domingo, 11 de novembro de 2018

Dead Train in the rain LXXXVI

    A imprensa tupiniquim. A estação 86 tem um tom mais ameno, mas também dores ainda não curadas. Embarquem com calma, o trem vai partir.

A primeira entrevista para a imprensa brasileira seria um tumulto, não fosse Matthew Tamasauskas. Ele precisa agir quase como em um internato(...) Tudo pronto, ele avisa e a banda pode descer. Patrícia está muito bem humorada, tem a mãe à frente de tudo, seu filho e seu marido na mesma suíte, as irmãs no mesmo hotel e uma missão muito mais agradável do que o normal. Bom humor que se reflete na banda inteira, exceto em Lucille, que pela primeira vez porá seu rostinho meigo na mira das câmeras; Julia toma nota dessa tristeza, mas não tira conclusões por enquanto. Todos posicionados, Matthew libera e eles começam na ordem estabelecida...
- Como a Renata Rodrigues reagiu à tentativa de ser expatriada?
- Não, eu mesma respondo. Foi horrível. Foi como se o chão sumisse. Talvez tivesse entrado em depressão se a Patty não tivesse um plano B na ponta da língua; ela sempre tem um.
- A promoção?
- Sim, também a promoção de dez anos do Dead Train.
Eles não perdoam pontos críticos e polêmicos (...) inimizades, as lendas, curiosidades sobre Sunshadow, a idéia de trazerem suas famílias, a relação com Jose De Lane, mas também falam das piadas de mau gosto com o nome de Mikomi; esmiúçam tudo o que podem no pouco tempo que têm. O último pergunta sobre Lucille, Ronald se adianta, acolhendo a irmã...
- Sim, é ela mesma. Ela está no coral porque tem capacidade para estar lá. Vocês verão no show.
Deixam Matthew cuidando das arestas, enquanto sobem de volta, Marina e Victoria meio tristonhas por não terem mais a companhia e ajuda da amiga (...) Vão à piscina, depois à sesta sagrada, para estarem inteiros na hora do show.
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Richard faz um sinal de positivo com a mão direita e encosta o indicador esquerdo na testa, como se lembrasse de algo. É o sinal para deixar Patrícia mais tranqüila, o rapaz que acompanhou os generais rebeldes já começou a receber o treinamento (...) Desce com os outros para o ônibus, o Morumbi já está enchendo de ghost drivers. O Mercedes-Benz entra no estádio e a banda desce diante dos fãs para o palco aberto, onde a visão de 360° dá uma experiência totalmente nova (...) O alívio do público fica por conta de não ter que ouvir coisas como “Boa noite, Brazil” saturado de sotaque de quem não sabe o que está dizendo, eles dominam bem o português e saúdam o público com naturalidade...
- Boa noite, gente! Obrigada por terem vindo, a nossa festa começa agora.
Começam com “Dead Train”, depois “Forgotten” e “Hug Now”, então têm um momento de interação com os fãs e continuam. Deborah os observa do camarim improvisado (...) se sente em casa com o tratamento que tem recebido dos brasileiros e adorou as pechinchas. No intervalo eles vão pelo gramado mesmo para o vestiário que normalmente fica lotado de marmanjos suados, um deles gritando e soltando palavrões para empurrar os outros. Comentam entre si que é um dos melhores públicos que já tiveram (...) Rebeca aproveita para amamentar, com a cunhada e o marido paparicando os pequenos. Marcia acorda um pouco, olha sonolenta para a mãe, abre um sorrisão enorme e volta a dormir. Sakura se pendura em Robert assim que ele se aproxima, está empolgada com a experiência. Karen quer saber que gente esquisita é aquela lá fora, arrancando uma gargalhada dos pais. Patrícia recebe os cuidados da equipe que a tia comanda, enquanto acolhe Richard. Nancy faz as gêmeas trabalharem, elas a ajudam a verificar todo mundo (...) Elas querem trabalhar nos bastidores, não querem? Então que comecem agora.
Voltam para a última parte do show com banda e fãs devidamente reabastecidos. Chamam dois para o palco, brincam e voltam a cantar (...) Amanhã cedo desembarcam no Rio de Janeiro, precisam descansar para os compromissos que têm na Cidade Maravilhosa.
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No avião mesmo assistem aos noticiários e lêem os jornais paulistas. A imprensa foi muito elogiosa (...) mas a atenção dada à Lucille a preocupa. Acompanhou Robert, como combinado, agora a imprensa a chama de “mulata madrinha da bateria com voz de diva do jazz”. Ela até gosta da idéia de uma carreira, mas não de ser comparada a símbolos sexuais (...) O piloto avisa que descerão no Galeão em alguns minutos e todos voltam para as poltronas, não necessariamente as que ocupavam na decolagem.
Um público que fala chiando os aguarda festivamente (...) Eles descem e são ovacionados, a crítica sobre o show em São Paulo os entusiasmou. Mas, Deus! Como faz calor aqui! A luminosidade é muito intensa, entram logo no ônibus, um Nielson Diplomata JO pintado nas cores da banda, antes que fiquem cegos com a exposição repentina; Não sem antes fazer a farra com os fãs, claro. Vão para o Copacabana Palace (...) O ônibus é seguido por dezenas de carros e motocicletas, que têm acréscimos assim que chegam à Avenida Atlântica. Lá está o mar, os banhistas se apressam para tentar tirar uma photo do ônibus passando, pois os músicos facilitam muito (...) Infelizmente não será desta vez que dividirão a areia com eles, estão viajando a trabalho.
O hotel os recebe como suas majestades, com pompa e circunstância. Alguns artistas brasileiros se preveniram e se hospedaram para enquanto estiverem na cidade. Sobem às suas suítes e se aboletam, pelas próximas horas querem um pouco de privacidade com suas famílias (...) Mas não se furtam de aparecer nas sacadas, quando sabem que há uma multidão à sua espera. Matthew até que gostaria de estar com eles, mas precisa esclarecer uma série de dúvidas da imprensa local, uma delas é o motivo de terem trazido tanta gente ao Brasil...
- Eu poderia dar mil motivos, afirmar que eles queriam aproveitar as belezas naturais do Brasil, mas a verdade é que nos demos conta de que somos pais de crianças pequenas, que não podem simplesmente ser deixadas por um mês ou dois. Nancy veio porque é ela quem manda e nós temos juízo suficiente para obedecer.
- A irmã do Ron, ela vai seguir carreira?
- O nome dela é Lucille. Sim, ela está sendo preparada para isso.
Não dura muito, mas é muito maçante. Ele volta para sua família e a encontra descendo com os outros para a piscina (...) O Dead Train todo relaxando à piscina é uma oportunidade ímpar. Uma actriz que tenta sair de uma saia justa por um flagrante extraconjugal, se aproxima de Renata e Matthew, que acabam de sair da piscina com a pequerrucha, é a esperteza que ela demonstrou na água o gancho para a abordagem...
- Que menina esperta!
- Tão esperta que nos fez trazê-la na turnê. Olá, sou Renata Rodrigues.
Estranha muito! É ela a mega star no ambiente (...) mas é uma das lições de humildade que aprendeu com gente realmente celebrável, como a princesa Grace de Mônaco...
- Prazer, eu sou Tânia Brandão.
- Eu sei, eu acompanho você pelas revistas, gosto do seu trabalho. Por que nunca fez algo fora do Brasil?
A surpresa da carioca é imensa! Ela quase pula de felicidade ao redor da piscina, mas usa de seus talentos cênicos para fingir estar apenas lisonjeada. Patrícia observa o episódio do outro lado da piscina (...) Rebeca se aproxima da amiga, ela responde preventivamente quem é e do que suspeita...
- Só isso mesmo?
- Olhe em volta. Mais da metade dos hóspedes é de artistas que se hospedaram quando souberam que viríamos para cá.
- Saco! Vou ficar de olho também.
Renata se sai bem. Tem certeza de que algum photógrapho escondido registrou as cenas (...) No decorrer da manhã todos são abordados, Ronald precisa conter os ímpetos da esposa. Mas dá dez horas e Nancy desce, Patrícia diz “Mommy!”, todos olham para a mesma direção e ela aponta para o relógio. Sabem o que significa e entram todos (...) Ela observou tudo da janela, memorizou tudo e ficou atenta aos movimentos mais sutis. O jogo de blusa branca e saia média marrom ajuda a construir a imagem de professora severa.
À tarde eles vão para uma coletiva televisionada, devidamente alimentados e descansados. O prazo desta vez é maior, mas Matthew não tem menos trabalho. As formas físicas invejáveis dos seis são o tema das primeiras perguntas (...) Falam da alimentação e da rotina de exercícios que têm, mas não falam sobre o caratê que Patrícia, Rebeca e Richard praticam antes do sol nascer (...) As perguntas sobre as crianças, Nancy e Lucille passam a rechear a coletiva, efeito colateral de uma turnê familiar (...) uma colunista cultural pergunta se não têm planos para cantar em outros idiomas...
- Já que dominam tão bem vários e uma de vocês é brasileira!
Eles se olham, começam a sorrir e fazem uma farra. Gostaram da idéia (...) Pelo menos três idiomas além do inglês estarão em um álbum a ser estudado, mas tratam de comunicar imediatamente Josephine, enquanto Matthew conversa com a moça que fez a feliz e inteligente sugestão.
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No começo era uma visita pretendida por Renata, ninguém precisaria acompanhá-la, além da pequena Marcia (...) Vão todos, a comitiva inteira à Federação Espírita. Nenhum médium extraordinário está presente, além da própria Renata, que não se considera assim. São recebidos pelos dirigentes e seguidos pela imprensa. Alguém ouve o disco espírita que eles gravaram (...) pequenas intervenções de Richard e sua memória prodigiosa acabam revelando que um ateu é um dos mais vastos e profundos conhecedores da doutrina no mundo...
- Então faz sentido essa história de “guru” da banda?
- Mais ou menos. Eles têm humildade para ouvir e meditar sobre a experiência que lhes repasso. Chamar um ateu de guru é como alisar uma onça e chamá-la de bichano.
- Que bom saber que essa onça está do nosso lado! O que nos diz da philosophia?
- Esta eu adoptei, gostei das partes sobre disciplina, educação dos filhos e honestidade. Ah, claro, me identifiquei com fazer o bem sem esperar por recompensas, sei que não tem nenhuma mesmo!
O tom foi descontraído (...) embora tenha sido sincero. Dão uma sopa para a equipe da federação, depois cada um perambula com um cicerone pelas dependências do prédio (...) Patrícia vai com a sua inteira para a directoria, onde fala reservadamente sobre Josephine com a presidência. As meninas distraem o sobrinho enquanto os adultos conversam sobre a diva, que no fundo é uma mulher frustrada pela maternidade que não pôde ter. Audrey cutuca a irmã ao ver seu nome em um dos panfletos, ela lê “Melinda Gonzáles” em voz alta e Patrícia interrompe o que dizia...
- Como, Audrey?
- É o que está escrito aqui. Tome...
- É aquela menina que você ajudou, não é? Na verdade ela é um anjo.
Permanece calada, apenas lê a curta mensagem que sua irmã postiça mandou. Começa a lacrimejar quando se lembra dos abraços que a menina retribuía com dificuldades, por causa das dores. Ela falava em andar de bicicleta e nadar no clube (...) mas falava com alegria, não com frustração. A moça se desmancha rapidamente e quando percebe já está chorando (...) Nancy pega o pequeno panfleto e lê com Richard: “Meus queridos, a dedicação à família é um expediente sagrado na seara da regeneração que vos foi confiada, de si mesmos e dos seus. Urge entretanto, que reavaliemos o que podemos considerar uma família. Lembrem-se do que disse o Mestre Jesus, na angústia física da crucificação, ao ver sua santa mãe Maria se debulhar em lágrimas pela dolorosa e lenta perda de seu filho amado. Não limiteis aos laços consangüíneos o amor que dedicais ao próximo. Eu, ainda encarnada para a expiação de faltas graves, conheci o amor incondicional que me foi dedicado por um espírito nobre que não tinha qualquer obrigação cármica para comigo. Uma pessoa rica e poderosa que se curvou ao auxílio de uma família humilde e em dificuldades, atenuando a dor e enchendo corações estranhos com o bálsamo da prática que ora vos aconselho. Sigam, bem amados, o exemplo dessa pessoa. Coloquem todos os seus semelhantes na esphera do que consideram sua família, porque todos o são. Façais isso por eles, pela humanidade, por si mesmos, porque o que fizeres aos indefesos é ao Mestre que estareis fazendo. Não vos custa uma palavra amiga, não vos custa uma hora ouvindo os lamentos de quem não tem a quem desabafar, não vos custa se colocardes na pele e no ponto de vista de vossos irmãos desafortunados. Oferecei vosso amparo no que vos for possível e buscai ajuda para o que exceder vossas forças, vos surpreendereis com a bondade da providência divina ao perceberdes que um amparo inesperado virá em vosso socorro. Eu não esperava, amados, mas o amparo veio, então posso vos repassar a experiência maravilhosa que me foi concedida. Lembrai sempre que o vosso irmão é todo aquele que estiver ao vosso alcance”.
Patrícia chora copiosamente abraçada às irmãs, até Renata aparecer com os outros e compreender os insights que recebeu durante a visita. Arthur lhe mostra o panfleto e ela sorri...
- Ela não era o único anjo naquele hospital, minha amiga.
- Patty, isso aqui é você – exclama Rebeca!
A líder é cercada pelos seus seguidores até que cessem os prantos. Melinda aproveita para matar saudades daquele abraço.
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Alguém da imprensa carioca tem acesso a uma cópia da mensagem de Melinda, é muito fácil ligar os pontos (...) a notícia de que um anjo recomendou a bondade e sabedoria de Patrícia Petty corre pela imprensa brasileira, chegando rapidamente aos fã-clubes do mundo inteiro e saindo do controle de seus autores (...) Josephine toma conhecimento e lhe providenciam um exemplar da mensagem...
- Ah, as coisas que essa menina voluntariosa arranja, Bart! Imagine como ela deve ser vista nas colônias!
- Ela deve ter um fã-clube por lá. Não duvido que faça shows entre eles, durante o sono.
- Eu temia que essa personalidade autoritária atrapalhasse o progresso da banda, mas ela soube dosar tudo. Veja só isso, pedidos de colaboração, parcerias, negócios e aparições. Eles construíram uma imagem excelente, nem precisariam mais se esforçar tanto!
Mas se esforçam (...) Voltam ao hotel para um descanso, têm um compromisso importante logo mais à noite e precisam estar descansados, haverá políticos no meio. Amanhã têm o show e voam na mesma noite para Brasília (...) Assim que chegam ao hotel, Nancy os recebe com seus pimpolhos, que rendem um festival de abraços e carícias. Os artistas que se hospedaram para aproveitar respingos de fama e prestígio até se comovem com sinceridade. Manobra, aliás, que tem dado bons resultados, todos já deram entrevistas para falar de suas impressões e dar notícias sobre os astros.
Vão tomar um bom banho e depois descem para almoçar. Rita e Lucille têm sido insistentemente comparadas às mulatas das escolas de samba. O tom é muito elogioso, mas elas se incomodam pelo teor sexual da comparação e dos comentários (...) principalmente a fidalga, que quer a todo custo evitar ser reconhecida pela plástica.

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