domingo, 21 de outubro de 2018

Dead Train in the rain LXV

   O avesso era o lado certo. A estação 65 conclui mais um ciclo e inicia o próximo, porque o fim de uma viagem é sempre o início da próxima. Não fiquem aí parados, há mais estações pela frente, o trem já vai partir.


Chega a primeira visita. Patrícia (...) consegue ajudar na cozinha, não sabe por que não acreditam quando diz que sabe cozinhar. O homem já bastante idoso, nascido nos idos da década de 1880, é (...) uma lenda viva em Rio Verde, como a americana já é na pop music mundial...

- Leila, óia quem chegou. Gregory, Patrícia, esse aqui é um parente nosso, Joaquim Teodoro, mas pode chamar de Seu Quimbim.

- Senta, toma um café. A Patrícia tá me ajudando no almoço de hoje! Acredita que essa moça fina tá cozinhando sem ajuda?

- Essa moça fina é capaz de mais coisa do que vocês imaginam, comadre.  A senhorinha me traz notícias da Renata?

Ela não poupa elogios (...) Diz que já marcou uma data provável para o casamento, a ser confirmada em breve. Paralelamente, precisa explicar ao marido o que estão conversando...

- Ele está entendendo, pode deixar que ele está entendendo nossa conversa.

- É assustador dizer isso, querida, mas eu estou entendendo vocês.

- Ele é brasileiro, daqui de Rio Verde. O pai dele fugiu com ele quando ainda mamava, quando a mãe pediu separação, mas morreu pouco tempo depois de entrar no seu país.

- Meu pai morreu quando eu tinha seis meses, mas minha mãe... Era morena e bem corada, então eu não poderia ser louro... Como o senhor sabe disso?

- Porque fui eu que fiz o seu parto. Você ainda tem a mancha na perna esquerda, não tem?

Ele puxa a perna da calça e lá está a mancha, no formato de um cofre porquinho. Patrícia faz novamente aquela cara, mas aquele homem é a primeira pessoa que não se intimida com ela...

- Eu também sou médium, minha filha. Vocês querem esclarecer tudo?

- Sim, queremos, “Seu Quimbim”, mas só depois do almoço, que está quase pronto. Depois conversaremos melhor.

Ele acata a sugestão de Patrícia. Após o almoço, e de terem lavado as louças, vão à igreja matriz. Encanta com sua arquitetura moderníssima, cercada de casinhas de adobe quase seculares, e de nativos vendo a já famosa bonitona do estrangeiro. Lá dentro o ancião conversa com o padre, que fica agitado e vai buscar o livro de batismos (...) “Arthur do Prado Ribeiro”, primo imediato de Renata. Consta a marca em forma de porquinho, em uma observação. Joaquim o faz tirar os sapatos e revela uma das marcas dos homens da família, os dedos dos pés um pouco levantados, também cita que cardiopatia é comum na família...

- Greg, you have a family!

- My mom? Who’s my mom?

- Com licença, padre... Tio Quimbim! Tio Daniel! A bênção...

- É ela – diz o ancião.

- Eu? O que eu fiz desta vez? Eu nem tava aqui!

A expressão não deixa negar a maternidade, se sente culpada por tudo, como o rapaz. Os três explicam cautelosamente que Arthur foi encontrado, apontam para ele e a igreja quase se torna uma piscina, de tanto choro que eles derramam, contagiando Patrícia (...) Em meia hora estão na casinha onde a mulher mora com o casal de meio-irmãos de Gregory, digo, Arthur. É viúva, vive da pensão que o segundo marido deixou e costura para fora. Os adolescentes, ao contrário da maioria, reconhecem Patrícia, que não furta dos jovens cunhados o direito à tietagem. Carolina só quer encher o filho com os beijos e abraços que não pôde dar todos esses anos (...) se dão conta de que eles, especialmente a nora, são celebridades internacionais. Patrícia explica resumidamente o histórico do marido, quase matando a sogra do coração (...). Ele é levado ao quarto de onde foi levado embora, ela chegou a cogitar suicídio, que Joaquim conseguiu impedir (...) Para Gregory fica uma confusão enorme por saber que sua vida foi uma mentira, mas para Arthur a felicidade de voltar aos braços da mãe é indescritível. Decide o que já se esperava dele, e que os Queixada esperam de um homem, vai sustentar a mãe. Para seus padrões o que ela ganha é uma miséria (...) Patrícia vai ao idoso e o cobre com um abraço de gratidão que nunca deu em alguém...

- Eu nunca vou poder agradecer por isso.

- Vai sim. Um dia você vai encontrar o meu neto e eu gostaria que desse um recado pra ele.

- Dou agora mesmo, se ele estiver na cidade.

- Ele ainda não reencarnou. Mas vai precisar muito das suas palavras, quando for adulto.

Ela estranha, mas consente. Anota o que ele quer transmitir ao neto, por saber que não estará vivo quando ele precisar de apoio. Não demora e a vizinhança aparece (...) lá está a bonitona do estrangeiro, agora é da família!

À noite ela liga para Sunshadow. A notícia é um choque, mas ela viu a documentação e a certidão de nascimento do marido (...) Pede que lhe mandem todas as photos que puderem reunir, até as do casamento, para Carolina (...) Ele é o único homem louro da família, como ela é a última loura verdadeira remanescente.

O restante da lua de mel transcorre sem mais surpresas, só com o doce ampliado das descobertas recentes (...) usufruindo das delícias do casamento, enquanto estreita laços com a família de Arthur e Renata. Uma caixa de photographias chega (...) causando mais choradeira. Com as photos, revistas e jornais americanos que passaram a focar o rapaz, quando souberam do namoro. Ele espera que um milhão de Cruzeiros baste para a mãe passar o mês com dignidade...

- Meu filho! Isso dá pra comprar um carro! É dinheiro demais!

Agora ele fica triste (...) Não admira que os móveis estejam envelhecidos e a casa pedindo reformas. Não se deixa levar pelo espanto dela, vai ser esse valor em dólar, mensalmente.

&

Ele caiu direitinho na armadilha. Viu uma loura mel de relance, pela janela do Seat e disparou (...) era uma turista americana que teria sido morta, se Conrad não tivesse sido alvejado por gente de Richard, infiltrada na polícia grega. Ligam para Sunshadow, avisam que se houver mesmo vida após a morte, ele está lascado.

Richard pede que os Street Warriors fiquem até que terminem seus serviços, para terem recursos por um bom tempo, sem precisarem ficar à mercê da bondade alheia. Também providencia uma rede de apoio com colaboradores pelo país (...) Paralelamente, providencia as mudanças de documentação do genro, que para ele e Nancy sempre será o Greg.

Quando retornam a festividade é triplicada, com Renata se dando o direito de maiores intimidades com o primo. Novos documentos são entregues (...) Não foi difícil pegar o fio da meada e resolver um enigma que encurralou Josephine, pois sem pistas estava investigando para o lado errado.

A volta ao lar é um misto de saudosismo e surpresa com a novidade (...) entram na casa como se fosse pela primeira vez. Os aromas são familiares, mas parecem inéditos, como os sons, cores e texturas. Lá do fundo da cozinha, duas pequerruchas correm para sua irmã (...) No ano seguinte Patrícia e Arthur estão em sua casa na cidade nova, mas na mesma rua e com apenas uma praça entre as quadras (...) No ano seguinte é a vez de Renata e Matthew. São então as duas senhoras da banda, mas o fascínio que causam no público masculino não tem jeito, continua acontecendo.

Voltam de um show em Des Moines, onde a alta concentração de brancos tornou as figuras de Ronald, Rita e Renata ainda mais destacadas; da parte de alguns, para baixo, mas Iowa não deixou de tietar os três por causa desses alguns. O racismo americano, ao contrário do brasileiro, é explícito, então sabem que foram bem recebidos porque são bem quistos (...) Chegam a Sunshadow de trem, como os músicos auxiliares voltaram para Detroit, apreciando a paisagem e dando carinho aos fãs. Patrícia tem a grata surpresa de encontrar mãe e sogra em sua casa, quando volta...

- Mommy... Dona Carolina!

Ela consegue abraçar as duas, mas só sacoleja a mãe, que está acostumada. A mulher ainda está assustada, nunca tinha saído da região de Rio Verde, sequer ido até então a Goiânia, e de uma só vez decolou para os Estados Unidos com os filhos. Arthur pagou um ano de inglês intensivo para eles (...) Justino e Ana Clara estão eléctricos de entusiasmo com o mundo novo, inclusive com a televisão que mostra imagens em cores, com uma penca de canais...

- Nós terminamos a primeira parte de uma turnê, sogrinha. Por duas semanas só vou trabalhar com os assuntos burocráticos da banda.

- A Patty é uma executiva, mamãe. Ela e os outros são seus próprios empresários, têm compromissos diários com os negócios.

- Vocês não descansam?

- Descansamos, mas só depois do trabalho feito, como agora. Vocês duas já fofocaram tudo ou ainda tem notícias sobrando pra mim?

Conversam amenidades, enquanto Arthur mostra a pequena cidade aos irmãos. Faz questão de que conheçam a fundação para as crianças (...) Mostra a casa onde a esposa morou até se casar, aproveitando para trocar idéias com o sogro e lhe apresentar os garotos. Vão para (...) a praça do trem morto, onde ainda repousa, já bem melhor conservada, a imensa 4-4-4-4 (...) Passam pelos outros integrantes da banda, que estão indo conversar com sua líder sobre a agenda, como combinaram durante a viagem...

- Eu nunca vou deixar de te chamar de Greg, Greg – diz Rebeca.

- É o seu apelido oficial, Greg – diz Renata.

- Agora a gente vai, Greg – continua Robert.

- Até mais tarde, Greg – agora é Enzo.

- Leve eles para tomarem um chocolate no Mr. Brook, Greg – arremata Ronald.

Os debochados vão andando e rindo (...) O encurtamento das saias tem causado polêmicas, mas elas não são exactamente uma novidade. Só ganharam notoriedade com Mary Quant (...) As moças da banda não se furtaram o direito de deixar as pernas livres, Rebeca não se furtou o direito de acertar o nariz do primeiro que veio censurar. Elas e Patrícia têm minissaias e minivestidos curtíssimos no limite, mas estes só usam em casa (...) Com barras tão altas, aprenderam melhor a se portar e a arte de sentar sem deixar aparecer (...) têm modelagem e tecido para a barra não subir a cada passo.

A casa de arquitetura arrojada e cheia de vidros recebe as visitas, as cortinas totalmente recolhidas deixam a sala de estar completamente à vista (...) O jardim bem cuidado honra o sobrenome da dona da casa, que apresenta à sogra os quatro que ela ainda não conhece pessoalmente (...) Josephine quer conhecê-la também.

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