sexta-feira, 19 de junho de 2009

Übermensch

Ele andava pela calçada da praça. Era uma tarde fria de inverno. As folhas caíam das árvores, criando um tapete amarelado.

Sento-se no banco. O livro que carregava embaixo do braço, "Assim Falou Zaratustra", pos a seu lado.

Olhava a triste paisagem à sua volta. O mundo que conhecera de garoto havia desaparecido. Agora, apenas jovens com roupas estranhas, que não brincavam, apenas olhavam um para o outro com um olhar choroso.

As moças, tão graciosas de seu tempo, já não tinham mais a mesma graça. Não andavam como antes. Não tinham mais aquela leveza. Não tinham mais sensualidade. Só a sexualidade transbordante. Não escondem mais seus corpos, brincando de seduzir. Mostram o que todos querem ver. Sem pudor.

Os empregos não pagam mais tanto quanto antigamente. Os empregos não são mais os mesmos. Não se passa 20 anos numa empresa. Hoje, quando se sai de uma empresa, se sente alívio. Não mais pesar por deixar os amigos e companheiros de tantos anos.

Não se agrega mais determinados valores às coisas. Não se vive mais, plenamente, como era antes. Ele é de uma época em que viver plenamente era saber que se vivia. Não usar de substâncias para esquecer que se vive, porque a realidade é muito dificil de aguentar.

Ele vem de uma época em que Deus não "está morto", como diria o filósofo de bigodes proeminentes.

Ele olha em volta, e sente uma lágrima escorrendo por seu rosto.

Mas um fogo se acende dentro dele, nesse momento.

É hora de mudar. De deixar o casulo. Ser o "homem novo" que o Cristo falou.

Ele olha para cima, e agradece aos céus por isso.

Vê um pequeno garoto chutando folhas. Lhe oferece o livro, e diz que é "apenas algo pra lembrar pro resto da vida". O garoto sorri, e vai embora, carregando o livro. Senta-se na sarjeta, e começa a ler.

Ele sorri.

Fecha os olhos, com coragem.

E a vida acaba.



Ou começa...

2 comentários:

Adriane disse...

Fio, como sempre, você me surpreende nesses teus textos-conto.
Inspirador!

Nanael Soubaim disse...

Estamos ficando velhos. Estas constactações eu tive na puberdade. E o dono da imagem não quis dividí-la... Egoistão!