quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Dead Train in the rain XXXV

   Ah, a imprensa livre! Ah, os segredos pessoais! Ah, o mundo alienado! A estação 35 tira a poeira que escondia o que há sob o verniz, que precisa ser todo trocado. Tapem seus narizes e embarquem, o trem vai partir.


A imprensa madruga (...) esperando por alguma polêmica sangrenta e lucrativa. Ainda não sabem que Jose De Lane está lá dentro, e que fará o necessário para que não saibam. Um Chevrolet 1962 da polícia permanece no local. Os policiais conheceram os seis (...) ficaram chocados com o ocorrido. Longe dali, uma roda macabra de apostas faz um ranking de qual integrante da banda vai morrer primeiro, até o raiar de 1970, sempre tendendo para “o negro” e “a chicana”.

Às cinco horas Patrícia desperta, vai ao lavabo, põe algo apropriado e desce (...) à academia do hotel, onde encontra outra pessoa de malha preta folgada...

- Olá, bom dia.

- Dormiu bem, chérie?

- Jose?

O sorriso da garota se alastra. Josephine tira o lenço da cabeça e ela corre para o abraço. Precisa muito dessa atenção maternal, abraça forte e finalmente consegue relaxar. A francesa (...) já colocou gente para investigar tudo, mas infelizmente não pode desfazer uma lavagem cerebral coletiva, que parece ser o caso daqueles fanáticos. Terminam a sessão e se despedem por enquanto, Josephine acha melhor não serem vistas juntas, para manter a discrição.

Vão ao local do show com escolta, Josephine e David em um dos carros, disfarçados. Em Sunshadow e Summerfields, a tranqüilidade deu o ar da graça, após os garotos ligarem a quem deveriam (...) Os mesmos estudantes de ontem fizeram uma parada, antes de irem ao colégio, para verem como eles estão. Os acenos são rápidos, os dois grupos têm compromissos para cumprir.

Os seis se concentram no ensaio, em conhecer as dimensões do palco, ver de onde a onde ficará o público, ajudar a regular a iluminação, testar o áudio e experimentar tudo (...) a equipe encontra dezesseis câmeras escondidas em vários pontos, inclusive nos sanitários do camarim. Deixarão para contar a eles na manhã seguinte (...) Voltam ao hotel a tempo de almoçarem e tirarem a sesta. Tudo correu a contento, sem mais agressões ou protestos, não que os envolvidos não quisessem, mas o aparato de segurança os intimidou.

Os adultos respiram um pouco, enquanto os garotos descansam (...) Vendo-os dormindo, Richard e Robert até conseguem se lembrar de quando eram crianças pequenas, porque Patrícia um dia foi pequena.

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As garotas vestem as batas sobre camisas finas. Patrícia de preto, Renata de azul e Rebeca de vermelho. Encontram os garotos e descem, os seis decididos a dar um recado claro aos seus opositores. Eles usam terninhos carecas pretos.

Em Summerfields, Silvia ouve o noticiário em vez da novela, para saber de qualquer novidade que espera não acontecer. Queria estar lá, perto dele, protegendo dos perigos e mantendo as oportunistas longe. Laura chega e pede novidades.

A ida ao estádio é cercada de segurança, eles sabem que talvez nunca mais possam contar com a liberdade de antes. Mesmo assim estão dispostos a frustrar os mal intencionados (...) Combinam dentro do ônibus cada passo, para quando subirem ao palco, e Renata aproveita um dos poucos momentos que tem tido para namorar. Ela não sabe a dos canastrões, mas a vida de artista de verdade tem se mostrado dura.

Entram no estádio debaixo de ovação, com as carinhas pregadas nos vidros do ônibus e seus sorrisos escancarados. Lá dentro, um dos organizadores dá uma boa notícia sobre aqueles garotos que foram ao hotel...

- Tem uma faixa enorme na plateia, escrito “The Dead Train Fan Club of Detroit”.

Fazem a festa. Vão ao camarim, onde Josephine pode tirar o lenço e o chapéu e quase matar o pessoal de apoio do coração. A diva de milhões, a musa de gerações está lá, entre eles, meros mortais, que temem serem calcinados por seu brilho estrelar. Ela é taxativa ao se referir aos garotos, dizendo “Longe de Sunshadow, eles são meus filhos”.

Vão à entrada do palco, fazendo exercícios de respiração, de mãos dadas, aguardar o anúncio. Fazem questão de pontualidade.(...) São anunciados alguns segundos antes da hora, eles entram e o show começa, com direito a fã no palco, músicas pedidas na hora, humor e gente querendo saber onde elas compraram aquelas batinhas (...) Amanhã cedo voam para Saint Paul.

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Torna-se comum a imprensa perguntar a Matthew, durante a turnê, o que os garotos estão fazendo, e ele responder “Fazendo a lição de casa”. Ele tem um certo trabalho para explicar que eles não saem de Sunshadow sem levar um calhamaço de leitura e exercícios, (...) Isso chega aos ouvidos dos pais dos fãs...

- Vocês estão ouvindo? Já que querem imitar esses garotos – diz a mãe – imitem isso também! Vamos, podem começar pelas tarefas de hoje.

Patrícia (...) confirma. O repórter ainda questiona se não é muito trabalho para um resultado que talvez não venha fazer diferença, no que ela responde “Acha caro estudar? Acha que é muito trabalho? Asseguro que é mais compensador do que a perspectiva de depender de empregos de quinta categoria”. Isso também chega aos ouvidos dos pais, que também viram fãs e passam a ver com maus olhos os agressores.

Voltam a Sunshadow para descansar e entregar seus trabalhos escolares. Josephine os acompanha, quer falar com Laura pessoalmente (...) Os protestos de fã são bem aceitos e manifestados até o fim, então a actriz expõe o que tem a dizer. Laura confessa que sabe das ligações subterrâneas da mãe, porque ela tentou lhe repassar sua cota, como a avó já tinha feito...

- Isso é preocupante, Laura. Você saber de tudo isso e não fazer parte, te torna um potencial bode expiatório dessa gente.

- Eu não sabia que você também era detetive!

- Há muitas coisas a meu respeito que o público desconhece (...) Eu serei sincera, no começo gostei muito de saber que Enzo estava namorando, mas agora estou vendo que isso é muito perigoso para os dois. Infelizmente de um lado, mas felizmente do outro, porque eu gostei de sua filha, eles namorarem ou não já se tornou irrelevante para este caso. Os dois já estão marcados. Por isso é melhor eles continuarem juntos, mas teremos que arcar com precauções, que incluem o máximo de discrição possível.

- Eu estou incluída nessas precauções?

- Está. Foi lindo o modo como você construiu uma fantasia de história de vida para Silvia, isso com certeza contribuiu para o caráter dela, mas um dia ela terá que saber a verdade, porque os “amigos” de sua mãe já aprontaram por aqui e acabarão por querer aprontar de novo.

- Sorry?

- A organização à qual sua mãe é ligada, é a responsável pela morte da avó de Patrícia. Eles estão com Richard entalado na garganta até hoje.

Conta brevemente a história da interferência do hoje agente em prol do amigo, pai de Ronald, com o desfecho trágico. Não revela detalhes, mas é precisa e pede que mantenha contacto com Richard, Nancy e Patrícia o máximo que puder. Por último, aconselha se mudarem para Sunshadow (...) vão ver os dois pombinhos, na casa do próprio Enzo. Os seis foram para lá, para dar-lhes privacidade, inclusive Patrícia, que lança sobre a diva o mesmo olhar que fez o pai tremer nas bases. Ela a chama, dá um abraço longo e, entre afagos, diz que um dia poderão lhe contar tudo, mas por hora seria acrescentar tensão desnecessária à sua cabecinha já tão ocupada com estudos e trabalho...

- “Um dia” quando?

- Não sei, chérie. Eu espero que seja em breve.

Voltam ao casal, e a francesa anuncia que as duas estão procurando por uma casa na cidade (...) Além dela, só meia dúzia mais sabe que não sofreu um acidente, que aquilo foi um atentado por ter defendido artistas negros em público. Saiu estéril do episódio.

Longe dali, as investigações sobre o atentado começam a ser concluídas, em sigilo, pois vários figurões da política têm muito apreço e conveniência pelos envolvidos. Pensam em ligar para a diva, avaliam melhor e ligam para Richard, avisando que sua participação como expositor e fornecedor da prova de arrancada foi confirmada, e que o problema do óleo sujo está quase resolvido...

- Têm certeza?

- Temos. Já encontramos os ingredientes estragados, só que tem muita gente grande que insiste em vendê-los como bons e necessários.

- Ok, deixe que desses os nossos técnicos cuidam. Obrigado.

Transmitirá o recado cifrado (...) Está ciente dos riscos que a filha corre, mas não deixa de sentir um orgulho imenso pelo raciocínio afinado que ela tem. Chega e vê todos bem humorados, como se a situação tensa em que o mundo se encontra, fosse apenas um pesadelo da noite passada.

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