sábado, 27 de junho de 2009

Eu pensava que pensava

Até o início do século, eu era cético, gelidamente cético. Entretanto, há cousas que jamais fiz, entre elas desrespeitar a crença alheia. Da mesma forma que não gostava do assédio dos que se dizem cristãos, também não gostava do ataque de outros céticos aos crentes.

Eu não zombava da astrologia, mas torcia o nariz e contava os segundos para que o assunto terminasse. Mas a argumentação dos outros céticos para condená-la sempre me soou infantil, simplesmente porque eles não estudam aquilo que criticam. Se cercam de estatísticas, cálculos sofisticados e muita retórica, mas ir de facto ao estudo sério e criterioso (como se esperaria de um cientista) eles não vão. A principal argumentação é o grande número de fraudes publicamente escancaradas. Aliás, esse tipo de cético adora um espetáculo de humilhação. Este erro a minha consciência histérica não registra.

Hoje sei o que é de verdade a astrologia, a magia, a religião, a fé, o milagre, sei diferenciar uma parábola fabulosa de um relato histórico. Mas para isso eu precisei mergulhar no mais baixo e gélido abismo de meu próprio inferno.

Eu respeitava os crentes, mas em mim o ceticismo era implacável. Cheguei a duvidar de praticamente tudo, guardando no banco de dados tudo aquilo que não satisfazia minha lógica medíocre. Medíocre porque era extremamente fria e se apoiava em um cientificismo extremamente pragmático. Cheguei ao cúmulo do materialismo quando conclui que a própria existência era inútil, porquanto impossível. Conclui que eu mesmo não existia. Bem, eu estava pensando a respeito, logo gerando um efeito, portanto eu existia sim. A matéria não cria e não perde, transforma. Então aquela conversa de que o universo teve um início antes do qual nada existia, caiu por terra. Não nego a teoria (para mim um facto) da grande explosão, mas ela foi conseqüência de uma concentração brusca e intensa de matéria como nossas mentes limitadas não podem conceber. Não saiu do nada.

A maioria dos céticos simplesmente conclui que cometeu algum erro de cálculo e que deve confiar cegamente nos diplomas e na pompa dos acadêmicos. eu conclui ter cometido algum erro, mas nunca confiei na infalibilidade de um homem, ainda mais no jogo de poderes e vaidades que é a comunidade científica, bem mais machista e racista do que os leigos podem supor, como qualquer entidade que detenha um poder significativo.

Isto e um tsunami de outros factores frearam meu ceticismo, que se viu obrigado a olhar para si mesmo, contrariando o pouco orgulho que eu tinha. Porque ateísmo tem muito de orgulho, bem pouco de crença na inexistência, que não existe.

Desde então passei a não acreditar no que queria e não desacreditar no que não me convinha. A porta para a verdade estava não aberta, mas arrancada do portal e transformada em lenha para a lareira. Aos poucos as parcelas de verdade me vieram pelos meios mais estranhos, como Brida, de Paulo Coelho. A certa altura do livro, em que ela e a mestra estavam conversando, meus ouvidos zuniram com a reprimenda irlandesamente sutil da própria Brida: "Estamos falando de você, idiota!". Não foi um pensamento pura e simplesmente, ou não teria virado a cabeça para ver quem me xingou.

Nos anos que se seguiram eu li tudo o que me caía em mãos, a respeito. Antes eu simplesmente guardava para quem gostasse de superstições. Um dia me deparei com um artigo sobre Michel Gauquelin, muito bem escrito por Edil Carvalho, que me esclareceu muito. O que estudei mais tarde confirmou o que tinha lido na matéria. Mais do que isso, me provou que havia muito mais verdade nos contos de fada do que eu supunha. Provavelmente disfarçaram tudo na linguagem figurada para burlar a inquisição.

Embora por alguns séculos tenha havido uma separação até necessária, descobri que religião é uma área da ciência, não sua rival. Foram seiscentos e sessenta e seis anos de atraso, que teriam se arrastado até os dias de hoje se os papas tivessem tido a ciência biológica e matemática nas mãos. A propósito, para quem acha que houve injustiça na eleição de Ratzinger, eu digo que foi bem feito, está sendo um castigo para ele ter que moderar suas posições e sua língua, ainda mais por estar sendo obrigado a dialogar com outras religiões.

Mas quem abriu de facto as portas do mundo de verdade para mim, foi a Mestra Eddie. Ela tem o mérito de não se contradizer, como também de explicar a contento (não em excesso) o que ensina. Fora que ela tem uma visão de disciplina e méritos muito parecida com a minha, então nos bicamos bem. Ela me mostrou que fantasia é acreditar que o nada fez o tudo e o sugará de volta algum dia. Como se a natureza fosse burra para fazer algo com o único intuito de desfazer. Ela é a bela morena no retrato acima, à direita, mas é casada, parem de assanhamento.

Assim como conclui que o cérebro não armazena nada, não memoriza, não raciocina, enfim. Não tem estabilidade para guardar dados. Ele é uma ligação entre o corpo e o seu ocupante. Longe de ser um computador, é mais um conjugado de antena filtrante com roteador e moden. Mas isto é outra história. Ao contrário do que muitos vão pensar, eu não me transformei em um bicho-grilo que quer viver de amor em um mundo onde o trabalho físico é imperioso. Quem já leu meus textos sabe que não. Tenho os pés muito firmes no chão, como bom taurino com ascendente em virgem e Saturno ruleando no mapa astral. Meu pensamento ainda é cético. Como é possível meu pensamento ser e eu não? Da mesma forma como meus cabelos continuam crescendo e eu não. Tendo o pensamento cético, eu não caio nas garras de pastores e bispos que vendem milagres, óleos santos de Israel, saladete santa de Jericó ou viagra santo de Itu. Aliás, vocês têm idéia do quanto o sujeito precisa estudar, trabalhar e viver a vocação para se tornar bispo? Gente, não é conseguir popularidade, curar um ceguinho e angariar recursos no prazo de poucos anos. A maioria dos padres não consegue chegar a bispo, é uma questão seríssima de competência e afinidade com a vocação. Não um ou o outro, tem que ter a ambos e em grau elevado.

Tudo isso me levou a outra conclusão: Os teístas são os maiores fabricantes de ateus. Foi o que o Mestre disse por intermédio de seus "anjos" mais próximos, o maior inimigo do cristianismo não está fora da igreja, está nos bancos, bem próximo do altar, crente de que detém a verdade absoluta e inquestionável nas mãos. As bizarrices que enchem o Youtube são prato cheio para os ateus radicais. Enquanto os fiéis não tomarem tipo, tudo o que disserem soará como alucinação coletiva, ainda que o tumor realmente tenha se pirulitado do cérebro sem deixar marcas.

Médiuns não têm o desejo de serem especiais, salvo os corrompidos que vendem milagres e chamam de demônio qualquer espiritozinho mequetrefe que incomode alguém. Para começar, mais da metade da humanidade é reencarnacionista, logo quase toda a humanidade é teísta, então são os ateus que teriam esse desejo de serem especiais e chamar atenção.

Jamais tive distúrbios cerebrais e meus encephalogramas são um atestado de sanidade. Eu já vi uma salamandra saracoteando pelo rodapé do meu quarto, enquanto fazia a prece diária, que dura de cinqüenta minutos a uma hora. Posto que nenhum distúrbio deu as caras, ela realmente estava lá. Posto que minhas preces são sempre voltadas para o alto, era uma criatura boa e comprometida com as causas do Cristo.

Aos irmãos de caminho e outros religiosos em sintonia com minhas palavras, peço que respeitem os ateus. Lembrem-se do que Ele disse: Não sabem o que fazem. Eles realmente pensam que sabem tudo e que o que não estiver dentro das previsibilidades de que dispões, não existe nem tem o direito de existir. Não tentem demovê-los, da mesma forma como vocês não gostam que o façam consigo. É chato. Eu lembro bem da minha época de cético e afirmo: É chato pra lá de Bagdad. Vocês não vão conseguir dissuadir um cético nem que estejam realmente imbuídos de santidade, ninguém muda uma pessoa a não ser ela mesma. Insistindo, o tiro sai pela culatra, é bem melhor tê-los como amigos. Eles não rezam, então rezemos por eles, isso não interfere no livre arbítrio.

Aos reencarnacionistas, sugiro estudar a fundo a mitologia grega e um pouco de psicologia, vocês vão se surpreender com o aprendizado.
Se antes eu pensava que pensava, hoje sei que só rudimento. Aos que estão pensando que finjo ser a criatura mais humilde do mundo, vá cuidar de sua vida.

5 comentários:

Adriane disse...

Entre os crentes mais fundamentalistas que conheci, estavam ateus, Nanael. Queriam a todo custo me converter ao ateísmo.
Agora eu pergunto... um cristão/islâmico/israelita ("judeu") tem motivos sérios para querer converter o outro, pois ele acredita que o outro terá sofrimento eterno caso não creia. Mas e o ateu, que fundamento tem para querer converter alguém?

Nanael Soubaim disse...

É mais ou menos como o garoto que decobre a verdade sobre a cegonha, mas se recuasa a acreditar que os pais fizeram sexo, então inventa outra teoria maluca e implica com as crianças que acreditam nas outras.

Fio disse...

Nanael, meu filho... Discutiremos isso tudo em uma série de textos, aqui e no Demônios Internos.

Aí vem uma boa série de discussões filosóficas.

Abraços

Nanael Soubaim disse...

Sim, decerto que sim, mas antes preciso plantar mostarda. Só advirto que o que eu disse não encontrei em compêndios de psicologia, é fruto de minha observação e vivência.

Lótus disse...

Esses questionamentos tomam uma dimensão inesperada quando se chega em casa e se encontra uma criaturinha de 3 anos e poucos cantando "Deus é bom pra mim, Deus é bom pra mim", sem contudo que se saiba quem foi a criaturona que lhe ensinou isso... Não sou atéia, tampouco crente, o que me coloca em cima do muro de um modo perigoso... qualquer hora, desequilibro e caio. Diante do meu guri, preciso mesmo pensar melhor sobre a minha religiosidade.