sábado, 21 de março de 2009

Pelas ruas de Goiânia

Há alguns anos, andava à noite pela Santa Luzia, em Campinas. Ia comprar sorvete. Andando no meio da rua, um grupo de garotos totalmente desconjuntados tinha acabado de brotar do chão. Não eram indigentes, as roupas não eram muito ruins, só ridículas mesmo. Um deles me viu e se apressou...
- Aí, fera (voz mais pastosa do que manteiga de leite) tava te procurando pra te vender isso aqui, ó!
Primeiro que não gosto que estranhos tomem intimidades comigo; segundo que quem me conhece, sabe que não gosto que me chamem de "fera", "cara" e outros, muito menos em público; terceiro que eu não gosto de perfumes, muito menos falsificados.
Andava eu, há uns poucos anos, pelas ruas do Centro. Era a rua Seis, se não me engano, ia atravessar a Anhangüera. Nessa parte há muitos cartórios e tabelionatos, conseqüentemente há também muita gente precisando de uma photographia 3x4, daquelas que te deixam com cara de marginal ou molgol, não importa o quanto se prepare e se arrume. Do nada ouço um garotão que parecia estar sendo dublado pelo Zeca Urubu...
- Aí, doido!!! Vai uma foto aí, maluco?
Pelo berro que deu, não se pode precisar qual passante poderia tê-lo processado, porque todo mundo olhou, decerto que não era eu, ou o teria feito. Se bem que, lembrando vagamente da figura, o juiz é que ameaçaria me processar por ter levado o meliante mais uma vez à sua presença, tinha cara de assíduo no banco dos réus.
Na volta do serviço, ontem à tarde, estressado, cansado e querendo alforria, andava pela 24 de Outubro, em Campinas, pensando unicamente em uma refeição e ajudar uma amiga que estava precisando. Gente tonta tocando de roda e desviando subitamente sua trajetória, em meio à multidão, é fartura em Goiânia. Às vezes o retorno cansa mais do que a jornada de trabalho. Uma garota com o cós lá em baixo, cabelos ondulados até melecados de tanta química, segurando uns panfletos se dirige à minha pessoa como se me conhecesse desde que nasceu...
- Aí cara! Vamos colocar um piercing agora?
Não sei se ela notou, mas eu usava calças de alfaiate, camisa social, mocassins, pasta e um guarda-chuva. A descrição se parece com alguém que vai usar piercing? Terá ela me achado com cara de rebelde enrustido? O dono da loja não treina seus funcionários? Por que raios eu espetaria um pedaço de aço na minha pele?
Não por eu ser caretão até a medula, reconheço que sou e assumo. Mas as abordagens já foram mais bem feitas, principalmente na rua, à estranhos, em pleno horário de pico. Já não bastam os camelôs invadindo até a faixa de pedestres? Tenho a impressão de que qualquer um na rua vai me tratar com intimidades indevidas e me oferecer algo que não quero.
Eu até paro para ouvir, se a abordagem for boa. Dizer "Bom dia (ou tarde, ou noite, madrugada, sei lá) que tal uma tatuagem hoje?" resultaria em uma negativa amistosa e um "tchau". Tomar intimidades comigo só faz me repelir, é automático, me chame de "cara" sem me conhecer e eu sou automaticamente jogado por repulsão magnética para o outro lado da rua.
Mesmo que oferecessem algo que me interessa, não adiantaria se a abordagem fosse ruim.

4 comentários:

Leigh disse...

Esse é um fenômeno comum já no RJ. Aqui você tem que agradecer aos céus pelo transeunte estar te chamando de "cara" ao invés de estar tocando em você. Outro dia no ônibus um moleque veio me beijar antes de pedir esmola. Juro. Aliás, isso meu deu até idéia para um post no meu blog, hehe...

Meg disse...

"...cabelos ondulados até melecados de tanta química..."
O famoso KOLENE.
Aqui em Salvador sempre me oferecem empréstimos, consultas de R$10,00 no dentista. Me-do.

Adriane disse...

Eu acho uóthemo o pessoal que chama todo mundo de dotô.
E eu tenho que me controlar pra não tocar nas pessoas.
Horrível, eu sei, mas não sei falar sem gesticular e tocar no pobre do interlocutor... :P

fabio_ disse...

Nanis, prometo a você um passeio pela Barão de Itapetininga, quando vier a São Paulo!!
Esses lugares são ótimos pra quando a gente se sente sem amigos. Cada um que te aborda é "brother", "grande", "chefe", "amizade"...