sábado, 25 de abril de 2009

Malhando, ou o arroz queima.

O sol mal se espreguiça e ela acorda. Vamos começar o dia.

Higiene, que nem mesmo Ava Gardner é imune ao bafo de uma boca fechada por oito horas ou mais. Agora o cabelo, na escova mesmo. Puxando: um... dois... três... Agora o outro braço: um... dois... três... Maquiagem, Leite de Rosas e pronto, vamos nos vestir e arrumar o desjejum.

À despensa. panela de ferro, colheres de material espesso, levar ao fogão. O leiteiro está chamando, compra logo dois litros que hoje quer fazer um bolo. Ferve tudo de uma vez, enquanto bate a massa, cinco minutos em cada mão. Leva ao forno pré aquecido e chama a família, que daqui a pouco pára de mastigar a língua e desce para comer. A água do café está quente, agora verte no coador cheio de pó super ultra hiper torrado, senão o marido bate o carro de novo, por cochilar ao volante.

Mesa posta, chama pela segunda vez, enquanto lava as vasilhas. Ariando bem, com força que são de ferro. Braço direito: um... dois... três... quatro... cinco... seis... Agora o esquerdo: um... dois... três... quatro... cinco... seis... Beleza! Agora é guardar tudo, senão os pestinhas estabanados ainda se machucam.

Alguns minutos de descanso, enquanto comem.

Agora começa de novo. Três pastas escolares, organizar tudo, ver o que falta, tirar aquele brinquedo escondido, colocar a merenda e levar à escola. O maridão deu três saltos a cada gole no café, mas funcionou. Na volta, passa pelo mercadinho. Ovos, frutas, bolachas a granel, alguns quilos de coxão mole, verduras e ervas para condimentar. Equilibra nos dois braços até chegar ao carro, abaixe e deixe tudo no chão, abra o porta-malas, agora levante as sacolas; uma... duas... três... quatro... cinco... seis... sete... Agora fecha. E o marido, louco, querendo lhe dar um Aero Willys! Aquele Fusquinha já é duro o suficiente. Esterça, dá ré, esterça, para frente, esterça, dá ré, esterça, agora pode ir para casa. O Aero teria dado uma ou duas manobras a mais.

Agora é preparar o almoço da família, enquanto arruma a casa. Lavar as mãos, avental na cintura, cabelos presos. Tudo certo? Certo, então vamos malhar. Pega a tábua (mais ou menos um quilo) de bater carne, o martelinho de ferro (mais ou menos um quilo e meio), a faca e vamos trabalhar. Tira a carne, corta os bifes, bate com cuidado, vinte vezes cada um, depois passa o sal, a cebolinha e a pimenta, mais cinco batidas em cada um, põe para descansar no molho e vai lavar o arroz, agora catar feijão, busca a panela de pressão (uns dois quilos), enche de água e põe o feijão. Agora refoga o arroz e vai tratar dos vegetais.

Enquanto tudo está encaminhando, tira o pó e varre a casa, o cheiro fica forte, corre à cozinha e põe mais água no arroz, a carne está bem embebida, hora de ir para a frigideira (de ferro, mais ou menos um quilo) novinha. Janela bem aberta, para não saturar a casa com o cheiro. Carne quase pronta, feijão pronto, arroz pronto, é hora de cozer levemente os vegetais.

Chega a família, é hora de almoçar e descansar um pouco.

Vai todo mundo tirar uma pestana, então ninguém vai atrapalhar (já que ajudar é pedir muito) na arrumação. guardar o que sobrou na geladeira, para o orçamento render.Tudo para a pia, tirar restos, ensaboar, ariar, enxaguar e secar, pendurar tudo e dar uma pausa.

Crianças lá fora, marido de volta ao trabalho, é hora da limpeza pesada. Cadeiras para cima, tapetes idem, pano, rodo e balde de água. Vá esfregando, vá e volte, vá e volte, vá e volte. Lave o pano, torça e recomece, para frente e para trás, para frente e para trás, para frente e para trás. Agora é encerar, canto por canto, espalhando a pasta por igual, para não endurecer montinhos nas quinas. Vamos dar o brilho. Enrolar a flanela no esfregão de ferro (uns dois ou três quilos) e fazer força; vinte vezes de cada lado, em cada cômodo. Agora espreguiça, estica a coluna e admire a verdadeira obra de arte. Nem parece ter quatro crianças (três filhos e um marido) em casa, de tão limpa.

A roupa acumulada, para não ficar trabalho demais no fim de semana. Separa, enxagua, passa sabão e deixa de molho. Esfrega, esfrega, esfrega; Bate, bate, bate; Esfrega, esfrega, esfrega; Torce e joga no tanque ao lado, para recomeçar com outra peça. Enxagua, torce e leva para o varal.

Hora do bolo. Ovos, leite, mel, frutas, farinha, manteiga, açúcar, canela e uma pitada de sal. Vamos lá, trinta vezes com a mão direita, agora mais trinta com a esquerda. Reserva com um pano em cima, para não atrair moscas, vamos bater a clara em neve; cinco minutos com cada mão, agora mistura e volta a bater. Leva ao forno quente e vai lá fora, que já secou tudo.

Hora do ferro de passar roupa. Lembra da mãe balançando, por meia hora ou mais, uma tralha de ferro cheia de carvão, felizmente o seu é eléctrico. Deve ter uns três ou quatro quilos, não mais. Vai passando, vai e volta, vai e volta, vai e volta; do outro lado, vai e volta, vai e volta, vai e volta. Dobra tudo, uma por uma, sem moleza. Vai dar uma olhada no bolo e volta às roupas. Pendura, engaveta, com cuidado para não amassar o algodão.

Mais claras para fazer o glacê, mais trabalho de mãos, mais atenção ao forno. Bolo pronto, tira, desenforma com cuidado, passa o caramelo ainda com ele quente, para absorver e volta a bater. Já morno, passa o glacê e decora com metades de cerejas. Agora é hora de lavar as vasilhas, com força e delicadeza. Vai mandar um homem fazer isto sem ter sociedade na loja de utilidades domésticas!

Mais uma pausa, enquanto saboreia com os filhos o lanche. Pode dizer "Eu mereço", porque merece.

Mandar as crianças para o banho, enquanto prepara o jantar, previamente organizado. Põe o arroz e um bife (desfiado) do almoço no moedor e gira com vontade, faz bolinhas e joga na manteiga quente. Muito rápido, só para tomar forma e formar a casquinha crocante, se demorar encharca.

Chega a quarta criança, dizendo que o trabalho foi terrível e que o chefe só compreende os puxa-sacos. mas nada que um abraço e um beijo não curem. Vão todos à mesa que a refeição está posta.

Crianças na cama, marido e mulher namoram um pouco. Ela aproveita, porque amanhã começa tudo de novo, como em qualquer lar típico dos anos 1960.

E ainda perguntam porque as mulheres daquela época eram mais esbeltas, e qualquer curvinha abdominal já causava espanto. Não foi uma época glamourosa, as pessoas fazendo o melhor com o que tinham é que eram glamourosas... E elas ainda conseguiam se manter belas com tudo isso.

4 comentários:

Renata Keyko disse...

Quando me desespero na tarefas domésticas (péssima dona-de-casa, assumida), mamãe não perdoa: "na minha época, nem "vanish" tinha minha filha..." rs.

Nanael Soubaim disse...

"Vanish"? Quando eu era menino não havia a maioria dos limpadores que existem, era no muque mesmo.Eu já peguei aquele esfregão algumas vezes.

Adriane disse...

Eu também não sou lá grandes coisas no quesito arrumação. Mas cozinhar e a sagrada e mirtesca arte de aproveitar sobras é comigo mesma.

Nanael Soubaim disse...

Sobras não, mein fräu, ingredientes econômicos. Dá para fazer render bastante o salário com essa prática.