quarta-feira, 13 de março de 2019

Dead Train in the rain CLXXXV

    A CIA manda recado. A estação 185 mostra que a agência dá conta de quase todos os tipos de monstros, mas alguns cada um precisa enfrentar sozinho. Todos à bordo, o trem vai partir.

Maracanã cheio, mas longe do limite. De longe a imprensa vê aquele Paradiso 1800LD pintado nas cores da banda (...) e já começa a tagarelar. Os fãs vão ao delírio com os vinte e quatro acenando e atiçando às janelas. Lá dentro a equipe os espera para o início do trabalho. Eddie coordena o aquecimento e alongamento muscular, então passam para a preparação vocal. Os músicos de apoio sobem ao palco e começam a entreter o público. Os cariocas sobem e se assustam com aquele público, estão vivendo um sonho (...) Lá dentro o sexteto se concentra, pausa bem a respiração, se dá as mãos e vai à entrada do palco. Rita toma a palavra...
- Gente boa do Rio, afine o gogó, aqueça as pernas e se prepare! Vem aí o Dead Train!
É o apocalipse. Os ghost drivers abreviam a vida útil dos remendos e a festa começa. O som cristalino (...) reflete o tradicional e inflexível padrão de qualidade dos amigos de Sunshadow. Os músicos convidados ganham não só a experiência, como a simpatia de um fã que tem na sua designação quase um gentílico.
Voam de manhã bem cedo para Curitiba. Vêem pelos jornais o estrondo que conseguiram, com um elogio em especial pelo prestígio dado a uma banda local (...) Claro, os comentários abaixo da linha ventral também estão lá (...) Dão uma olhada nos livros que ganharam, enquanto voam. Phoebe e Renata reconhecem elementos espirituais legítimos em alguns deles, foram escritos por quem sabia o que estava fazendo...
- Vou falar com a Glee a respeito desta bruxa.
- Nós vamos. Pode ser uma aliada para nos ajudar a salvar o mundo.
- Já estou ligando pra ela... Glee, mamãe que saber que monte de malucos são esses, que você conheceu pela internet... Esse tal Renato e essa outra Eddie... Desembucha!
Patrícia vai até o casalzinho, quer ouvir da boca dela a resposta, olhando naqueles olhos azuis como piscinas naturais...
- Amor da madrinha, está tudo bem? Mesmo?
- Tô, madrinha. Chorei um pouco no ombro do Tota, na volta, mas foi por causa da situação deles.
- É só isso?
- É. Eu já deixei um pouco para eles se virarem até eu mandar a primeira mesada, quem nem o meu pai faz pros dele.
- Ele vai amar ouvir isso!
Anunciam a “curitissagem”, arrancando sonoras gargalhadas (...) o estrondo equivale a um terremoto assim que Patrícia se mostra. Enquanto isso, em Sunshadow, Arthur vai com o filho ver como funciona exactamente a Culture Train. Glenda praticamente comanda tudo, ela está em todos os lugares ao mesmo tempo (...) Ele fica atento aos detalhes, os procedimentos, os métodos, os problemas e as soluções que encontram...
- Quer saber? Eu tenho um trabalho para vocês. É um trabalho grande!
- Que tipo de trabalho?
- Hollywood, meu filho. Contractem mais gente, vocês vão aliviar a pressão que eu sofro naqueles estúdios... Bart, meu filho vai me salvar de novo, acompanhe a coversa...
Ele explica o que tem em mente (...) Amilton pega o smarthphone da filha e fala com Eddie, ela acha a idéia maravilhosa (...) A sinesteta, tampando a visão periférica direita, para não ter enjôo com um cartaz em letras coloridas e customizadas, conta à irmã (...) Patrícia liga para o filho, avisa que eles têm sinal verde para começar a investir, depois liga para Josephine, que liga para Arthur e vai logo em seguida para os estúdios, avisar que Arthur encontrou uma solução para equilibrar seu trabalho no cinema com a vida doméstica. Os estúdios ligam para a Culture Train, Arthur ainda está lá e confirma, pede que mandem os técnicos para avaliarem como a cooperação poderá se dar.
É em clima de festa que a banda vai vistoriar o local do show, e conhecer os doidos que aceitaram o convite. Carly se sente em casa, com aquela quantidade de vintagistas pelo caminho (...) Klauss vê aqui um bom meio de agradar a amada (...) O Busscar Jumbuss também pintado de verde e preto, entra no estádio enquanto os integrantes saúdam o público. Lá estão os convidados, vestidos a caráter. Carly desce em um vestido de saia ampla, azul marinho com cinta e gola brancas, esta bem ampla e desabotoada. O chapéu côco branco com rosas de seda, completa o deslumbre para aqueles curitibanos. Patrícia de calças rancheiro vermelhas e camisa branca de gola careca, com ramos de flores subindo ao redor dos botões e formando um colar. Eles vão ao delírio.
Por agora é apenas uma confraternização, enquanto eles vistoriam tudo. Testam a acústica, pedem alguns vasos com plantas em pontos específicos, testam de novo e aprovam. Um colaborador faz o sinal, Rebeca corresponde e pede licença...
- Outras agências vieram com vocês?
- Várias, incluindo a CIA.
- Há uma conspiração para matar o embaixador americano, no próximo encontro que tiver com a presidente. Este pendrive tem tudo o que conseguimos até agora.
- Quando foi isso?
- Descobrimos há três dias, quando recebi uma mensagem de celular por engano. Fomos ver e confirmamos.
- Tem gente grande da política brasileira aqui! Por que fariam isso?
- Ainda não sabemos, mas com certeza tem a ver com a guerra ideológica que o país vive. Isto aqui tornou-se um inferno, Barbarian! Opinião virou crime!
- Bom trabalho, Caju... Patty, temos um problema aqui.
Vão as quatro. O assunto é grave, convocam os agentes da ABIN e da CIA que os acompanham e pensavam estar incógnitos. Mostram provas tão contundentes quanto inúteis para o congresso nacional (...) mas o caso aqui é espionagem e preservação da relação bilateral (...) A máquina gigantesca e implacável da agência americana de inteligência consegue rastrear todos os envolvidos. Terão uma conversa com os líderes, na próxima reunião que tiverem em uma fazenda grilada, perto de Belém. Por “conversa” leia-se “suas vidas não valem nada para seu povo, que dirá para nós. Estamos de olho em vocês”. Deixarão claro (...) o quanto é fácil tudo parecer um acidente.
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No final do ensaio, quando estão todos rindo e as bandas convidadas vêem que eles são mais humanos do que imaginavam, Klauss aparece de camisa rancheiro bege, uma gravata borboleta azul escuro, corte militar, calças sociais pretas e sapatos envernizados. Carly arregala os olhos, dá um sorriso pelo lado esquerdo da boca e nem se vê caminhando em passos de pluma até ele...
- Achei que iria gostar.
- Você sabe convencer uma mulher!
- Você me convenceu a largar a Alemanha, eu tinha que fazer por merecer.
- Avisa as pistoleiras que você já tem dona! E dona brava!
Ao som de cantarolas de “É casamento!”, eles se beijam. Os pais da moça são avisados, se olham, se abraçam e choram. Nancy tem trabalho para convencê-los de que ele é que vai mudar de país, não ela. Estão viajando a trabalho (...) mas um creme doce de frutas altamente calóricas não fará mal.
A noite seguinte é a despedida do Brasil (...) Patrícia dá início ao show. Eles repassam suas experiências e técnicas aos brasileiros do melhor modo, na prática. Chamar fãs ao palco para envolver o público, é um dos expedientes preferidos, todos se sentem representados pelos felizardos. É a melhor parte do trabalho para os dezoito.
Quando voltam ao hotel, tão exaustos quanto felizes, mais de cem quilos de chocolate artesanal os esperam (...) Patrícia puxa o freio e confisca tudo. Só comerão aquilo quando puserem os pés em solo americano (...) Em Sunshadow eles podem se esbaldar, mas terão uma preocupação quando chegarem. Elias começa a sentir dores abdominais, elas irradiam para o tórax, se estendem ao dorso, tomam a cabeça de uma vez e logo está se contorcendo com dores fortes generalizadas. Chega desmaiado ao hospital, com a esposa quase em prantos. Os exames de imagens complexas conseguem identificar e quantificar a crise...
- Descobrimos finalmente o que ele tem! Não sabemos o que é, mas já sabemos como combater.
- Por favor, doutor, faça algo logo!
- Estamos fazendo, ele vai ficar bem. Essa crise revelou exactamente como essas dores agem e, desculpe dizer isso, mas é uma contribuição e tanto para a medicina!
- Onde está ele?
Nancy e Richard chegam apressados (...) O homem baixo de membros ligeiramente mais curtos do que o proporcional está sedado. O sono induzido o poupa da tortura electroquímica, enquanto as enzimas trabalham. Na manhã seguinte (...) São recebidos com calor, sim, mas Patrícia conhece aquela gente desde que nasceu, aquelas caras não são as festivas de sempre. Sandra nem entra no carro, corre como louca ao hospital, desviando e saltando para não perder tempo. Só vêem um vulto violeta e branco passando pelos corredores, e uma loura enfurecida surgir dele, exigindo o paradeiro do pai. Se esquece de tudo ao vê-lo inconsciente. Se ajoelha ao leito, segura aquela mão pequena e chora. Ele já suportou dores tão intensas (...) que não imagina o monstro que foi capaz de derrubá-lo.
Os outros chegam em seguida, com Patrícia exigindo satisfações do próprio Criador. O ex-agente da MI6 que o socorreu, se limita a dizer “A dor que o derrubou teria matado qualquer um de nós” (...) Josephine desembarca no fim da manhã, entra sem se anunciar e ninguém se põe em seu caminho. Encontra Sandra ao lado dele, se recusando a sair de lá enquanto não houver uma melhora mínima e consistente. É médica, saberá quando acontecer...
- É meu pai!
- A dor dele vai curar muitas. Ele vai acordar e não vai mais sofrer.
- Eu quero meu pai!
- Queria que uma fração dos filhos fosse como você. Vou te acompanhar até ele reagir.
- Obrigada...
Ele começa a respirar normalmente no início da noite, com as enzimas sintéticas já em pleno funcionamento e os agentes neuropatogênicos neutralizados. Acorda lentamente, tentando se situar, se lembrando aos poucos do que aconteceu e da agonia que tomou conta de tudo. Pensou que fosse morrer. Olha para o lado, vê a filha e se indigna, pronto para dar sopapos...
- Quem te fez chorar?
- Pai...
Ela abraça aquele corpo tão geneticamente diferente do seu, que um alienígena diria que são espécies distintas. A diva afaga os cabelos recém-cortados...
- Sua missão kármica aparentemente já está completa. De agora em diante vai ser mais fácil.
- “Fácil”? O que é esse tal de “fácil”?
- Pai... Meu pai... Fiquei com medo!
- Vaso ruim não quebra, meu amor. Não vou embora tão cedo!
- Elias!
Patrícia chega com Enya. Com o marido finalmente se recuperando se deixa chorar, enquanto os médicos agradecem Deus e Darwin por ele ter sido forte o bastante para suportar vivo aquelas dores dilacerantes (...) Alguns sites sensacionalistas já têm prontinhas as homenagens póstumas (...) mas o vêem sair vivo do hospital. Amparado por esposa e filhos, mas hígio e com os melhores prognósticos...
- Merda... Tive tanto trabalho pra traduzir esse português de loucos, com essas expressões regionais estúrdias, e ele sai vivo? Porra, é sacanagem!
- Fala baixo, senão é capaz de um míssil explodir a redação, idiota!
Robert Richard não tem noção do que aconteceu, sabe que o pai sofreu e chora no colo dele (...) Sandra e Kurt assumem os negócios até Patrícia o liberar para trabalhar. Ele recebeu bem a história dos pais biológicos da filha (...) mas também se irritou com a canalhice dos filhos ingratos.

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