ele repassa com entusiasmo a notícia para a filha, que é vista dançando no telhado da casa (...) Os drones da corporação monitoram e mandam imagens aos pais da moça, que vão imediatamente tirá-la daquela comemoração perigosa...

- Desculpe, eu não resisti... Estou feliz demais! Eu não me agüento em mim... Vou fazer uma música sobre isso.

Nunca a viram tão agitada (...) A imprensa está satisfeita, o que tem já rende muita coisa, tanto que Mikomi precisa interferir, começa seu texto com “Quando nossos filhos realizam seus sonhos de infância”, enquanto máquinas pesadas em grandes balsas começam a montar os módulos, no Michigan Lake (...) Ronald, porém, tem uma noticia triste de um amigo. Rebeca se aproxima do marido taciturno, que só diz que um amigo está esperando pela morte e se cala pelo resto do dia. Glenda está trabalhando nisso (...) Se divide entre os planos sutis e o trabalho como responsável editorial da Culture Train.

A Dead Train encerra sua participação activa na mídia por este ano, mas notícias correlatas continuam alimentando o jet set, porque neste ano o material rendeu. Enquanto alguns grupos calculam quantas pessoas seriam alimentadas com os recursos do mega show, outros contabilizam os empregos criados e o capital a mais que agora circula na região. Os músicos tocam suas vidas (...) Elizabeth e Prudence chegam com as filhas penduradas e os maridos logo atrás, eles com caixas nas mãos. Os livros ficaram prontos um pouco antes do prazo (...) Os seis são cercados, enquanto as amostras são distribuídas (...) As duas enfatizaram a importância do conhecimento científico e do raciocínio lógico, ambos em franca decadência em todo o continente americano. Deixam claro que urge voltar a formar cérebros americanos, mas cérebros de verdade, não onanistas cerebrais que se limitam a repetir citações alheias...

- Vocês disseram isso a mais alguém?

- Well... A Proo desabafou no perfil dela e eu apoiei... Já tinha uns mil compartilhamentos...

- Vocês duas são perfeitas encrenqueiras... Vamos nos preparar para o festival de ofendidos...

E eles não tardam. A turma de teoristas teóricos da teorização teórica teorizada (...) pede as cabeças das escritoras. Já estavam furiosos por elas mostrarem que o americano não é o monstro perverso e demoníaco que muitos apregoam, agora querer que pessoas comuns comecem a aprender a resolver problemas em vez de problematizar soluções, aí é demais!

Defensoras dos direitos de minorias que são também seguidoras de uma defensora da sharia (...) se sentiram ofendidas com uma trama que faz o ocidente parecer um bom lugar para se viver, apesar de tudo. Começam uma campanha contra o sexto livro de “The Spy Novel” e fazem propaganda grátis, acusado as irmãs de serem agentes do retrocesso da política de deportação de Trump. As duas (...) farão mais um livrinho entre capítulos, satirizando escancaradamente as contradições dos que afirmam lutar contra o sistema opressor, mas oprimem sem piedade quem pensa diferente de seu grupo. Concluem as cento e vinte páginas em precisamente oito horas (...) No final, os seguidores da canibal são devorados por quem defendiam a todo custo. Sanaa, Suha e Amina servem de betas para aquela comédia trágica, comentam após rirem muito...

- Irretocável!

- É daqui para pior, a Amina já foi agredida por uma demente dessas!

- Fui, mas quebrei os dentes da pilantra! Queria convencer Hassam de que deveria me bater todos os dias, dei-lhe o que ela recomendava aos outros.

A aprovação as faz ir à Culture Train, incomodar precocemente Glenda. A bruxa (...) se põe a trabalhar o livro mais rápido que já teve em mãos. Por intuição faz um serviço padrão (...) antes do lançamento oficial do novo tomo da saga principal, a caixa de cortesia chega à casa das autoras. Na noite de autógraphos, o deboche de “Cannibal Lovers” ajuda a digerir o momento louco pelo qual o país passa (...) As juras de vingança mostram a grande quantidade de pessoas que vestiram a carapuça, e a advertência de Patricia mostra aos descontentes que estão pisando em campo minado...

- Ameaçando minhas filhas? Perderam a noção do perigo? Quem se sentir prejudicado que procure os caminhos legais, mas nem de brincadeira as ameacem.

A declaração da mãe indignada é seguira de milhares de comentários de fãs que tomam suas dores, então os valentões vêem a encrenca em que se meteram e cessam com a animosidade directa (...) A polêmica rende, para elas e para o jet set.

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