terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Dead Train in the rain CL

    Como se constrói um renegado. A estação 150 mostra como fazer uma criança desejar ir embora de casa, um entre vários métodos. Não façam isso! Embarquem, o trem vai partir.


Janie e Roger chegam a Sunshadow. Pela janela do avião vêem a cidade que é quase um jardim urbanizado. No miolo, a cidade velha, tombada como patrimônio histórico (...) Assim que descem à sala de desembarque, se vêem em uma babel, com vários idiomas vindos de todas as partes. Lá está o filho, usando apenas jeans, botas e uma camiseta retrô do Dead Train, mas está um pouco diferente. Aquela camiseta está bem mais recheada (...) Olham para o pescoço do rapaz e vêem uma espessura maior. O reencontro é marcado pela estranheza (...) lhe emprestaram um Coronet Sedan 1956 em dois tons de verde, que faz a mãe suspirar...

- Que carro lindo! É seu, Albert?

- Não, é de um vizinho. Aqui eles têm uma grande fartura de carros antigos, alguns do século XIX... Mas talvez eu precise arranjar alguma coisa sobre quatro rodas em breve. Eu ainda moro com agentes da polícia local, então vocês vão ficar na casa da avó da minha garota.

- Talvez a gente conheça um integrante do Dead Train, não?

- Você vai conhecer, pode ter certeza de que vai conhecer.

Passam pela cidade velha e o casal dispara com suas câmeras (...) vêem Nancy saindo para a fundação, é a primeira celebridade de reconhecem. Ela acena e o rapaz confirma, são seus pais. Mais alguns segundos e vêem a mítica Máquina de Costura, cuja arquitetura fez Janie sonhar até cair em si e ir morar em uma casa normal...

- Eu sonhei tanto com essa casa!

- Eu também, mas se lembra de quanto o arquiteto cobrou pelo projecto?

- É... Tem isso... A gente pode parar aqui e tirar umas photos?

- Quantas vocês quiserem, mas antes seria bom ajudar a levar a bagagem pra suíte.

Ele para o carro e deixa os pais confusos. Olham para a porta transparente e vêem a diva em um vestido verde profundo de alças largas e decote romântico. Ela abre a porta, se aproxima e seus corações disparam, atrás vêm Arthur, Renata, Matthew, Richard, Marcia e Phoebe...

- Bem-vindos, eu sou Patricia Petty. Janie e Roger, seu filho falou muito de vocês...

Eles se viram para o rapaz, boquiabertos...

- Claro que eu não iria contar para vocês! Com setecentos parentes em Oregon, vocês não iriam resistir em contar pra todo mundo antes da hora! Hey, eu conheço vocês! Agora vamos...

É o mesmo Albert casca grossa de sempre, só um pouco burilado (...) São levados para dentro pela diva, enquanto o Albert e Richard se encarregam da extensa bagagem. Richard olha para o pretenso genro, ele já tinha avisado que os pais gostam de impressionar, só que agora as coisas se inverteram...

- Então você quis dar uma lição neles?

- De humildade. Eles têm todas as virtudes do mundo, dizem que quase perderam a casa por se recusarem a sair um milímetro da lei, mas no tocante à humildade eles ainda são imaturos.

- Estou começando a gostar de você.

Assim que deixam tudo na suíte, descem e vão ter com o casal. Não obstante a presença das duas divas e lendas vivas do pop rock mundial, a meiguice e a educação refinada de Phoebe os fazem derreter (...) Ela se levanta para receber o namorado, o acolhe com uma delicadeza que engana com perfeição (...) Marcia aproveita que está um pouco ofuscada para estudar o casal, especialmente a mulher um pouco mais velha do que ela, sinal de que se casou muito cedo, naquela euforia sexual louca do último terço dos anos oitenta...

- Mrs. Withwort, me permita uma pergunta. Por que Albert saiu tão cedo de casa?

- Como? Desculpe... Ele sempre foi muito rebelde, muito dono de si, alistou-se com dezesseis anos e nunca mais morou com a gente... Você é a mãe de Phoebe?

- Yes, I am.

- Meu Deus, parece tão jovem! Desculpe, eu...

- Eu compreendo. Baby, sente-se com Albert aqui, neste pufe.

Uma pequena demonstração de autoridade materna que não passa despercebida por Renata. A moça sabe o que está fazendo. A garota senta-se exibindo seu famoso sorriso, ela mesma cuida de dar mais intimidade à visita, dizendo como o rapaz conquistou suas filhas e seu gato (...) Os faz ter um pouco mais de orgulho do rebento. Vão ao Buffet, preparado por eles mesmos, que estreará o casal na culinária goiana. Do alto, vigilante em seu território, Lady Spy estuda os dois intrusos (...) Ela desce majestosa a escada, indo para os braços de sua senhora e dando mais aristocracia à já impressionante figura de Patricia.

Estranham. Estranham muito, mas os acepipes caem rapidamente em seus gostos (...) Ainda estão tentando entender como entraram na Máquina de Costura e por que as duas divas estão conversando consigo (...) No fim da conversa, pedem que Albert os leve para conhecer a casa, começando pelo jardim...

- Albert, o que você está fazendo?

- Como você se meteu com gente tão rica e poderosa?

- Você tem certeza de que vai se casar com essa moça?

Phoebe ouve o interrogatório, eles não falam alto, mas não fazem questão de sussurrar. Fica indignada, eles falam como se a América tivesse um sistema de castas separadas por lei (...) vai contar aos outros e os choca (...) São interrompidos por um “Por que vocês têm medo de viver, porra?” (...) Phoebe salta do sofá e toma as rédeas da situação...

- Mr. And Mrs. Whitworth, está na hora de conversarmos sério; vocês, meu noivo, eu, minha mãe e minha avó, que são psicólogas. Está claro que o que temos aqui é uma relação muito mal resolvida de família, eu serei parte dela e é bom que esse ingresso se dê sem maiores desgastes. Pra dentro.

Todos reconhecem Patricia no comportamento da garota. Ela leva os três para a suíte, puxando Marcia e Renata pelas mãos. Só diz “Vocês sabem o que fazer” e desce. Albert (...) Não se poupa pelas malcriações que fez, mas também não aos pais pelas tentativas de castrar seu afã de viver à sua maneira. Phoebe pede desculpas aos demais, mas precisava realmente agir daquela forma (...) Na suíte, Marcia se reconhece um pouco no drama de Janie, que viu o filho cortar o cordão umbilical muito cedo (...) Ela cometeu o erro de tentar mimar um garoto que não queria saber de amenidades (...) O pai tentava levá-lo para os jogos de super bowl, mas o esporte dele envolvia rodas e motores (...) Aprendeu a dirigir no Volkswagen Type 3 Wagon 1969 do tio, sozinho. Não se dava com os colegas, ainda hoje é quase desconhecido das irmãs e ficava puto da vida quando ganhava roupa de presente (...) Se lembra com carinho do skate e da única bicicleta que teve (...) foi ele contra mais de setecentos parentes que queriam moldá-lo, inclusive ao temor da família em lidar com gente muito poderosa (...) Renata arremata por hoje...

- Vocês tentaram proteger, mas foram com tanta ânsia que o assustaram e ele se defendeu. Em resumo, foi isso. Quanto a esse medo de gente poderosa, por causa desse passado com gângsters, a gente vai ver o que faz, mas vocês hão de convir que se fôssemos ameaças à sua integridade, nós não estaríamos ajudando. Vamos descer?

Albert desce de alma lavada (...) Não foi difícil como pensava, talvez porque teve ajuda da provável sogra e da grandmother in law. Janie e Roger, mesmo um pouco envergonhados pelo papelão, estão bem, vão se recuperar. Aos que esperaram, Marcia pede que prossigam com a programação (...) Phoebe os observa de lado, querendo ver para crer na melhora. O constrangimento aumenta quando Patricia, Renata e Marcia amam as bomboniéres de vidro recheadas que mandaram fazer, as expectativas eram de desprezo civilizado.

&

À noite, na suíte, o casal se olha. Não se fala, mas não precisa (...) acordam juntos ao ouvirem um barulho discreto no jardim. Abrem porta da sacada e vêem o treinamento diário. A cena é impressionante. Patricia, Arthur, os Richards, Rebeca, Elizabeth, Prudence, Elias, Sandra, Albert e Phoebe praticando artes marciais pouco antes de o sol nascer. Se assustam quando treinam com armas (...) Ao fim, a guerreira implacável dos treinos volta a ser a moça meiga e carinhosa, voltando para casa com pai e namorado.

A excelente forma física em pessoas de idades avançadas começa a se explicar, mas alguns ainda desafiam sua compreensão, como Patricia. O histórico de traumas dela é tão extenso e intenso quanto notório (...) De repente se lembram que não mandaram notícias para casa. Ligam e avisam às filhas que suas amigas não têm absolutamente nenhuma chance (...) Ouvem os passos dos donos da casa e vão se arrumar. Hoje conhecerão a casa da provável nora e suas filhas, querem tirar a má impressão.

À mesa do desjejum é inevitável perguntar pelas actividades matinais. Patricia explica que pratica desde a adolescência (...) Janie toca no assunto Elias, de quem soube muita coisa pela imprensa, mas sabe que ela é tão confiável quanto o método uni-duni-te. Com tato, lhes é explicado o histórico do rapaz, que entre afagos da esposa monitora os negócios da família. Já têm oitenta filiais BYOP e quinze Sandra Cocada pelo Brasil. Pensa nos países vizinhos, mas a democracia está passando cada vez mais longe deles (...)Considera uma filial em Punta Del Este e outra em Montevidel, para começar. A dedicação já tornou os lucros maiores do que os investimentos no cronograma de expansão.

Sandra e Kurt encontram os outros no caminho para a universidade, desta vez acompanhados de Carly. Phoebe conta também com tato sobre os episódios de ontem (...)De longe um membro da sociedade ufológica monitora a líder da turma, com uma câmera de infravermelho. Chegam e se dividem quando Elias recebe uma ligação de Los Angeles, ele e vários sunshadowers. Os Teslas Model S com pack de 85kWh estão a caminho. O sonho realizado do carro eléctrico abre o sorriso do baixinho (...) ridicularizado por “engenheiros” de botequim que freqüentavam a casa onde morava.

Na Máquina de Costura, os visitantes conhecem o porão, o trenzinho que pensavam ser lenda urbana e as prototipadoras. Depois conhecem a casa de Renata, que se parece mais com casa de avó do que a futurista que os hospeda. Vão almoçar na caixinha de Música, quando Phoebe tem um intervalo nas actividades cotidianas (...) As meninas e Spark ficam curiosos com os visitantes. Lady Spy os impressionou pelo porte, mas aquele gato é um verdadeiro monstro (...) quase 60 libras de vigor e travessuras. Albert entre eles ajuda a sinalizar segurança, embora o distanciamento seja evidente.

O rapaz aproveita que conheceram as prototipadoras para mostrar o que Phoebe lhe fez...

- Uma hora e meia, não mais do que isso. Dentes de cerâmica que eu poderia implantar agora mesmo, se precisasse.

Não se furtam de abrir a boca do filho para comparar. Aquilo expandiu os limites que tinham com a ficção científica. No fundo da sala, brincando com um carrinho conversível cheio de bonecas, Rose e Serena começam a chamar a atenção dos visitantes. Se aproximam e se espantam com a linguagem...

- Tá grávida! Vai ter bebê!

- O médico tá esperando, põe no carro e vamos pra maternidade!

Os dois olham para Phoebe, ela responde “Eu também fui precoce”. Aponta para a estante o livro que as duas acabaram de ler, no original; Guerra e Paz. Eles voltam a olhar para ela e Marcia dispara a rir (...) Vão ao festim preparado com carinho pelos três, com as pequenas acompanhando e encarando os estranhos. Albert sofre um pouco para explicar que são seus pais, mas não mora com eles (...) o almoço transcorre como manda o figurino.

Todos voltam às suas actividades e os visitantes à Máquina de Costura, após uma passada na feira de pulgas. Concluem que deverão repensar alguns conceitos e preconceitos (...) Um pouco longe dali, Rebeca recebe Elizabeth e Prudence para sua contribuição com a novela que estão planejando...

- Basicamente o dinheiro é só um meio, e um meio incômodo. Quem se torna ditador, não precisa dele, não dentro de seu país. Ele pode simplesmente decidir se apossar de algo ou até mesmo alguém, e não vai encontrar resistência. O dinheiro é como uma ação ao portador, que dá ao cidadão liberdade para decidir no que trocar, e liberdade é tudo o que o ego de um tirano não admite, senão para ele mesmo. Darei três exemplos que eu já enfrentei, num deles quase precisei matar...

Tia Mascote repassa sua experiência às jovens e atentas escritoras, que vêem muitas crenças caírem por terra. Uma delas é que haveria motivações misteriosas e transcendentais para toda a sordidez que permeia as relações internacionais (...) Ao fim da aula de espantos, Rebeca pede que elas a acompanhem, quer entregar um presente para Elias e quer que ele não leve a mal, mas o achou não parecido com ele que decidiu comprá-lo...

- “Parecido comigo”?

Ele observa aquele minúsculo Goggomobil Coupé TS400 azul de teto branco. Olha para a encrenqueira...

- Ele é compacto, fofo, valente e só quem conhece sabe dar valor.

- Oh, claro...
As irmãs disparam a rir. A mãe já lhes contara a história da montadora, que foi incorporada pela BMW e assim a salvou da falência (...) Por contágio ele também ri, abraça a menos baixinha do que ele e chama a Enya para estrear o presente. Patricia aponta para a direita e ele estaciona (...) Se espreme no espaço do banco traseiro, praticamente feito só para crianças, e manda tocar o carro (...) ela comprime naquela cabine minúscula mais alegria do que caberia em um Cadillac.

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