sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Dead Train in the rain LXXVII

    A neurose nossa de cada dia. A estação 77 desenha a diferença entre o perigo real e o imaginário, que se parecem, mas não são gêmeos. Tenham discernimento e embarquem, o trem vai partir de verdade.


Os do contra torcem seus narizes e afirmam ser mais uma manobra imperialista do grande capital, para alienar a população e permitir a perpetuação da opressão capitalista americana na América Latina. Outros apenas que é uma invasão cultural em um mercado já saturado de intervenções estrangeiras. Alguns decidem faturar fazendo cover da banda, nas noites. Há movimentos para um boicote, mas a campanha “Minhas férias em Sunshadow” eclode em todo o território brasileiro, inclusive em rincões onde os ditos coronéis tinham proibido as obras da banda (...) Os fãs correm para os postos de inscrição, tudo organizado e executado por gente do escritório central, pois colegas de música (...) perderam prestígio pelo descaso com que os fãs foram tratados. Como a intenção é dar recados a políticos brasileiros, seus financiadores e seus capachos, os seis acharam por bem não fazer economias bobas e colocar gente da Dead Train Corporation fiscalizando tudo de perto.

A distribuição de pequenos brindes é farta e independente dos sorteios, a ficha de inscrição dá direito a concorrer a brindes maiores e até a cursos de inglês, que são os maiores polos de inscrição no país. Em um dia há mais de um milhão de inscritos (...) foi para isso que incluíram um computador para fazer o serviço de cadastro. A promoção gera muitos ciúmes, reacende muitos rancores que muita gente tem dos Estados Unidos, mas não há um só traço de irregularidade no contracto da promoção.

Os novos patrocinadores entraram de cabeça e os prêmios são generosos, desde milhares de brinquedos, mochilas escolares completas, cursos diversos, dezenas de bicicletas de vários modelos, passando por várias Lambrettas, instrumentos musicais, kits Dead Train, enxovais e eletrodomésticos para convencer as mães, viagens aéreas para vários destinos no país, dois Fuscas e um Opala, todos os veículos pintados nas cores da banda. Ganhar um dos prêmios não inabilita ao sorteio da viagem com acompanhante e todas as despesas pagas (...) Exagero? Não (...) eles estão conseguindo intimidar seus opositores. Até quem não gosta se inscreve, erra de propósito alguns itens para não ter que viajar aos Estados Unidos e aguarda.

A imprensa brasileira faz a festa, ainda em branco e preto (...) aumentando o efeito da campanha. As regras estão expostas em todos os postos e são claras, com uma linha para o departamento jurídico à disposição. Os patrocinadores fazem suas promoções paralelas (...) Gente famosa que sempre gostou de Dead Train, mesmo antes da promoção, pipoca nos programas de auditório e de entrevistas (...) mesmo que mal saiba seus apelidos. Salões de beleza lotam com mulheres que querem cortes e penteados iguais aos das moças da banda.

Monitorando pessoalmente, os seis estudam os dados enviados pela equipe no Brasil. A popularidade da banda cresceu muito, e cresce mais com a oposição declarada de quem os chama de agentes da opressão americana (...) As reclamações são poucas e rapidamente resolvidas. Um reclamão especial liga para o escritório central e a ligação é repassada para Josephine, é um senador que suou frio a ver a envergadura da campanha e ler o contracto de participação...

- Non, por que seria?

- Senhora De Lane, pode me chamar de neurótico, mas eu vi muitas passagens subliminares que se aplicariam ao congresso americano.

- Monsieur, o que vocês fizeram de errado, desta vez? A campanha é da banda, a organização não tem vínculo algum com ela. Por acaso tem algo a nos dizer?

- Não... Quer dizer... Podemos nos encontrar?

- Podemos. Fique aí, mandarei buscá-lo. Doom, você está livre? Preciso que busque o senador Brownie e o traga aqui em segurança – diz com o sotaque aflorado.

Tobby o leva com dois atiradores para a tal conversa (...) Convoca a cúpula da organização, incluindo Brain, Beyond e, para o pavor do senador, Princess. Os três põem as mãos nas testas, desolados, ao ouvirem do que se trata, estão furiosos. O senador reitera a todo momento que tiveram a melhor das intenções, sendo interrompido por Patrícia...

- Meus parabéns, senador. Suas boas intenções tornaram a guerra do Vietnã não só estúpida, mas também inútil.  Agora não importa o que façamos, a população vai ficar do lado dos comunistas! Milhares de garotos, que poderiam ser seus filhos foram mortos ou mutilados à toa. Antes que abram a votação, eu voto pela retirada das tropas, antes que os soviéticos fiquem muito inchados e comecem a alardear cada derrota nossa.

- Não! Talvez ainda haja um meio de garantirmos a vitória, preservar o nosso orgulho...

- Alguém no congresso sabe fazer uma lavagem cerebral em massa, em menos de uma semana, em um país que não tem meios próprios de comunicação em massa? Se não, todos os garotos que mandarmos para lá morrerão em vão. Agora veja se não piora tudo, não aumenta nossa vergonha e mantenha segredo desta reunião.

- Princess, você está bem?

- Estou. Perdi um ano de trabalho, mas estou. Podem acrescentar mais cinco anos à crise iminente, antes de 2020 não voltaremos ao nível de esperanças dos anos cinqüenta.

- Eu... Eu pretendia era abreviar a guerra, evitar o pior...

- Com intimidação? Senador, não se intimida quem está disposto a morrer e tem na morte em combate uma honra! Igual àqueles árabes que estamos treinando para combaterem os soviéticos... Será que me faço entender, ou preciso ser explícita?

- Eu arruinei tudo, não foi?

- Não, não tudo. Star, vamos conversar com aquele rapaz, o Lucas? A trilogia dele vai nos servir, embora ainda não haja tecnologia para a obra completa.

- Sim, vamos. Senador, não se preocupe, nós sempre temos dois planos alternativos. Apenas mantenha a boca fechada porque muita gente já quer a sua cabeça, só esperando por um pretexto. Hoje o senhor dorme aqui, suba e escolha uma suíte para passar a noite. Tobby, traga Anita, para tudo parecer mais autêntico. Quanto a você, Patrícia... Eu estou quase explodindo de orgulho! Você foi maravilhosa! Você impôs respeito, soube comedir o tom de voz, colocou o senador no lugar dele!

- Cara, eu devo parecer um monstro, quando estou furiosa!

- Non! Você fica linda como nunca! Tão linda que assusta!

- É a minha filha!

- Eu amo quando ela fica brava!

- Que horror...

Ela até ri um pouco, mas não fica menos irritada. Volta para a vida civil nos braços do pai e sob os mimos do marido (...) Encontram Nancy com Richard nos braços e os outros integrantes da banda, ela pergunta se já salvaram o mundo ou ainda há uma invasão visigoda para logo mais à noite...

- Ela salvou o mundo. Pena que vocês não possam saber da íntegra, mas o senador Brownie saiu com o rabinho entre as pernas – diz Richard.

- OHOOOOO! Patty, você tá ferrando congressistas agora?

- Não, Mascote, mas como eu gostaria! Ah, como eu gostaria! O lado bom, por assim dizer, é que ele soltou a bomba antes que explodisse, poderemos evitar o pior. O realmente bom é que a nossa campanha no Brasil foi o que o fez tremer nas bases, ele vestiu a carapuça. Isso significa que os pilantras de lá estão se borrando. Alguma novidade, enquanto estivemos fora?

Dão um relatório sucinto, tudo transcorre dentro do esperado (...) Gritando “Boicotem a promoção dos pelegos”, chamam atenção dos que ainda não se inscreveram (...) Quando ela se dá conta, Renata (...) fechou as cortinas da frente, Nancy a abraça e começa a desabotoar o terninho (...) deixando-a só de lingerie em um minuto, então é carregada por todo mundo para a piscina, onde a cara de mártir será desfeita.

&

Mikomi passeia com Robert na praça do trem morto (...) a cidade espera ansiosa pelo primeiro nissei de Sunshadow. A rua que circunda a praça foi fechada ao trânsito, agora os carros só chegam até a borda e voltam, uma providência para evitar que veículos pesados danifiquem as construções do local, algumas delas seculares. Perto dali, um paparazzo pretende fazer uma manobra arriscada (...) Coloca a câmera automática no suporte, liga o timer, respira fundo, dá a partida e acelera. A câmera começa a disparar conforme o programado, mas (...) ele perde o controle da velha Indian assim que atravessa um canteiro, se desespera e atinge o casal a toda velocidade. Robert, desesperado, tenta segurar Mikomi, mas com isso tem uma fratura exposta no braço e é jogado contra um banco do jardim, ela é arremessada contra outro banco, mas graças ao marido de forma potencialmente menos letal. O paparazzo mete a cabeça nua na frente rígida da 4-4-4-4 e morre na hora.

O desespero das pessoas (...) vira matéria para os paparazzi menos desavergonhados. Patrícia e Rebeca chegam correndo, pulando e se desvencilhando com a agilidade de boas caratecas que são. Pedem que o povo se afaste e vêem como estão os dois (...) As ambulâncias não tardam, mas os três correm risco real de óbito. Rebeca se faz de forte, acolhendo os pais até pararem de chorar, mas se recusa a olhar para o irmão em um leito de UTI. Josephine (...) é informada de que foi feita a cesariana de emergência, mas é pouco provável que a criança sobreviva. Patrícia deixa a diva cuidando de Robert e Norma, leva Rebeca para sua casa onde pode soltar o berreiro (...) Chora como nunca chorou na vida. Sente culpa por não ter protegido o irmão, como se pudesse tê-lo feito. Adormece envolvida pela amiga (...) Robert acorda uma semana depois, zonzo, sem saber onde está e o que faz lá...

- Miko? Miko! Rebby, onde está a Mikomi??

Ela derruba todos pela frente e invade a UTI...

- Bobby... Fique quieto, você está convalescente. A Miko já está fora de perigo.

- “Fora de perigo”?? A moto! O que aconteceu...

- Shhhh! Ela está bem, em outro quarto. Vocês dois vão ficar bem... Podem entrar, mas se assustarem ele vão se ver comigo!

Os enfermeiros entram, examinam o rapaz e chamam o médico. Ele já pode ir para um apartamento bem aparelhado, mas Mikomi ainda está sob efeito de sedativos pesados (...) Os outros chegam para a primeira visita do dia e têm a boa notícia, mas entram dois de cada vez. Norma e Robert quase se desmancham em lágrimas, abraçados ao filho. Pelo mundo as balzaquianas declaram guerra aos paparazzi, afirmam que ele não deveria ter morrido tão rápido e talvez sem dor. Querem ressuscitá-lo para poderem mata-lo com a devida calma.

Mais uma semana e ele pode se levantar, com o braço direito ainda engessado. Após muita insistência (...) é levado para ver a esposa. Ele chora. Tentou protegê-la, mas (...) só conseguiu se ferir mais. Os pais e a irmã o abraçam, ele nunca se sentiu tão frágil. Os aparelhos acusam uma alteração de quadro, uma enfermeira entra, confirma a melhoria e se apressa em dar a boa notícia...

- Amanhã eu volto, meu amor...

É levado um pouco menos triste para seu leito. Mais uma semana e ela é transferida para a CTI, mas Robert tem a amarga notícia da perda de seu filho, que já tinha registrado como Soishiro Spring. Enterram o bebê no mesmo dia (...) mas a vontade de Robert é de se jogar no túmulo com ele. Chuck providenciou camuflagens para os policiais poderem evitar novas tragédias assim, e para que a dor do irmãozinho não seja desrespeitada pelos abutres da imprensa. A praça foi cercada de robustas grades nas ruas de acesso (...) para prevenir novas estupidezes de aventureiros. Voltando para casa, são avisados de que Mikomi acordou e está desesperada. Alguém não soube dar a péssima notícia e não esperou que o marido a desse. Disparam para o hospital para acudirem a japonesa, que quer morrer com o filho. Vai mais de um mês até ela estar em condições físicas e psicológicas de voltar para casa. Zigfrida está lá à espera dos dois, os recebe com um abraço terno e um silêncio confortador (...) mas não vai agir sozinha, um Dead Train nunca está por sua conta. As visitas são diárias, Patrícia e Renata levam seus rebentos e suas irmãs para ajudar alegrar a casa. Zigfrida quer tirar da moça o medo de ter uma nova gravidez (...) Em um mês os resultados começam a aparecer, Mikomi já pega os bebês sem medo de derrubá-los (...) Patrícia é levada para um canto no jardim, enquanto eles se distraem com as crianças...

- O que houve?

- Elias nasceu.

- Quem é Elias?

- O neto do Quimbim. E foi tudo como ele temia... Temos aqui um pai que chorou sangue pela morte do filho que mal conheceu, lá há um que xinga aos berros que teria sido melhor o dele ter sido abortado!

- Como assim? O que o menino fez? Não é um recém-nascido?

- É, Frida. O mundo horroroso de que me falaram já começou.

&

Robert quer trabalhar (...) É feito o mesmo esquema de quando Patrícia era a convalescente, para ele poder se dedicar a Mikomi e acelerar sua recuperação. Aos poucos ela volta a cuidar do jardim, onde faz um altar para rezar pelo filho. Nisto Richard vê um mínimo de bem em uma religiosidade, não necessariamente na religião (...) A lojinha de variedades e presentes começa a fornecer os incensos e logo mais gente se interessa em deixar a casa perfumada.

Apesar de tudo, Robert fica apto em tempo hábil a receber os brasileiros que ganharem as férias. Os sorteios já começaram e muita gente já começou a ganhar as bicicletas, que têm rádios AM-FM integrados no guidão, com baterias e um dínamo de fábrica, para diferenciá-las. As cobiçadas Lambrettas Cynthia não demoram a serem sorteadas (...) A popularidade dos seis cresce, mas o retorno maior foi expor a fragilidade da política brasileira, que seus integrantes insistiam em alardear como dominadora suprema da população. Não conseguiram censurar a banda, não conseguiram punir Renata e agora terão que engolir uma turnê pelo Brasil. Não foi à toa que o senador Brownie acreditou que a Dead Train fosse um braço da organização (...) uma colabora com a outra, sutilmente, convergindo os interesses e, sendo Patrícia um membro da organização, ela ajuda a mantê-la.

Aos poucos a vida do jovem casal volta quase ao normal. Quase. A perda do filho e o motivo de terem-no perdido são cicatrizes que terão que levar pela vida (...) Para ajudar a curar, Rebeca e Zigfrida estão sempre por perto. Aliás...

- Frida, cê tá sozinha?

- Há anos! Não dou muita bola pra relacionamento, sou feliz sozinha.

- Nunca rolou?

- Uma vez, quase... Mas o bundão deu pra trás... É aquele caso que vocês conhecem. Chamei ele pra gente se casar em qualquer lugar, desde que aceitasse sair daquele vale de zumbis...

- Homem frouxo é um porre!

- Frouxo e apegado aos cadáveres que, se brincar, já viraram ossadas, todos eles.

- Esse cara é um boiola! Fosse eu, teria mandado todo mundo pra puta que pariu e te acompanhado pra qualquer lugar do mundo!

- Foi do que chamei ele! Nem assim o bundão reagiu!

- Ainda sente alguma coisa?

- Nojo! Cara, sem falsa modéstia! Eu sou bonita, boa de corpo, sou ruiva autêntica, boa de papo, não onero ninguém, o que mais o cara queria? Que eu contraísse a mesma doença e ficasse com ele bajulando retratos na parede? Ah, vá se foder... O Ron, por outro lado...

- Ainda pouco mais do que uma criança, encarou um assassino da própria filha e não arredou pé nem levando um tiro de raspão! Quando eu perguntei “Fica comigo?” ele ficou, quando eu disse “Mostra que é homem e vem mostrar p’raqueles babacas o que pensamos da moralzinha deles” ele veio! Foi o único cara da minha vida, mas acertei de primeira!

- Wow! Não tem outro onde encontrou esse?

- Difícil, cara! Muito difícil!

- Ora, ora, ora! Será que consegui uma paciente de pedigree?

Olham para trás, nem tinham percebido Renata se aproximar (...) Chama as duas para dentro, Mikomi fez bolinhos de arroz, que serão um bom pretexto para tocar no assunto. Ninguém tem nojo do que já não incomoda. Começa a tirar leite de pedra, sendo psicóloga de sua psicóloga.

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