sábado, 14 de março de 2009

Frank Jones

Quinta aconteceu uma coisa que não é considerada nem um pouco engraçada para maioria das pessoas. Aliás, para um número significante da população, essa pode ser uma situação que gera fortes traumas.

Já para mim, essa situação só me fez refletir o quanto tudo na minha vida SEMPRE ganha um toque extremamente surreal, e me faz parecer uma espécie de Bridget Jones 13 anos mais jovem e homem.

Eu estava fazendo minha caminhada diária do meu curso de inglês no centro da cidade até o meu curso preparatório na zona sul por que eu quero ser menos poluente e mais saudável economizar o dinheiro da passagem. Como sempre, vinha com o fone ouvindo as notícias sérias do dia na Rádio 103 enquanto rezava para que a locutora deixasse de balela e começasse a falar sobre as celebridades. Como se trata das imediação do que dizem ser o maior shopping de não sei onde, achava que o local era totalmente seguro, por isso não estava muito ligado no que acontecia em minha volta. Se bem que eu nunca estou ligado, se vocês querem saber. Quer dizer, eu ESTOU ligado, mas em outras coisas... Geralmente enxergando indícios e web hits em todo lugar (coisas que custam 5 reais, uvas, motos quebradas, carro de reportagem de jornal brega), elaborando pequenas biografias das pessoas que passam por mim, ou só admirando a paisagem mesmo.

E lá estava eu, acompanhado da minha distração permanente, observando a forma como as pessoas andam, como a mulher estava mimando aquele filho dela, pensando em como o mercado pirata vem piorando a cada dia, elaborando uma lista de "músicas que havia aprendido sem nunca ter parado para ouvir, mas mesmo assim sabia cantar", quando de dentro das PLANTAS ORNAMENTAIS (!?) saíram três assaltantes.

Eles gritavam me pedindo pelo celular – o que me fez lembrar imediatamente da nossa amiga Meg,  que vive me pedindo para comprar um- e nessa parte tive medo, por que já ouvi histórias terríveis sobre o que eles fazem quando você não tem o que eles querem. Tanto medo que, não sei de onde, tirei um espírito negociador que disse:

-Olha, eu NÃO tenho celular, tenho medo de perder,  por que sou realmente retardado, mas meu mp4 tá novinho e acabei de formatar por que uma amiga ficou de passar alguns episódios de Gossip Girl... – e eu não parava de falar, enquanto isso o garoto enfiou as mãos nos meus bolsos e tirou meu mp4 – acho que ele não ta nem aí se GG é melhor que The OC, ou se mesmo assim eu continuo preferindo Lost como seriado dramático, mas eu estava muito nervoso e sentia que meus músculos haviam se desgrudado dos ossos,  nada podia me impedir de continuar tagarelando.

Minha insistência em dizer para o garoto que não tinha celular, não o fez desistir de tentar encontrá-lo. Eu, muito prestativo, comecei a abrir a bolsa para que eles levassem qualquer coisa de valor – que no meu caso eram apenas 4 reais e um livro que peguei emprestado, o que me fez ter muita raiva de mim mesmo por não ter terminado o livro antes de sair de  casa e gastado o dinheiro nos 4  DVDs da primeira temporada de One tree Hill que o cara estava vendendo na esquina anterior. Quando já estava pensando em como fazer a moça que me emprestou o livro acreditar que eu realmente tinha sido roubado, um deles simplesmente jogou meu mp4 no chão, o que me fez me perguntar se ele já estava surrado dessa maneira, ou se eles haviam descoberto – só de olhar- que o cabo de dados estava com um defeito irritante.

Mas não era nada disso, da parte de trás da rua - pelo menos não foi de dentro das PLANTAS ORNAMENTAIS (!)- surgiu um carro da polícia... Sério mesmo, do nada, e aqui no Brasil, surgiu um carro da polícia para me socorrer.

Os policiais chegaram apontando armas – o que me fez temer que eles atirassem e me machucassem, ou um dos garotos – eles eram tão jovens que era de dar pena por estarem naquela situação-, ou um passante qualquer. “Levando em conta essas notícias que se tem do Rio e todos aqueles filmes sobre o cotidiano nas favelas, isso é totalmente possível”, pensei eu.

Felizmente nada disso aconteceu, o policial só chegou perto de mim e perguntou se eles haviam roubado algo e eu, já com pena dos garotos – e com medo de que eles fossem se vingar depois- disse que não, “eles nem fizeram nada...”.

 Os garotos, contudo, estavam longe de ser inocentados. Eis que surge do nada –Natal até parece Nárnia de tanta coisa que surge do nada- um grupo de bees espalhafatosas, todas com leques na mão,  gritando por um celular roubado há cinco minutos.

 

Nem fiquei para ouvir o fim do rolo, simplesmente entrei no shopping, ainda um pouco transtornado e com muita pena dos pobres garotos – o que me levou a questionar se eu tinha ou não a doença de Estocolmo-, comprei uma barra enorme de chocolate Lacta ,que esta em promoção nas Americanas,  – como se eu tivesse sido atacado por um dementador, ou algo do tipo- e fiquei pensando o quão Hollywoodiana havia sido a chegada dos policiais...

 

E foi assim a primeira vez que fui assaltado -ou quase... Nesse momento, digito no computador questionando minha futilidade... Quer dizer, eu NÃO devia tratar um assunto como esses ASSIM, quer dizer, eu deveria estar chorando enquanto desenvolvo síndrome do pânico! Acho que tenho sérios provlemas manais.

Mas quem mandou ME assaltarem saindo de dentro de PLANTAS ORNAMENTAIS?!?! É pedir para ligarem meu sensor de siacabância

***

Update.: no dia seguinte fui andando por quase o mesmo caminho para ver se eu achava o cara que vendia DVDs de One Tree Hill por um real cada e ele havia sumido...

Update2: Não consigo parar de pensar no quanto os garotos eram novinhos, e na raiva que tive quando o policial os chamou de vagabundos e os mandou estudar... Oi? Tanto as escolas municipais quanto as estaduais estão em greve e Deus sabe se esses garotos tem ao menos onde MORAR... Corta o coração ver esse tipo de coisa... Juro que, dos seis, o maior tinha, no máximo, 17... 

8 comentários:

Adriane disse...

Plantas ornamentais?
Cara, que coisa mais bizarra!!!
E eu sei como é a vida desses garotos. Tenho muitos ex-alunos assim. Não tem só coitadinho não. Tem uma penca de arrogantes que se acham intocáveis.
E, infelizmente, muitos totalmente cooptados ao tráfico e/ou à drogadição.
:(

Nanael Soubaim disse...

Eu te entende, meu filho, conheço e reconheço o episódio. São vítimas, sim, mas não totalmente vítimas, eles sabem o que estão fazendo e devem dar graças à Deus por ter sido a polícia e não uma gangue rival. Graças à Deus e Nosso Senhor Jesus com Sua Gloriosa Irmandade, só te deixaram a revolta mesmo.

Luna disse...

Adorei, adorei tudo! Eu não tenho pena de bandido não, seja de que idade for.

Mas não quero falar da bandidagem. Adorei saber detalhes do seu dia-a-dia. Eu também ando sempre no mundo da lua, mas ainda não fui assaltada na rua.

Cada um tem seu dia de Bridget Jones!

Frankulino disse...

Ai, Debs, pois eu tenho...

Eu simplesmente não consigo me focar em quem pode me roubar, até pq Natal ainda é uma cidade segura e tudo mais... Mas outro dia vi na TV um cara ensinando 09845049549 de estratégias para as pessoas não serem roubadas em SP, quando cheguei a conclusão de que eu seria roubado diariamente em SP...

Quer dizer, eu não consigo parar de admirar as paisagens, ou prestar atenção nas pessoas, para prestar atenção em meu próprio bolso... É mais forte que eu...

caroline disse...

kkkkkkkkkkkkk adorei sua tragica historia,eh a tua cara msm,agora crie vergonha e compre um celular né

Janna disse...

Que terrível!!!! Ainda bem que você não tem celular!!! Ou não...
Isso só acontece contigo... e agora vê se deixa de ser mão de vaca e pega um ônibus, ao invés de ir andando...

Frankulino disse...

Janna, mas eu GOSTO de ir andando, da mesma forma que gosto de poder comprar mais DVDs (passed of shame de comprar DVD pirata)... O que torna isso um amor duplo...

fabio_ disse...

Droga, fiquei esperando a hora em que vc ia contar como foi correr de calcinha no inverno de Londres! :P