sábado, 29 de novembro de 2008

Ana Maria

Ana Maria é uma funcionária pública exemplar, do tipo que salva a imagem do funcionalismo público. Estudou muito, se esforça ao máximo até nas tarefas mais triviais. Chega pouco antes do seu horário, mas nunca sai um segundo sequer antes do fim do seu expediente. É trouxa! Otária! Os colegas mais amaciados não a perdoam, embora sempre recorram aos seus préstimos, quando o desleixo compromete relatórios dos quais dependem seus vencimentos. Mas quando não precisam, é trouxa e otária, que trabalha pra dar voto ao prefeito, que odeia funcionário público e nunca ouviu sequer falar dela.

As colegas, porque amigas não são mesmo, deixam paletós nas cadeiras e vão ao salão, que marcaram para o horário mais vazio, o do expediente. Após o quê vão ver vitrines, querem aparecer bem nas phorographias da festa de fim de ano do sindicato. São todas saradas, freqüentam as mesmas academias que as esposas de políticos nos horários mais confortáveis, o do expediente; de andar ao sol e irem aos clubes, são coradas, com marquinhas de biquíni, as últimas gírias e fofocas na ponta da língua; a freqüência nos salões mantém seus cabelos bem pintados, uniformes e dentro da última moda da semana.

Ana Maria, coitada, é branca como a neve, tem os cabelos negros como a noite e os lábios rubros como o sangue. Feia, muito feia! Gente branca é feia! Ainda mais gente branca com curvas no corpo, total off, over, nem parece mana da peripheria. Ana Maria já sofreu perseguições atrozes do mesmo sindicato que alardeia a liberdade, a igualdade e a fraternidade; desde que os inimigos estejam devidamente escravizados, degredados e isolados. Pobre Aninha. Foi-se a época em que boa educação e senso de dever eram abonadores em um emprego. Pobre sim, mas nunca coitada. Acham que teria sido perseguida se não incomodasse? Greves de cunho puramente politiqueiro encontraram nela a única pedra dentro do sapato. Gastar cento e vinte mil reais para trazer artistas de fora, quando a escola não oferece nem mesmo um ramalhete para os formandos, alegando contenção de despesas? Enquanto o grupo de favoritos vadia, Ana Maria trabalha. Resultado? Alunos e servidores lhe osculam as mãos e pedem bênção. Não tem marquinhas de biquíni (o que numa nova-balzaquiana de quarenta e dois anos nem cai bem) e sua pele não tem as cores da moda, que o racismo anti ariano impõe goela abaixo de quem quer ser fashion. Não fossem as escovas, de vez em quando, os grampos escorregariam dos cabelos. Mas ser branco é muita feiura! Negros só como amigos, pois negro é pobre e pobre não pega bem; mas brancura é muita feiura, tem que se tostar ao sol e ficar loura-falsa-vulgar para arrasar na night. Mui modernos.

A última briga de Ana Maria foi quando queriam que parasse de atender aos funcionários da escola, para se dedicar somente aos alunos...

- Mas nem por cima do meu cadáver!

Há cousas que a fábula não deixou claro sobre a Branca de Neve, mas sua sósia demonstra com belicosa fúria quando precisa. Chamou todos os secretários e o director de frouxos. Sim, são um bando de frouxos, pois só a encaram juntando todos, mesmo assim balbuciando de medo. Afinal ela ousou enfrentar o todo poderoso Sindicartas Marcadas. Ousou não aceitar as investidas do presidente de tal nem baixar a cabeça para o reaccionarismo camuflado. pelo menos os bolsistas, todos sob sua tutela, são obrigados a merecer a aprovação no fim do ano.

Mas a mesma roda que leva um ponto ao pico, também o leva à lama que ela atravessa. Os disfuncionários do nãodicato fracassaram vergonhosamente nas últimas eleições. Um dos candidatos chegou à apelação mais pueril, achincalhando com a inteligência do eleitorado, mas não houve segundo turno para ele. Água, luz, telephone e ônibus totalmente de graça? Alberto Benett tinha que ter conhecido a figura.

As próximas eleições coincidirão com a de directoria. Ana Maria não quer saber desse cargo malfadado, mas adivinhem em quem os que ela protege e acolhe votarão? Os acomodados já estão acordando para isso e fazem de tudo para apagar sua imagem, mas miram nela com o cano apontado para suas testas vazias.

Ana Maria existe, Audrey foi a figura mais próxima de seu coração angelical que encontrei para ilustrar o texto, mas o nome e a esphera pública foram trocados para proteger sua sacra identidade. E se alguém tocar um dedo nela, mostrarei porque Hitler pediu minha cabeça, na encarnação passada.

6 comentários:

fabio_ disse...

Casos do funcionalismo público que me motivaram a saída. É assim mesmo, mas sem as partes boas...

Adriane disse...

E o pior é não atender aos padrões.
Eu, muitas vezes, prefiro me fingir de alienada...

Nanael Soubaim disse...

Nem sempre dá para fingir que não se sabe, é o caso da nossa amiga. Ela não é uma fuincionária, é uma missionária.

fabio_ disse...

Ah, Nanaelito, coisa que eu não nasci pra ser: missionário. Quero meu hype em dinheiro!

Luna disse...

Não conheço muitas Anas Marias. MAs também não conheço muitos funcionários relapsos. Onde eu trabalho, o povo realmente veste a camiseta.

Luna disse...

Meu pai é uma Ana Maria!