quinta-feira, 2 de abril de 2009

Mais louco é quem me diz

Uma das mais famosas obras de Machado de Assis é "O Alienista", em que são criticadas, de uma só vez, as teorias deterministas e positivistas que faziam a moda intelectual da época (século XIX; o livro foi publicado em 1882), mas também debate a loucura, seu tratamento, definição e outros. Ele fez perguntas que poucos ousaram fazer à época e que ainda são atuais: quem é o louco? O que é a loucura, afinal? Expõe, além disso, um jogo de poder e de rotulação que fariam Michel Foucault (nosso Fucô velho de guerra) tremer de inveja.


Determinar quem é o louco e como vai ser tratado é uma angústia bem do nosso tempo, e aparece em várias partes, inclusive na ficção, sendo uma das mais famosas o Asilo Arkan, dos quadrinhos do Batman. Em algumas cenas memoráveis, os "vilões esquisitos" afirmam que ele, assim como a própria cidade, são os criadores de toda loucura e crime que o Morcegão e Gotham City combatem. Nada que Machado não tivesse tratado, com muita propriedade, no livro referido.


Falando em "asilo", as palavras "Asile, madhouse, asylum, hospizio" estão entre os nomes dados aos "lugares pra guardar loucos", ou para tratá-los/torturá-los/etc, tudo conforme a época na qual surgiram. A idéia de tratamento em si, assim como a palavra "manicômio", aparecem no famoso século XIX, o mesmo em que Machado publica o livro acima citado.


Os primeiros a tentar tratar a loucura, diz Fucô, foram os árabes, e o primeiro hospício conhecido foi inaugurado por eles no século VII. Na Europa são mais tardios, aparecendo no século XV, na Espanha ainda dominada pelos árabes, espalhando-se no século XVII.


E, como não podia deixar de ser, tem dedo do Iluminismo e da Revolução Francesa (já tem linque pra ela no Talicoisa - chique!) na mudança dessa história, mas também de um homem cujo sobrenome, até hoje, se tornou sinônimo de loucura/lugar pra abrigar-tratar-esconder os "loucos": Philippe Pinel (1745-1826), que quebra suas correntes e os deixa livres para se exercitarem. A partir dele, divide-se o tratamento e estudo da loucura em duas partes: a primeira aposta na terapia e psicopedagogia, a outra centra fichas no tratamento físico, colocando a loucura como algo orgânico, e, portanto, não dá importância ao local do tratamento.


Este, apesar de toda a discussão, ainda tinha sua carga do que hoje consideramos crueldade, e atualmente - quase dois séculos depois de Machado - se vê a loucura como algo criado socialmente, como os "loucos de Arkan" denunciam, e que pode mesmo mudar de sentido e significado conforme a cultura e a época.


Por essas e outras que eu digo que Machado comanda (rules, como dizem por aí). E, como ele alerta brilhantemente em "O Alienista", ao apontar demais o dedo na tentativa de definir quem é o louco, a sociedade pode acabar vendo a si mesma.


Para quem acha que pessoas diferentes do que alguns consideram normal são loucas, cante:




Ao lado, o Louco, um dos melhores personagens de Mauricio de Souza. Espero que a bobajada "politicamente correta" (blé) não o destrua.

4 comentários:

Luna disse...

Em "O Alienista", acaba a cidade toda indo pro manicômio, né? Prova de que é difícil saber exatamente o que é loucura e que ninguém é 100% são.

Ah, e eu também adoro o Louco, um dos poucos personagens que me fazem rir alto.

E nós, com nosssos provlemas manais, comofas/

Adriane disse...

É isso mesmo... rss
Tem provlemas manais? Cante a balada do louco!
Bota nós tudo num hospício, câmera em toda parte e vende os direitos de imagem, amiga.

Nanael Soubaim disse...

Em um hospício, entre os internos, loucos são os médicos.

Meg disse...

Me senti na aula de Psicologia ;)